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Thursday, 23 June 2022

Hospital de Campanha - Episódio 7: Novidades cardinalícias

O Papa Francisco nomeou uma série de novos cardeais, que vão ser elevados ao cargo no próximo mês de Agosto. Neste episódio analisamos essas nomeações e o que significam à luz do pontificado de Francisco. 
Nesta lista não consta nenhum português, mas há muito de interesse para Portugal nos nomeados!

Um dos novos cardeais vem de Timor Leste, é o primeiro deste país. Este facto serve de ponto de partida para falar um pouco sobre os 20 anos da independência do mais novo país lusófono do mundo. 

Por fim, alguns minutos para falar das novidades sobre as Igrejas ortodoxas na Ucrânia e na Rússia, onde se registaram mudanças importantes nas últimas semanas. 


Monday, 30 May 2022

Igrejas ortodoxas na Ucrânia - Em que ficamos?

Metropolita Onofre
Vamos lá então tentar perceber o que se está a passar nas igrejas na Ucrânia.

A Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscovo (vamos manter este termo, para simplificar), fez um Concílio "surpresa" em que disse que não concorda com a posição do Patriarca de Moscovo sobre a guerra, e que mudou os seus estatutos para reflectir a sua independência e autonomia.

Isto é uma ruptura total com Moscovo? Parece, mas nem tudo o que parece é. Pode não ser, de facto... Faltou usar o termo autocefalia, o que não é por acaso.

Por outro lado, na sua primeira celebração depois deste concílio, o metropolita dessa Igreja, Onofre, deixou de comemorar apenas o Patriarca de Moscovo e passou a comemorar e referir todos os líderes de Igrejas Ortodoxas autocéfalas. Ora, isso é algo reservado a líderes de igrejas autocéfalas, por isso parece que na prática ele quer impor-se como tal. Já lá vamos…

Entretanto, nas outras resoluções do Concílio a Igreja leal a Moscovo bateu na Igreja Ortodoxa da Ucrânia autocéfala e no Patriarcado de Constantinopla, chegando a sugerir que a acção desta última ao reconhecer a autocefalia da Igreja liderada pelo Metropolita Epifânio é a razão da guerra. Interessantemente, na tal celebração Onofre não comemorou os líderes das Igrejas que reconheceram explicitamente a autocefalia da Igreja liderada por Epifânio, seguindo assim a linha de Moscovo.

Mas nas mesmas resoluções, depois de bater forte e feio nessa Igreja e de dizer que ele nem é verdadeiramente uma igreja, Onofre estende uma mão para diálogo.

O que é que ele pretende? Não é claro, mas parece que está a tentar vencer em todos os tabuleiros. Quer agradar aos ucranianos rompendo com Moscovo, mas quer manter-se líder de uma Igreja autocéfala em território ucraniano, apesar de já lá existir uma, reconhecida por Constantinopla. O problema para Onofre é que tudo indica que vai ficar isolado. O Governo ucraniano já tem uma Igreja autocéfala com a qual colabora, não tem qualquer interesse em promover outra, sobretudo uma manchada por ligação próxima a Moscovo; os países ortodoxos que reconheceram a Igreja liderada por Epifânio certamente não vão dar qualquer crédito a uma estrutura paralela e as que não reconheceram, por lealdade a Moscovo, não têm por isso qualquer razão para reconhecer a de Onofre como autocéfala.

E Moscovo? Moscovo claro que não aceita. Aliás, a resposta de Moscovo, que convocou um Sínodo de emergência para analisar a questão, é hilariante e pode ser resumida da seguinte forma.

1)   
 
Não se passou nada na Ucrânia, a Igreja apenas reafirmou o status quo, que é de independência subjugada a Moscovo.

2)     Compreendemos que a Igreja Ortodoxa da Ucrânia do Patriarcado de Moscovo tenha feito o que fez (que na verdade não foi nada… ver o 1º ponto), porque está sobre enorme pressão de nazis, cismáticos e os media internacionais. Têm por isso a nossa solidariedade e compreensão pelo que fizeram, que não foi nada.

3)      As decisões que foram tomadas pela Igreja Ortodoxa da Ucrânia, que já afirmámos serem apenas a reafirmação do status quo, têm de ser analisadas por nós, apesar de não se ter passado nada.

4)      Ainda que, hipoteticamente, se tivesse passado alguma coisa (que não se passou) é indiferente, porque quem decide o estatuto da Igreja Ortodoxa da Ucrânia somos nós e agora temos mais que fazer, muito obrigado.

É mais ou menos isso, como explico em maior detalhe aqui.

Resumindo, a Igreja Ortodoxa da Ucrânia do Patriarcado de Moscovo está a tentar desesperadamente manter-se à tona de água. Moscovo vai fingindo que não, mas já perdeu toda a influência que tinha na Ucrânia. Nessa perspectiva, esta guerra inventada por Putin e apoiada por Cirilo, resultou na liquidação de um dos maiores instrumentos de influência que a Rússia de facto tinha no país. Isso não vai voltar atrás.

E finalmente, a Igreja autocéfala fica agora numa posição mais confortável para as negociações com a Igreja de Onofre. Epifânio já disse, na homilia de ontem, que está disposto a sentar-se à mesa com Onofre e os seus representantes, para tentar sanar as divisões, mas só o disse depois de ter mandado uma série de “galhardetes” à Igreja ligada a Moscovo.

Lendo e analisando tudo isto, há uma coisa que salta perfeitamente à vista. Falta muito Cristo aqui neste "cristianismo".

Quanto ao futuro, é ir vendo. Muita coisa ainda irá acontecer.

Entretanto não se esqueçam que todas estas declarações, e muitas outras, estão agrupadas aqui.

Tuesday, 29 March 2022

CNN - Consagração da Ucrânia e da Rússia a Nossa Senhora

Na sexta-feira passada voltei à CNN para falar sobre a Consagração da Ucrânia e da Rússia a Nossa Senhora.
Estive em duas ocasiões diferentes. Aqui podem ver a primeira intervenção, só em voz, durante a própria consagração. Começa à 1h e 38 minutos do vídeo, ou às 16h35, caso se guiem pela hora indicada no ecrã. 
Nessa mesma noite voltei para conversar com a Judite de Sousa sobre o que se tinha passado em Roma e em Fátima, e sobre o contexto religioso do conflito. Podem ver o vídeo aqui. Começa aos 31 minutos do vídeo, 20h37 se se guiarem pela hora no ecrã. 

Saturday, 26 March 2022

Entrevista à Agência Ecclesia, no programa Fé dos Homens

Ontem, dia 25 de Março, passou uma entrevista que dei ao programa da Agência Ecclesia, na RTP2, na rubrica "A Fé dos Homens". No final da conversa sobre a Ucrânia e a Rússia, e sobre a consagração, ainda comentei o Evangelho de domingo.

Friday, 18 February 2022

Dimensões religiosas da crise na Ucrânia

A situação de tensão que se vive neste momento na Ucrânia, com a ameaça de uma invasão russa, não é um conflito religioso. Isso deve ficar bem claro à partida. Mas tal não significa que não haja dimensões religiosas para este problema. E há. Neste artigo vou tentar abordar algumas delas.

 1.      Choque de civilizações, mais ou menos

Depois de décadas de Guerra Fria o mundo convenceu-se de que a religião tinha deixado de desempenhar um papel importante nas relações internacionais. O mundo enganou-se. A destruição das Torres Gémeas foi apenas o mais alto soar de um alarme que já se fazia ouvir desde os anos 80, quando os movimentos árabes se começaram a transformar de marxistas em islamitas.

Muitos passaram então a adoptar a visão catastrofista do choque de civilizações, antevendo como inevitável um conflito entre o mundo cristão e o mundo muçulmano. É verdade que em muitas partes do mundo esse conflito existe, basta ver a situação em muitos países do centro de África, onde o norte muçulmano encontra o sul cristão.

Mas convém não esquecer que alguns dos piores conflitos da história foram travados entre “irmãos de fé”. E isso não nos deve surpreender, porque tanto a história macro como a história das famílias mostra bem que as discussões mais severas, mais duradouras e muitas vezes mais sangrentas – seja metaforicamente, seja literalmente – são entre irmãos. Isto acontece nas famílias e acontece nos países. Olhemos para a Guerra Civil de Espanha, que se passou aqui tão perto, mas também para a nossa própria história.

Não deixa de ser curioso, por isso, e trágico, que a maior ameaça à paz mundial neste momento se passe no Leste da Europa, opondo dois países que partilham um historial de Cristianismo intimamente ligado. Foi a Kiev que chegou a fé em Jesus que depois seguiu para Moscovo e se espalhou por toda aquela região. O conflito na Ucrânia pode ter, por isso, algumas dimensões religiosas, que iremos ver com mais detalhe, mas não pode ser descrito como um choque entre duas civilizações religiosamente diferentes.

Contudo, o problema pode ser visto de outro prisma, da civilização não no seu aspecto religioso, mas cultural. Uma significativa parte da Ucrânia, temendo a influência de Moscovo, quer voltar-se para o Ocidente, abraçando as suas instituições e estilo de vida. Nesse sentido, ainda que passado a leste, entre dois países de leste, o conflito pode ser visto como representando o choque entre oriente e ocidente.

 2.      A religião neste conflito

Disse no primeiro ponto que a Ucrânia e a Rússia partilham uma história de Cristianismo. É verdade, mas a coisa não é assim tão simples.

De facto, o Cristianismo bizantino entra naquela parte do mundo através do Grão Príncipe Vladimir, de Kiev, que manda baptizar todo o seu povo e envia missionários para leste. Em breve grande parte da actual Rússia abraçou o Cristianismo.

Mais tarde, porém, Moscovo tornava-se o centro do Cristianismo de leste que, depois do grande cisma de 1054 viria a tornar-se o mundo ortodoxo.

Com o cisma, Constantinopla assumiu-se como a “nova Roma”, uma vez que a verdadeira Roma teria caído em heresia, segundo a sua visão. Mas quando Constantinopla cai nas mãos dos muçulmanos, tornando-se Istambul, começa a circular por Moscovo a ideia de que a “terceira Roma” devia ser ali, na capital de um grande império que era o garante da Ortodoxia cristã no mundo.

É assim que Moscovo continua a encarar-se não apenas como mais um Patriarcado inter pares no mundo Ortodoxo, mas como a principal Igreja. O problema para os Russos que partilham desta visão é que embora a cidade tenha caído, o Patriarcado de Constantinopla manteve-se e o verdadeiro primus inter pares ortodoxo continua a residir ali, apesar de ter na cidade pouco mais do que cinco mil fiéis, comparados com os 200 milhões de Moscovo.


O período soviético veio congelar as pretensões da Igreja Russa, que foi sujeitada a uma perseguição impiedosa, mas infelizmente quando esta foi restaurada, em vez de insistir numa saudável separação e distância, a Igreja deixou-se envolver com o Estado e em troca da protecção de que goza corre sempre o risco de ser usada para benefício dos projectos e intenções do Kremlin e do seu homem forte, Vladimir Putin.

Quando a Ucrânia se tornou independente a sua Igreja Ortodoxa continuava sujeita à hierarquia em Moscovo. Mas a tradição na Igreja Ortodoxa é de “uma nação, uma igreja”, e por isso alguns bispos ucranianos começaram a reivindicar a criação da sua própria igreja ortodoxa.

O resultado foi uma confusão. Em 1990 formou-se a Igreja Ortodoxa Autocéfala da Ucrânia e, dois anos mais tarde, a Igreja Ortodoxa da Ucrânia – Patriarcado de Kiev. As duas eram rivais, unidas apenas na sua oposição à Igreja Ortodoxa da Ucrânia – Patriarcado de Moscovo, que era, e é, a Igreja Ortodoxa que se mantém ligada à igreja russa.

Nas bancadas, a observar estas guerras internas e a comer pipocas, estavam os membros da Igreja Greco-Católica da Ucrânia, que é a maior Igreja oriental autónoma em comunhão com o Papa, representando cerca de 10% da população.

A resposta de Moscovo perante a criação das igrejas autónomas russas foi de desprezo. Eram hereges e não reconhecidas canonicamente pelo resto do mundo ortodoxo. O Patriarcado russo continuava a insistir que era a única autoridade legítima ortodoxa na Ucrânia. Mas tudo isso mudou em 2018, quando o Patriarca de Constantinopla concedeu à Igreja Ucraniana o tomos, isto é, o reconhecimento oficial de autocefalia. Inteligentemente, as duas Igrejas ucranianas fundiram-se nesse momento para formar uma única Igreja autocéfala na Ucrânia, que imediatamente teve o reconhecimento e o apoio do Estado, ansioso para se livrar de vez da influência de Moscovo. Claro que isso é mais fácil dizer do que fazer, e houve muitos padres, monges, bispos e comunidades que se mantiveram fiéis a Moscovo, por variadíssimas razões.

Como se pode ver a dimensão religiosa aqui não está na raiz do conflito actual, que tem muito mais a ver com questões económicas (recursos naturais) e geopolíticas (com a Rússia a querer manter e alargar a sua esfera de influência), do que com igrejas, mas não sendo a causa é uma dimensão que complica ainda mais um problema que já de si é difícil de resolver.

3.      O tribalismo no cristianismo oriental

E chegamos assim ao terceiro ponto, que é o perigo sempre presente do tribalismo no Cristianismo oriental.

Os católicos de tradição latina têm uma certa aversão às igrejas nacionais. Mas a história ditou que fosse essa a lógica a imperar no cristianismo oriental. Assim vemos que os ortodoxos não têm uma Igreja, com um líder, mas uma multiplicidade de igrejas nacionais ou étnicas, cada uma com o seu próprio líder. Assim, existe a Igreja Ortodoxa da Grécia, da Roménia, da Bulgária, da Letónia, etc., cada uma com o seu líder, seja Patriarca ou não, e todas em comunhão umas com as outras, reconhecendo no Patriarca de Constantinopla uma primazia de honra, que pouco tem a ver com a primazia do Papa na Igreja Católica.

Esta realidade leva a uma grande riqueza em termos de tradição e liturgia, por exemplo, uma vez que a descentralização promove a variedade. Mas tem também um enorme senão, que é a promoção do tribalismo cristão.

Este tribalismo tem duas grandes vertentes negativas. A primeira é mais estrutural, que é o facto de criar obstáculos à evangelização. Uma Igreja que se identifica com uma nação ou com uma etnia torna-se imediatamente menos atractiva para um convertido do que uma igreja que é universal. O resultado prático é que a Igreja Católica de rito latino, que sempre se viu mais como universalista do que étnica, cresceu de uma forma absolutamente desproporcional, enquanto as igrejas ortodoxas – não obstante alguns casos de sucesso de evangelização – continuam remetidas muito à sua própria realidade étnica ou nacional.

Isto é muito aparente nas Igrejas cristãs de países de maioria muçulmana, como a Igreja copta ou a igreja maronita, melquita, ou siríacas, no Médio Oriente. E assim vemos que quando um árabe muçulmano se quer converter, normalmente acaba por entrar para uma igreja evangélica, ou para a Igreja Católica, uma vez que as locais, apesar de serem originárias daquele espaço geográfico, estão de tal forma identificadas com etnias e tradições culturais próprias, que o convertido se sente sempre como um estrangeiro.

Mas o segundo aspecto negativo é mais conjuntural e imediato no seu perigo, que é a cooptação da Igreja pelo Estado para servir interesses que não são religiosos. É isso que estamos a ver na Ucrânia, onde as Igrejas ucraniana e russa estão a ser arrastadas – ou a correr de livre vontade – para um confronto, quando na verdade este nada tem de religioso. Esta promiscuidade entre estado e religião tende a cobrar às religiões um preço muito mais alto do que as eventuais vantagens a curto prazo que podem retirar. Esse é um erro com o qual ucranianos e russos já deviam ter aprendido ao longo do último século, mas que infelizmente parecem teimar em querer repetir.

 4.      E a Igreja Católica nisto tudo?

Da próxima em Moscovo?

Por estranho que pareça, a Igreja Católica é afectada por esta crise que se passa entre dois países de esmagadora maioria ortodoxa.

A Igreja Greco-Católica da Ucrânia pode representar só 10% da população, mas é a maior comunidade católica no mundo tradicionalmente ortodoxo. Para terem uma ideia, enquanto existem cerca de cinco milhões de católicos na Ucrânia – mais uma significativa diáspora de greco-católicos em várias partes do mundo – o número de católicos na Rússia é de apenas 140 mil.

Estes católicos ucranianos sofreram duramente, mais até do que os seus irmãos ortodoxos, pela sua fidelidade a Roma. Num momento destes, em que se sentem injustiçados, esperam poder contar com o apoio do Papa.

Mas não podemos esquecer que um dos grandes objectivos ecuménicos deste pontificado é de conseguir visitar a Rússia e ter, lá, um encontro com o Patriarca de Moscovo. É algo que o Papa Bento XVI e, sobretudo, João Paulo II já queriam ter feito e não conseguiram. Se a Igreja Católica for vista a manifestar demasiado apoio à Ucrânia ou a censurar a atitude da Rússia, as probabilidades de esta visita acontecerem reduzem-se a zero. Já o contrário, uma visita do Papa ao Patriarca Kiril num contexto de um cerco à Ucrânia e com a Igreja russa firmemente ao lado de Putin, será vista por muitos católicos ucranianos como uma traição.

Até agora o Papa tem feito aquilo que lhe cabe, que é apelar incansavelmente para uma solução pacífica para esta crise. Se de facto começar um conflito armado em maior escala, veremos se isso é suficiente.

Wednesday, 6 February 2019

A Transformação do “Pulmão Oriental”

Myroslav Marynovych

Embora quase ninguém no mundo ocidental tenha reparado, houve recentemente um desenvolvimento importante para o Cristianismo global. Durante o Sínodo da Igreja Ortodoxa de Kyiv, no dia 15 de Novembro de 2018, foi criada uma nova Igreja Autocéfala da Ucrânia. A medida foi saudada pela Igreja Greco-Católica da Ucrânia.

Estaremos perante mais um caso de “nacionalismo ucraniano” numa altura em que a Rússia se tem tornado cada vez mais ativa? Ou será este o resultado da rivalidade entre Constantinopla e Moscovo por influência sobre a Ucrânia? E o que é que isto representa para os Ortodoxos e para a Igreja Católica?

Na realidade, estamos perante uma mudança gigantesca na Igreja. O Papa João Paulo II convidou a Europa a respirar com dois “pulmões” – o Ocidental e o Oriental. Normalmente sabemos bem o que é o “pulmão ocidental”, mas o que é o oriental?

Entre os séculos XI e XIV a resposta era inequívoca: O oriente cristão estava organizado em torno de dois centros: a Igreja de Constantinopla (incluindo a Grécia e Atenas) e a sua Igreja “filha”, a Igreja de Kyiv, de onde o Cristianismo se espalhou para outras terras orientais.

Entre os séculos XV e XVIII aconteceu uma “deriva continental” tremenda e Moscovo acabou por substituir Kyiv (Kiev). A partir de então o Oriente Cristão passou a estar centrado em Constantinopla e Moscovo. Muscovy absorveu em si mesmo tanto o território da antiga Rus’ de Kyiv como a Metropoly eclesiástica de Kyiv, tornando-se o Império Russo.

As características distintivas da antiga espiritualidade de Kyiv foram rigorosamente limitadas para se conformarem com os interesses do modelo russo de Cesaropapismo. Livros eclesiais “suspeitos” foram queimados. Figuras dissidentes da Igreja foram reprimidas.

Kyiv passou a estar submetida à “Terceira Roma” (Moscovo) tanto debaixo do Czar como das ditaduras comunistas. Foi só com o colapso da União Soviética que o glaciar estalinista descongelou. O que a propaganda do Kremlin classificava de nacionalismos locais, que alegadamente destruíam a unidade cristã, era a libertação dos povos e das suas comunidades eclesiásticas da influência monopolista do mais poderoso dos nacionalismos, o chauvinismo russo.

Na Ucrânia voltou a nascer a ideia de uma Igreja Ortodoxa autocéfala. O Kremlin, e a Igreja Ortodoxa Russa que lhe era subserviente, responderam de duas formas.

A primeira foi uma descriminação metódica contra os desenvolvimentos eclesiais e políticos na Ucrânia. Nas palavras de um observador ucraniano, a propaganda russa usava terminologia aparentemente retirada do “dicionário ocidental de ‘valores humanitários’, mas na verdade operava com ideias-lobisomem, ideias-parasita e ideias-fantasma” (Andriy Baumeister). O mundo ocidental não deu por esta manipulação e, pelo menos até recentemente, aceitou-a de forma acrítica.

O segundo método consistia em propagar o conceito do “mundo russo” avançado por Cirilo, o Patriarca de Moscovo, que na verdade é uma doutrina imperial quasi-religiosa que proclama a “unidade espiritual” de todos os russófonos e povos ortodoxos. 

Isto tornou-se uma forma de legitimar a guerra da Federação Russa contra a Ucrânia, alegadamente em nome da defesa da população russófona. Agora a propaganda do Kremlin está a preparar o mundo para um possível novo ataque contra a Ucrânia, para “proteger” a população ortodoxa.

Assim, hoje estamos a assistir a uma profunda transformação do “pulmão oriental”. O Patriarcado Ecuménico de Constantinopla pressentiu para onde as coisas estavam encaminhadas e tomou a medida pouco comum de intensificar as suas atividades no mundo ortodoxo. Apesar de o Patriarcado Ecuménico ser apenas um “primeiro entre iguais” – e não o líder solitário da Igreja (como acontece com o Papa no Ocidente) – ele assumiu a responsabilidade pelo destino da Igreja ucraniana, que tinha sido separada de Constantinopla.

Há vários sinais de que o Oriente Eslavo do “pulmão Oriental” é ainda largamente disfuncional. O comunismo foi um profundo trauma do qual os povos das antigas repúblicas soviéticas ainda não recuperaram inteiramente. Em muitos lugares as pessoas perderam a cultura cristã e a compreensão do verdadeiro significado da fé cristã. Por isso, ainda poderemos vir a ter notícias preocupantes – tanto políticas como religiosas – de Kyiv. Mas, apesar de tudo, está em curso uma importante reorganização e as mudanças futuras afetarão o mundo cristão por inteiro.

Metropolita Epifânio, da nova Igreja Ortodoxa da Ucrânia
A influência de Constantinopla poderá acabar por ser extremamente importante. Isto já foi manifestado através da promulgação do Estatuto da recém-constituída Igreja Ucraniana, que alterou substancialmente os procedimentos administrativos, democratizando-os.

Até aqui os cristãos ocidentais têm-se preocupado sobretudo com a preservação do status quo com Moscovo, como se o oriente cristão se resumisse à Igreja Ortodoxa Russa. Aos olhos ocidentais isto parecia ser essencial para a paz cristã e o diálogo ecuménico. A diplomacia do Vaticano tem sido cuidadosa em não intervir nos assuntos internos dos ortodoxos.

Mas a situação atual apresenta um desafio claro para a Igreja Católica. Nas palavras do cardeal Christoph Schönborn, de Viena: “Como é que o Vaticano deve relacionar-se com a nova Igreja Ortodoxa da Ucrânia? Se a reconhecer, isso levará a um conflito com o Patriarcado de Moscovo. Se não a reconhecer, isso conduzirá a um conflito com o Patriarcado Ecuménico.”

As Igrejas Ocidentais têm de compreender que o antigo status quo já não é sustentável. A situação exige uma mudança radical das posições atuais, incluindo a reconsideração dos atuais modelos de ecumenismo.

Os cristãos conscientes não podem continuar a considerar aceitável a linguagem de ultimatos e de exclusões usada pela Rússia. Os crentes ortodoxos da Ucrânia são uma parte legítima da oikumene cristã e estão, atualmente, sob cerco.  

Eles podem tornar-se um catalisador para uma transformação civilizada de todo o espaço pós-soviético, a começar pela Rússia. Os ocidentais devem compreender as novas realidades na Europa Oriental e perceber que a inclusão das Igrejas Ucranianas no diálogo com o mundo pode trazer mais benefícios do que o isolamento continuado.

Depois da queda do comunismo muitos ocidentais esperavam que o mundo eslavo, silenciado durante tanto tempo, ficaria finalmente livre para contribuir corretamente para a cultura cristã e para todo o mundo. Hoje, com a criação de uma Igreja Ortodoxa Ucraniana, pode ser que uma voz importante esteja finalmente a fazer-se escutar.



Myroslav Marynovych é vice-reitor para missão na Universidade Católica da Ucrânia, em Lviv, na Ucrânia, e president do Instituto de Religião e Sociedade da mesma universidade. Foi fundador do Ukraninian Helsinki Group e prisioneiro de consciência entre 1977 e 1987. Presidiu às estruturas da Amnistia Internacional na Ucrânia entre 1991 e 1996 e foi também president do Centro Ucraniano da PEN International.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 2 de Fevereiro de 2019)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Tuesday, 25 February 2014

Heróis na RCA, cobardes na Nigéria

Evangelho em acção na RCA
Começo com uma notícia preocupante e boa ao mesmo tempo. Preocupante porque numa vila na República Centro-Africana 800 muçulmanos estão cercados por milícias cristãs que os querem chacinar. Boa porque esses muçulmanos encontraram guarida numa Igreja Católica e os padres estão dispostos a dar a vida para os salvar.



A Igreja Ortodoxa da Ucrânia fiel a Moscovo distancia-se de Yanukovich e dá sinais de querer dialogar com as outras igrejas ortodoxas a operar no país.

D. Manuel Clemente recebeu esta tarde a UGT para uma audiência no Patriarcado de Lisboa e ouviu elogios ao trabalho social da Igreja.

O meu artigo no blogue sobre casos em que os “direitos” dos homossexuais colidem com a liberdade religiosa foi actualizado novamente. Não deixem de ler e sintam-se à vontade para colaborar, enviando-me casos que conheçam.

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