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Wednesday, 22 September 2021

A Falácia das Escolas

Um dos aspetos mais marcantes dos atuais debates na nossa sociedade – tenham eles a ver com religião, política ou qualquer outro assunto – é a abundância de falácias lógicas. Fazia bem a todos um curso de introdução à lógica, com particular atenção a ser dada aos capítulos sobre falácias formais e informais.

Uma das maiores das falácias informais, parece-me, é aquilo a que chamo a “falácia da escola”. Este surge cada vez que alguém assume que “educação” e “escolaridade” são exatamente ou aproximadamente sinónimos.

Imaginem um círculo (ou façam como eu quando ainda dava aulas e desenham-no num quadro). Esse círculo representa toda a educação de um jovem. Depois imaginem uma fatia desse círculo, correspondente a 25% do total. Essa fatia, ou uma fatia um pouco maior ou menor, representa a porção da educação desse jovem que é fornecida pela escola.

A educação de um jovem rapaz ou rapariga é muito maior do que a escolaridade. A educação geral de uma criança inclui muito mais do que a instrução que lhe é dada pelos seus professores. Inclui a educação (que pode ser deseducação) fornecida por pais e outros parentes, amigos e colegas, treinadores desportivos, padres, rabinos e imames, televisão e filmes, música popular, jogos de computador, livros, celebridades, pornografia, e por aí fora.

Deve-se ainda referir que o impacto da educação dentro das escolas não vem apenas dos professores, mas também dos pares. Alguns desses pares reforçam aquilo que os professores tentam ensinar. Outros minam esses esforços dos professores. Em muitas escolas, sobretudo aqueles que se situam em grandes centros urbanos, os segundos são em muito maior número que os primeiros.

De todos os educadores não-escolares, os mais influentes são, pelo menos na primeira dezena de anos de vida, os pais. Na adolescência esse lugar tende a ser ocupado pelos pares. Ao todo, nos anos entre o nascimento e o fim do liceu, os professores não serão mais do que a terceira maior influência educativa, se tanto.

É preciso distinguir aqui entre dois tipos diferentes de educação: 1) cognitiva ou informativa e 2) moral ou afetiva. Quando os professores são bons, são bons a fornecer o primeiro tipo. Pais e colegas, independentemente de serem bons ou maus, são muito eficientes a fornecer o segundo.

E dos dois o segundo é muito mais importante, em muitos respeitos, para o indivíduo. Pode chegar a adulto sem saber, por exemplo, o Presidente que antecedeu Lincoln, ou sem compreender o teorema de Pitágoras, ou o nome da mãe do Hamlet, ou que rio atravessa Budapeste. Isto é uma infelicidade. Pode levar a que algumas pessoas mais bem-informadas lhe olhem de cima. Pode até afetar a sua carreira profissional.

A caminho da escola, com a principal educadora

Mas se crescer sem aprender e internalizar certas regras de boa conduta – por exemplo abster-se de roubo, drogas, abuso de álcool, fumar, violação, violência doméstica, má educação, adultério, ser um “espertalhão” a lidar com os polícias, e por aí fora – então poderá acabar divorciado, desempregado ou o centro de atenções numa funerária. Isto sem se quer falar do destino da sua alma.

A instrução informativa é importante, mas as lições que aprendemos sobre o bem e o mal, o comportamento prudente e imprudente, são muito mais. E estas lições em moralidade (ou imoralidade) apenas podem ser dadas por pessoas com quem temos relações íntimas e emocionais, como pais e outros parentes e amigos próximos.

As crianças raramente, ou nunca, têm esta relação íntima com os seus professores. Por isso é vão esperar – como muita da propaganda educacional afirma – que os professores possam fornecer às crianças uma educação moral. Se um miúdo não tiver uma boa educação moral em casa nos primeiros anos de vida e de pares bem-comportados nos anos da adolescência, então provavelmente nunca a obterá. A não ser que (caso raro) venha a sofrer uma profunda conversão religiosa mais tarde na sua vida.

Devemos notar que entre as boas atitudes que devem ser inculcadas nos rapazes e nas raparigas incluem-se uma boa atitude para com a escola. Para poderem tirar o melhor da educação cognitiva que se oferece na escola os rapazes e as raparigas têm de abordar com uma boa atitude. Os professores acabam por ter uma influência bastante pequena para a educação geral e a dimensão dessa contribuição depende tanto, se não mais, na recetividade do aluno como na capacidade dos professores.

Quando temos discussões públicas sobre a qualidade da educação (ou falta dela) elas tendem a focar sobretudo as escolas. As pessoas envolvidas tendem a falar na necessidade de melhores salários pra professores, ou menos alunos por sala de aula, mais computadores, ou preservativos gratuitos para rapazes no secundário, ou uma maior centralização de padrões escolares – e sobretudo da necessidade de mais financiamento para as escolas.

Mas o que nunca ouvimos é um funcionário público a dizer: “Para obterem uma melhor educação os alunos devem ter melhores pais, melhores amigos, melhores programas de televisão e melhor música popular”.

A Igreja Católica tem uma série de ensinamentos antiquados que, se implementados, fariam toda a diferença no mundo da educação. Estou a pensar em três em particular:

(1) As primeiras e mais importantes instituições de educação para as crianças são o lar e a família.

(2) Os pais são as autoridades definitivas no que diz respeito à educação de uma criança.

(3) A criança tem o direito a crescer com pais casados.

Infelizmente nós não abraçamos – aliás, mal reconhecemos – estas três verdades educacionais básicas. É uma vergonha que nós católicos, e sobretudo para os nossos líderes, não tenhamos passado os últimos 50 anos a gritar estas verdades básicas aos quatro ventos.


David Carlin foi professor de sociologia e de filosofia na Community College of Rhode Island e autor de The Decline and Fall of the Catholic Church in America

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 17 de Setembro de 2021 em The Catholic Thing)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 16 June 2021

Do Lado Certo da História

David Carlin

Estremeço cada vez que ouço alguém falar da importância de se estar “do lado certo da história”. Foi o que fez o Presidente Barack Obama quando elogiou a sentença do Supremo Tribunal dos EUA – essa sentença terrivelmente errada – que “descobriu” um direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo na Constituição americana.

Se, como Hegel e Karl Marx (para não falar de assassinos em massa como Lenine e Estaline), o leitor tende a pensar em termos de haver um lado certo e outro errado da história, então é necessário que acredite em quatro proposições preliminares:

1. Que existe um objetivo de longo prazo para a história humana.

2. Que é possível conhecer esse objetivo de longo prazo.

3. Que você sabe, pessoalmente, qual é esse objectivo.

4. Que sabe como é que este ou aquele evento em particular encaixa no movimento rumo a esse objetivo de longo prazo.

Como é que podemos saber se a história tem um objectivo? Talvez não tenha. Talvez a história, como disse certo vez um sábio, seja “apenas uma coisa a acontecer depois de outra”.

Sabemos que as bolotas têm um objectivo – tornar-se carvalhos. Mas se só houvesse uma bolota no mundo, então não saberíamos isso, sequer. Não o saberíamos, ainda que tivéssemos estudado essa bolota com muito, muito cuidado. Apenas sabemos as tendências das bolotas porque já assistimos a incontáveis bolotas a tornar-se carvalhos, ou pelo menos a tentar.

Mas a história da humanidade, por contraste, é sui generis. Não temos propriamente milhares de relatos de histórias da humanidade em milhares de planetas diferentes. Não, estamos a assistir à única história da humanidade. Não interessa o quão cuidadosamente estudamos esta coisa singular, não sabemos como é que vai acabar no final.

Claro que há certas tendências de relativamente longo prazo que temos conseguido observar. Será que estas tendências nos podem dizer para onde é que as coisas caminham?

Se estivéssemos em Roma no ano 181 depois de Cristo, provavelmente diríamos: “É já claro que o nosso grande império, que na sua génese não era mais do que uma pequena cidade-estado no centro de Itália, mas governa agora todas as zonas mais valiosas do planeta, está destinado a governar todas as nações.” Mas 181 da Era Cristã foi precisamente o ano escolhido por Edward Gibbon como ponto de partida para a sua longa história do declínio e queda do Império.

Ou então, se estivéssemos a olhar para o mundo Euro-americano no ano de 1901, poderíamos todos ter dito que “é claro, agora, que o mundo se está a tornar gradualmente melhor – melhor educação, mais científico, mais liberal, mais democrático, mais rico, mais saudável, mais respeitador dos direitos humanos”.

“A Guerra Civil Americana, por mais terrível que tenha sido, foi uma clara indicação da direção em que se movia a história – rumo a um maior reconhecimento da dignidade de todas as pessoas. A história é essencialmente sobre o progresso, em todas as suas formas. A raça humana está destinada a viver numa espécie de Utopia, e quem duvida que o Século XX será o grande século da paz e da humanidade?”

Poucos anos mais tarde, a partir de Agosto de 1914, o mundo entrou no que seriam várias décadas de grandes guerras, ditaduras totalitárias, homicídio em massa, etc..

E ainda, se vivêssemos na década de 30 e estivéssemos de olho posto em Mussolini, em Itália, Hitler na Alemanha e Estaline, na Rússia, poderíamos concluir: “A tendência é clara. Em todo o lado o liberalismo e a democracia, que há tão pouco tempo pareciam ter um futuro grandioso pela frente, estão em retirada. O totalitarismo está a subir e quem, de entre nós, é tão ingénuo ao ponto de acreditar que será possível reverter este rumo? Podemos ver a vaga do futuro. A raça humana está destinada a viver na distopia e neoescravatura”.

Mas a Alemanha nazi foi destruída em 1945 e a União Soviética caiu em 1991.

Ninguém sabe qual é o futuro a longo prazo da raça humana. Ninguém sabe rumo a que objetivo se curva o longo arco da história. Hegel não sabia, Marx não sabia, Spengler não sabia e Barack Obama também não sabe. Estamos a navegar no grande oceano da história num navio frágil e não temos instrumentos que nos permitam ver para além do horizonte. Seja em que direção olhamos, não conseguimos ver se, ou quando, chegaremos a terra firme.

Se não existe um objectivo final da história, ou se não a podemos conhecer, então ninguém tem bases para poder dizer que o evento X (seja o aborto, a eutanásia ou o casamento entre pessoas do mesmo sexo) contribui melhor ou pior para o alcançar. Pior, mesmo que pudéssemos conhecer esse objectivo, a história é um processo tão longo que seria impossível saber se X ajuda ou prejudica o caminho até lá. Quem sabe, por exemplo, se daqui a um milhão de anos, o Holocausto será visto como tendo, de alguma forma paradoxal, permitido o avanço ou o atraso da raça humana?

O Cristianismo ensina que o pecado de Adão e Eva foi um “doce pecado” uma vez que foi essa a condição necessária para a Encarnação e Expiação de Cristo. E ensina ainda que a tragédia da Sexta-feira Santa foi uma condição necessária para o triunfo do Domingo de Páscoa. Mas isso não nos impede de reconhecer que ambos os eventos foram verdadeiramente pecaminosos, embora os seus resultados finais, a longo prazo, tenham sido verdadeiramente benéficos.

Os piores crimes do Século XX, esse século de tão imensos crimes, foram cometidos por pessoas que pensavam que compreendiam o objectivo final da história. E justificaram os seus crimes com esse objectivo; viam-se como fiéis discípulos desse grande (e desumano) Deus do Progresso.

Há uma ligação inescapável entre as palavras “história” e “mistério”. Lembremo-nos disso, e deixemo-nos confiar sempre mais no Deus da Bíblia do que no Deus do Progresso. E, em vez de nos fiarmos nos juízos da história, confiemos nos juízos da consciência.


David Carlin foi professor de sociologia e de filosofia na Community College of Rhode Island e autor de The Decline and Fall of the Catholic Church in America

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 11 de Março de 2021 em The Catholic Thing)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 4 November 2020

Onde estão os Eleitores Católicos?


David Carlin
Nos anos 30 e 40 do Século XX a esquerda americana dividia-se em três grupos:

Primeiro, a extrema-esquerda (os vermelhos) – composta sobretudo por membros do Partido Comunista dos Estados Unidos.

Depois, a esquerda mainstream (os rosas) – composta sobretudo por socialistas, alguns dos quais anticomunistas e outros pró-comunistas (companheiros de estrada).

Em terceiro lugar, a esquerda moderada, composta por liberais, quase todos democratas, como Walter Reuther, Hubert Humphrey, Franklin e Eleanor Roosevelt.

Nessa altura a extrema-esquerda influenciava a esquerda mainstream e esta influenciava a esquerda moderada. Por outras palavras, os comunistas influenciavam os socialistas e os socialistas influenciavam os democratas liberais. Assim, indiretamente, os comunistas influenciavam os democratas.

Quando começou a Guerra Fria, logo depois da II Guerra Mundial, e as relações amigáveis que existiram durante a guerra entre os EUA e a União Soviética se dissolveram rapidamente, os democratas liberais decidiram que deviam erguer um “muro de separação” entre eles e todos os que se situavam à sua esquerda. Por isso os liberais tornaram-se ferozmente anticomunistas e antissoviéticos e expulsaram os comunistas e os seus companheiros de estrada dos sindicatos. A anterior atitude de “nenhum inimigo à esquerda” deu lugar a uma atitude de “todos à esquerda são inimigos”.

Este “muro de separação” não só permitiu aos liberais evitar qualquer influência vermelha ou cor-de-rosa, como lhes permitiu ainda formar alianças políticas e culturais com os centristas, ou seja, os americanos comuns que não se consideram nem de esquerda nem de direita, nem liberais nem conservadores.

Era esta aliança entre os liberais e os centristas que caracterizava o Partido Democrata, configurada em personalidades como Harry Truman, John Kennedy e Lyndon Johnson. Isso permitiu aos liberais (isto é, esquerda moderada) apresentarem-se como 100% americanos. Os liberais podiam apresentar-se como sendo tão patriotas como a direita e mais, convenciam-se que o seu patriotismo era mais inteligente, logo mais eficiente, que o patriotismo desmiolado da direita.

Esta era uma aliança que se adequava perfeitamente à razão e ao coração dos católicos americanos. Por razões religiosas os católicos opunham-se fortemente ao comunismo e a qualquer forma de esquerda ateia, e por causa do seu estatuto socioeconómico (eram na esmagadora maioria operários ou de classe média baixa) tendiam a apoiar políticas sociais de esquerda moderada. Um Partido Democrata liberal-centrista caía-lhes no goto, tanto que se podia dizer que o Partido Democrata era o partido católico.

O pico desta aliança liberal centrista chegou em Novembro de 1964 quando Lyndon Johnson foi eleito Presidente por esmagadora maioria. Isto aconteceu poucos meses depois da passagem da Civil Rights Act de 1964 e poucos meses antes do Voting Rights Act de 1965.

Mas depois veio a Guerra do Vietname. As secções mais radicais da esquerda americana, que tinham permanecido do lado de lá do “muro da separação” há cerca de vinte anos, começou a desmantelar esse muro. A esquerda radical foi, logo desde o início, fortemente contra o envolvimento no Vietname enquanto que a esquerda moderada (democratas liberais) apoiava o envolvimento americano.

Com o passar dos meses e dos anos o apoio liberal pela guerra foi amolecendo; cada vez mais a esquerda radical e a esquerda moderada começaram a concordar quanto à oposição à guerra. Este consenso antiguerra da esquerda tornou-se perfeitamente claro em 1968 quando dois liberais, Eugene McCarthy e Bobby Kennedy, concorreram à candidatura democrata com base numa posição antiguerra. O muro de separação estava a ruir. (Ironicamente foi Hubert Humphrey, um dos arquitectos desse muro, quem se tornou o candidato democrata nesse ano).


Entretanto a esquerda americana mudou. Em meados dos anos 60 a esquerda radical já não era composta sobretudo por membros do Partido Comunista, uma vez que o comunismo tradicional da União Soviética e dos seus satélites já não exercia grande atração para os radiais americanos, que eram sobretudo jovens imbuídos do espírito da revolução. Outras formas de comunismo já eram mais atraentes para estas pessoas, como por exemplo o de Mao, na China e o de Castro, em Cuba. Estes regimes pareciam genuinamente revolucionários, ao contrário do comunismo maçadoramente burocrático da União Soviética.

Com o passar dos anos e a chegada dos anos 70 o apoio pela guerra do Vietname desapareceu quase por completo entre os liberais e passou a existir sobretudo entre conservadores como o Presidente Nixon e Henry Kissinger. Eventualmente até eles desistiram.

O muro de separação tinha desaparecido. Entre liberais, a ideia era: “Durante anos estávamos errados sobre o Vietname, mas os radicais tinham razão. Devíamos tê-los escutado. Mais, se se eles tinham razão quanto ao Vietname, talvez tivessem razão sobre outras coisas. Devemos dar-lhes um lugar à mesa”.

Desde os anos 70, portanto, a esquerda radical e as suas ideias têm entrado aos poucos para o Partido Democrata. Cada vez mais o partido influenciado pela esquerda mainstream, que por sua vez é influenciada pela esquerda radical, abraçou crenças e valores radicais. O centro de gravidade do partido derivou muito mais para a esquerda.

E é assim que o partido veio gradual, mas enfaticamente, a abraçar ideias radicais em relação ao aborto, à homossexualidade, casamento entre pessoas do mesmo sexo e transgénero. Com a subida de influência de Bernie Sanders caminhou cada vez mais no sentido de que a América se devia tornar “socialista”, querendo com isso dizer que o Governo federal deve ter enormes poderes para dirigir a economia nacional tanto na produção como na distribuição. Agora podemos dizer que a esquerda radical não só está dentro do partido como quase o controla completamente.

E onde é que ficam os católicos, outrora tão satisfeitos com o partido de Roosevelt, Truman, Kennedy e Johnson? O católico comum tem estado a derivar – lentamente, sem grandes certezas – em direção ao Partido Republicano. Será que os católicos vão conseguir transformar o Partido Republicano naquilo que o Partido Democrata já foi, um partido quase católico? Teremos de esperar para ver.


 David Carlin é professor de sociologia e de filosofia na Community College of Rhode Island e autor de The Decline and Fall of the Catholic Church in America

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 30 de Outubro de 2020 em The Catholic Thing)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

 

Thursday, 20 December 2018

Enfermeiros longe de mais? Essa é Linda...

"Aqui vou eu"
O Vaticano quer que os presidentes das conferências episcopais de todo o mundo se encontrem com as vítimas dos abusos sexuais antes de viajarem para Roma, em Fevereiro, para uma cimeira sobre o tema.

Esteve em Portugal o jesuíta Pedro Lamet, biógrafo do padre Pedro Arrupe, que foi geral da ordem. Conversou com a Aura Miguel.

D. Nuno Brás publicou um livro que junta 180 dos seus textos publicados no jornal “A Voz da Verdade”.

E na entrevista desta semana conjunta entre a Renascença e o jornal Público, D. Manuel Linda, novo bispo do Porto, pergunta se a greve dos enfermeiros “não está a ir longe demais”.

Ontem publiquei novo artigo do The Catholic Thing, com David Carlin a queixar-se dos católicos “protestantes”, que se arrogam o direito de julgar por si mesmos a doutrina da Igreja Católica.

Wednesday, 19 December 2018

Os Católicos “Protestantes”

David Carlin
O meu autor favorito – em assuntos de religião – é John Henry Newman (1801-1890), que descobri pela primeira vez quando li “A Ideia da Universidade”, tinha eu vinte e poucos anos. De vez em quando regresso a ele e leio-o intensamente durante algumas semanas. Estou neste momento a meio de uma dessas fases.

Newman escreveu e proferiu um enorme número de homilias tanto na metade protestante da sua vida, como na metade católica. Há dias calhou ler uma das homilias católicas sob o título: “A Fé e o Juízo Privado”. Aí ele argumenta que os protestantes não têm fé, no mesmo sentido em que os católicos.

Os católicos, escreve, são dóceis. Aceitam como verdadeiras as doutrinas da Igreja, sem se reservarem ao direito de as julgar; sem se reservarem o direito de decidir por si se são, ou não, verdadeiras.

Isso não significa que os católicos não exerçam a capacidade de julgar. Pelo contrário, têm de decidir por si se a Igreja Católica é a verdadeira Igreja, criada originalmente por Cristo, há dois mil anos. Mas depois de decidir, como Newman fez quando tinha quarenta e tal anos, renunciam o direito de julgar as doutrinas da Igreja. A partir desse ponto escutam e aceitam.

Já os protestantes, por outro lado, acreditam possuir o direito de julgar as doutrinas do Cristianismo; o direito a decidir se são falsas ou verdadeiras. Trata-se do importante princípio protestante do juízo privado, que surgiu no Cristianismo no tempo da Reforma.

O protestantismo tinha rejeitado a autoridade do Papa e dos bispos para ensinar, substituindo-o pela autoridade da Bíblia – “A Bíblia, toda a Bíblia e nada para além da Bíblia”, como alguém viria a dizer mais tarde. Mas isso deu aso a uma nova dificuldade. A Bíblia como infalível, certo, mas quem pode decidir com autoridade o que é que a Bíblia diz verdadeiramente?

Não podem ser o Papa e os bispos, como acreditam os católicos, porque os protestantes já os tinham rejeitado.

Teoricamente, poderia ser um future concílio, mas na prática nunca mais haveria um concílio aceitável para os protestantes. Houve um católico, sem a presença de qualquer protestante, mas nunca houve um concílio protestante, nem poderia haver, dada a fragmentação do protestantismo.

Talvez os reis, ou outros governantes? Mas isso era obviamente absurdo e por isso ninguém poderia acreditar. Como é que um Rei haveria de conhecer melhor o sentido da Bíblia do que um ministro sincero ou um leigo?

No final de contas o protestantismo não teve outra escolha que não permitir às pessoas que decidem por si o que a Bíblia quer dizer. Os críticos católicos apontam para um problema óbvio neste princípio de juízo privado: se vinte pessoas lerem a Bíblia, podem bem retirar dela vinte interpretações diferentes. O princípio de Juízo Privado levaria à fragmentação do Cristianismo, e foi isso mesmo que aconteceu.

Ao longo dos séculos os protestantes utilizaram três estratégias para tentar impedir, mitigar ou corrigir esta fragmentação.

Miguel Servet
Perseguição: Calvino mandou queimar Miguel Servet em Genebra. Em Inglaterra a rainha Isabel I perseguiu os católicos e os puritanos. Na Nova Inglaterra, nos Estados Unidos, os puritanos de Massachusetts Bay perseguiram Roger Williams, Ann Hutchinson e os Quakers.

Ecumenismo: As denominações moderaram a sua hostilidade umas para com as outras ou colaboraram de diversas formas, ou então fundiram-se mesmo.

Moralidade cristã: A doutrina foi minimizada para enfatizar tudo aquilo sobre o qual os protestantes concordam moralmente. Depois defendeu-se que a moralidade constituía o essencial do Cristianismo, e que a doutrina era apenas de importância secundária, ou meramente ornamental.

Nenhuma destas estratégias resultou, incuindo a última, a cujo colapso temos assistido no nosso tempo. No mundo protestante dos Estados Unidos, hoje, existe algum consenso universal sobre moralidade, mas não muito.

Por exemplo, todos os protestantes concordam que é errado assaltar bancos, ou bater na avó com um taco de baseball. Mas no que diz respeito à moralidade sexual e ao aborto, os protestantes liberais e conservadores estão em desacordo total. Não podiam estar mais distantes.

Os conservadores ainda aderem ao ensinamento antigo do Crisianismo de que a fornicação, coabitação antes do casamento, actos homossexuais e aborto são pecados graves. Mas os liberais, pelo contrário, argumentam que (pelo menos em muitas circunstâncias) nenhuma destas coisas é pecado.
  
E quando os conservadores acusam os liberais de ignorar a Bíblia, os liberais respondem: “De todo. Como bons protestantes que somos, temos direito ao juízo privado, tanto quanto Lutero, Calvino, João Knox e Cotton Mather tinham. E, segundo a nossa interpretação da Bíblia, os mandamentos do Novo Testamento para “amar o próximo” e “não julgar” anulam todos os antigos tabús. Jesus está-nos a dizer que os cristãos de hoje devem aceitar o aborto e o casamento homossexual. Jesus está em sintonia com os tempos modernos, e nós também. Vocês, pobres conservadores, é que não.”

Se o juízo privado é a característica marcante do protestante, então a maioria dos católicos americanos, hoje, são de facto protestantes. É cada vez mais raro encontrar católicos que acolham os ensinamentos da Igreja como Newman dizia ser correcto, de acordo com a fé, de forma dócil.

Tal como os americanos não-católicos, os católicos arrogam-se o direito de pensar por eles sobre todas as coisas – incluindo as verdades religiosas. Logo, dezenas de milhares de católicos americanos utilizam aquele antigo recurso protestante, o juízo privado, para discordarem da Igreja no que diz respeito à contracepção, o sexo antes do casamento, aborto e casamento homossexual – e (calculo, embora não saiba ao certo) a divindade de cristo, a presença real na Eucaristia, o nascimento virginal e a Ressurreição.

Em grande medida o catolicismo americano tornou-se uma forma de protestantismo. E, pior, uma forma de protestantismo liberal.


David Carlin é professor de sociologia e de filosofia na Community College of Rhode Island e autor de The Decline and Fall of the Catholic Church in America

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 11 April 2018

Ruy de Carvalho e muito Tolentino

Árvore da Vida com árvores em fundo
O actor Ruy de Carvalho recebeu esta quarta-feira o prémio Árvore da Vida. Saiba mais aqui.

Os 100 anos do padre Manuel Antunes vão ser assinalados em 2018, para dar a conhecer a sua obra às novas gerações.

O Papa Francisco apelou esta quarta-feira a que os fiéis não se esqueçam de baptizar as crianças.

Ontem foi um dia especial para mim e para a Renascença, uma vez que fazemos anos no mesmo dia. A Renascença, ainda assim, teve direito a uma programação especial que eu não tive, incluindo uma tarde inteira na companhia do padre Tolentino e dos seus convidados, incluindo o cantor cristão Samuel Úria, Francisco José Viegas e uma conversa interessante com Aura Miguel sobre o retiro que orientou recentemente em Roma para o Papa Francisco.

Hoje é quarta-feira e por isso há artigo do The Catholic Thing, em que David Carlin critica o relativismo da moralidade, falando do perigo, por vezes lento, da ideia de que cada um constrói a sua própria moralidade.

Deixo ainda um convite para irem à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, amanhã, dia 12 de Abril, às 18h15, para assistir à conferência “Afinal, o que é a Universidade”. É organizado pelo núcleo de Estudantes Católicos daquela faculdade e conta com Henrique Leitão, Miguel Tamen e António Feijó. É no anfiteatro II da universidade, se puderem não percam.

O Lento Veneno das Ideias Más

David Carlin
Todos os semestres lecciono uma cadeira de ética (filosofia moral) na faculdade onde trabalho. Digo aos alunos que não têm de concordar comigo; têm direito às suas próprias opiniões, ainda que estas estejam profundamente erradas. Mas tento persuadi-los de que algumas teorias de moralidade, embora populares, estão erradas.

Em particular, argumento contra três teorias populares mas, em minha opinião, perniciosas:

  • A teoria de que as normas que definem o que é certo ou errado são meras criações sociais.
  • A teoria de que somos livres de criar os nossos próprios códigos morais, individuais.
  • A teoria de que tudo é moralmente permissível, desde que não prejudique terceiros de forma evidente e tangível, sem o seu consentimento.

Por outro lado, argumento que existe uma teoria de moralidade verdadeira, nomeadamente a teoria de que todos os seres humanos normais têm um conhecimento inato das regras fundamentais da moralidade, por exemplo, não matar, não roubar, não cometer adultério, não abandonar os filhos, etc. Pode-se chamar a isto uma teoria de moralidade do “direito natural”, mas não insisto nesse nome.

Escusado será dizer que não convenço todos, nem sequer a maioria, dos meus alunos a concordar comigo. Consolo-me dizendo que isso não é grave. Porquê? Porque se calhar estou errado, e nesse caso espero que não concordem comigo. Ou se calhar estou certo e eles verão isso daqui a 30 ou 40 anos. Ou se calhar tenho razão mas eles nunca vão concordar comigo. Mas se Jesus apenas conseguiu persuadir 11 dos seus 12 discípulos, porque é que eu hei de ficar desencorajado por não conseguir convencer todos os meus alunos?

Mas há dias um jovem da minha turma chocou-me (na verdade, achei piada), ao defender clara e francamente uma teoria da moralidade que eu considero verdadeiramente terrível. Ele é um bom aluno, sincero e simpático, e não é de todo o género de miúdo que os professores por vezes encontram, aqueles que discordam do professor só para chatear. De todo, longe disso, é um bom miúdo.

Ele defendeu (não obstante eu ter tentado refutar essa teoria no início desse mesmo semestre) que todos os indivíduos criam a sua própria moralidade e, por isso, que o que é certo ou errado para ti poderá não ser certo ou errado para mim. Desde que tu faças o que crês, pessoalmente, estar certo, então está certo. Da mesma forma, se eu fizer aquilo que pessoalmente considero estar certo, então está certo.

Agora, sempre que um aluno meu defende esta posição eu jogo a cartada do Hitler. “Se o Hitler acreditava que o holocausto era a coisa certa, então achas que ele estava certo em assassinar seis milhões de judeus, para não falar de milhões de outros? É isso que estás a dizer?”

Quando meto o Hitler ao barulho, o aluno tende a recuar da sua afirmação. (Às vezes desconfio que Deus tenha permitido a Hitler cometer estes homicídios em massa para que os professores possam usá-lo como exemplo horrível nas discussões nas salas de aula.) Mas este rapaz não recuou. Ele defendeu a lógica da sua posição, dizendo que o que Hitler fez estava certo porque ele acreditava que sim, e por isso este meu aluno não o condenaria por fazer a coisa errada.

Ao mesmo tempo assegurou-me que ele próprio tinha uma moral pessoal muito diferente. Pessoalmente, jamais cometeria genocídio; seria errado fazê-lo, porque isso vai contra o seu código moral pessoal. Não duvido que seja assim, como disse, é um miúdo porreiro. Não tenho qualquer medo de homicídio em massa quando entro na sala de aula e ele está lá.

Partilha connosco a tu ideia própria de moralidade!
Mas isso recorda-me que podemos mudar de ideias mais facilmente do que de coração. Mudamos as nossas opiniões mais rapidamente do que os nossos sentimentos. E no mais fundo de todos os nossos sentimentos estão as atitudes morais que adquirimos na juventude e na adolescência.

As nossas atitudes morais, porém, sejam boas ou más, são diferentes das nossas opiniões morais. É por isso que é tão difícil convencer uma pessoa a abandonar maus hábitos. Os conselhos que lhe damos podem ser 100% sãos, mas ainda assim ele não se mexe. O mesmo se aplica, mutatis mutandis, às pessoas que crescem com boas atitudes morais.

Isto significa que as teorias morais más são inofensivas ou que as boas são inúteis? De todo. Se for uma pessoa com boas atitudes morais, então as teorias más provavelmente terão pouco impacto na sua conduta moral. Mas podem vir a ter um impacto sobre os seus filhos.

À medida que os educa, estará a dar-lhes um bom exemplo através da sua conduta (digamos, por exemplo, pela sua honestidade); mas a sua teoria dirá: “pessoalmente, acredito na honestidade, e espero que vocês também acreditem quando forem adultos, mas lembrem-se sempre que esta honestidade não passa de uma preferência pessoal. Lembrem-se de ser tolerantes para com os patifes, mentirosos e ladrões que por acaso não acreditam na honestidade”.

As teorias morais más, então, terão consequências morais más, e as teorias morais boas terão consequências boas. Mas isso não acontece de um dia para o outro. Levará uma ou duas gerações, talvez cem, duzentos ou trezentos anos. Jefferson escreveu: “todos os homens são criados iguais” em 1776. Isto implicava que a escravatura deveria ser abolida. Mas levou mais 87 anos e uma grande guerra civil até que isso acontecesse.

“As ideias governam o mundo”, disse certa vez um filósofo francês. E é verdade. Mas na maior parte dos casos isso apenas acontece de forma gradual. Hoje existem muitas más teorias morais por aí, não apenas a do meu aluno. Se não os combatermos, acabarão por nos destruir – se não a curto prazo, gradualmente.


David Carlin é professor de sociologia e de filosofia na Community College of Rhode Island e autor de The Decline and Fall of the Catholic Church in America


(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 6 de Abril de 2018 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 27 April 2016

Cartago deve ser destruída

David Carlin
Quando Roma derrotou Cartago na terceira Guerra Púnica os romanos não se contentaram com a vitória. Queriam que Cartago fosse não só derrotada mas totalmente destruída, para que a antiga inimiga de Roma, que tinha causado tanta angústia e sofrimento durante as primeiras duas guerras púnicas jamais se erguesse. Os romanos optaram por seguir os conselhos de Catão, o Velho, que tinha o hábito de terminar os seus discursos no senado com a frase “Considero, ainda, que Cartago deve ser destruída”.

Por isso, vencida a Guerra, Roma arrasou Cartago e dispersou a sua população. Alguns séculos mais tarde foi construída uma nova cidade com o mesmo nome e foi nesta Cartago que Santo Agostinho viria mais tarde a ser educado e tornar-se maniqueu. Mas a velha Cartago fenícia, de Dido e de Aníbal, desapareceu para sempre. Nunca mais incomodou Roma.

Chegámos a este ponto na guerra entre a noção cristã da sexualidade e a ideia secular moderna, o ponto em que o inimigo deve ser destruído totalmente. A revolução sexual, que começou há cerca de 50 ou 60 anos, terminou numa vitória muito convincente para os revolucionários. A noção cristã de conduta sexual foi derrotada. E agora os secularistas passaram ao próximo passo, isto é, a destruição – a pulverização – da ideia cristã.

Os cristãos, derrotados, talvez quisessem dizer: “Tudo bem, venceram a Guerra. Nós rendemo-nos e deixaremos de lutar pelo domínio. Mas não podem ter misericórdia e tolerar-nos como uma minoria inofensiva, como se toleram as pessoas que acreditam em discos voadores?” Mas os revolucionários sexuais respondem: “Não, vocês e a vossa ética sexual incomodaram o mundo durante demasiados séculos. Os vossos crimes são inumeráveis e imperdoáveis. Temos de nos assegurar que a vossa ética não regressará para estragar novamente os prazeres do mundo”.

Nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial a ética sexual protestante continuava a dominar na América. O americano típico ainda acreditava na maioria dos velhos tabus sexuais que prescreviam a fornicação, o adultério, o aborto e a homossexualidade. Isso não significa que toda a gente acatava essas proibições. Todas eram violadas, claro, de tempos a tempos. Mas as pessoas não deixavam de acreditar nelas.

Havia falhas na ética protestante, claro. O protestantismo clássico permitia o divórcio apenas por adultério, mas essa limitação tinha sido abandonada há muito tempo. Nos anos 50 havia muitas causas que legitimavam o divórcio e nos anos entre as guerras a contracepção dentro do casamento tornava-se aceite entre protestantes americanos.

A ética católica era mais rigorosa. O catolicismo acrescentava a proibição do divórcio e da contracepção. E mais, o catolicismo exaltava a ideia do celibato, tornando-o obrigatório para padres, monges e freiras.

Enquanto a maioria dos americanos, sendo protestantes, não estavam dispostos a abraçar a ética católica, toleravam-na de bom grado e, até certo ponto, admiravam-na, porque comprovava que os católicos, a maioria dos quais eram recém-chegados aos Estados Unidos, não era tão maus como tinham sido representados durante séculos pela propaganda religiosa anglo-americana.

Catão o Velho
Tudo isto desmoronou no início dos anos 60. Quase da noite para o dia, ao que parece, a fornicação tornou-se aceitável e nem precisava de ser acompanhada de amor nem de compromisso. A contracepção não só se tornou aceitável como obrigatória para casados e ainda mais para não casados. A coabitação tornou-se aceitável. O aborto também, e depois de Roe v. Wade, em 1973, tornou-se até legal e fácil de obter.

Levou mais algum tempo até que a homossexualidade se tornasse aceitável, mas o dia chegou e só podia chegar, tendo em conta a rejeição da antiga ética sexual cristã.

Tendo sido derrotada a ideia de sexualidade cristã, começou agora a sua pulverização. A aceitação do casamento homossexual é mais um passo nessa direcção. É a forma de os secularistas dizerem não só que a homossexualidade é moralmente aceitável mas que é tão boa e nobre quanto a sexualidade conjugal, que os cristãos consideram a mais perfeita.

A ideologia do transgénero é outro passo. É uma rejeição da ideia bíblica de que “Deus os criou homem e mulher” (Marcos 10,6) – uma ideia errada que era defendida por Jesus, um rabino bem-intencionado mas preconceituoso do século I.

A poligamia, a poliandria, os casamentos abertos (adultério consentido) – tudo isto ainda não foi aceite em larga escala. Mas será, uma vez que a sua aceitação decorre logicamente do princípio fundador da revolução sexual, nomeadamente a rejeição da ideia de sexualidade cristã. Tal como a aceitação da homossexualidade não surgiu imediatamente nos anos 60 e 70 e a de adultério também não, mas não se preocupem, está por pouco.

Mas o factor mais importante para a destruição total da noção cristã de sexualidade não são as muitas práticas sexuais anticristãs que existem no mundo de hoje. Também não é a aceitação alargada destas práticas entre pessoas que, por uma razão ou por outra, preferem não participar delas.

Não, é a proibição – uma proibição social cada vez mais eficiente que está cada vez mais perto de se tornar uma proibição legal – da própria expressão de opiniões cristãs sobre sexualidade. Se for um cristão antiquado que não se encontra do “lado certo da história” (para citar uma das frases preferidas de Obama), que diz que a fornicação é um pecado, que o aborto é homicídio, que a homossexualidade não é natural ou que a ideia de ser transgénero é uma loucura – então será denunciado como um intolerante, um misógino, um homófobo, um transófobo ou um mero idiota. Os seus juízos negativos tornam-se “ódio” e estes ataques aos seus crimes de pensamento aumentam de tom dia após dia.

O objectivo é que a moral sexual cristã, tal como Cartago, se torne nada mais que uma memória.


David Carlin é professor de sociologia e de filosofia na Community College of Rhode Island e autor de The Decline and Fall of the Catholic Church in America

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 22 de Abril de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 20 April 2016

A Revolução do Absurdo

David Carlin
Eu já fui politicamente liberal. Acreditem ou não, era orgulhosamente liberal – nos tempos em que o liberalismo ortodoxo acreditava em coisas como Segurança Social, sindicatos, igualdade racial, liberdade de expressão, anticomunismo e uma forte defesa nacional. Estou a falar do liberalismo de Franklin Delano Roosevelt, Harry Truman e John F. Kennedy.

Mas depois a ortodoxia liberal começou a mudar. Radicalmente. Começou por incluir o direito ao aborto. Isso não foi o suficiente para me fazer desistir do liberalismo. Em vez disso dizia que era liberal excepto no que diz respeito ao aborto. Mas o liberalismo continuou a mudar, acrescentando artigos ao seu credo. Por isso passei a dizer que era liberal – excepto no que diz respeito a todas essas coisas.

Até que um dia ocorreu-me que a minha versão do credo liberal estava tão cheio de buracos que eu era um liberal do estilo queijo suíço. Por isso decidi que afinal já não era um liberal e devia ser um conservador político e cultural.

Muitos de vocês devem estar a pensar que eu devia ter desistido do meu liberalismo mal este adoptou o aborto como artigo de fé. Concordo – hoje. Mas como muitas pessoas que começaram na minha posição (incluindo muitos católicos), eu não estava suficientemente atento ao que se passava para ter percebido, de início, o quão importante isto é. O aborto é tão claramente errado que as pessoas que acreditam na sua justiça só podem ter um defeito nas suas faculdades de juízo. Se pudessem estar errados quanto ao aborto, então era natural que estivessem errados sobre muitas outras coisas.

Dizer que eu era liberal excepto em relação ao aborto era mais ou menos como um alemão nos anos 30 dizer que era Nazi excepto no que diz respeito ao anti-semitismo. O anti-semitismo era a essência do nazismo, e se os nazis estavam equivocados sobre uma coisa tão obviamente errada como o anti-semitismo, então era natural que tivessem um defeito nas suas faculdades de juízo e que se viessem a enganar sobre muitas outras coisas. E assim foi.

Hoje, para se ser liberal, é preciso acreditar numa série de coisas absurdas. Por exemplo:

  • Que os nascituros não são bebés, que não são seres humanos;
  • Que relações sexuais entre dois homens ou duas mulheres são uma coisa perfeitamente natural;
  • E, por isso, que apenas mentes pequenas e discriminatórias se oporiam ao casamento homossexual.

Recentemente foram acrescentados a este credo liberal dois artigos:

  • Que se um homem pensa que é uma mulher então é mesmo, e que se uma mulher sente que é um homem, então é mesmo.
  • Que é discriminatório pensar que as casas de banho para homens deviam ser reservadas para homens e as de mulheres para mulheres.

Alguns liberais não são tão progressistas como outros. Eles ainda não abraçaram estes últimos dois artigos. Mas, como os extraterrestres dizem nos filmes de ficção científica: rendam-se, é inútil resistir. Têm de se render, e fá-lo-ão em breve. Até Novembro deste ano o candidato democrata à presidência (seja Bernie Sanders, seja Hillary Clinton) terá, para não perder o voto liberal, de defender o uso misto de casas de banho como um direito humano fundamental, ao nível do direito à vida, à liberdade e à busca da felicidade. 

Não se trata de uma mera suposição, o destino assim o dita.

Portanto, para se ser um liberal ortodoxo hoje é preciso acreditar numa lista cada vez maior de coisas que não são apenas erradas, são completamente absurdas. Não me espanta que daqui a 10 ou 20 anos seja necessário acreditar que se alguém se identifica como um coelhinho então é mesmo um coelhinho.

Chegará o dia em que um liberal será obrigado a respeitar a opinião de pessoas que dizem que 7 + 5 não é igual a 12? Talvez. Afinal de contas, se se defende que Bruce Jenner é uma mulher, porque não defender que a matemática não passa de uma opinião pessoal e subjectiva? Ou que a minha crença de que a minha resposta é a correcta é o produto de matemática imperialista ocidental, ou uma mera construção social.

Ao longo dos últimos 50 anos testemunhámos aquilo a que apelidámos de revolução sexual. Mas eu suspeito que seja mais do que isso. A questão sexual foi apenas a brecha. Os filósofos, moralistas e papas falam sobre relativismo – até sobre a ditadura do relativismo – e coisas como narcisismo, niilismo, autonomia radical, a era da vontade pura e outras noções intelectuais. Mas é ainda mais radical do que isso.

Esta é uma revolução do absurdo; uma revolução contra a razão; uma revolução contra a civilização. Contra a própria realidade.


David Carlin é professor de sociologia e de filosofia na Community College of Rhode Island e autor de The Decline and Fall of the Catholic Church in America

(Publicado pela primeira vez no sábado, 9 de Abril de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Tuesday, 29 December 2015

A Guerra Mais Longa

David Carlin
A actual luta contra o Estado Islâmico e o “terrorismo islâmico radical” (que o Presidente Obama me perdoe por usar esta expressão) é apenas a mais recente fase de uma guerra que dura há mais de 3.000 anos, uma guerra que tem sido combatida ao longo da maior falha sísmica geopolítica do mundo, a que separa a Ásia ocidental da Europa. Vejamos alguns dos pontos principais da guerra mais longa do mundo.

1. O primeiro registo deste conflito encontra-se na Ilíada: A Guerra de Troia, de Homero, em que uma coligação de gregos ataca Tróia, uma cidade comercial importante do lado asiático do mar Egeu.

2. No início do século V antes de Cristo, o Grande Rei da Pérsia, Xerxes, invadiu a Grécia com um tremendo exército e uma marinha significativa. Para além da batalha das Termópilas (“Estrangeiro, dizei a Esparta que aqui jazemos, em obediência às suas leis”), Xerxes enfrentou pouca oposição na Grécia e ocupou Atenas. Mas depois foi derrotado na batalha naval de Salamina (480 AC) e, um ano mais tarde, perdeu também em terra, em Plateias.

3. Em 330 AC, Alexandre liderou um exército de gregos e macedónios pela Ásia adentro, e numa campanha militar brilhante conquistou o vasto Império Persa. Num acto de vingança pelo incêndio da acrópole de Atenas em 480, Alexandre – enquanto bêbado – deitou fogo à capital persa de Persépolis. (Alexandre era conhecido por ser casto, não por ser sóbrio).

4. Começando em meados do Século III Antes de Cristo e terminando em meados do segundo, Roma combateu duas granes guerras contra Cartago, mais uma guerra mais pequena. Depois desta terceira guerra Cartago – que apesar da sua localização ocidental, era uma cidade Asiática, sendo uma colónia de Tiro – foi derrotada e arrasada.

5. No Século II AC os judeus (que naquele tempo eram asiáticos e não europeus), sob a liderança dos Macabeus, saiu debaixo do jugo do rei da Síria, que era de tradição helénica. Mas em meados do Século I AC Roma tinha reestabelecido o domínio ocidental na Palestina. Cerca do ano 70 da Era Cristã, os judeus ergueram-se contra os romanos, mas foram totalmente esmagados. No segundo século houve outro levantamento, mas o resultado foi o mesmo.

6. Durante séculos houve guerras intermitentes entre Roma e os impérios sucessivos da Pérsia e de Pártia. Numa destas batalhas (primeiro século AC), Marcos Crassos, membro do Primeiro Triunvirato, foi morto e, noutra (século IV DC), morreu o Imperador Juliano (“O Apóstata”).

7. No começo da década de 630 os guerreiros de uma nova religião, o Islão, emergiram dos desertos da Arábia e conquistaram grande parte de Ásia e todas as porções africanas do Império Romano. Os Árabes conquistaram quase toda a Península Ibérica e o seu avanço para Ocidente só foi travado quando Carlos Martel (avô de Carlos Magno) os derrotou perto da cidade francesa de Tours.

8. Na Península Ibérica, onde alguns enclaves cristãos sobreviveram à conquista árabe, começou em breve a Reconquista, mas esta só ficou completa quando os reis Fernando e Isabel ocuparam Granada, o último dos reinos muçulmanos em Espanha, e expulsaram todos os muçulmanos (e judeus).

9. Enquanto os cristãos estavam a recuperar a Península, os cristãos noutras partes da Europa Ocidental estavam a marchar e a navegar rumo à Palestina. As cruzadas começaram no final do Século XI e continuaram, intermitentemente, durante os próximos 200 anos. Depois de algum sucesso inicial, o Ocidente falhou na tentativa de reconquistar as partes da Ásia Ocidental que tinha perdido com o levantamento dos Árabes no Século VII.

10. Entretanto o Império Romano (ou Bizantino) caiu em 1453, quando os otomanos muçulmanos capturaram a sua praça forte, Constantinopla, depois de mais de um século a conquistar bocadinhos do que tinha sido até então um vasto império.

Aquiles depois de matar Heitor, na batalha de Tróia
11. Não contentes com isto, os turcos invadiram o coração da Europa, subindo pelo vale do Danúbio, vencendo a Batalha de Mohács (1526). Isto deu-lhes controlo de grande parte da Hungria e uma rampa de lançamento para dois ataques mal sucedidos contra Viena, o último dos quais aconteceu em 1683. Entre estas duas datas o Ocidente cristão venceu a grande batalha naval de Lepanto (1571)

12. A grande mudança deu-se com a modernização do Ocidente, enquanto o Império Otomano se foi tornando “o homem doente da Europa”. A começar pela Grécia no início do Século XIX, as províncias europeias do império turco foram ganhando independência um após outro. No final da Primeira Guerra Mundial a frente Islâmica/Asiática na Europa estava reduzida a Istanbul, seus subúrbios e a Albânia.

13. À medida que o Império Otomano entrou em declínio e finalmente colapsou, as nações europeias, sobretudo a Grã-Bretanha e França, preencheram o vácuo, controlando, através de colónias ou de outras formas, os países da África do Norte e do Médio Oriente que tinham feito parte do império turco.

14. No final do Século XIX começou o movimento sionista. Muitos judeus (que por esta altura já eram europeus) emigraram para a Palestina. Os seus colonatos foram legitimados pela Declaração de Balfour (1917). Eventualmente estes colonatos levaram à criação do Estado de Israel (1948) e a uma série de guerras com os países árabes vizinhos.

15. Depois da Segunda Guerra Mundial surgiu o nacionalismo árabe, cujo elemento agregador era um ódio universal por Israel. Os árabes não viam (nem vêem) Israel da mesma maneira que os judeus, isto é, como o restabelecimento de uma pátria antiga. Vêem-na como uma invasão ocidental do seu território.

16. If we can believe Homer, this whole tragic series began when the beautiful wife of an important European ruler ran off with a handsome and charming young fellow from Asia – an illicit love affair that touched off centuries of even more illicit hatred.

Se acreditarmos em Homero, toda esta série trágica começou quando a mulher lindíssima de um importante líder europeu fugiu com um jovem charmoso e vistoso da Ásia – um romance ilícito que espoletou séculos de um ódio ainda mais ilícito.


David Carlin é professor de sociologia e de filosofia na Community College of Rhode Island e autor de The Decline and Fall of the Catholic Church in America

(Publicado pela primeira vez no sexta-feira, 18 de Dezembro de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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