Monday, 12 January 2015

Charlie Hebdo usa Maomé para passar mensagem cristã

Enquanto escrevo, o Papa Francisco está a caminho do Sri Lanka, de onde segue depois para as Filipinas. É a segunda visita à Ásia, e reveste-se de grande importância, política, religiosa e social. A Aura Miguel explica porquê.

Continuamos a viver a “ressaca” do caso Charlie Hebdo. Aqui pode ver a capa da próxima edição do jornal, que volta a dar destaque a Maomé, mas que curiosamente traz também uma mensagem bem cristã de perdão… Temos também a história de um jovem muçulmano que no ataque ao supermercado agiu como um herói e salvou vidas; temos o lamento de um arcebispo nigeriano que pergunta onde está a onda de solidariedade para com o seu país, que sofre bem mais com o terrorismo; temos a preocupação do Patriarca de Lisboa e temos Erdogan, presidente da Turquia, que quer que toda a gente saiba que ele não é Charlie Hebdo

O Papa Francisco é um dos que não esqueceu os nigerianos, e mencionou o facto no seu discurso ao corpo diplomático, esta manhã, antes de viajar para a Ásia.

Tristes notícias da Líbia, onde 21 cristãos foram raptados pelo braço local do Estado Islâmico. Não augura nada de bom.

E o Vaticano concluiu que o arcebispo Oscar Romero morreu mártir. É um dado importante, uma vez que poderá contribuir para o seu processo de beatificação.

Para quem ainda não leu, mando novamente o link da minha análise sobre se o terrorismo islâmico é, ou não, representativo do verdadeiro Islão, que está a gerar alguma discussão (civilizada) nos comentários.

Friday, 9 January 2015

Fim do pesadelo em França?

Chegou ao fim, pelo menos assim parece, o episódio de terror em França, que começou com um ataque à redacção do Charlie Hebdo e terminou com a morte de três terroristas, incluindo um que tinha levado a cabo outro ataque na quinta-feira de manhã, e mais quatro reféns.

Durante os últimos dias começaram a ouvir-se novamente vários lugares-comuns, entre os quais “Isto não tem nada a ver com a religião”, “Isto não é o verdadeiro Islão” e, por outro lado, “Todos os muçulmanos são assim”. Este facto levou-me a escrever o seguinte texto, em que disputo todas as afirmações.

O Papa Francisco recebeu ontem no Vaticano duas visitas interessantes. Uma foi de Angelina Jolie, a outra foi dos líderes da comunidade Yazidi. A primeira diz que os refugiados se sentem representados por ele e os segundos chamaram-no “pai dos pobres”.

A minha colega Rosário Silva esteve em Campo Maior para falar com uma noviça da Ordem da Imaculada Conceição que vai tomar o hábito este sábado, e Ângela Roque falou com as Dominicanas de Santa Catarina de Sena, que querem dar a conhecer o legado da sua fundadora.

O imã radical Abu Hamza Al-Masri foi condenado a prisão perpétua, nos EUA.

O padre Duarte da Cunha explica como os bispos europeus vão apoiar os cristãos da Terra Santa.

Isto é, ou não é, o verdadeiro Islão?!?

O incidente com o jornal Charlie Hebdo chocou-nos a todos e gerou uma onda de solidariedade por todo o mundo, mas também fez sair cá para fora os lugares-comuns de sempre, que em nada contribuem para o debate.

Começo com um que ouvi esta manhã de um respeitado comentador de assuntos internacionais, quando questionado sobre a importância da religião neste fenómeno do terrorismo. Resposta pronta: “Isto não tem nada a ver com a religião! Isto é terrorismo puro”.

Desculpa? Um grupo de homens que se identificam acima de tudo como muçulmanos atacam um jornal conhecido por gozar com a sua religião (entre outras), gritando palavras de ordem como “Deus é Grande” e “Vingámos o profeta” e isso não tem nada a ver com religião?

No dia seguinte outro  homem que se identifica como muçulmano mata a tiro uma mulher polícia e, passadas 24 horas, entra numa loja judaica de produtos kosher onde faz reféns, e isto não tem nada a ver com religião?

Uma coisa é discutir se estes homens e os seus actos são verdadeiramente representativos da religião que dizem professar, (já lá vamos), mas dizer que isto não tem nada a ver com religião é absurdo. Claro que tem tudo a ver com religião. Pode haver outros assuntos à mistura, não nego. Pode ter a ver com imigração, com políticas de integração, com racismo, com muita coisa. A Ana Gomes até acha que a culpa é da austeridade... mas não me venham dizer que não tem nada a ver com religião.

Nunca é demais repetí-lo: A religião é um fenómeno potentíssimo, no sentido em que move o ser humano a fazer coisas de grande dimensão. Para o bem, como felizmente vemos tantas vezes em tantas pessoas fantásticas que se dão inteiramente para ajudar os seus irmãos e vizinhos, mas também para o mal, como já vimos muitas vezes na história e vimos por estes dias em Paris.

“Isto não é o verdadeiro Islão”
Antes de mais convém ver quem é que está a dizer isto.

Se for o Sheikh David Munir, como muitas vezes o faz, é uma coisa. Ele é uma autoridade na comunidade islâmica, é um conhecedor do Islão e um líder muçulmano com um longo passado de participação civil e em actos de diálogo inter-religioso. Podemos discutir com ele se tem razão ou não, mas aceito a autoridade que ele tem para dizer que o que aqueles dois irmãos fizeram não é representativo do verdadeiro Islão.

O que não aceito é que o Zé da Esquina, que aparece como convidado para falar no telejornal, mas sabe tanto sobre o Islão como eu sei sobre física quântica, diga que isto, ou qualquer outra coisa, é representativo do verdadeiro islão. Como não aceito que o diga o Obama ou o Cameron, ou o Passos Coelho, ou sequer o o Papa Francisco.

Não é representativo porquê? Acaso eles se consideram mais conhecedores dos ensinamentos islâmicos que os pregadores que radicalizaram estes e tantos outros terroristas? Sabem recitar o Alcorão? Sabem explicar as suas passagens? Sabem explicar as incongruências que existem no texto?

Não é o verdadeiro Islão porquê? Porque não vos apetece? Porque é politicamente correcto dizê-lo? Porque ouviram o Sheikh David Munir a dizê-lo? É que se for esse o caso então citem-no, mas não falem como se tivessem um pingo de autoridade para estar a dizer a dois muçulmanos qual deles é que é verdadeiro e qual é que é falso.

Eu não sei se isto é o verdadeiro Islão ou não. O que sei é que neste momento há uma divisão no interior do Islão (uma de muitas), entre as pessoas que acham que sim e as que acham que não.É um problema, e é grave, seria ingénuo negá-lo. É uma questão que mundo muçulmano tem de enfrentar e tem de tentar resolver. É um debate que tem de se travar a nível teológico e a nível filosófico, e não com slogans e frases bonitas. Não basta catalogar uma corrente como não-islâmica e esperar que desapareça. Não vai desaparecer.

Verdadeira muçulmana, ou enganada?
“O Islão é isto mesmo”
Aqui aplica-se exactamente a mesma lógica, mas ao contrário. É isto mesmo, por alma de quem? Porque vêem alguns muçulmanos a comportarem-se assim? Então os milhares que vivem pacificamente, que defendem os seus vizinhos cristãos, que pagam impostos e não sonhariam olhar de lado para um polícia, quanto mais matá-lo a sangue frio... estão enganados?

Também aqui, não reconheço a 99% das pessoas que o dizem qualquer autoridade para o fazerem. Claro que podem ter a sua opinião, mas ninguém é obrigado a dar-lhes importância.

Mas esta frase tem uma agravante. É que enquanto a anterior corre o risco de ser demasiado ingénua, não é uma particular ameaça. Esta, pelo contrário, incita à divisão social e ao ódio e, acima de tudo, só pode servir para radicalizar ainda mais os muçulmanos que a ouvem.

Estes terroristas que atacaram o Charlie Hebdo odeiam-nos. Não odeiam só os que fazem caricaturas de Maomé, odeiam-nos a todos, as nossas religiões, o nosso estilo de vida, a nossa maneira de vestir, os nossos hábitos, a nossa democracia, os nossos valores, os nossos direitos. A pior coisa que podemos fazer, em resposta aos seus ataques, é incentivar divisão social e purgas que, levadas ao extremo, representam precisamente o mesmo que eles querem: separação, ausência de direitos e liberdades, morte e terror.

Então não podemos dizer nada?
Eu sei que custa muito, hoje em dia, assumirmos que não temos certezas, mas é um exercício de humildade que nos fica bem. Quando me pedem a opinião sobre estes assuntos eu digo sempre que não sei. Os terroristas e o Estado Islâmico representam o verdadeiros Islão? Ou são os Sheikhs David Munir e os milhares de muçulmanos, como é o caso em Portugal, que vivem a sua vida em paz, contribuem para a sociedade e não chateiam ninguém?

Não sei. Não sou muçulmano e por isso não tenho nada que opinar sobre isso, da mesma maneira que acharia de uma tremenda arrogância o Sheikh David Munir ou outro qualquer vir opinar sobre quem representa o verdadeiro Cristianismo, os católicos liberais, ou os conservadores, ou os protestantes, ou os lefebvrianos.

O que posso dizer é que sei muito bem de quais gosto mais! Disso não há a menor dúvida. Posso dizer que independentemente de quem tem razão nesse debate teológico interno, eu preferia sentar-me à mesma mesa com alguém da linha do Sheikh David Munir do que com alguém que abraça os ideias dos jihadistas. E isso já não é coisa pouca, a meu ver.

Porque aquilo que eu amo sobre a nossa sociedade e os nossos valores não são as caricaturas nojentas que jornais como o Charlie Hebdo tanto gostam de publicar, são os valores que permitem que eles o façam e que ao mesmo tempo protegem a minha liberdade de dizer que não os quero ler, não os acho piada e não quero ter nada a ver com eles. Os valores que eu amo são os que me permitem sentar à mesma mesa que um muçulmano e partir pão com ele e discutir com ele temas do Céu e da Terra, de vida ou de morte, em paz. A salvaguarda desta realidade é algo que é muito mais importante, nesta altura, do que a repetição de frases politicamente correctas, mas racionalmente ocas.

Wednesday, 7 January 2015

"Não gostam da liberdade? Emigrem!"

Um dos muitos cartoons de apoio ao Charlie Hebdo
Que dia! Um atentado terrorista fez pelo menos 12 mortos em França, há ainda quatro feridos graves, pelo que o número pode subir.

Um comando de três jihadistas atacou a redacção da revista satírica Charlie Hebdo, matando 10 funcionários e dois polícias. Os suspeitos já foram identificados e estão a ser procurados pela polícia.

As reacções não se fizeram esperar. Boas declarações do Sheikh David Munir, da Comunidade Islâmica de Lisboa e de representantes das comunidades muçulmanas em França. O Papa também emitiu um comunicado sobre o assunto. Entretanto, dezenas de milhares de pessoas manifestam-se em Paris em solidariedade para com as vítimas e contra o terrorismo.

Tudo isto no dia em que muitos dos cristãos de rito oriental celebram o Natal. A minha colega Cristina Nascimento foi a uma liturgia dos ucranianos greco-católicos, em Lisboa, e fez esta bela reportagem. Podem ver a fotogaleria também.

Há mais de um ano passei um dia em território dos Amish, nos EUA. Levou muito tempo, mas dessa visita nasceu esta reportagem que vos convido a ler e a ver, em vídeo, que me deu muito gosto fazer. Os amish são uma das comunidades mais peculiares e apaixonantes do espectro cristão.

As instituições católicas devem despedir funcionários que contrariam os ensinamentos da Igreja? Professoras que engravidam solteiras; funcionários que se assumem como homossexuais, etc? É uma coisa que tem acontecido nos EUA mas o debate aplica-se a qualquer país, incluindo Portugal. Randall Smith pede calma e cuidado com o discernimento destes casos.

De Escândalos e Escolas Católicas

Randall Smith
No ano que passou assistimos a uma série de conflitos mediáticos à volta de escolas católicas que despediram professores que tinham engravidado fora do casamento, ou que revelaram ser homossexuais. Neste artigo não tenciono comentar nenhum caso específico.

A verdade é que o problema com a maioria dos comentários a casos deste género é que nos falta o conhecimento dos detalhes relevantes para tomar uma decisão sábia. Da mesma forma que casos difíceis dão más leis, a falta de conhecimento dos detalhes impede-nos de dizer coisas que contribuam para um debate útil. A prudência recomenda que tenhamos um melhor sentido do contexto relevante do que aquele que lemos, vemos e ouvimos nas notícias.

Assim, por exemplo, precisaríamos de saber se a professora solteira que engravidou se opõe abertamente aos ensinamentos da Igreja, o que normalmente não sabemos. Uma grávida solteira, seja professora ou aluna, pode acabar por ser fonte de boas lições para a comunidade, dependendo da situação. É preciso pensar, por exemplo, se ao exilar uma mulher nestas situações a escola católica não está a colaborar com as forças do mal, pressionando-a a fazer um aborto.

Conheço demasiados casos de raparigas de famílias conservadoras, católicas e piedosas, por exemplo, que optaram por abortar simplesmente porque tinham demasiada vergonha de revelar a verdade aos seus pais. O que é pior, em vários casos pais ou irmãos que são supostamente “bons” católicos desviam o olhar quando suspeitam que vai haver um aborto. “Problema” resolvido. Escândalo evitado. Deixa de ser necessário comparecer diante da comunidade como um daqueles pais, alguém que criou uma filha que engravida solteira.

Quanto aos pais católicos dos rapazes que engravidaram as raparigas, bem, isso tende a nem sequer ser um problema. A resposta é simples, mantê-lo na escola, agir como se nada fosse e negar qualquer responsabilidade.

Por estas razões, e outras, expulsar mulheres grávidas das escolas, sejam professoras ou alunas, tende a parecer-me uma má ideia.

Porém, se eu fosse um pai pobre a tentar ajudar os meus filhos a escapar à pobreza para terem um futuro melhor, imagino que não veria com bons olhos enviar a minha filha para uma escola onde dezenas de raparigas engravidaram antes de casar e na qual, por várias razões, a gravidez nestas situações se tornou socialmente “aceitável”, quase como um rito de passagem. O primeiro beijo, o primeiro namoro, o primeiro baile e agora o primeiro filho fora do casamento. Isso é um problema. Mas também o é uma escola que exila as raparigas, mal engravidam, mas nada faz para responsabilizar os rapazes envolvidos. O contexto em que se tomam as decisões é fundamental.

De igual forma, uma pessoa que vive a sua atracção homossexual de forma casta enquanto ensina numa escola católica é muito diferente de uma que viola abertamente os ensinamentos da Igreja.

Mas por outro lado isso aplica-se a toda a gente numa escola católica. Uma escola católica que despediria um homossexual casto, que vive fielmente os ensinamentos da Igreja, ou uma grávida solteira, mas que nem pensaria em despedir uma freira que passa a vida a criticar o Magistério, age de má-fé. A gravidez pré-matrimonial ou a atracção homossexual são as únicas razões pelas quais se pode despedir um professor católico? Se sim, temos um problema.


Não é menos apropriado ter um funcionário com atracção por pessoas do mesmo sexo, mas que vive esse desafio de forma honesta em autêntica fidelidade ao Magistério da Igreja a ensinar numa escola católica do que seria ter outra que se esforça por ser fiel no que diz respeito aos ensinamentos sobre pornografia, luxúria ou consumismo, ou gula ou toda uma série de outros vícios e pecados. Se as instituições católicas só pudessem contratar pessoas sem pecado, as escolas estariam vazias e eu desempregado.

Conheço muitos homens e mulheres que falam abertamente sobre as suas atracções homossexuais e que escrevem eloquentemente sobre a forma como vivem em acordo com os ensinamentos da Igreja. Um deles é casado com uma mulher e tem três filhos lindos. Seria para mim um orgulho tê-los como colegas na universidade católica onde dou aulas. Alias, qualquer um deles seria preferível aos colegas que se dizem católicos mas que odeiam os ensinamentos do Magistério com uma paixão profunda que só um filho revoltado pode sentir pelos seus pais. Porque é que pessoas destas aceitam trabalhar numa universidade católica? Não faço ideia.

As escolas deviam prestar menos atenção a quem se intitula “católico” e muito mais a encontrar pessoas que acreditam verdadeiramente na missão da escola e estão aptas a ajudar a fazê-la cumprir. Quanto a despedir pessoas unicamente para “evitar escândalo” (um caminho que lida certamente à hipocrisia), lembremo-nos que nos dias que correm, o mero facto de se ser católico já é motivo de escândalo. Nesta cultura em que vivemos, uma escola autenticamente “católica” é simplesmente uma escola de escândalo. Esta realidade tem sido frequente ao longo da história.

Na maioria destas disputas há que tomar uma decisão ajuizada. Há diferentes “bens” a procurar e “males” a evitar. Quando estes casos se tornam distracções no grande circo mediático tende-se a assistir a uma corrida à condenação, com uma parte a criticar os dirigentes da escola, como se fossem intolerantes cheios de ódio e a outra a defender a escola como se estivessem a defender a Santa Madre Igreja.

São Paulo adverte-nos a mantermo-nos ocupados e não nos intrometermos na vida alheia. Condena os fofoqueiros e os preguiçosos, que vão de casa em casa e que dizem o que não devem.

Os media ganham dinheiro com polémicas. Temos um dever para com os nossos irmãos católicos de agir com paciência e prudência. Temos de proteger as ovelhas, sem nos juntarmos à matilha de lobos que uivam à porta do curral.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez no sábado, 3 de Janeiro 2015 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Monday, 5 January 2015

Finalmente, "Cardeal Patriarca"

A grande notícia é, claramente, a nomeação de D. Manuel Clemente para Cardeal. Ao contrário do que se dizia, e olhando para os restantes na lista, esta nomeação era tudo menos certa.


Podem ver também várias reacções, incluindo de Cavaco Silva e a do próprio. E afinal de contas o que faz um cardeal? Explicado aqui.

O meu colega Ricardo Conceição esteve seis dias no Caminho de Santiago, a acompanhar um grupo de portugueses. O resultado é uma excelente reportagem, que não deve perder, pode ouvir através deste link, bem como esta fotogaleria.

Da Alemanha chega a notícia de que os movimentos anti-islâmicos estão a ganhar força, apesar da oposição da Igreja Católica, entre outros.

A nomeação de D. Manuel Clemente para Cardeal

Agora finalmente os que insistem em dizer
Cardeal Patriarca vão ter razão!
Demorou um ano, mas chegou!

Em bom rigor, como expliquei aqui em Janeiro de 2014, D. Manuel Clemente deveria ter sido nomeado Cardeal no consistório de 2014. Deveria, digo, não porque me apetece, não pelos seus lindos olhos, não porque “é costume”, mas porque existe uma bula que estipula que o Patriarca de Lisboa é nomeado Cardeal no primeiro consistório depois de tomar posse e essa bula, com força de lei, nunca foi revogada.

O ano passado, contudo, não foi e quem quiser saber o que eu concluí disso pode ler o texto. O que interessa é que este ano já foi. O que é que mudou?

Em primeiro lugar, mudou o facto de D. José Policarpo, infelizmente, já não estar vivo. Se estivesse, ainda seria eleitor e poderia por isso ser um impedimento à elevação de D. Manuel Clemente, por força de uma tradição mais recente da Igreja, mas que não é uma regra escrita, que estipula que não haja mais que um cardeal eleitor por diocese.

Contudo, olhando para dioceses como Veneza, que também é patriarcado, e Bruxelas, ambas consideradas dioceses “cardinalícias”, vemos que isso não é garantia nenhuma. Francisco voltou, novamente, a ignorar os bispos daquelas dioceses que assim continuam a não ser cardeais. Em vez disso decidiu elevar bispos de países como Tonga, Cabo Verde e Birmânia, algumas das quais, tanto quanto sei, nunca tinham tido um cardeal nem teriam grande esperança de vir a ter.

Está mais que visto que o Papa não liga à tradição das dioceses “cardinalícias” e por isso eu diria que a inclusão de D. Manuel Clemente na lista se deve sobretudo à existência da bula. Sei perfeitamente que não passaria pela cabeça do Patriarca fazer “lobbying” para ver este seu direito reconhecido, mas já não diria o mesmo sobre o Ministério dos Negócios Estrangeiros que poderá bem ter insistido junto da Santa Sé para que esta honrasse a sua própria lei. Não tenho aqui qualquer informação privilegiada, é uma mera suposição.

Mas a verdade é que, olhando para a lista dos novos cardeais, a inclusão de D. Manuel é um facto importantíssimo para a Igreja portuguesa que muito nos deve alegrar. Lembremo-nos que para além da não inclusão de várias dioceses que tradicionalmente têm cardeais, não houve um único nomeado da América do Norte, por exemplo.

Um espelho do mundo
O ano passado falou-se muito de o Papa ter incluído nomeações de países como o Haiti e Burkina Faso. Na altura isso até podia ser lido como uma mensagem, o Papa a querer abanar um bocadinho a consciência dos cardeais com as suas primeiras nomeações e brincar um bocado com a sua fama de imprevisibilidade. Mas as nomeações deste ano mostram que não se tratou de uma ideia passageira. Esta tendência veio, julgo eu, para ficar, e vai marcar a Igreja de forma importante nos próximos anos e, se assim continuar, no próximo consistório.

Como? Para começar, um grupo de cardeais completamente disperso, que só se conhecem e estão juntos nos consistórios que de tempos a tempos são convocados, têm maior dificuldade em formar grupos de pressão e lobbies para eleger os seus candidatos preferidos. E atenção que vejo ambas as coisas como normais, não é um comentário depreciativo. Ora, se isso acontecer, e ao contrário do que se pensava ser a tendência com Francisco, quem fica a ganhar mais são os cardeais da cúria romana, que se conhecem bem e estão juntos a toda a hora. É apenas um dado interessante, claro que a Igreja tem muito a ganhar em ter presente uma voz que fale pelos católicos do Tonga e das outras ilhas do Pacífico, bem como do Haiti, de Cabo Verde e tantos outros sítios.

Outras ausências
Por fim, o ano passado lamentei a não inclusão do Patriarca da Igreja Greco-Católica da Ucrânia na lista dos novos cardeais, sendo ele o líder da maior das Igrejas Católicas de Rito Oriental. Este ano o líder da Igreja Católica Etíope foi incluído, o que me parece excelente, mas o ucraniano não. É pena, sobretudo, porque existe a possibilidade de essa exclusão ser para não “ofender” Moscovo. Se for o caso é lamentável. Esperemos que não seja.

Teria sido também um gesto bonito, à luz da realidade actual, o Papa nomear um Patriarca de uma das Igrejas do Médio Oriente. Há pelo menos dois que não são Cardeais e poderiam ser: o Patriarca Sako, dos Caldeus (principalmente Iraque) e o Patriarca Inácio José Younan, da Igreja Siro-Católica. Younan seria uma escolha especialmente adequada, uma vez que a maioria dos católicos que estão actualmente refugiados na zona de Mosul e Planície de Nínive serão fiéis desta Igreja. Contudo, é possível que, à imagem do actual Patriarca da Igreja Melquita, estes tenham dito que não estão interessados, o que todavia não me parece provável.

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