Tuesday, 18 February 2020

Fra Angelico

Brad Miner
Passam-se hoje 565 anos sobre a morte do artista renascentista Fra Angelico.

Nascido Guido di Pietro, cerca de 1395, cresceu no bairro de Rupecanina, em Vicchio, uma vila da República de Florença. Não sabemos com quem é que ele e o seu irmão Benedetto aprenderam a pintar e a iluminar – a especialidade de Benedetto – mas Guido já era um pintor bem conhecido quando entrou para o mosteiro dominicano em Fiesole, nos anos 20 do Século XV, altura em que assumiu o nome Fra Giovanni, isto é, Irmão João.

Só após a sua morte é que se viria a tornar, nas palavras do “Martyrologium Romanum”, “Beato Giovanni de Fiesole, apelidado ‘o Angelico’”, daí que seja conhecido como Fra Angelico, o irmão angélico. Mesmo para historiadores de arte seculares ele é o Pictor Angelicus, tal como o seu antecessor dominicano, o Doctor Angelicus, São Tomás de Aquino.

Repare-se no “Beato”. O irmão Giovanni foi beatificado pelo Papa São João Paulo II em 1982. Claro que a sua causa não avançará se as pessoas não rezarem por sua intercessão e isso não resultar em milagres. Mas a sua piedade era de tal ordem que, mesmo em vida, era conhecido pela alcunha angélico. Foi também são João Paulo II que declarou Fra Angelico padroeiro dos artistas católicos, em 1984.

Quando o Metropolitan Museum de Nova Iorque fez uma exposição da sua obra, em 2005, juntou obras de alguns sessenta museus e colecções privadas mas que – naturalmente – não incluíam frescos. Como escreveu o diretor do MET, na altura, as novas investigações sobre o homem e a sua obra moderaram a imagem de Fra Angelico como apenas “um irmão santo que nunca pegava no pincel sem rezar primeiro”. Diz ele que Fra Angelico possuía “um intelecto competitivo e foi um participante ativo na revolução cultural em Florença do início do Século XV”. Não tenho a menor dúvida que assim seja, mas isso não significa que ele não fosse um cristão devoto. Pode bem ter tido a esperteza das víboras (em termos de política eclesial, modas artísticas e até economia renascentista), mas era também manso como um pombo.

Em 1436 um grupo de dominicanos de Fiesole mudou-se para o convento de San Marco, em Florença, recentemente renovado pelo arquitecto Michelozzo di Barolomeo Michelozzi e Fra Giovanni foi posto a trabalhar na decoração do mosteiro, o que resultou em algumas das melhores pinturas dos primórdios do Renascimento. Também aceitou trabalhos em Roma (veja-se a Capela Nicolina no Vaticano) e noutros lados, deixando um legado inigualado no património católico artístico.

Nas palavras de São João Paulo:
Consta-se que Angelico terá dito que “quem faz a obra de Cristo deve permanecer sempre com Cristo”. Este lema valeu-lhe o epíteto “Beato Angelico”, por causa da integridade perfeita da sua vida e da beleza quase divina das imagens que pintou, de forma superlativa as da bem-aventurada Virgem Maria.

 
A Deposição de Cristo
A mais famosa das suas pinturas marianas é o fresco da Anunciação, pintado numa das paredes em torno do claustro em San Marco, sobre o qual o grande artista James Patrick Reid escreve de forma tão bonita aqui, há vários anos. Como dizia o sr. Reid: “Uma grande pintura reflete a divina providência. Tal como nada escapa ao governo divino da criação, assim nada escapa à mestria do artista; não há nada que seja meramente acidental”.

Na sua obra “As vidas dos mais excelentes pintores, escultores e arquitectos” (publicado em duas edições, em 1550 e 1568 e reeditado várias vezes desde então), Giorgio Vasari escreveu que a figura de Gabriel na Anunciação é “tão devota, delicada e bem pintada que não parece a obra de mão mortal, mas parece que foi pintado no Paraíso (…) Daí que é verdadeiramente justo que este bom monge tenha sido conhecido como Frate Giovanni Angelico.”

Isto vê-se em quase tudo o que Fra Angelico pintou – só não digo tudo mesmo porque não vi a sua obra completa – e nota-se especialmente em duas outras obras, ambas no seu antigo mosteiro, que é agora o Museu Nazionale di San Marco: A Deposição de Cristo e o Juízo Final.

A magnífica Deposição começou na verdade como um tríptico para a Capela Strozzi, na Santa Trinità, em Florença, pelo pintor Lorenzo Monaco, que morreu cerca de 1425 depois de ter acabado só os pináculos por cima dos três arcos. Passou uma década antes de Fra Angelico assumir o trabalho de completar a obra. Os trípticos têm três painéis, cada um dos quais apresenta, tradicionalmente, três cenas relacionadas, mas distintas. Mas Angelico tratou a Deposição de outra forma, criando um cenário lotado que mostra apenas um panorama. Como é costume com a arte da Idade Média e do Renascimento – eras em que não existia historiografia nem arqueologia – as pessoas e os lugares representados são contemporâneos de Itália do Século XV.

 
Juízo Final
E aqui encontram o artigo do Wikipedia sobre A Última Ceia de Fra Angelico. Adoro a sua Deposição de Cristo, mas O Juízo Final é possivelmente uma composição ainda mais maravilhosa. A imagem no topo do artigo, à direita, pode ser aumentada várias vezes, clicando em cima, permitindo um exame cuidadoso (convido-vos a fazê-lo) dos detalhes que o artista colocou na pintura (sobre fundo de madeira), incluindo o horror de todos aqueles (incluindo clérigos) que são conduzidos pelos demónios através das portas do Inferno, mas também a alegria orante da comunidade dos salvos, abraçando-se e dando as mãos, “as suas caras radiantes com o amor de Deus”.

Mas, em verdade, a contemplação das caras dos que descem para o abismo traduz o horror desta perspectiva. Alguns parecem esconder os olhos, outros metem as mãos e os dedos na boca e outros ainda tapam os ouvidos com as palmas das mãos, esperando abafar o clamor dos atormentados. Alguns estão a ser arrastados, outros parecem estar simplesmente a caminhar para a perdição. É uma imagem de arrependimento e pânico. Se existe alguma pinga de esperança em qualquer um deles, está prestes a ser extinta. Para sempre. E eles sabem-no.

Fra Angelico captou tudo isto porque se deixava guiar pelo Espírito Santo.

 
Pensa-se que esta imagem, do centro da Deposição,
é um autorretrato de Fra Angelico 

(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 17 de Fevereiro de 2020 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Monday, 17 February 2020

Não Tiago, tu não vales menos que eu


O Tiago escreveu um testemunho pessoal, defendendo a eutanásia. Pode ser lida no Twitter, aqui
Segue-se uma resposta ao Tiago. 


Olá Tiago

Quero começar por agradecer a forma como partilhaste parte da tua vida, certamente na convicção de que estás a contribuir para um debate esclarecido sobre o assunto da eutanásia. Não deve ter sido fácil.

Queria responder ao teu texto para te explicar porque é que não posso concordar com a tua posição e porque é que rejeito a ideia de que a tua vida valha menos que a minha, mesmo que tu insistas.

Porque no fundo é disso que se trata. Quando tu dizes: “tenho mais 20 anos de vida útil”, ou 30, o que é que isso quer dizer? Que a vida só é útil enquanto consegues caminhar e mover-te? Que a vida só é útil quando não sentes dor? É que se isso é assim, se é essa a tua definição de utilidade, então neste momento eu, que caminho sem dores, que me movo sem grandes dificuldades, sou mais “útil” que tu. Não acredito que penses isso, como é evidente. Mas não percebes que é essa a ilação lógica do que afirmas?

Dizes depois que quando o teu corpo chegar ao fim da linha, queres poder decidir não ser um peso na vida da tua família, que eles não merecem isso.

Mas isto é uma questão de merecimento? De obrigação? Enquanto membros da sociedade, enquanto familiares e amigos, só tomamos conta uns dos outros porque de alguma forma merecemos esse “castigo”? Tu podes pensar que a tua vida é um fardo, que és um peso para todos os que estão à tua volta. Eu duvido muito que eles olhem para ti dessa forma e, acima de tudo, rejeito viver numa sociedade em que seja permitido que as pessoas sejam classificadas como fardos e pesos que são impostos aos outros. Mesmo que sejas tu a pensar isso, sobre ti mesmo, eu não posso aceitar.

É essa a chave desta discussão. Mesmo que tu consideres que a tua dignidade depende da tua mobilidade, autonomia e ausência de dor, eu não posso simplesmente cruzar os braços e acenar, dando-te palmadinhas nas costas. Tenho de discordar.

Da mesma forma que discordaria de alguém que diz que não merece ser livre pela cor da pele, ou que vale menos do que eu porque é de um sexo diferente, ou que tem menos dignidade porque é doente.

Eu não tenho doença degenerativa alguma, mas provavelmente um dia estarei numa cama, ou demente e precisarei que os meus filhos, talvez a minha mulher, cuidem de mim. Como um dia talvez precise de cuidar dos meus pais. E espero poder fazê-lo, como espero que os meus filhos estejam lá para mim. Porque é isso que as pessoas fazem, é isso que as comunidades pedem e é isso que a sociedade tem de exigir. Cuidamos uns dos outros.

Temos urgentemente de recuperar a ideia de que cuidar de quem precisa não é um fardo, ou um peso, é um privilégio. Poder partilhar do momento de fraqueza e vulnerabilidade de alguém, olhar por ela, é um privilégio. Tens o direito de privar a tua família dessa experiência? Têm eles o direito de o recusar? Penso que não.

Dizer que sim é admitir que não somos sociedade nenhuma, somos um aglomerado de indivíduos sem redes nem ligações. Há um nome para isso. É inferno. Um mundo assim é um mundo bem pior que o sofrimento que te espera e que nos espera a todos, de uma forma ou de outra.

Eu não quero isso para mim e não posso aceitar que assim seja para ti, ainda que tu o queiras.

Espero que compreendas esta minha posição. Não é desprezo pela tua liberdade, é uma admiração assombrada pela tua dignidade e pelo teu valor intrínseco, por mais aparelhos nas pernas e por mais limitações físicas que tenhas.

Tu não vales menos que eu, e não te admito que digas o contrário.

Wednesday, 12 February 2020

Padres casados não, eutanásia muito menos...

Longe da floresta tropical!
A notícia quente do dia é que afinal não vai haver padres casados na floresta tropical, nem diaconisas. Mas polémicas à parte, vale a pena ler sobre os “quatro sonhos do Papa para a Amazónia”.

O outro assunto é a eutanásia. Vão-se juntando vozes a pedir referendo. Os bispos tomaram posição, Cavaco Silva e Ramalho Eanes também, bem como Fernando Santos.

A minha posição sobre um eventual referendo foi expressa há mais tempo e está aqui. Sem margem para dúvidas e sem pretensões democráticas.

Mas porque há vida para além da eutanásia e dos padres casados, leiam também o artigo do The Catholic Thing desta semana em que Randall Smith usa o exemplo da viúva pobre para nos dizer, essencialmente: façam o que puderem, deixem Deus fazer o resto.

Uma lição que serve para tudo, incluindo para debates como o da eutanásia. Que cada um faça o que puder!

As Moedas da Viúva

Randall Smith
Conta-se que quando estavam a restaurar a Estátua da Liberdade, no início dos anos 80, e para o efeito estava-se a recolher fundos em todo o país, apareceu um envelope com duas moedas de dez cêntimos, e um bilhete de um rapazinho, que dizia: “Isto é o meu dinheiro para o almoço de hoje, mas estou a enviá-lo para a Estátua da Liberdade. Por favor usam-no com juízo”.

Se for verdade, então é uma versão moderna da história das moedas da viúva (Marcos, 12, 41-44 e Lucas 21, 1-4), em que uma viúva pobre doou duas moedinhas, as mais baixas em circulação, ao tesouro do Templo. “Chamando a si os discípulos”, diz Marcos, “Jesus disse-lhes. ‘Em verdade vos digo que esta viúva pobre deitou no tesouro mais do que todos os outros; porque todos deitaram do que lhes sobrava, mas ela, da sua penúria, deitou tudo quanto possuía, todo o seu sustento.’”

É uma história maravilhosa, no geral toda a gente gosta dela. Às vezes preocupo-me que gostamos muito dela porque é uma daquelas parábolas em que os ricos parecem ser denunciados e os pobres (que associamos a nós mesmos, apesar de vivermos no país mais rico do mundo) são elogiados. “Sim, os pobres como eu é que vão para o Céu e aqueles arrogantes ricos idiotas vão finalmente levar com o que merecem.”

Talvez não seja essa a melhor lição a tirar desta história, uma vez que somos um povo rico, a quem muito foi dado, e de quem muito se esperará. E que, se formos honestos connosco mesmos, normalmente contribuímos do que temos a mais e não do nosso sustento. Por isso talvez seja melhor deixar de parte os nossos ressentimentos financeiros por enquanto e considerar outras duas lições que a Igreja pode aprender com a história desta viúva e do jovem que enviou o seu dinheiro do almoço com a recomendação de que fosse usado com juízo.

A primeira lição, que deve ser aprendida por certos bispos, é de que o dinheiro do “tesouro do Templo” não é vosso. O dinheiro é da viúva e ela confiou-o à Igreja e ao vosso cuidado. O vosso dever passa por usá-lo sábia e dignamente.

Com cada despesa o bispo deve perguntar: O uso deste dinheiro é digno da pobreza e do amor da pessoa que o doou? Aquela viúva deixou as duas moedas no cesto da colecta para que pudesse voar em primeira classe para Roma? Doou para que pudesse oferecer presentes caros àqueles de quem espera obter favores?  

Poucas coisas metem mais nojo do que prelados que tratam o dinheiro doado como se fosse sua propriedade, para disporem como quiserem. Talvez esta não seja a melhor altura para referir que no seu último encontro os bispos americanos votaram para aumentar as contribuições das dioceses do país em 3% para financiar as diversas atividades da conferência episcopal. Acredito que as usem com juízo.

Mas a segunda lição é para todos nós e é sem dúvida mais importante, uma vez que é menos diretamente “financeira”. Seja qual for o nosso talento, é o suficiente que o ofereçamos a Deus. Especialmente em tempos difíceis como estes, quando as grandes movimentações no mundo e na Igreja parecem estar fora do nosso alcance, é tentador dizer: “Eu? O que é que eu posso fazer? Como é que posso contribuir?” Se Deus to deu, então chega.

Lembram-se da história da multiplicação dos pães e dos peixes? (João 6, 1-14). Vendo a multidão de “cerca de cinco mil”, Jesus disse a Filipe: “Onde é que podemos comprar pão para eles comerem?” Filipe responde. “Duzentos denários de pão não chegam para cada um comer um bocadinho”. Outro dos discípulos, André, irmão de Simão Pedro, falou, dizendo: “Há aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes.” O resto, como dizem, é história. Jesus tomou os dois pães e os peixes e deu de comer a toda a multidão. E depois de se terem saciado, ainda sobraram 12 cestos com os restos.

Esta história também é famosa, e com razão. Mas não queremos perder de vista a importância de uma das personagens menores: o rapazito. Os cinco pães e os dois peixes eram tudo o que ele tinha para comer o dia todo. Quando os apóstolos lhos pediram, podemos imaginá-lo a responder. “Isto? Não. É tudo o que tenho. Procurem um rico com muito pão”. Mas não o fez. Deu o pouco que tinha. Não era muito, mas era o suficiente.

Imaginem ser este rapaz e virem ter consigo as pessoas que perguntam: “Foste tu que deste os cinco pães e os dois peixes que alimentaram os cinco mil?” O que diria? “Bem, sim. Mas não é como se eu tivesse alimentado aquelas pessoas todas”. “Não, mas se não tivesses sido tu não tinha acontecido nada. Foi como Maria. Fizeste a tua parte, deste o teu ‘Sim’, e isso fez toda a diferença”.

Por isso, caro amigo, só tens é que dar os teus míseros cinco pães e dois peixes, de forma altruísta, de graça, sem qualquer desejo de lucro ou de promoção, e depois confiar que Deus consiga alimentar milhares com os dons que Ele te deu. É a estranha matemática do amor, multiplica-se. O dom altruísta do amor entre duas pessoas cria uma terceira, e depois outra, e outra, até que há trinta-e-cinco netos. Um pequeno grupo de amigos pode produzir bons efeitos que se expandem de forma exponencial, sozinhos, sem os mecanismos do poder, da propaganda e do controlo social.

É uma Igreja grande, um mundo enorme, com milhares de milhões de pessoas. “Que posso eu fazer?” Dá as tuas duas moedas. Dá os teus pães e um par de peixes. Depois deixa que Deus faça a cena dele.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020)


© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Thursday, 6 February 2020

Adivinhem quem voltou!

Nós não queríamos, mas ele vem aí outra vez! De agora até ao dia 20, e nos dias seguintes, provavelmente, não se falará de muito mais do que eutanásia.

Temos tido vários bispos a falar do assunto, e bem. O bispo do Porto diz que seria deplorável o Parlamento decidir esta questão e até admite um referendo para derrotar a eutanásia, ainda que saiba que a vida não é referendável.

O Patriarca de Lisboa diz que a questão não deve ser abordada de ânimo leve.

O bispo de Aveiro diz que esta não é uma questão religiosa.


O cardeal Bagnasco diz que a eutanásia é uma derrota para a humanidade.


Mas temos ainda outras opiniões. O deputado do PS Pedro Cegonho dá três razões pelas quais vai votar contra e os comentadores da Renascença, Jacinto Lucas Pires e Henrique Raposo, também explicam porque são contra a medida.

Mudando de assunto, mas não muito, o artigo desta semana do The Catholic Thing escreve sobre porque é que a Igreja Católica deve ser a melhor a lidar com a morte. Mas é a morte natural, claro! Vale bem a pena ler!

Wednesday, 5 February 2020

Ser a melhor a lidar com a morte

Casey Chalk
Recentemente uns amigos meus perderam um bebé, nado morto às 24 semanas. Entre a tristeza do momento, o meu amigo decidiu dar nome ao bebé e ligou ao pároco para pedir que se celebrasse uma missa. Num dia frio, no início de Janeiro, vários amigos compareceram. O padre celebrou de forma respeitosa e séria e pregou uma homilia sobre o arquétipo do sofrimento, Job, oferecendo o sacrifício da missa pela alma do pequenino.

No momento não foi fácil perceber o que os meus amigos acharam da celebração – naturalmente eles estavam com ar demasiado pesaroso para que sequer falássemos no assunto. Mas uma semana mais tarde, à volta de umas cervejas, ele disse-me o quanto aquela missa tinha significado para ele e para a família, tanto como forma de honrar a vida do seu filho, como de dar sentido à sua perda. Observando a sua mágoa à distância lembrei-me de uma coisa que me ocorreu pela primeira vez quando, já católico, frequentei o funeral evangélico do meu pai, em 2013: é importantíssimo que a Igreja Católica seja a melhor a lidar com a morte.

O catolicismo tem várias vantagens sobre outras tradições religiosas, mais ainda sobre a sociedade secular. A começar pelo espaço físico onde honramos os mortos. As paróquias católicas, ainda que a arquitectura de algumas deixe muito a desejar, são locais sagrados, nem que seja só pela presença de Jesus no sacrário. Se para além disso houver beleza estética na arquitectura, arte ou decoração interior, melhor. O funeral do meu pai, por mais respeitoso que tenha sido, teve lugar numa sala de conferências alcatifada, com cadeiras desdobráveis, parecia um salão de hotel. Não teve nada de particularmente sagrado ou especial.

Depois temos a doutrina a nosso favor. Claro que devemos aderir aos ensinamentos sobre morte, Céu, Inferno e Purgatório porque acreditamos que são verdade. Mas independentemente disso, oferecem-nos muito mais, em termos de contemplação e participação, do que se encontra noutros lugares.

Nós podemos rezar pelos nossos mortos, de forma a acelerar a sua entrada no Céu. Podemos pedir aos nossos mortos, tanto no Purgatório como no Céu, para rezarem por nós. E podemos comungar com eles no milagre que é a Missa, uma vez que a Eucaristia é uma re-representação não apenas do Calvário, mas do banquete celeste, onde todo o povo de Deus, morto e vivo, está presente.

Isto é muito melhor do que os aforismos secos como “ele agora está num sítio melhor” e é mais robusto do que a crença protestante de que apenas veremos os nossos entes queridos no Céu (desde que tenham sido salvos, claro).

Gosto especialmente dos santinhos que se fazem depois da morte de alguém. Guardo os santinhos de ambos os meus avós católicos e uso-os como marcadores de livros, lembrando-me assim de rezar por eles. É fantástico como a mera visão dos santinhos desperta não apenas orações como também contemplação sobre as suas vidas e a minha. Também temos a tradição de acender velas e oferecer missas pelos nossos entes queridos. O catolicismo coloca à nossa disposição uma rica tapeçaria de formas de honrar os nossos queridos através de Cristo.

Não quero com isto dizer que não seja possível também aos católicos serem maus a lidar com a morte. Fiquei irritado, mas não muito surpreendido, quando vi que o aviso para o funeral do meu pai chamava ao evento uma celebração da sua vida. Mas isto tem-se tornado mais comum até nos enterros católicos. Já fui a funerais católicos em que não se fala do Purgatório nem das nossas orações pelos mortos, como se fosse simplesmente doloroso de mais contemplar a continuação do seu sofrimento. E já fui a enterros em que o padre parecia sugerir que os mortos estavam definitivamente no Céu, como se fosse possível ter essa certeza.

Há uma pagela bastante popular que se vê nos enterros e que diz o seguinte:

Não faças luto…
Nem fales de mim com lágrimas…
Mas ri-te e fala de mim…
Como se estivesse ao teu lado.
Amei-te tanto…
Estar aqui contigo foi o paraíso.

Gustave Courbet
Este tipo de sentimentos são insultuosos para nós e para os mortos. Claro que devemos fazer luto pelos mortos e lamentar a sua perda. A morte é uma realidade dolorosa e terrível da condição humana. Muitos morrem em alturas, ou de formas, que não fazem sentido para nós, deixando os seus familiares de luto mas também, frequentemente, num estado de pobreza emocional e financeira.

São Paulo declarou que com a ressurreição de Cristo a morte tinha sido derrotada e perdido o seu ferrão, mas nunca disse que deixaríamos de sofrer com ela (1 Coríntios 15,55). Mais, o Céu não é uma espécie de expoente máximo das relações terrenas, mas sim o local para onde os fiéis que morrem vão e onde, se Deus quiser, um dia nos juntaremos a eles. Confundir a terra e o Céu é uma forma de empobrecer ambos.

Mas não tem de ser assim. A Igreja Católica possui os instrumentos e a doutrina para nos ajudar a sofrer a tragédia da morte de uma forma que nos conforta, guia e restaura. Quando a Igreja se vale destes dons faz muito mais do que ajudar os enlutados a lidar com a sua perda; honra a Deus, orientando os nossos corações para o louvar.

Reconhece que, nas palavras de São Paulo, somos os mais miseráveis de todos os homens se a Ressurreição não for verdade. Contudo, à luz da encarnação e da ressurreição, temos uma esperança que vai para além de todo o sentimentalismo secular.

Ser o melhor a lidar com a morte é também uma forma de pregar a verdade, tanto para nós, que precisamos tanto dela – especialmente quando estamos emocionalmente vulneráveis – como para os que tomam parte da nossa dor. Que melhor forma haverá de pregar o Evangelho aos descrentes e não praticantes do que mostrar-lhes o facto de que, através de Cristo, a morte não é o fim? Que melhor instrumento de evangelização haverá do que uma missa solene que demonstra, em Cristo, o nosso amor por, e união com, os que amamos?

A Igreja Católica pode ser a melhor a lidar com a morte. E devia sê-lo, como parte da nova evangelização.


Casey Chalk escreve para a Crisis Magazine, The American Conservative e a New Oxford Review. É licenciado em história e ensino pela Universidade de Virgínia em tem um mestrado em Teologia da Cristendom College.


(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no domingo, 2 de fevereiro, de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Monday, 3 February 2020

Absolutismos

Michael Nnadi, assassinado na Nigéria
Uma absoluta vergonha o que se passou esta segunda-feira no Paquistão, onde um tribunal decretou que o casamento de uma rapariga raptada, forçada a converter-se ao Islão e forçada a casar-se com um muçulmano é válido. Qual foi o critério? Pasme-se, não foi a lei nacional, mas sim a Sharia.

Uma absoluta tristeza a notícia que nos chega da Nigéria, da morte de um dos quatro seminaristas que foram raptados por bandidos a 8 de janeiro. Os outros três foram todos libertados.

Uma absoluta desgraça o que se passa no norte de Moçambique, onde o bispo de Pemba calcula que já tenham morrido 500 pessoas às mãos de jihadistas.

Domingo foi o dia da vida consagrada. A Aura Miguel entrevistou para o efeito uma monja concepcionista, numa conversa que vale bem a pena ouvir. Da minha parte, convido-vos a ler o artigo que escrevi para o Ponto SJ e que foi publicado no sábado.

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