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Thursday, 19 January 2023

O caso Tony Anatrella. Perguntas para meditar...

Pe. Tony Anatrella

Há vários anos, em 2005, saiu um documento de Roma a explicar que pessoas com tendências homossexuais “profundamente radicadas” não devem ser aceites como candidatos para a ordenação sacerdotal. Causou alguma polémica, mas dentro da Igreja penso que muitos viram-no como uma medida necessária para acabar com uma certa subcultura gay entre o clero, sobretudo na Europa Ocidental, que estava a causar grandes problemas.

Em 2016 a instrução foi reafirmada num novo documento. Lembro-me que na altura falei com responsáveis dos seminários de Lisboa que defenderam o documento e que até já estavam, anteriormente, a rejeitar candidatos com atracções homossexuais.

Ao mesmo tempo iam-se conhecendo histórias de homens já ordenados que, sendo homossexuais, não deixavam por isso de ser bons padres, nem levavam vidas devassas, abraçando o celibato.

Julgo que, no fundo, cabia, e cabe, aos formadores nos seminários ajuizar bem entre aqueles que são capazes de controlar os seus impulsos sexuais – seja qual for a orientação – e os que se deixam controlar por eles. Mas isso é tema para outro texto.

A razão deste texto é que há alguns anos surgiram indicações de que um dos padres que contribuiu de forma mais importante para as orientações de 2005 era suspeito de ter abusado de jovens do mesmo sexo, ainda por cima utilizando para o efeito a sua prática clínica de psiquiatra.

Esta semana essas suspeitas foram confirmadas pela decisão de afastar o Pe. Tony Anatrella, que agora tem 81 anos, de qualquer ministério sacerdotal, remetendo-o para uma vida de oração e penitência. Uma revelação como estas leva-nos obviamente a questionar muita coisa e torna-se difícil defender um documento sobre um assunto desta natureza que tenha tido mão de um homem assim.

Cada vez mais, à medida que vão surgindo estes casos, teremos de nos questionar se os pecados dos homens envolvidos, ainda que sejam pecados desta gravidade (e notem que não estamos a falar apenas de homossexualidade, ou sequer de ephebofilia – a atracção por jovens rapazes pós-pubescentes – mas de aproveitamento de uma posição de confiança e de autoridade para manipular e abusar de pessoas vulneráveis) põem em causa todo o resto da sua obra de vida.

É certo que ninguém é a soma dos seus pecados, e isso inclui pedófilos e abusadores, mas haverá pecados que são tão graves que mancham por associação o resto do que fazemos? Uma boa homilia, um bom retiro que nos ajuda, uma obra social levada a cabo, deixam de ter valor porque descobrimos mais tarde que o padre envolvido afinal tinha uma vida escondida? Lembro-me bem do choque que senti quando vi as primeiras revelações sobre Jean Vanier, que sinceramente considerava um santo.

No caso do Pe. Rupnik, de que falei recentemente, as suas obras de arte – que são sem dúvida muito belas – devem ser retiradas das igrejas porque descobrimos os requintes de malvadez dos abusos que ele praticava sobre freiras que supostamente deveria estar a dirigir espiritualmente?

E agora, no caso do Pe. Anatrella, o documento sobre o acesso ao sacerdócio, que com certeza não foi obra de apenas um homem, deve ser totalmente descartado porque descobrimos que nem ele estava em linha com o que estava a recomendar?

Lembram-se do caso McCarrick? Ele foi o principal autor e promotor da Carta de Dallas, que tem revolucionado a forma como a Igreja americana lida com a questão dos abusos sexuais. No entanto, veio-se a descobrir coisas do pior sobre ele também. Devemos descartar a Carta de Dallas?

Eu não tenho as respostas para estas perguntas. Tenho algumas ideias, mas não são bandeiras pelas quais estou disposto a lutar ainda. Acho é que devemos todos – nós que levamos a Igreja a sério e a amamos – pensar a fundo sobre estas questões porque a verdade é que nenhum de nós está a salvo de descobrir que aquele que tanto nos inspirou no passado, ou mesmo agora, afinal tinha telhados de vidro.

Thursday, 10 November 2022

Hospital de Campanha Episódio 13 - Pe. Tiago Fonseca

Para este episódio convidámos o Pe. Tiago Fonseca que nos fala da sua vocação, de como é ser padre numa altura em que tanto se fala dos pecados e dos crimes cometidos pelo clero, do perigo da solidão entre os sacerdotes e como se pode combater e termina com um apelo às famílias para apoiarem os padres, convidarem-nos para jantar ou, idealmente, para ir ver o Benfica.

Foi uma excelente e animada conversa e ainda por cima o som não nos pregou partidas desta vez, portanto aproveitem e partilhem!


Wednesday, 18 December 2013

A Alegria do Evangelho - Os Liberais

Repito aqui o que disse em relação aos “conservadores”. O rótulo “liberal” é vago e é obviamente uma caricatura, que abarca muitos géneros diferentes.

No entanto, apesar de os liberais gostarem de pensar que têm este Papa no bolso, há muitas áreas em que ele os vai desiludir, como fica claro ao longo deste documento.

Isto só serve para nos recordar que nem tudo encaixa nos nossos esquemas. O Papa não é “nosso” nem “deles”, é de todos.

O sacerdócio reservado aos homens, como sinal de Cristo Esposo que Se entrega na Eucaristia, é uma questão que não se põe em discussão, mas pode tornar-se particularmente controversa se se identifica demasiado a potestade sacramental com o poder. (...) O sacerdócio ministerial é um dos meios que Jesus utiliza ao serviço do seu povo, mas a grande dignidade vem do Baptismo, que é acessível a todos. (#104)
Às vezes fico com a ideia de que o Papa bem pode repetir isto as vezes que quiser, que há pessoas para quem estas palavras simplesmente não entram. Eu nem digo que deviam abandonar as suas ideias, apenas que deixem de acreditar que Francisco concorda com elas. “Não se põe em discussão”. Parece-me bastante claro.

A diversidade deve ser sempre conciliada com a ajuda do Espírito Santo; só Ele pode suscitar a diversidade, a pluralidade, a multiplicidade e, ao mesmo tempo, realizar a unidade. Ao invés, quando somos nós que pretendemos a diversidade e nos fechamos em nossos particularismos, em nossos exclusivismos, provocamos a divisão; e, por outro lado, quando somos nós que queremos construir a unidade com os nossos planos humanos, acabamos por impor a uniformidade, a homologação. Isto não ajuda a missão da Igreja. (#131)
Incluí esta passagem também no texto sobre os “conservadores” e penso que se aplica a ambos os lados da barricada, pelo que me limito a repetir aqui a minha reflexão:

Esta passagem é muito importante para os nossos dias, quando os novos meios de comunicação tornam cada vez mais fácil encontrar quem pensa como nós e assim formarmos grupinhos e grupetas, cuja legitimidade reivindicamos em nome da diversidade.

Por outro lado, não deixa de ter piada ver a ala mais liberal a exigir o fim sem tréguas de tudo o que é movimento e grupo mais conservador, contrariando precisamente essa diversidade que, supostamente, tanto prezam.

O Papa dá aqui uma resposta que desarma ambos esses excessos. A diversidade e a unidade não são incompatíveis… Desde que verdadeiramente inspirados pelo Espírito Santo. E essa confirmação vem-nos pela oração, antes de mais, mas vê-se também nos frutos. De resto o Espírito Santo não é monopólio nem de conservadores nem de liberais, mas serve os propósitos de Deus, sempre.

Desejo afirmar, com mágoa, que a pior discriminação que sofrem os pobres é a falta de cuidado espiritual. A imensa maioria dos pobres possui uma especial abertura à fé; tem necessidade de Deus e não podemos deixar de lhe oferecer a sua amizade, a sua bênção, a sua Palavra, a celebração dos Sacramentos e a proposta dum caminho de crescimento e amadurecimento na fé. A opção preferencial pelos pobres deve traduzir-se, principalmente, numa solicitude religiosa privilegiada e prioritária. (#200)
Estas palavras são dirigidas directamente para aquelas pessoas, e não são poucas, que começaram a acreditar que havia uma incompatibilidade entre a evangelização e a justiça social. Essa crença fez pessimamente à Igreja nas últimas décadas, legando-nos uma classe de religiosos que acredita que a sua missão é apenas e só melhorar condições de vida, abrir clínicas e fazer campanhas.

Não nos enganemos. Essas coisas são todas fundamentais, mas não são nem podem ser fins em si mesmas. A nossa principal missão enquanto baptizados é levar Cristo ao mundo. Como? Nalguns casos a celebrar missas, nalguns casos a constituir família, nalguns casos a ensinar catequese, nalguns casos a abrir escolas e sim, nalguns casos, a cuidar dos mais pobres de entre os pobres e a acolher os moribundos.

Há um mundo de diferença entre o trabalho que fazia Madre Teresa de Calcutá e o que fazem as freiras radicais americanas que andam há anos a desafiar abertamente a autoridade dos bispos e os ensinamentos da Igreja, apesar de todas poderem dizer que estão a ajudar os pobres e os fracos. Mas essas freiras americanas são apenas uma face mais visível de um problema que afecta toda a Igreja em todo o mundo, incluindo em Portugal.

Acredito que a principal questão aqui é que quando começamos a tentar acabar com os problemas do mundo, mas deixando Jesus em casa, como se Ele fosse um obstáculo – isto quando não O reinventamos como um activista político revolucionário – leva-nos facilmente a acreditar que a solução para os problemas do mundo está em nós, na nossa dedicação e na nossa força.

Essa perda de humildade é o primeiro passo da queda. É um mal terrível e que urge combater a todo o custo. Ajudar sim, ajudar quem mais precisa, ajudar aqueles que metem nojo aos nossos irmãos, claro! Mas sempre com Cristo a guiar-nos o caminho e levando Cristo, que é o verdadeiro tesouro, a todos.

Entre estes seres frágeis, de que a Igreja quer cuidar com predilecção, estão também os nascituros, os mais inermes e inocentes de todos, a quem hoje se quer negar a dignidade humana para poder fazer deles o que apetece, tirando-lhes a vida e promovendo legislações para que ninguém o possa impedir. Muitas vezes, para ridiculizar jocosamente a defesa que a Igreja faz da vida dos nascituros, procura-se apresentar a sua posição como ideológica, obscurantista e conservadora; e no entanto esta defesa da vida nascente está intimamente ligada à defesa de qualquer direito humano. (...) Se cai esta convicção, não restam fundamentos sólidos e permanentes para a defesa dos direitos humanos. (#213)

E precisamente porque é uma questão que mexe com a coerência interna da nossa mensagem sobre o valor da pessoa humana, não se deve esperar que a Igreja altere a sua posição sobre esta questão. A propósito, quero ser completamente honesto. Este não é um assunto sujeito a supostas reformas ou «modernizações». Não é opção progressista pretender resolver os problemas, eliminando uma vida humana. (#214)
Palavras para todos aqueles que esfregaram as mãos de contentes quando o Papa disse, numa entrevista, que a Igreja às vezes parecia estar obcecada com questões fracturantes.

Não. Este não é o Papa que se vai render ao mundo na questão do aborto. Este não é o Papa que vai abandonar a luta pelos mas fracos de entre os fracos.

Porquê? Primeiro, porque ao contrário do que alguns querem dar a entender, o Papa é católico e segundo porque ele mostra entender que esse desrespeito pela vida dos nascituros é a pedra angular de todos os desrespeitos por todas as formas de vida que infestam actualmente a nossa sociedade.

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Wednesday, 8 May 2013

O Papa Francisco e os “Ungidos de Deus”

Padre Bevil Bramwell, OMI
Acontece tanta coisa durante um ano litúrgico que muitos eventos importantes passam sem sequer darmos por eles. Um acontecimento bastante importante – ao qual quase ninguém deu importância na altura – foi quando o Papa Francisco falou especificamente ao clero, mesmo antes da Páscoa, sobre o sacerdócio, durante a sua homilia na missa crismal, em São Pedro. Vale a pena olhar de perto para as suas palavras.

Na missa crismal o bispo benze os óleos que serão usados durante o ano para os baptismos, crismas, unção dos doentes e ordenações. A graça desses sacramentos preserva e ajuda a desenvolver a Igreja pela qual ele é responsável.

Em Roma, o Papa Francisco disse: “As Leituras e o Salmo falam-nos dos «Ungidos»: o Servo de Javé referido por Isaías, o rei David e Jesus nosso Senhor. Nos três, aparece um dado comum: a unção recebida destina-se ao povo fiel de Deus, de quem são servidores; a sua unção «é para» os pobres, os presos, os oprimidos”.

Ele não disse que era para os “católicos pobres”, etc. Há muito que a Igreja atende a, e defende, os pobres e oprimidos de qualquer comunidade em que está presente.

A expressão usada pelo Papa recorda as palavras amargas usadas pelo último imperador pagão de Roma, Juliano, o Apóstata: “Enquanto os sacerdotes pagãos ignoram os pobres, os odiosos galileus [i.e., cristãos] dedicam-se a obras de caridade e, ao exibir esta falsa compaixão estabeleceram e efectivaram os seus erros perigosos. Esta prática é comum entre eles e conduz ao desprezo pelos nossos deuses”. (Epístola aos sumos sacerdotes pagãos)

Claro que os “Deuses” de Juliano não existiam. E numa cultura que os promovia, actos de verdadeira caridade mostravam até que ponto esses “deuses” eram de facto nada mais que imaginação. Não devemos encarar isto com leveza, tendo em conta que os dois falsos deuses, criados da imaginação moderna – o nazismo e o marxismo – assassinaram dezenas de milhões de pessoas no século XX e a contagem do extremismo liberal em assuntos como o aborto na nossa própria sociedade é grande e continua a crescer.

O Papa estabelece uma ligação entre a unção e os actos dos ungidos, os padres. Originalmente: “Também no peitoral [do sacerdote] estavam gravados os nomes das doze tribos de Israel (cf. Ex 28, 21). Isto significa que o sacerdote celebra levando sobre os ombros o povo que lhe está confiado e tendo os seus nomes gravados no coração. Quando envergamos a nossa casula humilde pode fazer-nos bem sentir sobre os ombros e no coração o peso e o rosto do nosso povo fiel, dos nossos santos e dos nossos mártires, que são tantos neste tempo”.

Psicológica e espiritualmente, estamos perante um homem de natureza diferente. Este padre que conscientemente “carrega” o seu povo quando se aproxima do altar do Senhor. A graça e o esforço moldaram a sua consciência para agir dessa forma. O padroeiro dos padres, São João Vianney, considerava-se responsável pelas falhas morais do seu povo.


Francisco usa repetidamente o termo “seu povo”. O padre não é um director executivo, mas o pastor do seu rebanho. O termo, retirado das escrituras, ainda tem peso. Não foi substituído por alternativas seculares e modernas.

Mais, o pastor tem um efeito sobre o seu rebanho:

“O bom sacerdote reconhece-se pelo modo como é ungido o seu povo; temos aqui uma prova clara. Nota-se quando o nosso povo é ungido com óleo da alegria; por exemplo, quando sai da Missa com o rosto de quem recebeu uma boa notícia. O nosso povo gosta do Evangelho quando é pregado com unção, quando o Evangelho que pregamos chega ao seu dia a dia, quando escorre como o óleo de Aarão até às bordas da realidade, quando ilumina as situações extremas, ‘as periferias’ onde o povo fiel está mais exposto à invasão daqueles que querem saquear a sua fé. “

Não estamos perante a boa nova da homilia de “duas piadas e um anúncio”, mas da verdadeira Boa Nova, com maiúsculas. Além disso, o Papa faz esta afirmação sabendo por experiência que a fé genuína é recebida com hostilidade.

A sua reflexão termina com um olhar sobre a paróquia:

“As pessoas agradecem-nos porque sentem que rezámos a partir das realidades da sua vida de todos os dias, as suas penas e alegrias, as suas angústias e esperanças. E, quando sentem que, através de nós, lhes chega o perfume do Ungido, de Cristo, animam-se a confiar-nos tudo o que elas querem que chegue ao Senhor: ‘Reze por mim, padre, porque tenho este problema’, ‘abençoe-me, padre’, ‘reze para mim’… Estas confidências são o sinal de que a unção chegou à orla do manto, porque é transformada em súplica – súplica do Povo de Deus.”

A visão que o Papa tem de uma verdadeira paróquia é sumamente interpessoal e verdadeiramente comunal (a “comunidade”, infelizmente é um conceito que foi esvaziado de verdadeiro sentido nos Estados Unidos). Ele enfatizou o aspecto interpessoal de forma negativa também, falando do padre que “não colocando em jogo a pele e o próprio coração, não recebem aquele agradecimento carinhoso que nasce do coração”.

Este é um Papa que tem uma forma bastante terra-a-terra, mas solidamente teológica, de comunicar a fé. E ainda agora começou.


(Publicado pela primeira vez no Domingo, 5 de Maio 2013 em The Catholic Thing)

Bevil Brawwell é sacerdote dos Oblatos de Maria Imaculada e professor de Teologia na Catholic Distance University. Recebeu um doutoramento de Boston College e trabalha no campo da Eclesiologia.

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