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Wednesday, 3 May 2017

Almas Sofredoras

Há muitos argumentos fortes, tanto a favor como contra, sobre a existência de Deus. Mas um dos desafios maiores à ideia de um Deus benigno e que nos ama, segundo o modelo Bíblico (os deuses sanguinários e caprichosos dos pagãos são uma coisa à parte), é o sofrimento dos inocentes. Um ateu britânico contemporâneo comentou que se lhe perguntassem porque é que Deus não existe, responderia simplesmente: “Crianças com cancro dos ossos”.

Austin Ruse, um dos fundadores do The Catholic Thing e antigo colunista, aceitou este desafio e a resposta é um livro conciso mas importante, chamado “The Littlest Suffering Souls: Children Whose Short Lives Point Us to Christ” [As Pequenas Almas Sofredoras: Crianças cujas curtas vidas nos apontam para Cristo]. Ele argumenta que o Cristianismo é único entre as diferentes religiões e filosofias, porque encontra sentido no sofrimento. O estoicismo, e a maior parte das outras fés, simplesmente assumem que o sofrimento é um facto da natureza e oferecem técnicas para o suportar.

Mas este livro não é um argumento abstracto. Ruse trata com detalhe de alguns casos concretos: A Margaret Leo e o Brendan Kelly (ambos da zona de Washington D.C.) e a “Audrey”, uma pequena rapariga que viveu e morreu perto de Paris e cujo apelido não foi divulgado, a pedido dos pais.

O Austin é um amigo e colaborador de longa data (estas histórias começaram como crónicas do The Catholic Thing e provocaram centenas de reacções de todo o mundo). Mas posso dizer que o resultado é quase milagroso. Quem diria que estas crianças santas e sofredoras poderiam ser prova viva, para aqueles que as conheciam ou que simplesmente ouviram falar delas, da existência de um Deus que nos ama?

É quase impossível escrever bem sobre a dimensão espiritual de crianças que enfrentam situações de saúde dramáticas. O resultado costuma ser beato, no mau sentido, e por isso falsamente sentimental. A grande e irredutível Flannery O’Conner vacilou, por essa razão, quando as dominicanas de Hawthorne lhe pediram para escrever uma introdução às Memórias de Mary Ann, um relato de outra pequena sofredora da década de 60.

O prefácio deste volume é escrito pelo Cardeal Burke, que o recomenda, citando João Paulo II sobre a unicidade do Cristianismo que ensina que os nossos sofrimentos – até os das almas mais novas – participam no sofrimento redentor de Jesus.

Neste livro Ruse capta esta ideia melhor do que qualquer outro autor que eu conheço, preservando os sentimentos adequados (e não o sentimentalismo) mas também transmitindo o humor ocasional, bem como a inspiração final destas vidas, sem recurso a palavras falsas. (E já que estamos numa de elogios, parabéns à TAN Books por ter produzido um volume tão simples e bonito).

A verdade é que mesmo os pais e as famílias podem chegar a odiar Deus quando confrontados com provas destas – e frequentemente são as crianças sofredoras que as ajudam.

Duas das crianças que aparecem no livro têm pais importantes. Leonard Leo é vice-presidente executivo da Sociedade Federalista, um grupo de advogados que aconselhou o Presidente Trump sobre a recente nomeação para o Supremo Tribunal e Frank Kelly chefia o departamento de assuntos governamentais globais da Deutsche Bank. Ambos estiveram esta semana no Centro de Informação Católica em D.C. para a apresentação do livro, homens altamente qualificados mas – via-se – sem palavras quando questionados sobre os seus filhos. Daí o valor adicional deste livro.  

Brendan Kelly, com o Papa João Paulo II
Brendan Kelly nasceu com trissomia 21 e aos dois anos foi diagnosticado com leucemia. Só morreu aos 16 anos depois de uma série de dramas médicos, pontuados por muito amor e eventos incríveis – incluindo inexplicáveis e milagrosos – que tocaram uma enorme quantidade de pessoas, incluindo um episódio com São João Paulo II em Castel Gandolfo que o fará rir-se desalmadamente. Duas mil pessoas foram ao seu enterro.

Margaret Leo tinha uma forma de espinha bífida tão severa que costuma ser fatal, não obstante os avanços médicos. A maioria das crianças que são diagnosticadas com esta condição através da amniocentese são abortadas porque a sua “qualidade de vida” vai ser tão baixa. A Margaret passou a vida toda numa cadeira de rodas por causa de distorções tão severas na sua coluna que quando inseriram barras de titânio para manter as costas direitas, as barras entortaram. Mas esta criança minúscula nunca se queixou nem parecia sentir medo. Tinha uma fé simples e um dom para a amizade, apesar de muitas pessoas se sentirem incomodadas por deficientes em cadeiras de rodas. Ela acabou por morrer, de forma quase inesperadas, mas a sua morte foi seguida de acontecimentos miraculosos.

A Audrey morreu depois de sete anos a lutar contra uma leucemia. A sua família francesa era nominalmente católica e não a instruiu na fé, mas aos três anos começou ela a instruí-los a eles. Vendo um crucifixo num confessionário, comentou: “Só de olhar para Ele, amamo-Lo”. Instintivamente adoptou a mortificação, abdicando de comer doces; fazendo actos de penitência sem que alguém lhe tivesse explicado o sentido; insistindo na oração antes das refeições – o que não se fazia em casa. Parecia conhecer passagens do Evangelho sem as ter aprendido e vivia perpetuamente – pelo menos era isso que as pessoas sentiam – na presença de Deus.

Estes são apenas alguns detalhes das histórias de três crianças santas que têm muito para nos ensinar, o resto das histórias segue muito a mesma linha. Mas o facto de terem nascido em famílias importantes também tem significado, como explica Ruse. À medida que ele explica as suas várias ligações familiares, comenta que: “Tenho noção que estou a citar nomes, mas é de propósito e espero que me desculpem, pois faço-o para sublinhar um aspecto particular destas ‘pequenas almas sofredoras’… Estes não eram filhos de camponeses a tratar dos rebanhos. Nasceram em famílias influentes, famílias que habitavam um certo meio: os corredores de poder de Washington, D.C. Resumindo, nasceram numa espécie de deserto espiritual, um ambiente em que as coisas do mundo facilmente prevalecem sobre as coisas de Deus e tinham – e ainda têm – coisas a ensinar aos habitantes desse deserto em particular.”

Ultimamente temos debatido a Opção Beneditina, a Opção Dominicana e muitas outras “opções” do género na nossa Igreja e no nosso país atribulados. Todas essas opções têm algo que se lhes diga, mas na minha opinião, e não só em Washington, a opção das almas sofredoras ganha aos pontos.

Leia também:


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 27 de Abril de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 10 July 2013

Lições das Pequenas Almas Sofredoras

Austin Ruse
Ao longo dos meus últimos artigos tenho estado a contar a história das pequenas almas sofredoras:

A Audrey Stevenson morreu de leucemia, aos 7 anos, depois de levar toda a sua família à fé.

A Margaret Leo morreu com 14 anos, após uma vida alegre de caridade cristã, apesar de sofrer de espinha bífida.

O Brendan Kelly morreu aos 15. Tinha trissomia 21 e viveu a vida toda com leucemia, mas continua a inspirar todos os que o conheceram.

A primeira coisa que nos marca quando conhecemos estas histórias é perceber o quanto sofreram. Estamos a falar de sofrimento intenso, tanto físico como mental, de longa duração. Sofrimento atroz, do género de fazer o soldado mais rijo chamar pela mãe.

Tanto a Audrey como o Brendan foram sujeitos a tratamentos invasivos de quimioterapia, esteróides, punções lombares e, eventualmente, transfusões de medula. Viveram longos períodos sem sistema imunitário, com o perigo a espreitar por detrás de cada micróbio errante.

A Margaret Leo teve barras de titânio inseridas nas costas para travar o curvar da coluna. Em vez disso foram as barras que entortaram. Ainda hoje o seu pai guarda as barras tortas em cima da sua secretária, para nunca se esquecer do que é, verdadeiramente, um dia mau.

Os pais da Audrey tinham de obrigá-la a falar da sua dor, para que os médicos a pudessem ajudar. A Margaret raramente mencionava o seu sofrimento e, no geral, sorria apesar de tudo e durante os períodos de pior dor, o Brendan tentava fazer rir os seus pais, para que não se preocupassem com ele. A maioria das crianças não é assim. Nós, adultos, não somos assim.

Enquanto seres humanos simplesmente não somos capazes de imaginar este tipo de dor. Fugimos da dor. Escondemos a dor por detrás de analgésicos cada vez mais desenvolvidos. Refugiamo-nos na cama. Choramingamos e queixamo-nos. Falamos da nossa dor, talvez todos os dias. Um “Como é que isso vai?” pode espoletar um verdadeiro catálogo até das dores mais pequenas. É verdade que às vezes oferecemos a dor como sacrifício pelos outros, mas na maioria das vezes não o fazemos.

O sofrimento é um dos grandes mistérios. Ocupa não só as grandes mentes de todos os tempos, mas também o meu e o seu. Uma das Quatro Nobres Verdades do Budismo é sobre o sofrimento e de como usar o Nobre Caminho Octuplo para o evitar. O Hinduísmo vê o sofrimento como uma espécie de punição por mau comportamento. O Islão diz que os fiéis devem aguentar o sofrimento como uma prova da sua fé.

Só o Cristianismo vê o sofrimento como redentor, como uma forma de partilhar no sofrimento de Cristo na Cruz e de Lhe diminuir o sofrimento. Os católicos também acreditam que o sofrimento pode ser oferecido para diminuir a dor dos outros. Esta noção é perfeitamente estranha à maioria das religiões.

Uma leitora discordou veementemente de algumas das ideias no artigo sobre a Audrey. Simplesmente não era capaz de conceber que a sua história fosse verdadeira. Avisou que os adultos às vezes impõem as suas ideias aos mais novos e perguntou se os pais da Audrey não teriam incutido nela uma espécie de religiosidade precoce. A leitora, que é judia, questionou se às vezes os adultos não vêem coisas nas crianças que de facto não estão lá. É uma preocupação compreensível.


Uma vez dei uma entrevista sobre a Audrey a uma rádio católica. A entrevistadora sugeriu que eu investigasse o caso de outra menina com o mesmo nome, Audrey Santo, à volta da qual tinha crescido uma certa devoção. Depois de um acidente de natação, esta menina desenvolveu uma condição chamada mutismo acinético, que a deixou incapaz de se mexer e de falar. A sua mãe levou-a a Medjugorje e anunciou que a rapariga, a pedido da Virgem Maria, tinha aceite tornar-se uma alma vítima. Dizia-se que tinha as chagas, que as imagens choravam, e por aí fora. O bispo local sugeriu cautela em relação a toda a história.

Mas os casos sobre os quais escrevi não têm nada a ver com isto. Não há estátuas a chorar, nem chagas. Só crianças normais em circunstâncias extraordinárias. Eram antes de mais crianças, e não os objectos de imaginações religiosas. Nenhuma delas queria estar doente ou sofrer.

O Brendan era a alma de todas as festas. Vi fotografias de ele a dançar em casamentos com amigos e familiares a aplaudir. Adorava desporto. A Audrey tinha de facto um sentido aguçado de propriedade e chegava a evitar ir a festas de anos com medo de ouvir palavrões, mas não deixava de ser uma menina normal que brincava com as irmãs e com as amigas. A Margaret adorava ver os outros meninos a brincar no parque. Eram crianças normais a quem tinham sido dadas grandes cruzes para carregar – e grandes dons para as ajudar a carregá-las.

São os santos do mundo actual. Mais do que isso, são santos do nosso tempo, porque a outra coisa que noto sobre eles é que nasceram em grandes desertos espirituais. Enquanto as suas famílias eram em larga medida católicas praticantes, estas crianças cresceram num meio social de poder, influência e riqueza, que tende a fugir de religião. São os verdadeiros desertos dos tempos de riqueza.

O Brendan era amigo do James Pavitt, ex-chefe do serviço clandestino da CIA. Erik Prince, o polémico fundador do serviço de segurança privada Blackwater chorou como um bebé quando soube que Brendan tinha morrido, e transportou toda a sua grande família do Médio Oriente para irem ao funeral.

A Audrey nasceu numa família influente em França, com ligações e interesses nos Estados Unidos e noutros países.

A Margaret Leo tornou-se muito amiga de Clarence Thomas, o juiz do Supremo Tribunal. A sua fotografia ainda está na sua secretária, dentro de uma moldura feita por ela, de pauzinhos de gelado.

Quando pensamos em crianças a quem foram dados grandes dons espirituais, normalmente pensamos em pastores, ou algo parecido, como em Fátima e em Lourdes. Mas estas crianças eram diferentes. Estas receberam muitos bens materiais, excelentes oportunidades de educação e conhecimentos sociais. Deus colocou estas pequenas almas sofredoras nestes locais e neste tempo por uma boa razão, para que as suas histórias possam tocar as almas que habitam as casaronas de Great Falls, McLean, Paris e mais além.

Audrey Stevenson, Margaret Leo, Brendan Kelly, rogai por nós.


Austin Ruse é presidente do Catholic Family & Human Rights Institute (C-FAM), sedeado em Nova Iorque e em Washington D.C., uma instituição de pesquisa que se concentra unicamente nas políticas sociais internacionais. As opiniões aqui expressas são apenas as dele e não reflectem necessariamente as políticas ou as posições da C-FAM.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 3 de Julho 2013 em The Catholic Thing)

© 2013 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 5 June 2013

As Pequenas Almas Sofredoras, 2ª parte: Margaret Leo de McLean

(Este é o segundo artigo de Austin Ruse sobre este tema. O primeiro encontra-se aqui)

Porque é que um juiz do Supremo Tribunal tem em cima da sua secretária dois desenhos feitos por uma menina que morreu há seis anos? E porque é que o director de um influente “think tank” em Washington D.C. rezou por intercessão da mesma rapariga para salvar o seu pai de um tumor cerebral? E que dizer do importante pensador de Washington que lhe reserva uma devoção particular?

Margaret Leo sofria de uma grave deficiência provocada por espinha bífida, que a deixou paralisada da cintura para baixo. Partes do seu cerebelo e tronco cerebral estavam pressionados contra a abertura da sua coluna. Tinha um tubo no cérebro, que lhe causava muitas dores, para garantir a circulação do líquido cefalorraquiano, sem o qual a sua cabeça incharia, causando-lhe a morte. Barras de titânio foram inseridas para lhe endireitar a coluna, mas acabaram por dobrar-se. Com o passar do tempo uma dessas barras começou a tentar irromper através do seu pescoço.

Vomitava regularmente e não controlava nem a bexiga nem os intestinos. A boca era tão sensível que apenas conseguia comer alimentos moles, como massa.

Mas havia algo que atraía a ela, que era desprovida de poder, tanto os poderosos como as pessoas comuns.

A amizade alegre era o seu dom especial. Interrogava incansavelmente quem lhe aparecesse pela frente no elevador, sempre com um firme e grande sorriso: “Como é que te chamas?” “Para onde vais?”, “Quando é que fazes anos?”. Era notório que estava mesmo interessada em saber. Não era uma rapariga de artifícios. Isso é algo que até atrai juízes do supremo tribunal.

Mas o que essas pessoas não sabiam, porque ela nunca falava nisso, nem mesmo à sua família, era que provavelmente estava a sofrer dores inimagináveis. Pensem numa barra de titânio a ser dobrada pela vossa coluna e prestes a irromper pela pele do pescoço; ou um tubo dentro do cérebro.

Não era propriamente uma “atleta espiritual”. A sua fé era muito infantil. Toda a vida rezou em voz alta a simples oração que a sua mãe lhe tinha ensinado em criança: “Jesus, obrigado por teres vindo a mim na Eucaristia”.

Adorava padres. Aos três anos perseguiu o bispo no fim da missa, gritando: “Papa. Papa. Papa”. Insistia em entrar na sacristia depois da missa para falar com os padres. Sabia sempre quem era o santo do dia. Durante dois felizes anos preparou-se para o Crisma, que recebeu apenas alguns meses antes de morrer.

Na manhã do dia 5 de Julho de 2007 o seu pai reparou que estava com dificuldades a respirar. Ela disse que estava bem, mas ele chamou a ambulância de qualquer maneira. Morreu a caminho do hospital – o tubo no cérebro tinha falhado.

As cerimónias fúnebres desta rapariga de 14 anos estavam repletas de pessoas e rapidamente começaram a circular histórias sobre ela. Homens adultos manifestaram-se profundamente comovidos, alguns ainda levam consigo a sua pagela.

Depois começaram a ocorrer coisas… alguns chamam-lhes milagres.

Primeiro começaram a surgir medalhas do Sagrado Coração nos lugares mais insuspeitos – numa taça de rebuçados de um hotel em São Francisco, debaixo de uma máquina de lavar numa casa de férias, no assento de um lugar de avião.
 
Margaret Leo
Depois, seis semanas após a sua morte, uma ambulância conduziu William Shaunessy (nome falso) à urgência do hospital. Estava a ter convulsões. Um raio-X revelou um tumor enorme no cérebro. Entrou em coma e os médicos temiam a existência de cancro. A sua mulher preparou-se para a sua morte.

Meses antes Shaunessy tinha ido ver um jogo de basebol do seu neto. Leonard Leo, vice-presidente executivo da Federalist Society e um dos conservadores mais influentes da capital, também lá estava.

Shaunessy falou longamente com Margaret, a menina de cadeira de rodas que era filha de Leonard e Sally Leo. A sua simpatia, a sua profunda atenção e a sua “santidade”, como mais tarde ela a descreveu, tocaram-no profundamente. Quando soube da sua morte comentou: “Está certamente no Céu”.

Quando Shaunessy estava às portas da morte, nesse dia 26 de Agosto, a sua família orou por intercessão de Margaret Leo. Acontece que esse era o dia de anos de Margaret. Dentro de poucos dias o “grande tumor” no seu cérebro estava reduzido a uma pequena mancha de sangue seco. Os médicos não o sabem explicar.

O terceiro milagre envolve o seu irmão mais novo, Francis, que foi concebido pouco depois de ela ter morrido. Para choque da família o nascituro foi diagnosticado com precisamente a mesma maleita de que Margaret tinha sofrido, espinha bífida, algo que raramente surge na mesma família duas vezes.

Sally Leo rezou por intercessão de Margaret, pedindo apenas que o rapaz não precisasse de colocar um tubo no cérebro, precisamente a coisa que tinha feito sofrer tanto Margaret e eventualmente levado à sua morte. Mas aconteceu que ele veio mesmo a precisar de um. Dentro de um ano chegou o pesadelo. O tubo falhou e a cabeça de Francis começou a inchar perigosamente.

Antes de a cirurgia começar o inchaço diminuiu. Como precaução os médicos deixaram o tubo lá dentro, caso voltasse a ser preciso. Cinco anos depois continua lá, inutilizado.

Porque é que o juiz Clarence Thomas mantém uma foto dela em cima da sua secretária? E como é que ela comoveu tantos outros? Porque carregou a sua imensa cruz com uma alegria infecciosa, sim, mas também porque se interessava genuinamente por todos aqueles com quem se encontrava, desde o poderoso ao desconhecido.

Em casa dos Leo há uma fotografia de Margaret a conversar com Virginia, a mulher de Thomas, num evento em Washington, o tipo de evento onde ninguém se olha nos olhos, estando sempre à procura de alguém mais importante com quem ir falar.

Aquilo que se nota na foto é o aspecto central da vida de Margaret. Ela está completamente absorvida pela Virginia. Para Margaret, naquele momento, não existia mais ninguém na sala e foi assim que ela viveu a sua vida. Esta menina, completamente desprovida de poder, possuía, afinal, o maior poder de todos: amor. Talvez o maior dom dela tenha sido a capacidade de ver Cristo em todas as pessoas com quem se cruzava. Não podemos deixar de pensar que agora é na cara de Cristo que as vê.

Margarte Leo de McLean, rogai por nós.


Austin Ruse é presidente do Catholic Family & Human Rights Institute (C-FAM), sedeado em Nova Iorque e em Washington D.C., uma instituição de pesquisa que se concentra unicamente nas políticas sociais internacionais. As opiniões aqui expressas são apenas as dele e não reflectem necessariamente as políticas ou as posições da C-FAM.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 31 de Maio 2013 em The Catholic Thing)


© 2013 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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