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Friday, 8 January 2016

Congresso vendido e filho desgraçado

Capa do livro do Papa que é lançado para a semana
Faz hoje 100 anos que morreu a madre Maria Teresa de Saldanha, uma mulher corajosa que desafiou o anti-clericalismo dominante do seu tempo e que pode estar a caminho dos altares. Vale a pena conhecer.

Já não há palavras para descrever os actos do Estado Islâmico… Hoje surge a notícia de um militante de 20 anos que executou em público a sua própria mãe.

Um bispo do Texas levantou corajosamente a voz contra a indústria das armas nos EUA, elogiando as medidas aprovadas recentemente por Barack Obama e acusando o congresso, de maioria republicana, de se ter vendido ao lobby do armamento.

Este fim-de-semana há concerto na Sé de Lisboa. O Coro da Catedral assinala simultaneamente o fim da época natalícia e o ano da misericórdia.

Para a semana sai um livro do Papa Francisco sobre misericórdia. Domingo a Renascença avança com alguns excertos, não perca, no site da Renascença.

Ontem fez um ano do ataque ao Charlie Hebdo. Um simpatizante do Estado Islâmico decidiu comemorar a data tentando forçar a entrada numa esquadra da polícia aos gritos de Allahu Akbar. Não lhe correu particularmente bem.

Wednesday, 6 January 2016

Deus de Kalashnikov e a beleza como coração da Fé

Charlie Hebdo a fazer o que o que faz melhor
O Charlie Hebdo decidiu comemorar o aniversário do ataque à sua redacção, por parte de muçulmanos radicais, com uma representação claramente cristã de Deus, com uma Kalashnikov, a dizer que o assassino ainda está à solta.O jornal do Vaticano acha que é de mau gosto. Eu também. Eles devem-se estar a marimbar…


O Papa Francisco celebrou hoje a Epifania, dizendo que os reis magos nos ensinam a ajoelhar diante da pobreza e da humildade.

E foi hoje lançado o primeiro vídeo mensal em que o Papa fala da intenção do Apostolado da Oração para este mês. No caso, trata-se do diálogo inter-religioso.

Hoje publica-se mais um artigo do The Catholic Thing em português, no qual o padre James V. Schall recorre ao compositor James MacMillan para enfatizar que a beleza é o coração da fé cristã.

Thursday, 14 May 2015

Church on time? There's an App for that...

Se David Bowie tivesse a aplicação... 
O Patriarcado de Lisboa lançou esta manhã uma aplicação para smartphones que permite saber os horários das missas em toda a diocese e ainda localizar as celebrações mais próximas de si, em tempo real. Eu já saquei!

Adriano Moreira defende a criação de um Conselho das Religiões na ONU.

Jaime Nogueira Pinto escreveu um livro sobre o fenómeno do fundamentalismo islâmico e a sua relação com a Europa. Nesta entrevista fala da sua tese e diz que a moda do “Je Suis Charlie” de nada valeu.

Hoje realiza-se mais uma sessão da iniciativa Escutar a Cidade, que pretende ouvir pessoas de fora da Igreja que possam contribuir para o Sínodo Diocesano. Helena Roseta, Tiago Rodrigues e Maria Mota são os nomes que figuram nesta edição.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, onde se pondera de que forma tornar a linguagem de defesa do casamento e da família mais apelativa na sociedade actual.

E porque agora a música não me sai da cabeça...

Wednesday, 18 February 2015

Redescobrindo a nossa verdadeira natureza humana

Pe. Bevil Bramwell
Estas últimas semanas têm sido terrivelmente tristes. Primeiro, houve os eventos horríveis em Paris, depois a destruição de igrejas no Níger, a morte de 2000 pessoas na Nigéria e comunidades religiosas atacadas no Médio Oriente. E isso foi só o início. Esta semana 21 cristãos coptas, trabalhadores egípcios na Líbia, foram decapitados por o que parece ser um novo ramo do Estado Islâmico e ainda ontem mais de 40 pessoas foram queimadas vivas pelo Estado Islâmico propriamente dito no Norte do Iraque.

Temos dificuldade em saber onde procurar respostas sobre o que fazer em relação a esta matança. Parte do problema é o facto de, no Ocidente, estarmos confusos sobre aquilo em que realmente acreditamos. Mas talvez as aberrações a que estamos a assistir nos forcem a pensar mais claramente sobre aquilo que defendemos, e porquê.

Numa entrevista com a “Meet the Press”, por exemplo, o editor sobrevivente da “Charlie Hebdo”, Gerard Biard, descreveu da seguinte forma a mais recente caricatura de Maomé naquela revista: “É o símbolo da liberdade de expressão, da liberdade religiosa, de democracia e secularismo”.

Com todo o respeito pela sua tristeza e pelo seu sofrimento, é incrível como aquilo que ele diz – e que muitos dos nossos conterrâneos dizem também – está dependente de definições idiossincráticas de liberdade, expressão, religião, democracia e secularismo. Tudo abstracções desenraizadas. Estamos a falar de liberdade jurídica, ou liberdade moral? Liberdade em relação a pessoas concretas? O que é que Biard entende por religião? E nós?

Mas existe uma referência autoritária. O documento Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, diz o seguinte: “Mas é só na liberdade que o homem se pode converter ao bem. Os homens de hoje apreciam grandemente e procuram com ardor esta liberdade; e com toda a razão. Muitas vezes, porém, fomentam-na dum modo condenável, como se ela consistisse na licença de fazer seja o que for, mesmo o mal, contanto que agrade. A liberdade verdadeira é um sinal privilegiado da imagem divina no homem.”

Bastam estas frases para que as palavras de Biard se dissolvam. Por exemplo, que “liberdade” é esta que humilha a religião de outra pessoa, não de uma maneira útil que possa servir para remediar aberrações, mas em termos ordinários e sexuais? Em tantos contextos, hoje, há certamente um bem maior a procurar. Quão baixo temos de descer para arranjar emprego, encontrar clientes, divertirmo-nos ou fazer programas de televisão?

Depois, temos a própria natureza da expressão. A Carta aos Efésios diz claramente: “Nenhuma palavra desagradável saia da vossa boca, mas apenas a que for boa, que edifique, sempre que necessário, para que seja uma graça para aqueles que a escutam.”

Eis a chave que explica porque é que precisamos de liberdade de expressão: Boa expressão. A expressão que procura o bem é composta por palavras edificantes. Isto é liberdade enquanto espaço para procurar o bem, que é Deus. Esta liberdade expressa a imagem divina em nós mesmos e reconhece a imagem divina nos outros.

Adão e Eva exercem a sua liberdade...
Para além disto, não são só os indivíduos que têm direitos, as comunidades humanas também têm. As comunidades precisam de pessoas que procurem activamente o bem – e não apenas o seu bem. Precisam de pessoas que vejam os outros como imagem de Deus e, por isso, como merecedores de um respeito que ultrapassa todas as outras considerações. Não é esta a verdadeira base da democracia? Os pais fundadores da América, todos eles, pensavam que sim.

O principal problema com a maioria das versões actuais de liberdade é o facto de assentarem numa visão do homem como não-relacional. Isto é, não têm respeito pelo facto de que cada pessoa humana existe em relação a outras. (E, no fim de contas, em relação a Deus, não como uma opção extra para aqueles que escolhem não ser “progressistas”, mas como parte essencial daquilo que somos.) A consideração subjacente para muitos dos nossos contemporâneos é de que o homem é uma entidade fechada, auto-sustentável e não um sujeito de relações.

O respeito pela “Liberdade de expressão, liberdade religiosa, de democracia e secularismo”, devia significar o respeito por todas as relações envolvidas nesses assuntos. Não o fazer é uma forma de violência. Não é, claramente, a violência brutal dos jihadistas, mas é uma violência à qual nos habituámos, por causa da nossa cegueira. A expressão – seja falada, escrita ou desenhada – pode ser uma forma de violência na medida em que viola a integridade e dignidade de outra pessoa enquanto imagem do divino.

A essência de uma sociedade individualista passa por evitar, deliberadamente, os valores comuns e altivos, garantindo que estes nunca se desenvolvam. Na melhor das hipóteses, as palavras abstractas tornam-se caixas vazias nas quais as elites podem enfiar os seus próprios significados. Podem ser arbitrários e contraditórios porque não precisam de respeitar os direitos e os deveres das relações.

Hoje existem muitas formas de ofender as relações humanas. Pascal disse que, tendo perdido a nossa natureza humana através do pecado, qualquer coisa se pode tornar nossa natureza. Mas será que o individualismo, sem qualquer restrição de natureza relacional, é o tipo de natureza que queremos promover actualmente?


(Publicado pela primeira vez no quarta-feira, 18 de Fevereiro 2015 em The Catholic Thing)

Bevil Brawwell é sacerdote dos Oblatos de Maria Imaculada e professor de Teologia na Catholic Distance University. Recebeu um doutoramento de Boston College e trabalha no campo da Eclesiologia.

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 4 February 2015

Tornar o Islão “Tão banal como o Catolicismo”

Estive em tempos em Istanbul para falar numa conferência sobre “O Diálogo das Civilizações”. Os turcos sabem, ou pelo menos sabiam antes da recente onda de islamização, que se algum dia chegar o “choque” das civilizações previsto por Huntington, serão apanhados no meio.

Tinha outras cidades para visitar e por isso não pude estar numa sessão organizada para os participantes que não falavam turco, em que espectadores enviavam perguntas e comentários por fax. O primeiro comentário surgiu da máquina e dizia: “Vocês são todos infiéis e hão-de morrer esta noite”

Isto foi-me contado por um colega britânico, com muita experiência no Médio Oriente. Nenhum dos participantes ficou surpreendido. Sabiam que este é o tipo de coisa que sabe na região, mesmo na Turquia semi-secular de Ataturk.

Seguindo o exemplo do nosso presidente Obama, não quero culpar “todos os muçulmanos por coisas que membros de outras religiões também fazem” e, para dizer a verdade, já fui ameaçado fisicamente, presumivelmente por um cristão liberal, depois de ter aparecido num programa de televisão. É um dos riscos de ser comentador.

Mas penso muitas vezes naquele episódio da Turquia, quando acontecem coisas como o recente massacre em Paris. Nessas alturas os comentários dividem-se rapidamente em dois grupos. Uma é a facção que diz que os radicais são “uma pequena minoria” e o Islão é uma “religião de paz”. A outra acusa correctamente a primeira de mentir, mas depois tende a adoptar uma condenação vaga e geral do Islão.

A verdade é que há muitos muçulmanos que abominam este tipo de violência. Conheci vários: Em Washington, na Turquia e noutros lados. Alguns falam muito abertamente sobre isto e a imprensa não lhes dá tanta atenção como devia.

Mas não deixa de ser verdade que a “pequena minoria” de que estamos sempre a ouvir falar, para apaziguar os nossos medos e proclamar a nossa própria tolerância, traduz-se em dezenas, ou mesmo centenas de milhões de potenciais terroristas em todo o mundo. Lembram-se das imagens de crianças no Médio Oriente a dançar nas ruas depois do ataque às Torres Gémeas? E em vários países do Ocidente existe uma torrente regular de ameaças e intimidação islâmicas, que raramente são notícia, como aquela minha experiência na Turquia.

As ameaças não surpreendem, uma vez que estudos revelam que grande parte dos muçulmanos apoia o Islão radical, em particular entre os jovens: 42% em França, 35% no Reino Unido e, mesmo na América, 26% acreditam que os atentados suicidas são justificados. Esperemos que com o passar dos anos se tornem mais tolerantes.

Entretanto podemos falar quanto quisermos da “pequena minoria” e da “religião da paz”. (A afirmação de que “Isto não tem nada a ver com o Islão” é uma colossal mentira que nem merece ser levada a sério). A realidade, pelo menos para o futuro próximo, é de que estamos a lidar – ou no caso dos nossos líderes, a não lidar –, com uma realidade que continuará a inspirar violência a um nível global.

Já houve um sem fim de comentários sobre o massacre de Paris, mas também estes não têm sido particularmente iluminadores. O Charlie Hebdo é mais do que uma revista “satírica”, é radicalmente anarquista, com mais do que uma gota do tipo de autoritarismo que frequentemente acompanha a anarquia. 

Tem um particular ódio à religião. Nas palavras de um editor, o seu objectivo era tornar o Islão “tão banal como o Catolicismo”. Na noite escura do anarquismo, toda as religiões são igualmente negras. Mas a verdade é que não são.

Manifestação contra o terrorismo em França
Os muçulmanos radicais não temem ser gozados. Uma prova da falta de seriedade do Charlie Hebdo é a sua crença de que as parvoíces que publicava faziam alguma diferença para o Islão militante. O Charlie Hebdo não é uma voz corajosa da dissidência. No fundo não faz mal a ninguém, nem aos políticos franceses (que, esses sim, temem ser gozados), porque não passa do tipo de coisa que os adolescentes adoram mas que os adultos se limitam a ignorar.

Entre os seus vários vícios e estupidezes, porém, a redacção do Charlie Hebdo tinha uma grande virtude: Não se deixavam intimidar pelo Islão radical. Mesmo depois de serem incendiados em 2011. Ao contrário dos nossos meios de comunicação, eles não cederam à pressão islamita, nem mesmo sob a pretensão da sensibilidade para com a religião.

A França está dividida sobre como lidar com o Islão. Durante anos doutrinou as crianças contra o “racismo”, como se ser seguidor de Maomé nos desse um ADN diferente. Porquê? A única resposta verdadeira é de que era mais fácil para os políticos usar um termo aceite universalmente como negativo do que percorrer o caminho mais complicado de lidar com um problema religioso. Agora estão finalmente a mudar de tom.

Este exemplo é indicativo: O prédio de um amigo parisiense foi apanhado no meio de um motim muçulmano há uns anos. Estes acontecem com mais frequência do que nos chega. Por vezes os supermercados são saqueados, mas a autocensura da imprensa suprime estas notícias para não alimentar a “islamofobia”. O meu amigo, um católico ortodoxo, politicamente liberal, que trabalhou durante algumas décadas para uma caridade católica em Paris, sentiu-se dividido, mas não pôde deixar de condenar o motim. A polícia permitiu que as lojas fossem pilhadas, propriedades destruídas, estradas bloqueadas, etc. Os seus próprios filhos, que tinham frequentado escolas católicas, disseram-lhe que não podia dizer essas coisas dessas, que era “racista”.

Mas ele não está sozinho. A Frente Nacional francesa, normalmente descrita como sendo de “extrema-direita”, teve 25% dos votos (o maior bloco em França), nas últimas eleições europeias. Isto não é, a meu ver, porque as suas posições por vezes ignóbeis se tornaram de repente mais populares. Tal como a Charlie Hebdo, a Frente Nacional diz, por vezes, a verdade, mesmo que de forma pouco apetecível, mas diz abertamente coisas que muitos já concluíram com base na sua experiência diária. Suprimir a “islamofobia”, infelizmente para os franceses, só serviu para tornar os muçulmanos ainda mais temidos e impopulares.

Há outras reacções possíveis, embora pouco praticadas. Uma ex-aluna, que viveu e trabalhou em países muçulmanos, escreveu-me de Paris para dizer que se sente mais vulnerável em França agora do que em qualquer altura antes. Mas também disse isto: “A reacção ao ataque foi interessantíssima. Os padres franceses têm sido objecto de muita da venenosa ridicularização da Charlie Hebdo. Muita desta tem sido de tom pessoal, de mau gosto e brejeiro… Esta noite um grupo de padres com quem estive rezou pelas vítimas e pelas suas famílias. Estas orações foram para os perseguidores, feitas pelos mesmos homens que tinham sido perseguidos. Questiono-me quantas mesquitas pelo mundo fora teriam feito o mesmo.”

Pois, é a banalidade do Catolicismo.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está agora disponível em capa mole da Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na sexta-feira, 30 de Janeiro de 2015)

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Wednesday, 21 January 2015

Descansem! Afinal o Papa gosta de criancinhas

Depois de mais uma “polémica” a meu ver inteiramente artificial, o Papa esclareceu esta manhã que não tem nada contra as famílias numerosas, ao contrário do que alguns meios de comunicação e comentadores têm tentado dar a entender…

É já no sábado que se realiza o II Encontro Nacional de Leigos, no Porto. Se puderem não deixem de ir. Um dos temas a abordar é o papel dos cristãos na política. O moderador desse painel, Filipe Anacoreta Correia, dá aqui umas luzes sobre o assunto.

A Renascença ajuda-o ainda a perceber quais as diferenças entre os mais importantes grupos terroristas islâmicos, bem como o que têm em comum.


Foi uma grande vitória para a liberdade religiosa! Nos Estados Unidos o Supremo Tribunal decidiu por unanimidade que os reclusos podem deixar crescer o cabelo e a barba se a sua fé assim o exigir. Saiba quais as implicações desta decisão.

Esta quarta-feira publicamos um segundo artigo do The Catholic Thing sobre a questão Charlie Hebdo. Os dois autores deste artigo utilizam uma abordagem bastante diferente e dizem que órgãos como a revista satírica também fazem parte do Corpo de Cristo. Não deixe de ler, vale muito a pena.

Só o Charlie Hebdo não Chega

Jason Scott Jones e John Zmirak
O atentado contra o Charlie Hebdo foi um ataque à Cristandade. Paradoxalmente, jornais que publicam caricaturas imaturas a gozar com a religião também fazem parte do Corpo de Cristo – ainda que sejam o intestino delgado, talvez. Numa sociedade formada por uma noção profundamente cristã da dignidade humana, há espaço para maus cristãos e até para não-cristãos, da mesma maneira que existem celas para carmelitas místicas. A visão mais alargada de uma sociedade verdadeiramente cristã, no sentido terreno, não se encontra nos tratados monásticos mas sim nos Contos de Cantuária.

Qualquer tentativa de “purificar” as sociedades cristãs da dissensão e do pecado à força, acaba sempre em catástrofe: com “hereges” agrilhoados, judeus identificados e pilhas de obras de arte em cima de fogueiras. Estas tentativas de truncar o Corpo de Cristo dos seus membros “impuros” deixaram sementes de vingança que deram brotaram em 1798 em França e em Espanha na década de 1930. No Concílio Vaticano II a Igreja renunciou totalmente a quaisquer aspirações de dominar as almas dos homens através da espada do Estado – reconhecendo que a perseguição religiosa é intrinsecamente má, tal como o adultério e o aborto.

Por isso é doentio ver alguns comentadores a arranjar desculpas para a matança de jornalistas, sugerindo que as vítimas “estavam a pedi-las” por terem enfurecido as sensibilidades dos muçulmanos. Como disse Ross Douthat, qualquer religião que ameaça matar os seus críticos precisa de, e merece, ser gozado desta forma – é um método de autodefesa por parte dos não-crentes.

Mesmo os crentes precisam de algum espaço para poderem brincar com as exigências infinitas da religião, por forma a sublinhar o valor da vida terrena perante aqueles que procuram forçar um sentido puramente espiritual em cada centímetro quadrado da existência. Este dever solene de resistência explica o surgimento de fenómenos loucos como o carnaval, as canções profanas escritas pelos monges e as piadas anticlericais entre os devotos.

A fé cristã não defende que num mundo perfeito seríamos todos monges e freiras – como se o casamento, o trabalho e a política fossem um triste compromisso com o pecado. Muitos clérigos ensinaram este género de coisas e foram por isso justamente gozados pelos leigos. John Henry Newman compreendia isto. Quando o Bispo Ullathorne lhe perguntou se a Igreja precisava dos leigos, respondeu que sem eles a Igreja pareceria ridícula.

O Cristianismo aguenta e assimila a humilhação. O próprio Deus veio à Terra para ser abusado, espancado e cuspido. Na nossa piedade representamos esse mesmo Deus feito homem em pequenas imagens de plástico e também nas mais sublimes obras de arte. Os muçulmanos, por outro lado, centram-se em alguém que admitem ter sido apenas um homem – e depois endeusam-no, elevando cada uma das suas acções terrenas, (desde a guerra à poligamia) ao modelo da perfeição moral e afirmando que Ele é demasiado sagrado para ser representado. Era assim que os judeus, que o Islão imitou e depois vilipendiou, tratavam o Senhor, de quem nunca produziam imagens e cujo nome não se atreviam a pronunciar.

Mas apesar de todo o seu temor de Deus, os judeus também têm como modelo Abraão, que discutiu e regateou com Deus, e Jacob, que lutava contra anjos. Os pensadores judeus sempre tiveram a audácia de confrontar Deus com questões difíceis sobre a sua justiça e o sofrimento humano – e quando não encontravam respostas que os satisfizessem, encolhiam os ombros e recorriam ao sarcasmo. De certa forma, o Islão é o Judaísmo, mas sem sentido de humor.

Joana d'Arc
Por isso a Igreja e Ocidente precisam, de alguma maneira, do Charlie Hebdo. Se a França tiver de colocar esquadrões da Legião Estrangeira à frente do edifício para defender a redacção, então vale bem o preço, tendo em conta a alternativa de entregar as liberdades ocidentais aos vândalos barbudos das banlieues.

Mas só o Charlie Hebdo não chega. França precisa de Villon, Rabelais, Moliere, talvez até de Voltaire. Mas não foram estes homens quem construiu o país, nem foram os satíricos e os cínicos que o salvaram, vezes sem conta. O espaço de liberdade onde malandros deste género podem dedicar-se ao que fazem foi povoado, ordenado e embelezado por uma outra estirpe de gente: Carlos Martelo, Luís IX e Joana d’Arc; pelos camponeses da Vendeia, pelos peregrinos de Lourdes e pelos soldados de infantaria em Verdum; e ainda por patriotas desavergonhados como Charles de Gaulle.

Em 1940 os cínicos generais de direita decidiram deixar de defender a corrupta Terceira República, acolhendo a vitória alemã como uma “surpresa divina” e instalando o seu próprio compincha, o Marechal Pétain, como “salvador” da nação. Rejeitada há anos nas urnas, a extrema-direita francesa aproveitou a vitória dos alemães para colocar os Voltaires do seu país no devido lugar. E quem é que se revoltou contra eles? Não foram os Sartres da vida – que continuaram alegremente a encenar teatros para entreter os alemães em Paris. Não foram os quadros comunistas, cujos mestres em Moscovo eram ainda aliados de Hitler. Foi Charles de Gaulle, o patriota chauvinista e sem sentido de humor, que foi para o exílio para dar continuidade à luta “sem esperança”.

Hoje, com uma ideologia igualmente má a ameaçar a França e o Ocidente, não serão os cínicos corajosos a salvar a situação. Serão homens e mulheres, enfurecidos com este ataque à sua nação. Os bem-falantes, multiculturalistas desinteressados que consideram o entusiasmo ordinário estarão, na sua maioria, contra eles. Os de Gaulles, estamos em crer, afastarão os Sartres e salvarão a França e o Ocidente.

Os europeus que o fizerem serão aqueles que odeiam a tirania e os seus valores estrangeiros, tais como a “submissão” irracional a um Deus caprichoso do deserto. Mas mais do que ódio, serão movidos por amor: Amor pelos seus conterrâneos franceses, alemães, suíços e ingleses e os seus modos de vida ancestrais. Este tipo de amor, que exige o sacrifício, surge nos espíritos grandes e vivaços. Só as almas com longo historial de coragem, fortaleza, temperança e prudência podem esperar ter fé ou amor.

Rezamos para que a ética cristã impeça estes patriotas de cometer qualquer acto mesquinho e que o seu combate pelo ocidente respeite os mais elevados valores – no centro dos quais se encontra a pessoa, imagem brilhante de Deus.


O livro “The Race to Save Our Century”, de Jason Scott Jones e John Zmirak pode ser adquirido na loja online do The Catholic Thing na Amazon.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2015 em The Catholic Thing)

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Wednesday, 14 January 2015

Reflexões sobre o caso Charlie Hebdo

David Warren
O ataque por parte de muçulmanos fanáticos à redacção do Charlie Hebdo, em Paris, acendeu por momentos em mim as emoções e os impulsos de jornalista. Era notícia, mas mais que isso, o ataque era contra “nós”. Algo devia ser feito, escrito, submetido, o que fosse – logo! Mesmo antes de pensar.

Membros importantes da redacção, incluindo o conhecido editor e quatro cartoonistas famosos, estavam mortos. Mas dezenas de milhares de pessoas encheram as ruas com cartazes a dizer “Je Suis Charlie” e outras indicações de solidariedade transitória.

Tanto quanto consigo ver, os fanáticos conseguiram tudo o que queriam. Os homens que consideravam blasfemos foram executados. Todo o país parou para reflectir sobre a sua acção. E muçulmanos em todo o mundo passaram a ser vistos como parasitas. Tudo isto eram objectivos dos terroristas.

Talvez fossem psicopatas, mas qualquer pessoa que tenha visto as imagens percebe que estavam bem treinados. Isto não foi uma “operação de imitação”, como outras que têm atingido França, em que muçulmanos tresloucados conduziram os seus carros para o meio de multidões.

Esta operação foi bem planeada, disciplinada, e é uma indicação do que podemos esperar no futuro, com o regresso à Europa e à América de assassinos bem treinados do “califado” na Síria e no Iraque. São impiedosos e sabem que nós não somos. Isto dá-lhes uma vantagem que ultrapassa a mera escolha de armas.

Muito do discurso que temos ouvido tem sido sobre a “defesa dos nossos valores”. Isto é precisamente o que os fanáticos querem, porque eles sabem bem que nós não temos valores. Querem acentuar o contraste entre os crentes e os infiéis; querem convencer os seus correligionários, sobretudo os mais novos, que a nossa única defesa é a blasfémia e que esta pode ser derrotada.

Eles querem que os jovens muçulmanos, já a viver no Ocidente, se sintam isolados também. Querem levar os polícias a persegui-los mesmo até ao coração do gueto, onde perceberão que não são mesmo nada bem-vindos.

Em França, como no resto do mundo, as organizações islâmicas que defendem o princípio da coexistência criticaram imediatamente os ataques. Já aprenderam a fazê-lo rapidamente. Também já aprenderam a não serem ambíguos nas suas condenações. Se acham que o Charlie Hebdo é um jornal de mau gosto, que gozava frequentemente e de forma crassa com o seu profeta, agora não é a altura certa para o dizer.

Mas também isto tornou-se um efeito desejado destes ataques violentos: envergonhar os “moderados”. A mensagem para os jovens cheios de testosterona é: “Nós conseguimos os resultados, eles não conseguem nada.”

Talvez o factor mais desencorajador nesta nossa “guerra ao terrorismo” seja a resposta que é dada pelos verdadeiros tontos do Ocidente: aqueles que dizem “isto não tem a ver com o Islão”, quando até eles sabem perfeitamente que tem a ver unicamente com o Islão.

Já os politicamente correctos não permitem qualquer comentário. Estão presos porque não têm valores positivos a defender e, por isso, não têm qualquer forma de compreender as pessoas que os pretendem aniquilar. Estão pré-aniquilados, e os fanáticos muçulmanos sabem-no. Aliás, sabem mais sobre nós do que nós sobre eles, graças à nossa cegueira voluntária.

Em vez dos valores positivos do Cristianismo, que respondem aos muçulmanos ponto por ponto, seja em acordo ou em desacordo, hoje em dia não apresentamos nada. A nossa “liberdade” é articulada em termos puramente negativos como os “direitos” humanos de gozar qualquer tipo de comportamento de uma forma imediata e material, “desde que não afecte os outros”.

Considerem, por exemplo, uma capa que o Charlie Hebdo teve em 2010. A caricatura mostra o Papa Bento XVI a elevar um preservativo e a dizer: “Eis o meu corpo”. Foi um exemplo típico por parte do jornal de tentar chocar. Foi uma boa tentativa, mas não chegou a ser blasfemo porque, no ocidente moderno, a blasfémia é simplesmente impossível.

Salvo a minoria que continua a ser cristã, e que na maior parte compreende que é preciso ser-se cristão para se poder blasfemar o Cristianismo, o Ocidente já não tem qualquer Deus a quem ofender.

Quando o presidente François Hollande foi à redacção do Charlie Hebdo, depois do massacre, não foi capaz de outra coisa que não repetir uma série de clichés. Foi como uma visita de cortesia, mas aos mortos.

Podemos dizer, altivamente, que a imprensa livre não pode ser silenciada; mas pode, e foi, como se viu por estes eventos. Mas também não tem qualquer problema em silenciar-se a si mesma, como se viu em muitos órgãos de comunicação social em que se desfocaram as imagens de caricaturas que pudessem “ser consideradas ofensivas pelos muçulmanos”.

Excepto quando está a seguir uma multidão, a “imprensa livre” costuma ser cobarde. A única coisa que admiro nos falecidos editores e cartoonistas do Charlie Hebdo é que não eram cobardes. Chegaram mesmo a dizer: “Para nos calar vão ter de nos matar”, e estavam a falar a sério. O seu desafio aos muçulmanos fanáticos redobrou depois de lhes terem incendiado a redacção em 2011.

Nisto são um exemplo a seguir por nós católicos.

O Islão é uma força positiva. Os seus seguidores acreditam em coisas e muitos estão dispostos a lutar por elas. Os fanáticos podem ser deturpados, mas a sua causa não é egoisticamente pessoal. Pretendem conquistar a Europa – assuntos do século VII que ficaram por resolver – e as suas tácticas e estratégias são tudo menos contraproducentes.

Com cada novo atentado ganham respeito e inspiram mais jovens muçulmanos a segui-los. Cada murro que espetam revela como o peito do Ocidente decadente está oco. Nem sequer reconhecemos que estamos em guerra, tamanha é a nossa capitulação.

Mas a verdadeira batalha, conforme eles o entendem, não é entre o Islão e uma libertinagem vazia. Essa é demasiado fácil de ganhar. É entre Cristo e Maomé: a única batalha em que podem ser colocados na defensiva; em que os seus próprios filhos se podem voltar contra eles.


David Warren é o ex-director da revista Idler e é cronista no Ottowa Citizen. Tem uma larga experiência no próximo e extreme oriente. O seu blog pessoal chama-se Essays in Idelness.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 9 de Janeiro de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Monday, 12 January 2015

Charlie Hebdo usa Maomé para passar mensagem cristã

Enquanto escrevo, o Papa Francisco está a caminho do Sri Lanka, de onde segue depois para as Filipinas. É a segunda visita à Ásia, e reveste-se de grande importância, política, religiosa e social. A Aura Miguel explica porquê.

Continuamos a viver a “ressaca” do caso Charlie Hebdo. Aqui pode ver a capa da próxima edição do jornal, que volta a dar destaque a Maomé, mas que curiosamente traz também uma mensagem bem cristã de perdão… Temos também a história de um jovem muçulmano que no ataque ao supermercado agiu como um herói e salvou vidas; temos o lamento de um arcebispo nigeriano que pergunta onde está a onda de solidariedade para com o seu país, que sofre bem mais com o terrorismo; temos a preocupação do Patriarca de Lisboa e temos Erdogan, presidente da Turquia, que quer que toda a gente saiba que ele não é Charlie Hebdo

O Papa Francisco é um dos que não esqueceu os nigerianos, e mencionou o facto no seu discurso ao corpo diplomático, esta manhã, antes de viajar para a Ásia.

Tristes notícias da Líbia, onde 21 cristãos foram raptados pelo braço local do Estado Islâmico. Não augura nada de bom.

E o Vaticano concluiu que o arcebispo Oscar Romero morreu mártir. É um dado importante, uma vez que poderá contribuir para o seu processo de beatificação.

Para quem ainda não leu, mando novamente o link da minha análise sobre se o terrorismo islâmico é, ou não, representativo do verdadeiro Islão, que está a gerar alguma discussão (civilizada) nos comentários.

Friday, 9 January 2015

Fim do pesadelo em França?

Chegou ao fim, pelo menos assim parece, o episódio de terror em França, que começou com um ataque à redacção do Charlie Hebdo e terminou com a morte de três terroristas, incluindo um que tinha levado a cabo outro ataque na quinta-feira de manhã, e mais quatro reféns.

Durante os últimos dias começaram a ouvir-se novamente vários lugares-comuns, entre os quais “Isto não tem nada a ver com a religião”, “Isto não é o verdadeiro Islão” e, por outro lado, “Todos os muçulmanos são assim”. Este facto levou-me a escrever o seguinte texto, em que disputo todas as afirmações.

O Papa Francisco recebeu ontem no Vaticano duas visitas interessantes. Uma foi de Angelina Jolie, a outra foi dos líderes da comunidade Yazidi. A primeira diz que os refugiados se sentem representados por ele e os segundos chamaram-no “pai dos pobres”.

A minha colega Rosário Silva esteve em Campo Maior para falar com uma noviça da Ordem da Imaculada Conceição que vai tomar o hábito este sábado, e Ângela Roque falou com as Dominicanas de Santa Catarina de Sena, que querem dar a conhecer o legado da sua fundadora.

O imã radical Abu Hamza Al-Masri foi condenado a prisão perpétua, nos EUA.

O padre Duarte da Cunha explica como os bispos europeus vão apoiar os cristãos da Terra Santa.

Isto é, ou não é, o verdadeiro Islão?!?

O incidente com o jornal Charlie Hebdo chocou-nos a todos e gerou uma onda de solidariedade por todo o mundo, mas também fez sair cá para fora os lugares-comuns de sempre, que em nada contribuem para o debate.

Começo com um que ouvi esta manhã de um respeitado comentador de assuntos internacionais, quando questionado sobre a importância da religião neste fenómeno do terrorismo. Resposta pronta: “Isto não tem nada a ver com a religião! Isto é terrorismo puro”.

Desculpa? Um grupo de homens que se identificam acima de tudo como muçulmanos atacam um jornal conhecido por gozar com a sua religião (entre outras), gritando palavras de ordem como “Deus é Grande” e “Vingámos o profeta” e isso não tem nada a ver com religião?

No dia seguinte outro  homem que se identifica como muçulmano mata a tiro uma mulher polícia e, passadas 24 horas, entra numa loja judaica de produtos kosher onde faz reféns, e isto não tem nada a ver com religião?

Uma coisa é discutir se estes homens e os seus actos são verdadeiramente representativos da religião que dizem professar, (já lá vamos), mas dizer que isto não tem nada a ver com religião é absurdo. Claro que tem tudo a ver com religião. Pode haver outros assuntos à mistura, não nego. Pode ter a ver com imigração, com políticas de integração, com racismo, com muita coisa. A Ana Gomes até acha que a culpa é da austeridade... mas não me venham dizer que não tem nada a ver com religião.

Nunca é demais repetí-lo: A religião é um fenómeno potentíssimo, no sentido em que move o ser humano a fazer coisas de grande dimensão. Para o bem, como felizmente vemos tantas vezes em tantas pessoas fantásticas que se dão inteiramente para ajudar os seus irmãos e vizinhos, mas também para o mal, como já vimos muitas vezes na história e vimos por estes dias em Paris.

“Isto não é o verdadeiro Islão”
Antes de mais convém ver quem é que está a dizer isto.

Se for o Sheikh David Munir, como muitas vezes o faz, é uma coisa. Ele é uma autoridade na comunidade islâmica, é um conhecedor do Islão e um líder muçulmano com um longo passado de participação civil e em actos de diálogo inter-religioso. Podemos discutir com ele se tem razão ou não, mas aceito a autoridade que ele tem para dizer que o que aqueles dois irmãos fizeram não é representativo do verdadeiro Islão.

O que não aceito é que o Zé da Esquina, que aparece como convidado para falar no telejornal, mas sabe tanto sobre o Islão como eu sei sobre física quântica, diga que isto, ou qualquer outra coisa, é representativo do verdadeiro islão. Como não aceito que o diga o Obama ou o Cameron, ou o Passos Coelho, ou sequer o o Papa Francisco.

Não é representativo porquê? Acaso eles se consideram mais conhecedores dos ensinamentos islâmicos que os pregadores que radicalizaram estes e tantos outros terroristas? Sabem recitar o Alcorão? Sabem explicar as suas passagens? Sabem explicar as incongruências que existem no texto?

Não é o verdadeiro Islão porquê? Porque não vos apetece? Porque é politicamente correcto dizê-lo? Porque ouviram o Sheikh David Munir a dizê-lo? É que se for esse o caso então citem-no, mas não falem como se tivessem um pingo de autoridade para estar a dizer a dois muçulmanos qual deles é que é verdadeiro e qual é que é falso.

Eu não sei se isto é o verdadeiro Islão ou não. O que sei é que neste momento há uma divisão no interior do Islão (uma de muitas), entre as pessoas que acham que sim e as que acham que não.É um problema, e é grave, seria ingénuo negá-lo. É uma questão que mundo muçulmano tem de enfrentar e tem de tentar resolver. É um debate que tem de se travar a nível teológico e a nível filosófico, e não com slogans e frases bonitas. Não basta catalogar uma corrente como não-islâmica e esperar que desapareça. Não vai desaparecer.

Verdadeira muçulmana, ou enganada?
“O Islão é isto mesmo”
Aqui aplica-se exactamente a mesma lógica, mas ao contrário. É isto mesmo, por alma de quem? Porque vêem alguns muçulmanos a comportarem-se assim? Então os milhares que vivem pacificamente, que defendem os seus vizinhos cristãos, que pagam impostos e não sonhariam olhar de lado para um polícia, quanto mais matá-lo a sangue frio... estão enganados?

Também aqui, não reconheço a 99% das pessoas que o dizem qualquer autoridade para o fazerem. Claro que podem ter a sua opinião, mas ninguém é obrigado a dar-lhes importância.

Mas esta frase tem uma agravante. É que enquanto a anterior corre o risco de ser demasiado ingénua, não é uma particular ameaça. Esta, pelo contrário, incita à divisão social e ao ódio e, acima de tudo, só pode servir para radicalizar ainda mais os muçulmanos que a ouvem.

Estes terroristas que atacaram o Charlie Hebdo odeiam-nos. Não odeiam só os que fazem caricaturas de Maomé, odeiam-nos a todos, as nossas religiões, o nosso estilo de vida, a nossa maneira de vestir, os nossos hábitos, a nossa democracia, os nossos valores, os nossos direitos. A pior coisa que podemos fazer, em resposta aos seus ataques, é incentivar divisão social e purgas que, levadas ao extremo, representam precisamente o mesmo que eles querem: separação, ausência de direitos e liberdades, morte e terror.

Então não podemos dizer nada?
Eu sei que custa muito, hoje em dia, assumirmos que não temos certezas, mas é um exercício de humildade que nos fica bem. Quando me pedem a opinião sobre estes assuntos eu digo sempre que não sei. Os terroristas e o Estado Islâmico representam o verdadeiros Islão? Ou são os Sheikhs David Munir e os milhares de muçulmanos, como é o caso em Portugal, que vivem a sua vida em paz, contribuem para a sociedade e não chateiam ninguém?

Não sei. Não sou muçulmano e por isso não tenho nada que opinar sobre isso, da mesma maneira que acharia de uma tremenda arrogância o Sheikh David Munir ou outro qualquer vir opinar sobre quem representa o verdadeiro Cristianismo, os católicos liberais, ou os conservadores, ou os protestantes, ou os lefebvrianos.

O que posso dizer é que sei muito bem de quais gosto mais! Disso não há a menor dúvida. Posso dizer que independentemente de quem tem razão nesse debate teológico interno, eu preferia sentar-me à mesma mesa com alguém da linha do Sheikh David Munir do que com alguém que abraça os ideias dos jihadistas. E isso já não é coisa pouca, a meu ver.

Porque aquilo que eu amo sobre a nossa sociedade e os nossos valores não são as caricaturas nojentas que jornais como o Charlie Hebdo tanto gostam de publicar, são os valores que permitem que eles o façam e que ao mesmo tempo protegem a minha liberdade de dizer que não os quero ler, não os acho piada e não quero ter nada a ver com eles. Os valores que eu amo são os que me permitem sentar à mesma mesa que um muçulmano e partir pão com ele e discutir com ele temas do Céu e da Terra, de vida ou de morte, em paz. A salvaguarda desta realidade é algo que é muito mais importante, nesta altura, do que a repetição de frases politicamente correctas, mas racionalmente ocas.

Wednesday, 7 January 2015

"Não gostam da liberdade? Emigrem!"

Um dos muitos cartoons de apoio ao Charlie Hebdo
Que dia! Um atentado terrorista fez pelo menos 12 mortos em França, há ainda quatro feridos graves, pelo que o número pode subir.

Um comando de três jihadistas atacou a redacção da revista satírica Charlie Hebdo, matando 10 funcionários e dois polícias. Os suspeitos já foram identificados e estão a ser procurados pela polícia.

As reacções não se fizeram esperar. Boas declarações do Sheikh David Munir, da Comunidade Islâmica de Lisboa e de representantes das comunidades muçulmanas em França. O Papa também emitiu um comunicado sobre o assunto. Entretanto, dezenas de milhares de pessoas manifestam-se em Paris em solidariedade para com as vítimas e contra o terrorismo.

Tudo isto no dia em que muitos dos cristãos de rito oriental celebram o Natal. A minha colega Cristina Nascimento foi a uma liturgia dos ucranianos greco-católicos, em Lisboa, e fez esta bela reportagem. Podem ver a fotogaleria também.

Há mais de um ano passei um dia em território dos Amish, nos EUA. Levou muito tempo, mas dessa visita nasceu esta reportagem que vos convido a ler e a ver, em vídeo, que me deu muito gosto fazer. Os amish são uma das comunidades mais peculiares e apaixonantes do espectro cristão.

As instituições católicas devem despedir funcionários que contrariam os ensinamentos da Igreja? Professoras que engravidam solteiras; funcionários que se assumem como homossexuais, etc? É uma coisa que tem acontecido nos EUA mas o debate aplica-se a qualquer país, incluindo Portugal. Randall Smith pede calma e cuidado com o discernimento destes casos.

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