Friday, 3 June 2022

Novo Patriarca para a Antiga Igreja do Oriente

A Antiga Igreja do Oriente tinha de escolher o seu novo Patriarca entre seis candidatos.

Calculo que tenham seguido o critério mais lógico para a escolha, optando pela barba mais fixe e mais comprida.

Longa Vida a Mar Yaqoob III Daniel! Que conduza a sua Igreja com sabedoria e ajude a pôr fim ao cisma com a Igreja Assíria do Oriente, contribuindo assim mais um pouco para a unidade total dos cristãos que todos desejamos. 

A Antiga Igreja do Oriente separou-se da Igreja Assíria do Oriente em 1964, numa disputa sobre a forma de escolher o Patriarca. Até então, na IAO a escolha era sempre hereditária, passando do Patriarca para um sobrinho. Infelizmente, a separação reflectiu também divisões internas tribais/familiares. Antes desta eleição falou-se novamente numa tentativa de aproximação e reunificação. Esperemos que isso agora ande para a frente. 

Os seis bispos do sínodo. Mar Yaqoob à
direita, ao centro, com a barba mais fixe.
Estas igrejas servem fiéis sobretudo da região do Iraque, Turquia e Síria e, hoje em dia, uma grande diáspora no Ocidente, nomeadamente na Austrália, Nova Zelândia e Estados Unidos. São igrejas canónicas, isto é, têm ordens e sacramentos válidos, mas por razões históricas não pertenciam a nenhuma comunhão de Igrejas, nem as ortodoxas bizantinas, nem as ortodoxas pré-calcedónias, nem a Católica. Esse facto deixou-as num isolamento fragilizador, que levou a terríveis perseguições e massacres, mais do que as restantes igrejas cristãs na região. São João Paulo II referiu-se à Igreja do Oriente como "Igreja dos Mártires" e isso aplica-se a qualquer destes ramos que entretanto, infelizmente, se separaram entre si. 

Mar Yaqoob III Daniel, (Yaqoob vem de Jacob, que em Português pode ser Tiago) torna-se assim o 110º Patriarca  desta Igreja (uma vez que eles contam com os patriarcas anteriores ao cisma). Era até agora o bispo para as comunidades na Austrália e Nova Zelândia.

Para mais informações sobre a importância religiosa da barba e do cabelo, vejam este artigo que escrevi há mais de 10 anos. 


Wednesday, 1 June 2022

Bem-aventurados os que choram

Randall Smith

“Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados” (Mt. 5,4). No comentário às bem-aventuranças, no livro “Jesus de Nazaré”, o Papa Bento XVI refere que existem dois tipos de tristeza: “Uma que perdeu a esperança, que deixou de confiar no amor e na verdade e, consequentemente, insidia e destrói o homem por dentro; mas há também a tristeza que deriva da comoção provocada pela verdade e leva o homem à conversão, à resistência contra o mal. Esta tristeza cura, porque ensina o homem a esperar e a amar de novo”.

Falando sobre as mulheres aos pés da Cruz, o Papa escreve que “num cenário cheio de crueldade e cinismo ou de conivência gerada pelo medo, permanecem fiéis”. Elas não têm o poder de mudar a situação geral, ou prevenir o desastre, mas ao recusar deixar os seus corações endurecerem-se perante a dor de outro, “estando com” e “sofrendo com” o inocente que foi injustamente condenado, elas colocam-se do seu lado, ao seu lado. Através da sua paixão – no sentido etimológico de partilhar da Sua paixão – e através da sua recusa de virarem as costas ou de deixarem que a revolta, o medo ou a vingança endureçam os seus corações, abriram-se ao amor do Deus que é amor.

Que mais poderiam elas fazer? Fugir, com medo, como os outros discípulos? Sair com armas e matar todos os que achincalhavam Cristo? Interromper uma conferência de imprensa para se queixarem das autoridades judaicas e romanas? Alguma dessas coisas teria ajudado a dar continuidade ao Reino que o Senhor veio estabelecer? Ou teria simplesmente tornado tudo incomensuravelmente pior?

Facilmente imaginamos a reacção de um transeunte: “Por amor de Deus, mulheres, parem de chorar e façam alguma coisa! Peguem numa espada, cortem uma orelha a alguém! Vinguem-se do Sinédrio e do governo romano corrupto”. E que mais é que estas mulheres poderiam responder para além de: “Por amor de Deus, não. Lamentamos, mas está muito enganado”.

“A tristeza de que o Senhor fala é o não-conformismo com o mal, é um modo de opor-se àquilo que todos fazem e que se impõe ao indivíduo como modelo de comportamento. O mundo não suporta este tipo de resistência, exige que se participe. Esta tristeza parece-lhe uma denúncia que se opõe ao aturdimento das consciências”.

Recentemente uma amiga enviou-me um link para um artigo de Elizabeth Bruenig chamado “Uma cultura que mata as suas crianças não tem futuro”. Na sua mensagem a minha amiga comentou “tem piada, pensava que isto ia ser sobre o aborto”. Não era. Não podemos chorar as crianças abortadas. O mundo exige conformismo e chorar essas crianças seria considerado uma acusação contra consciências que se tornaram aturdidas.

Assim, um editorial publicado nesse mesmo dia no L.A. Times tinha como título: “A Califórnia deve tornar-se um porto de abrigo para abortos? Não pode não fazê-lo”. Uma cultura que se tornou tão confortável com a ideia de matar crianças não deve sentir-se tão chocada quando descobre que outras pessoas estão a matar crianças.

No seu artigo, a senhora Bruenig fala várias vezes de uma “cultura de morte”. Ecos do Papa São João Paulo II! Mas no seu caso este termo não se referia aos milhões de bebés abortados todos os anos, ou sequer aos milhares de jovens dos guetos que morrem anualmente em violência relacionada com gangues. Falou também de “declínio moral”, mas para ela isso significa o aumento do número de pessoas que possuem armas.

Memorial para as vítimas do massacre de Uvalde
Eu não gosto de armas. Mas as estatísticas citadas por pessoas como David Frum, no seu artigo “A América tem Sangue nas Mãos” sugerem que estou em minoria. “Os Estados Unidos têm posto mais e mais armas em mais e mais mãos, 120 armas por cada 100 pessoas neste país”, escreve Frum. É uma construção estranha: “pôr mais armas em mais mãos”? Foi alguém que as pôs lá?

Eu poderia dizer: “A América pôs mais material pornográfico em mais mãos este ano do que nunca!” Mas aí alguém poderia referir que esse material foi adquirido. Parece que existe mesmo um mercado para isso. Posso não gostar (e não gosto), mas como há tantas pessoas dispostas a pagar, calculo que elas gostem. Presumo, por isso, que se isto fosse a votos eu perderia – a não ser que antes conseguisse converter as suas mentes e os seus corações.

Eu acho as minhas convicções fantásticas. Por isso é que as tenho. Mas às vezes há quem discorde. Aprendi, ao longo dos anos, que isto não significa que essas pessoas sejam necessariamente más ou estúpidas. Simplesmente discordamos. É importante saber discordar sem ser desagradável, sem ódio e sem recriminação.

A autora do tal artigo sobre uma cultura que mata as suas crianças, em contraste, escreve isto: “Depois há algumas pessoas que dizem que todas as coisas terríveis – incluindo esta coisa insuportável que nenhuma civilização deveria ter de aguentar, esta lotaria assassina e demoníaca de alunos – deve simplesmente continuar. E essas pessoas estão a ganhar.” Fiquei a pensar: quem são essas pessoas? Quem é que diz que “todas as coisas terríveis devem continuar”? Não devo ter apanhado essas entrevistas.

Este tipo de comentário ajuda? Irá trazer a paz que nós – todos nós, à sua maneira – tão desesperadamente deseja?

Tanta revolta, tanto ódio, tanta desconfiança, tanta vilificação desnecessária: talvez seja por isso que tantas pessoas compram armas. Pessoalmente, preferia que não o fizessem, mas as suas escolhas livres não dependem de mim.

Então, talvez haja momentos em que temos simplesmente que parar e chorar: sofrer com os outros, não virar as costas, nem apontar dedos de recriminação e culpa para anestesiar o sofrimento, mas simplesmente sentarmo-nos juntos e chorar. Não faltará tempo para voltarmos a arrancar olhos uns aos outros, amanhã, na próxima semana, ou no próximo mês.

“Quem não endurece o coração perante o sofrimento e a necessidade do outro, quem não abre a alma ao mal, mas sofre sob a sua pressão dando assim razão à verdade, a Deus, esse escancara a janela do mundo para fazer entrar a luz”. (Bento XVI).


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 31 de Maio de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



Monday, 30 May 2022

Igrejas ortodoxas na Ucrânia - Em que ficamos?

Metropolita Onofre
Vamos lá então tentar perceber o que se está a passar nas igrejas na Ucrânia.

A Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscovo (vamos manter este termo, para simplificar), fez um Concílio "surpresa" em que disse que não concorda com a posição do Patriarca de Moscovo sobre a guerra, e que mudou os seus estatutos para reflectir a sua independência e autonomia.

Isto é uma ruptura total com Moscovo? Parece, mas nem tudo o que parece é. Pode não ser, de facto... Faltou usar o termo autocefalia, o que não é por acaso.

Por outro lado, na sua primeira celebração depois deste concílio, o metropolita dessa Igreja, Onofre, deixou de comemorar apenas o Patriarca de Moscovo e passou a comemorar e referir todos os líderes de Igrejas Ortodoxas autocéfalas. Ora, isso é algo reservado a líderes de igrejas autocéfalas, por isso parece que na prática ele quer impor-se como tal. Já lá vamos…

Entretanto, nas outras resoluções do Concílio a Igreja leal a Moscovo bateu na Igreja Ortodoxa da Ucrânia autocéfala e no Patriarcado de Constantinopla, chegando a sugerir que a acção desta última ao reconhecer a autocefalia da Igreja liderada pelo Metropolita Epifânio é a razão da guerra. Interessantemente, na tal celebração Onofre não comemorou os líderes das Igrejas que reconheceram explicitamente a autocefalia da Igreja liderada por Epifânio, seguindo assim a linha de Moscovo.

Mas nas mesmas resoluções, depois de bater forte e feio nessa Igreja e de dizer que ele nem é verdadeiramente uma igreja, Onofre estende uma mão para diálogo.

O que é que ele pretende? Não é claro, mas parece que está a tentar vencer em todos os tabuleiros. Quer agradar aos ucranianos rompendo com Moscovo, mas quer manter-se líder de uma Igreja autocéfala em território ucraniano, apesar de já lá existir uma, reconhecida por Constantinopla. O problema para Onofre é que tudo indica que vai ficar isolado. O Governo ucraniano já tem uma Igreja autocéfala com a qual colabora, não tem qualquer interesse em promover outra, sobretudo uma manchada por ligação próxima a Moscovo; os países ortodoxos que reconheceram a Igreja liderada por Epifânio certamente não vão dar qualquer crédito a uma estrutura paralela e as que não reconheceram, por lealdade a Moscovo, não têm por isso qualquer razão para reconhecer a de Onofre como autocéfala.

E Moscovo? Moscovo claro que não aceita. Aliás, a resposta de Moscovo, que convocou um Sínodo de emergência para analisar a questão, é hilariante e pode ser resumida da seguinte forma.

1)   
 
Não se passou nada na Ucrânia, a Igreja apenas reafirmou o status quo, que é de independência subjugada a Moscovo.

2)     Compreendemos que a Igreja Ortodoxa da Ucrânia do Patriarcado de Moscovo tenha feito o que fez (que na verdade não foi nada… ver o 1º ponto), porque está sobre enorme pressão de nazis, cismáticos e os media internacionais. Têm por isso a nossa solidariedade e compreensão pelo que fizeram, que não foi nada.

3)      As decisões que foram tomadas pela Igreja Ortodoxa da Ucrânia, que já afirmámos serem apenas a reafirmação do status quo, têm de ser analisadas por nós, apesar de não se ter passado nada.

4)      Ainda que, hipoteticamente, se tivesse passado alguma coisa (que não se passou) é indiferente, porque quem decide o estatuto da Igreja Ortodoxa da Ucrânia somos nós e agora temos mais que fazer, muito obrigado.

É mais ou menos isso, como explico em maior detalhe aqui.

Resumindo, a Igreja Ortodoxa da Ucrânia do Patriarcado de Moscovo está a tentar desesperadamente manter-se à tona de água. Moscovo vai fingindo que não, mas já perdeu toda a influência que tinha na Ucrânia. Nessa perspectiva, esta guerra inventada por Putin e apoiada por Cirilo, resultou na liquidação de um dos maiores instrumentos de influência que a Rússia de facto tinha no país. Isso não vai voltar atrás.

E finalmente, a Igreja autocéfala fica agora numa posição mais confortável para as negociações com a Igreja de Onofre. Epifânio já disse, na homilia de ontem, que está disposto a sentar-se à mesa com Onofre e os seus representantes, para tentar sanar as divisões, mas só o disse depois de ter mandado uma série de “galhardetes” à Igreja ligada a Moscovo.

Lendo e analisando tudo isto, há uma coisa que salta perfeitamente à vista. Falta muito Cristo aqui neste "cristianismo".

Quanto ao futuro, é ir vendo. Muita coisa ainda irá acontecer.

Entretanto não se esqueçam que todas estas declarações, e muitas outras, estão agrupadas aqui.

Thursday, 26 May 2022

Nossa Senhora de Javelin

Ora aqui está uma coisa que não se vê todos os dias!

O Conselho das Igrejas Ucranianas, uma organização inter-religiosa que representa as religiões seguidas por 95% da população, protestou oficialmente contra a pintura de um mural gigante, em Kiev, de Nossa Senhora com um lança-rockets Javelin.

A imagem, conhecida como Sta. Javelin, tem aparecido aqui e ali nas redes sociais e refere-se à arma que é usada para neutralizar carros de combate (tanques) russos.

Uma exibição pública destas, com patrocínio estatal, parece desadequada, sobretudo quando do outro lado nos queixamos da utilização abusiva da religião para incentivar a guerra, pelo que se compreende totalmente o protesto dos líderes religiosos.

O texto do protesto está aqui, basta descerem até ao dia 23 de Maio.

Leva-nos mais longe - Filme sobre as Equipas de Nossa Senhora

A minha mulher Ana, e eu, tivemos a honra de sermos entrevistados para o filme "Leva-nos mais longe", sobre as Equipas de Nossa Senhora e as Equipas de Jovens de Nossa Senhora. 

Ambos fizemos parte das EJNS, e como casal fazemos parte das ENS, e portanto os movimentos são uma parte importantíssima da nossa vida. 

O filme está prestes a estrear e aconselho a todos a ir ver. Aqui podem encontrar informação sobre bilhetes, horários, e mais detalhes do filme.

Se fazem parte das ENS, façam como nós e desafiem a vossa equipa a ir junta, não se irão arrepender!

Wednesday, 25 May 2022

Uma Cerveja com C.S. Lewis: “Uma Conversão Contrariada”

Brad Miner

Julgo que nenhum autor protestante tem sido tão citado em artigos do The Catholic Thing como C.S. Lewis (1898-1963). Também deve ser verdade que para além da sua própria obra, ninguém nos meios de comunicação contemporâneos tem feito mais para celebrar Lewis e o seu trabalho do que Max McLean, fundador e diretor artístico do Fellowship for Performing Arts (FPA), de Nova Iorque.

O seu mais recente projecto cinematográfico, feito com o realizador Norman Stone, é “The Most Reluctant Convert: The Untold Story of C.S, Lewis”, em que McLean, que faz de Lewis, narra o percurso do autor do ateísmo para o Cristianismo. E que evangelizador que ele era. No Século XX só o Billy Graham e o Papa São João Paulo se comparam.

Já fiz crítica de duas peças da FPA baseadas em livros de Lewis: “O Grande Divórcio” e “Shadowlands”, e com a minha mulher vi o “Vorazmente Teu”, em 2006 – antes de este site ser criado. Nessa produção McLean foi soberbo a fazer de Screwtape, o demónio mais velho a instruir o seu aprendiz, Wormwood.

O “Most Reluctant Convert” começa e acaba quebrando a chamada “quarta parede”, que separa os actores do público. McLean, na personagem de C.S. Lewis, sai da maquilhagem, passa pelos técnicos, as câmaras e a iluminação e, olhando directamente na nossa direção, começa a contar a história do grande autor. No final sai de casa do próprio Lewis em Oxford “The Kilns” e recebe os aplausos, muito merecidos, da equipa de filmagem.

McLean descreve o filme como “cerebral, mas de acção rápida”. Na verdade, essa é uma das chaves para a sua grandeza.

Através de retrospectivas vemos C.S. Lewis quando era menino (desempenhado por Eddie Ray Martin), como um jovem adulto (Nicholas Ralph) e, claro, com McLean a fazer de homem maduro, a tentar reconciliar-se com os acontecimentos e as verdades que o puxam de um cepticismo ateu rumo à fé cristã.

Foi o livro “Surpreendido pela Alegria” (1955) que deu a McLean a ideia de escrever uma peça sobre a sua conversão. Esse livro, bem como o “Mero Cristianismo” (1952) são boas fontes para a história de Lewis e a forma como usou a razão para chegar à crença, e vários momentos que serão reconhecidos por fãs de Lewis estão representados de forma belíssima no filme.

Vemos a morte da sua mãe, Flora (representada por Amy Alexander), o seu pai Albert, castigador e obstinado (Richard Harrington), e passagens da sua vida como militar na I Guerra Mundial. Todos estes eventos traumáticos contribuíram para o empurrar para longe da fé. Há ainda cenas da sua educação na adolescência, que ficou a cargo do tutor W.T. Kirkpatrick (David Grant) e a sua formação intelectual em Oxford, mais tarde.

E há ainda alusões ao impacto de G.K. Chesterton, com o seu “O Homem Eterno”, e de George MacDonald, com “Phantastes” – livros que iluminaram a imaginação de Lewis, um classicista que viria a escrever alguns dos romances de fantasia cristãos do Século XX, para adultos e para crianças.

Em Oxford, onde foi primeiro aluno e depois professor, conheceu académicos fantásticos como Owen Barfield (Hubert Burton), Hugo Dyson (David Shields) e J.R.R. Tolkien (Tom Glenister).

Enquanto intelectuais, estes homens discutiram muitos assuntos, mas sobretudo a fé. Ouvimos Barfield a desafiar a afirmação de Lewis de que Jesus pode ser aceite como um grande mestre, sem que seja necessário acreditar na sua divindade. Barfield explica aqui o esquema do argumento que o próprio Lewis popularizaria, naquilo que é conhecido como o seu “trilema”. Lendo as palavras do Senhor no Evangelho, só podemos concluir que Jesus é louco, mentiroso, ou o Deus. Isto é, não pode simplesmente ter sido um “grande mestre” se as suas reivindicações de divindade eram fraudulentas.

Depois temos o famoso passeio que ele e Tolkien deram certa noite ao longo da Addison’s Walk, em Oxford. Falam de mitos e Tolkien levanta a questão convincente de que a história de Cristo é como todos os mitos que há muito que encantam ambos os académicos, com a excepção de uma coisa: os relatos do Evangelho são verdadeiros. Naquele momento ouvimos o sussurrar das folhas, que começam a cair:

“O vento sopra onde quer. Pode-se ouvi-lo, mas não se pode dizer de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece com todos os que nascem do Espírito” (Jo. 3,8)

Lewis sente o Espírito a mover e nunca mais será o mesmo. Assim ficou conhecido como o “convertido mais desalentado e contrariado de toda a Inglaterra”. Mas a alegria não tardaria a chegar.

O filme não é uma autobiografia exaustiva, e alguns dos notáveis excessos da sua juventude, como quando andou medido com o oculto (“luxúria espiritual”, como ele lhe chamou), aparecem apenas na forma de alusões, mas isso é porque o objectivo de “The Most Reluctant Convert” é de mostrar – em menos de 90 minutos – a forma como Lewis chegou à fé e como as suas lutas internas sobre a verdade de Cristo ajudaram a definir aquilo que seriam os seus argumentos enquanto evangelizador, mais tarde.

“The Most Reluctant Convert” é, sem dúvida, o filme mais inteligente que verá em 2022, mas é também um filme muito belo, fruto da cinematografia de Sam Heasman, em muitos dos locais onde se desenrolou a vida verdadeira de Lewis: The Kilns, claro, mas também a Universidade de Oxford, e Oxfordshire e os seus pubs. “Saúde!”, diz “Jack” Lewis. Para todos nós.

Apesar de todo o charme verdejante do filme, este desenrola-se a uma velocidade alucinante e, quando acaba, recostamo-nos na cadeira, praticamente sem fôlego.

De certa forma, C.S. Lewis foi o Agostinho de Hipona dos nossos tempos, e caso tivesse tido uma reacção positiva aos argumentos de Tolkien para a primazia do Catolicismo (e que não constam do filme), por estes dias talvez o estivéssemos a venerar como santo. (Digo eu, que não sou postulador).

Tanto Lewis como Agostinho usaram, de forma enérgica, todas as armas lógicas que conseguiam contra o Cristianismo… até que cada um deles foi forçado, pela sua bondade e integridade essencial, a entregar-se de corpo, alma e intelecto, a Deus.


Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 24 de Maio de 2022 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de TheCatholic Thing.

 

Tuesday, 24 May 2022

Hospital de Campanha Ep. 6 - Zen, e a arte de ser católico na China

Este sexto episódio do Hospital de Campanha vem a lume no Dia Mundial de Oração pela China, e no dia em que o Cardeal Zen, com os seus 90 anos, foi apresentado em tribunal, depois de ter sido detido, há vários dias, em Hong Kong. 

Para tentar compreender melhor a vida dos católicos na China, e como o Estado os encara, falámos com um padre que esteve vários anos naquele país em missão clandestina. Por isso, e para não comprometer os seus contactos por lá, ele pede para não ser identificado. 

Ouçam e partilhem esta conversa interessantíssima que só pecou por curta, e onde falámos ainda do acordo entre Roma e Pequim para a nomeação de bispos.



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