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Wednesday, 14 February 2018

Cinco Paradoxos da Revolução Sexual

Mary Eberstadt
Nota: Este artigo é, na verdade, dois... A primeira parte foi publicada no dia 14 de Fevereiro e a segunda, para simplificar a leitura, foi-lhe juntada no dia 21.

As definições de revolução sexual variam consoante os académicos, mas há uma fórmula simples e incontroversa. A “revolução” diz respeito a mudanças no comportamento e nas normas sexuais que se seguiram à aprovação e adopção de formas de contracepção fiáveis há mais de meio século. O primeiro factor foi a pílula, aprovada para comercialização em 1963 e disponibilizada em larga escala a partir de então. O segundo factor é a legalização do aborto a pedido em 1973 através do caso Roe v. Wade – um desenvolvimento que a aprovação da pílula tornou tudo menos inevitável. A contracepção moderna e a legalização do aborto alteraram não só os comportamentos como as atitudes. Em todo o mundo a tolerância para com o sexo extraconjugal subiu em conjunto com estas outras mudanças, por razões lógicas que já abordei noutros lados, incluindo no meu livro “Adão e Eva depois da Pílula”.

À excepção da internet, é difícil pensar em qualquer outro fenómeno desde os anos 60 que afectou a humanidade em todo o mundo tão profundamente como esta revolução em particular. Alguns dos efeitos são bem conhecidos: há quatro anos, no 50º aniversário da aprovação da pílula contraceptiva, assistimos a uma torrente de comentário e de reflexão, na maioria positiva. A revolução, como foi proclamado – e aclamado – pela revista Time e a maior parte das outras fontes seculares, tinha aplanado o campo do mercado económico entre homens e mulheres, pela primeira vez na história; tinha concedido às mulheres uma liberdade que jamais tinham conhecido. Tudo verdade. Mas há um outro lado desta história que tem sido ignorado por uma sociedade saturada pelos prazeres da revolução. A cada ano que passa acumulam-se mais provas que acabarão por alterar a narrativa cor-de-rosa que predomina. Nesse sentido gostaria de falar de cinco formas em que a revolução alterou a realidade humana como a conhecemos, cinco aparentes paradoxos que revelam o poder da revolução, em particular o seu incrível poder destrutivo.

Comecemos por uma pequena história que capta a escala da mudança. Eu cresci numa série de pequenas vilas em zonas rurais do Estado de Nova Iorque, a norte do Vale do Rio Hudson, no que parecia um planeta diferente da Cidade de Nova Iorque. Esta era, e é ainda, uma região de operários. Era o tipo de sítio em que mais rapazes nos anos 60 iam para o Vietname do que para a faculdade. Em larga medida não mudou, com uma gigantesca excepção, a família.

Nos anos 60 a maioria dos homens trabalhava nas explorações agrícolas, ou nas fábricas de cobre ou de prata locais. A maioria das mulheres casadas ficava em casa. A maior parte das famílias estava intacta – quer as religiosos quer as não religiosos. Não era uma população particularmente devota, a maioria dos residentes eram protestantes, menos de 10% católicos, e as igrejas não estavam propriamente a rebentar pelas costuras aos domingos.

Uma das minhas memórias dessa época é de uma rapariga adolescente que vivia na nossa rua e que engravidou. O pai da criança era um jovem soldado, acabado de regressar da guerra. As fofoqueiras estavam revoltadíssimas porque o rapaz não tencionava casar com ela. Nesses dias isso era chocante. Havia noivas grávidas, até adolescentes, mas os homens que recusavam casar com as mulheres que engravidavam eram objecto de reprovação. As pessoas falavam, e o que diziam não era simpático.

A rapariga acabou por ter o bebé, noutro local qualquer, e seguiu-se uma adopção. Ela regressou e acabou o liceu – tanto quanto sei sem estigma social. Mas o estigma de que me lembro, e bem, foi o que se manteve em relação ao namorado. A ideia de que ele se deveria ter responsabilizado, que era partilhada pela maioria dos adultos naquele local, e naquele tempo, desapareceu com os ventos da revolução.

Avancemos agora alguns 20 anos. No início dos anos 90 regressei e conversei com a minha antiga professora. Ela calculava que entre os 200 finalistas do liceu desse ano, cerca de um terço das raparigas estava grávida. Nem uma era casada. E sem dúvida haveria outras gravidezes para além das visíveis, pois havia boatos de que outras raparigas tinham abortado.

Ou seja, de uma gravidez escandalosa num liceu rural nos anos 70 passámos para muitas gravidezes não escandalosas nesse mesmo liceu em meados dos anos 90. Essa é uma imagem que nos mostra como a revolução sexual transformou o mundo.

O que nos leva ao primeiro dos paradoxos dessa revolução:

Paradoxo um: Se a premissa principal da revolução era a disponibilidade de contraceptivos baratos e fiáveis, porquê o aumento sem precedentes tanto no número de abortos como de gravidezes extraconjugais?

Esta é uma questão profundamente importante. Afinal de contas, quando a contracepção se tornou comum, muitas pessoas de bem-intencionadas a defenderam precisamente porque pensavam que tornaria o aborto obsoleto. A Margaret Sanger é um exemplo disso mesmo. Ela considerava o aborto “bárbaro” e argumentou que a contracepção acabaria com a prática. Entretanto a Planned Parenthood elevou-a ao estatuto de padroeira. Ela estava a fazer um argumento que parecia ser do senso comum: a contracepção fiável iria prevenir o aborto. Muitas mais pessoas, tanto antes como depois dos anos 60, acreditaram na mesma coisa. Mas os dados empíricos desde os anos 60 mostraram que esta lógica está errada. As taxas de contracepção, aborto e nascimentos fora do casamento explodiram em simultâneo. Há mais de 20 anos um grupo de economistas explicou a dinâmica destes crescimentos simultâneos com uma clareza admirável.

Antes da revolução sexual as mulheres tinham menos liberdade, mas era esperado que os homens assumissem a responsabilidade pelo seu bem-estar. Hoje as mulheres têm maior liberdade de escolha, mas os homens adoptaram para si uma opção comparável. “Se ela não está disposta a abortar ou a usar contraceptivos”, pensa o homem, “porque é que eu hei de me sacrificar para casar?” Ao remeter o nascimento da criança para a dimensão da escolha da mãe, a revolução remeteu o casamento e o apoio infantil para a dimensão da escolha do pai. Por outras palavras, a contracepção conduziu a mais gravidezes e a mais aborto porque levou ao fim do casamento por “penalti”, ou a ideia de que os homens têm uma responsabilidade igual no caso de uma gravidez não planeada.

Outra teoria interessante sobre o falhanço da contracepção na prevenção do aborto foi aduzida por Scott Lloyd, no “National Catholic Bioethics Quarterly”. Recorrendo a estudos e estatísticas da própria indústria abortista ele (tal como outros) argumenta que a contracepção conduz ao aborto – não inevitavelmente, em casos individuais, claro, mas repetidamente e seguramente, como fenómenos sociais geminados:

“A questão de fundo é esta: os contraceptivos não são tão eficazes como dizem, e o seu falhanço está no cerne da exigência pelo aborto. A contracepção permite encontros e relações sexuais que sem ela não aconteceriam. Por outras palavras, quando os casais usam contraceptivos, concordam em ter relações sexuais numa altura em que uma gravidez seria problemática. Isto conduz ao desejo por um aborto.”

Há muitos esforços nas ciências sociais, e não só, para explicar este mesmo paradoxo; mas a questão principal mantém-se: ao contrário do que a maioria teria adivinhado nos anos 60, tanto o aborto como as gravidezes não planeadas proliferaram apesar da contracepção.

Muitas das pessoas que estavam presentes no início desta revolução não teriam antecipado estas consequências paradoxais. Muitas, em boa-fé, esperavam que a humanidade dominasse estas novas tecnologias e que elas acabariam por contribuir para o bem social. Mas aqueles de nós que estão vivos hoje, em claro contraste, possuem uma imensidão de dados empíricos acumulados ao longo de décadas e podemos ver, através da ferramenta perfeitamente secular das ciências sociais, que a história da revolução sexual tomou um rumo mais sinistro.

Paradoxo dois: A revolução sexual era suposto libertar as mulheres. Mas, ao mesmo tempo, tem-se tornado mais difícil para elas conseguir aquilo que a maioria das mulheres diz querer: casamento e família.

Não estou a ser tendenciosa. Mulheres de todos os espectros políticos concordam que o casamento, ou a união para a vida, se tornou mais difícil do que outrora fora. Essa é uma razão pela qual temos actualmente barrigas de aluguer e congelamento de ovos – no caso do congelamento, com o apoio entusiástico do mundo empresarial. O objectvo destas inovações – para além dos lucros de um carreirismo ininterrupto – é estender o horizonte da fertilidade natural, para que as mulheres estejam mais livres para permanecer no local de trabalho e para encontrar marido e formar família. A suposta ideia – tal como a ideia por detrás da contracepção livre e do aborto a pedido – é de dar mais poder às mulheres, dar-lhes controlo.

Mas paradoxalmente, muitas mulheres dão por si com menos capacidade de casar, permanecer casadas e constituir família – tudo coisas que a vasta maioria das mulheres continua a descrever como seus principais objectivos. As redes sociais e a imprensa fazem eco desta preocupação com manchetes como “Oito razões pelas quais as nova-iorquinas não conseguem arranjar marido” (New York Post); ou “Porque as licenciadas não encontram amor” (The Daily Beast); ou muitas outras histórias que se preocupam com as mulheres de hoje e a questão do casamento.

Mas os economistas já desvendaram a realidade por detrás destas preocupações, mais resquícios da revolução. No seu livro “Cheap Sex: A Transformação dos Homens, do Casamento e da Monogamia”, o sociólogo Mark Regnerus utilizou as ferramentas da economia para explicar o mercado sexual pós-revolucionário, com o apoio de novos dados.

A essência do argumento é esta:
Muitas mulheres pensam que os homens têm medo do compromisso. Mas os homens, em média, não têm medo do compromisso. A questão é que os homens estão numa posição privilegiada no mercado do casamento, podendo navegá-lo de uma forma que privilegia os seus interesses e preferências sexuais.

Por outras palavras, a mesma força que erodiu o casamento de “penalti” acabou por dar mais poder aos homens e não às mulheres.

Um dos economistas citados por Mark Regnerus, Timothy Reichart, escreveu uma análise semelhante da revolução, num artigo do First Things, chamado “Bitter Pill”, em que utiliza dados dos anos 60 em diante para argumentar que “a revolução resultou numa redistribuição massiva de riqueza e de poder das mulheres e das crianças para os homens”. Especifica: “Tecnicamente, a contracepção artificial cria uma cena a que os economistas chamam o ‘dilema do prisioneiro’, em que cada mulher é levada a tomar decisões racionais que acabam por a deixar a ela e a todas as mulheres numa situação pior”.

Claro que não estamos a falar aqui nos movimentos e comunidades deliberadamente contraculturais que se juntaram para se opor à revolução desde os anos 60. Antes, estamos focados na narrativa cultural em ambientes não-religiosos – o tipo de local em que a revolução não é encarada como sendo problemática. (Ainda).

E nesse mundo, que é agora a cultura predominante, o facto de muitos homens não estarem a assentar, a casar e a constituir famílias é uma preocupação constante. É daí que surgem expressões como “síndrome Peter Pan”, dos anos 80. É por isso que “falha de lançamento” é uma expressão tão utilizada hoje e “manolescent” [homenloscente] se tornou uma palavra no Urban Dictionary.

Todos estes novos termos têm a mesma origem, que é um menor incentivo para os homens casarem, devido ao facto de o mercado sexual ter sido inundado de potenciais parceiras – “sexo barato”, como se lê no título. Também este desenvolvimento não estava entre previsões dos anos 60. Mas há mais. 

Um terceiro paradoxo tornou-se dominante na telenovela das redes sociais dos nossos dias, passa-se assim: Era suposto a revolução sexual capacitar as mulheres. Em vez disso, trouxe-nos os escândalos sexuais de 2017 e o movimento #MeToo. Para além de ter tornado o casamento mais difícil para qualquer mulher, permitiu ainda um nível de predação sexual nunca visto fora do âmbito de exércitos conquistadores.

Tomemos o exemplo de Hugh Hefner, fundador da Playboy, que morreu o ano passado. O seu império comercial assentava, claro está, em fotografias pornográficas de um grande número de mulheres. Tornou-se um exemplo da sua própria suposta filosofia, a filosofia Playboy de bebidas sofisticadas, música e, claro, sexo fácil. Foi uma ideia que se espalhou rapidamente e podemos supor que a maioria das pessoas não conhecia as verdades sórdidas que mais tarde emergiram da mansão Playboy, e não só, sobre a exploração que estava por detrás da publicidade vistosa.

Apesar disso, quando Hefner morreu muitos progressistas, incluindo autodenominadas feministas, não se pouparam a elogios ao apóstolo da revolução. Porquê? Porque ele mascarava os seus objectivos de predador na linguagem do progressismo sexual. Tal como um escritor da Forbes resumiu, “a Playboy publicou o primeiro artigo a apoiar a legalização do aborto em 1965, oito anos antes da decisão de Roe v. Wade que permitiu a prática – e antes ainda de o movimento feminista abraçar a causa. Também publicou números de telefone gratuitos para mulheres que queriam obter abortos seguros.”

Sharon Tate, Hugh Hefner, Barbi Benton e Roman Polanski
Por outras palavras, o apoio de Hefner por estas causas parece estar intrinsecamente ligado ao seu desejo de poder viver de uma forma que explora as mulheres. Esta geminação aplica-se a muitos dos escândalos sexuais que têm rebentado nos noticiários. As histórias dos Weinsteins, etc., revelam este papel estratégico do aborto na vida de numerosos homens que vêem as mulheres como objectos sexuais e desprezam a monogamia. Sem o recurso à liquidação fetal, onde estariam homens deste calibre? Em tribunal, a pagar fortunas em pensões alimentares.

Cada vez mais pensadores, mesmo fora do mundo religioso, estão a chegar à mesma conclusão. A revolução sexual não cumpriu as promessas feitas às mulheres; pelo contrário, deu ainda mais liberdade aos homens – sobretudo homens sem as melhores intenções. Francis Fukuyama, um cientista social não religioso, escreveu há quase 20 anos no seu livro “The Great Disruption” que “uma das maiores fraudes impostas durante a Grande Disrupção foi a noção de que a revolução sexual era neutra do ponto de vista de género, e que beneficiaria homens e mulheres em igual medida… De facto, a revolução sexual serviu os interesses de homens e acabou por impor fortes limites aos ganhos que as mulheres poderiam esperar da sua libertação de papéis tradicionais”.

Com essa observação, Fukuyama junta-se a uma longa e crescente lista de pensadores não-religiosos que agora, em retrospectiva, podem compreender melhor aquilo que alguns dos líderes religiosos dizem desde sempre. A revolução democratizou, efectivamente, a predação sexual. Já não era necessário ser rei ou senhor do universo noutra dimensão para poder abusar ou assediar mulheres de uma forma contínua. Tudo o que era preciso era um mundo em que a maioria das mulheres usam contracepção e não beneficiam de protectores masculinos. Por outras palavras, o mundo que nos foi entregue pela revolução.

Há um quarto paradoxo que ainda mal foi estudado, pelo menos de forma sistemática, e que precisa de o ser. Trata-se do efeito da revolução sobre o Cristianismo. Ao olhar para trás percebemos que a história da revolução tem acompanhado, simultaneamente, a polarização das igrejas por dentro ao mesmo tempo que cria laços mais fortes entre denominações diferentes do que alguma vez tinham existido.

Há décadas que os comentadores discutem o que os anos sessenta significaram para as igrejas. Alguns acolheram as inovações do Concílio Vaticano II, por exemplo, e outros saudaram as transformações teológicas radicais das principais igrejas protestantes. Outros ainda deploram estas mudanças. Seja como for, os observadores do Cristianismo hoje chegam a uma conclusão inevitável: a revolução sexual é a questão mais divisiva que atinge a fé.

Isto aplica-se tanto a católicos como a protestantes. Em 2004 o livro “A Church at War”, de Stephen Bates, um livro sobre a Comunhão Anglicana, resumia assim o seu principal argumento na contra-capa: “A política sexual vai levar ao divórcio entre Anglicanos e Episcopalianos?” Alguns anos mais tarde, escrevendo sobre o mesmo assunto em “Mortal Follies: Episcopalians and the Crisis of Mainline Christianity”, William Murchison concluiu que “para os episcopalianos, como para muitos outros cristãos, as principais questões são o sexo e a expressão sexual, nem um nem outro visto como um meio para um fim maior, mas sim como o fim em si”.

No seu livro de 2015 “Onward”, Russell Moore reflecte sobre a tensão entre evangélicos progressistas e tradicionalistas da seguinte forma: “No que diz respeito à religião na América, neste momento, o progresso resume-se sempre a sexo”.

Tal como noutros exemplos, parece seguro dizer que o estado de divisão que existe hoje não é nada que os cristãos dos anos 60 desejavam. As vozes dentro das igrejas que pediam apenas um Cristianismo “mais aberto” não sabiam o que vinha aí, que se transformou na guerra civil figurativa de hoje, que atravessa denominações e a fé em si.

Por agora termino com um quinto paradoxo. A revolução sexual não se ficou pelo sexo. O que muitas pessoas pensavam tratar-se de uma transformação privada das relações entre indivíduos acabou por reconfigurar de forma radical não só a vida familiar, mas a vida em si.

Talvez o efeito menos compreendido da revolução seja aquilo a que se podem chamar os seus efeitos macrocósmicos – a forma como continua a transformar e deformar não apenas indivíduos, mas sociedades e política também.

Algumas destas mudanças são demográficas: em grade parte do mundo desenvolvido as famílias são hoje mais pequenas e mais estilhaçadas por dentro do que em qualquer outro período da história.

Alguns efeitos são políticos: famílias mais pequenas e fracturadas colocaram uma pressão sem precedentes sob os estados sociais do Ocidente, ao reduzir a base fiscal necessária para a sustentar.  

Há ainda efeitos sociais que só agora começam a ser mapeados, como o grande aumento de pessoas a viver sozinhas, ou a demonstrar índices muito reduzidos de contacto humano ou de outras formas que constituem o campo em crescimento de “estudos de solidão” – também isto acontece em muitos países ocidentais.

Depois há as consequências espirituais, que também não podiam ter sido previstas nos anos sessenta, sobretudo por aqueles que argumentavam que uma mudança de paradigma moral ajudaria os cristãos a serem melhores cristãos.

Já argumentei noutro lado que a revolução deu aso a uma nova fé secularista e quási-religiosa – o conjunto de crenças mais potente desde o marxismo-leninismo. De acordo com esta nova fé, o prazer sexual é o bem-maior e não existe qualquer padrão moral para além do consentimento entre adultos para o que quer que seja que desejem fazer uns com os outros. Quer tenham consciência disso ou não, muitas pessoas modernas tratam a revolução sexual como uma espécie de fundação religiosa – intocável em termos de revisão, independentemente das consequências que provocou.

Estes são apenas alguns exemplos do novo mundo que precisa de ser estudado e isto vai absorver-nos intelectualmente durante muito tempo. Devemos ter esperança nesses esforços futuros. Afinal de contas, levou mais de cinquenta anos para a opinião mudar sobre apenas alguns aspectos negativos do legado da revolução. Poderão ser precisos mais cinquenta, ou cem, para que seja feito um apanhado empírico e intelectual completo e honesto. O revisionismo sobre os efeitos da revolução no mundo ainda agora começou.

Termino com um pensamento. O grande escritor russo Leo Tolstoy foi a dada altura enviado pelo seu jornal para fazer uma reportagem sobre o que se passava num matadouro local. O que viu abalou-o profundamente. A descrição que fez incluiu uma frase imortal que penso aplicar-se à nossa situação hoje. Depois de relatar os factos, Tolstoy observou, com simplicidade devastadora, “não podemos fingir que não sabemos estas coisas”.

É nesse ponto que se encontra a humanidade em 2018 no que diz respeito à revolução sexual. Não podemos continuar a fingir que não sabemos estas coisas, estas coisas que a revolução provocou.

Nos anos idílicos da década de 60 muitas pessoas de boa-fé podiam alegar ignorância sobre as consequências vindouras. Poucos podiam adivinhar quantos milhões de crianças nas gerações seguintes cresceriam sem pais em casa, por exemplo, ou quantos mais milhões seriam abortados; ou quantos homens e mulheres de casas destroçadas acabariam por sofrer de diversas formas, recorrendo a drogas – a epidemia de opiáceos não se pode resumir ao marketing – e outros comportamentos autodestrutivos.   

Há apenas meio século, muitas pessoas esperavam que a revolução não provocasse danos colaterais humanos. E, justiça lhes seja feita, quem, nesses anos, poderia ter previsto a autêntica biblioteca de ramos de ciências sociais que, entretanto, foi criada, demonstrando apenas alguns dos danos humanos afligidos a homens, mulheres e filhos da revolução?

Há cinquenta anos algumas pessoas até esperavam que as novas liberdades e controlos tecnológicos acabariam por estabilizar o casamento. A encíclica Humanae Vitae, que também completa os seus 50 anos este ano, acabaria por se tornar desprezada ao longo das décadas precisamente por prever o contrário – precisamente por insistir que a revolução iria ferir o romance e a família, e permitir o comportamento predatório dos homens e a maldade de governos.

É um paradoxo dentro do paradoxo que muitas pessoas, incluindo dentro da Igreja Católica, mesmo em altos cargos, resistiram furiosamente à rejeição que a Humanae Vitae fez da revolução – ou, já agora, qualquer rejeição da revolução – não obstante as provas.

Mas em 2018 será que algum de nós pode, em boa-fé, fingir que não sabe estas coisas que foram empiricamente documentadas? A resposta tem de ser não.

Em 1953, quando a primeira edição da Playboy chegou aos escaparates, talvez muitas pessoas quisessem acreditar na sua conversa sobre aumentar a sofisticação e a urbanidade dos homens americanos. Em 2018 não podemos continuar a fingir que a generalização da pornografia representou menos do que um desastre para o romance e um dos factores principais para os divórcios de hoje, bem como outras rupturas familiares.

Em 1973 nem mesmo os apoiantes de Roe vs. Wade podiam imaginar o que aí vinha: alguns 58 milhões de micro-humanos que nunca teriam a oportunidade de nascer, só nos Estados Unidos; generocídio, ou a matança selectiva de micro-meninas por serem meninas, em várias nações do mundo, também aos milhões. Nem podiam antever o grande salto tecnológico que acabaria por revelar a verdade sobre o aborto de uma vez por todas: a ecografia.

Será que os defensores actuais do aborto podem alegar a mesma ignorância?

Encarar os factos de forma honesta, e usá-los para estabelecer uma narrativa verídica, não é apenas uma forma de nos lamentarmos: é capacitador. Ao rejeitarmos estarmos sujeitos às falsidades da revolução, ainda que se tenham tornado a narrativa dominante dos nossos tempos, estamos a abraçar a liberdade de escrever uma narrativa nova, e mais verdadeira.

Só falta dar mais um passo na revisão do legado da revolução rumo à verdade: acabar de fingir que não conhecemos o registo histórico e empírico, quando cada ano que passa o revela cada vez, tanto à ciência como à razão. 


Mary Eberstadt é investigadora na Faith and Reason Institute. Alguns dos seus anteriores artigos para o The Catholic Thing, ou em que o seu trabalho é discutido, podem ser encontrados aqui. É autora de vários livros, incluindo It’s Dangerous to Believe e How the West Really Lost God.

(Primeira parte deste artigo publicada pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 10 de Fevereiro de 2018)
(Segunda parte deste artigo publicada pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 17 de Fevereiro de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

Thursday, 29 September 2016

Quão Antigo é o Ensinamento da Igreja sobre Contracepção?

Randall Smith
Muitos dos leitores já saberão que um grupo de 141 académicos católicos, na maior parte da Europa e dos Estados Unidos, assinou algo que se chama a Declaração de Wijngaards, que deriva o seu nome do Instituto Wijngaards de Investigação Católica (“Promovendo a Igualdade de Género e a Partilha de Responsabilidades na Igreja” desde 1983). Esta declaração foi posteriormente apresentada nas Nações Unidas para – o quê precisamente? Aprovação? Diversão? Leitura de tempos livres? Parece que os signatários consideram que a Igreja deve mudar o seu ensinamento sobre contracepção. Ui, que modernos que eles são!

Felizmente, outro grupo de académicos católicos redigiu um documento de resposta: “A afirmação do Ensinamento da Igreja Católica sobre o Dom da Sexualidade”. Este segundo documento, talvez goste de saber, conta actualmente com mais de 500 assinaturas de académicos com doutoramentos ou o equivalente nos ramos de Medicina, Direito, Filosofia e Teologia.

Muitos católicos pensam que a discussão sobre contracepção remonta à encíclica Humanae Vitae de Paulo VI, de 1968. Mas isso não é bem verdade, uma vez que as raízes desse ensinamento vêm bastante detrás. Em larga medida, Paulo VI estava meramente a reiterar, nas suas palavras, um ensinamento anterior. Alguns católicos poderão recordar-se (ou ter aprendido sobre) a encíclica Casti Connubii de Pio XI de 1930. Também esta é importante, mas não é a fonte original.

Então exactamente quão antiga é a oposição da Igreja à contracepção? 1920? 1900? 1880? Afinal de contas, a contracepção é um fenómeno relativmente recente, certo?

Acontece que não. Quem se der ao trabalho de dar uma vista de olhos nos detalhes, por vezes grotescos, do livro “Contraception: AHistory of its Treatment by the Catholic Theologians and Canonists”, escrito por John T. Noonan – algo que, a propósito, e por várias razões, não recomendo – verá que as pessoas andam a enfiar substâncias terríveis pelas mulheres a dentro para tentar evitar que tenham filhos há muito tempo. Há quanto, precisamente? De acordo com Noonan, “cinco papiros diferentes, todos de entre os anos 1900 e 1100 A.C. (Sim, antes de Cristo), incluem receitas para preparações contraceptivas a serem usadas…” – bem, digamos que, de formas que eu preferia não ter de descrever.

Tendo em conta os ingredientes – bosta pulverizada de crocodilo em mucilagem fermentada? Mel com carbonato de sódio? Estas mistelas dificilmente poderiam fazer bem às mulheres que eram obrigadas a tomá-las. Digo “obrigadas”, porque estamos a falar da época antes de os homens terem conseguido convencer as mulheres que a contracepção é uma expressão potente da sua autonomia e não o resultado evidente dos desejos sexuais vorazes daqueles.

Pode-nos parecer que estas misturas eram nojentas, mas seriam assim tão diferentes da prática moderna de encher a mulher de hormonas para convencer o seu corpo de que está gravida? E o estrogéneo todo que usam, de onde acham que vem? Se for ver à internet que é sintetizado, terá de perguntar, sintentizado a partir de quê? Como? Com que químicos? Como é que é “cultivado”? De que animais é extraído? Quando se começa a ver a questão com mais atenção, percebemos que a ideia de bosta pulverizada de crocodilo em mucilagem fermentada afinal não é uma coisa assim tão estranha. Mas fosse qual fosse o ingrediente, muitas civilizações antigas tinham métodos ou mezinhas que acreditavam poder prevenir uma mulher de engravidar depois de ter relações sexuais. Nós, claro, temos os nossos.  

E como é que a Igreja primitiva via tudo isto? Enfrentada por uma cultura romana que na maior parte não tinha qualquer problema com contracepção e aborto, tanto quanto conseguimos perceber os cristãos primitivos opunham-se a ela. No importante texto do primeiro século, o “Didaqué”, ou “O ensinamento dos Doze Apóstolos”, o autor, cujo nome desconhecemos, distingue a Via da Vida da Via da Morte.

A Via da Morte, como podemos supor, estava recheada de pecados, um dos quais incluía fazer uso de pharmakeia que são “assassinos de crianças, corruptores da imagem de Deus”. Parece ser uma referência a drogas abortivas ou contraceptivas. O mesmo ensinamento surge na Epístola de Barnabé, do século primeiro. Encontramos ainda na Paedagogus, de Clemente de Alexandria, a admoestação moral: “Por causa da sua instituição divina para a propagação do homem, a semente não deve ser ejaculada em vão, nem deve ser danificada, nem deve ser desperdiçada”.

Para além destas condenações expressas, o que é mais revelador é a insistência repetida, entre todos os padres da Igreja, da inseperabilidade do acto sexual e do propósito procriativo. Trata-se de uma preocupação constante e de um tema repetido nas pregações e no ensinamento. “Nós cristãos”, escreveu o apologista Justino Mártir, “ou casamos para poder produzir filhos ou, se nos recusamos a casar, somos absolutamente continentes”. De igual forma, o bispo Atenágoras, do século II, afirmou numa carta escrita ao imperador no ano 177 que os cristãos não praticam o coito para satisfazer os desejos. Antes, “a procriação de filhos é a medida do desejo dos nossas apetites.”

Naturalmente, o que temos aqui é um mero resumo simplificado destes textos. Cada um deve ser lido no seu contexto original. Nem cheguei ao desenvolvimento mais sério destes ensinamentos noutros padres como Agostinnho, Aquino e muitos outros, ao longo dos séculos. Acredito que é seguro dizer-se que o ensinamento que vemos reflectido no Humanae Vitae e nos desenvolvimentos posteriores levados a cabo por João Paulo II – de que não se deve separar as dimensões procriativa e unitiva do acto conjugal – remonta ao início da Igreja e que tem sido constantemente reafirmada desde então.  

Mas sabem como é… Agostinho, Aquino, os primeiros padres da Igreja e 2000 anos de pensamento moral sobre esta questão de um lado e 141 “académicos”, na maior parte da Europa, onde a Igreja está morta (uma das signatárias é uma baronesa de verdade) a apresentar um documento numa reunião da ONU do outro lado,

Ena, é difícil saber que posição, a favor ou contra, devemos tomar sobre esta questão. Talvez o melhor seja atirar uma moeda ao ar. 


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 26 de Setembro de 2016 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 15 April 2015

Ideologia do género não é a solução, é o problema

Desde que não engravides...
O Papa Francisco criticou a ideologia do género, esta manhã, dizendo que eliminar a diferença entre os sexos não é a solução, é o próprio problema.

Por esta hora, na Sinagoga de Lisboa, está a ser homenageado do padre Joaquim Carreira, que foi considerado “Justo Entre as Nações” pelo memorial do holocausto, Yad Vashem.

Esta tarde representantes das três principais religiões em Portugal juntaram-se para discutir a relação entre a cultura e a religião, concluindo que a cultura pode ser mesmo o antídoto para o fanatismo religioso.

Já perdi a conta às vezes que ouvi dizer que a pílula contraceptiva é não só, e magicamente, isenta de efeitos secundários negativos, como até tem só vantagens. Também já estou habituado a ouvir falar nos métodos naturais como os “métodos da Igreja”… Ora aqui está um artigo do The Catholic Thing para acabar definitivamente com ambos os mitos. Divirtam-se!

Uma Pró-escolha que Defende os Métodos Naturais

Howard Kainz
Na introdução ao seu livro “Sweetening the Pill” [Dourar a Pílula], Holly Grigg-Spall deixa claro que é pró-aborto, em termos políticos, e não tem qualquer objecção aos vários métodos de contraceptivos de barreira – como preservativos, diafragmas, espermicidas etc. Todavia, ela encabeça um movimento contra a pílula contraceptiva e seus derivados (Injecções Depo-Provera, Implantes Nexplanon, anéis vaginais NuvaRing, o DIU hormonal Mirena, etc.) e fá-lo não só com o seu livro, mas com o seu site, entrevistas e um documentário que deve estrear em 2016.

Qual será a sua razão para contrariar assim, de forma tão evidente, a doutrina da Planned Parenthood, da Fundação Bill e Melinda Gates, agências americanas e da ONU e outros que promovem as mais modernas tecnologias de contracepção em todo o mundo?

Ela menciona os riscos para a integridade física, raramente abordados pelos principais meios de comunicação – o facto de a pílula contraceptiva aumentar significativamente o risco de doença cardíaca e de cancro cervical, do peito e do fígado; o facto de os contraceptivos orais serem classificados pela Organização Mundial da Saúde como cancerígenos de classe 1, a par do tabaco e do amianto; que a injecção Depo-Provera vem com um aviso de que é prejudicial para a saúde óssea de adolescentes, e por aí fora.

Mas a sua principal preocupação tem a ver com os efeitos mentais e emocionais da pílula. Cita um estudo de 1998 da Universidade da Carolina do Norte, um estudo de 2001 do Kinsey Insitute, outro da Universidade Monash, de 2005 e um de 2008 da Universidade Lakehead que mostram, todas, um impacto negativo dos contraceptivos hormonais sobre o bem-estar emocional.

As pílulas contraceptivas são usadas como tratamento alternativo para problemas físicos como hemorragias fortes, períodos irregulares, dores menstruais, endometriose e Síndrome do ovário policístico. Mas, pergunta, porque é que mulheres perfeitamente saudáveis hão-de começar a tomar medicamentos, muitas vezes desde a adolescência até à menopausa, que tem inúmeros efeitos secundários – para a tiróide, adrenalina, glicose no sangue, níveis de testosterona, etc?

Basicamente, a pílula funciona recorrendo a hormonas artificiais para colocar mulheres férteis num estado em que acabarão por nunca ovular (apesar das hemorragias de privação que acompanham muitos medicamentos) e que por isso serão sujeitas às alterações fisiológicas comuns às mulheres em menopausa – infertilidade, risco acrescido de AVC e cancro da mama, resistência à insulina, imunossupressão e decréscimo da libido, etc.

Por outras palavras, estamos a assistir a um fenómeno estranho em que vemos as mulheres a serem cuidadosas com o que comem, com o exercício, vida saudável e a optarem frequentemente por um estilo de vida “natural” – mas que de resto escolhem tomar comprimidos que utilizam hormonas para impedir toda a forma de menstruação, contribuindo para a contaminação das águas e desregulando a sua própria fisiologia. 

A motivação invocada para suportar tudo isto é, claro, o medo da gravidez. Holly Grigg-Spall, que usou contraceptivos hormonais desde a adolescência quase até aos 30, descreve da seguinte forma a sua experiência: enxaquecas, hemorragias e náuseas constantes e mudanças frequentes de receitas, mas nunca quis parar porque: “Estava aterrorizada pela ideia de engravidar”.

As pressões nos nossos dias são enormes – pais aterrorizados com a ideia de que as suas filhas adolescentes possam vir a ser “punidas” com uma gravidez; médicos (incluindo pediatras) querendo assegurar a “saúde” das suas pacientes; uma economia moderna que precisa que as mulheres estejam disponíveis para trabalhar sem o fardo de “assuntos femininos”, isto para não falar de homens que querem que as suas mulheres ou namoradas estejam constantemente disponíveis para ter relações sexuais.


Mesmo as mulheres que estão a sentir os efeitos secundários negativos da pílula hesitam em parar por causa dos aspectos “bons”. As adolescentes que usam contraceptivos descobrem não só que as menstruações mais pesadas acabam, mas que a acne começa a desaparecer e o cabelo fica menos oleoso. Continuando pelos anos 20 e 30, como diz Holly Grigg-Spall: “Deixamos de ter períodos chatos, podemos ter a pele mais limpa, somos mais magras, temos peitos maiores e, supostamente, livramo-nos da TPM maçadora”.

Deixar de tomar a pílula também pode resultar em sintomas de ressaca, comparáveis ao abandono de outras drogas – insónias, irritabilidade, etc. E as mulheres que querem engravidar podem descobrir que leva vários meses até começarem a ovular normalmente depois de vários anos a tomar a pílula. Mas para as mulheres que decidem que querem deixar de viver como homens, sem períodos, em menopausa perpétua (e com vários dos sintomas da menopausa), o abandono pode abrir novas vias de oportunidade.

Holly Grigg-Spall cita a sua experiência, que coincide com a de muitas outras:

“Quando tomava a pílula sentia-me estagnada – física, mental e emocionalmente. Ficava presa em sentimentos e pensamentos. Não pensava com clareza. Não progredia. Depois de deixar de tomar a pílula o meu corpo vai passando por alterações durante o mês, experimento ondas e picos, o vai e vem e tudo isto me move. Este movimento é galvanizante... Quando deixei de tomar a pílula foi como se tivessem ligado um interruptor. Rapidamente voltei a ter a capacidade para me relacionar verdadeiramente.”

A sua solução, como alternativa para os contraceptivos hormonais, são os Métodos Naturais de Planeamento Familiar, ao estilo do “Método Creighton” mas sem as motivações católicas “opressivas”. Especificamente, segue os métodos seculares da Fertility Awareness Methods (FAM), como o método “Justisse”. Cita estatísticas de estudos alargados da Universidade de Heidelberg e outros que mostram que as FAM são tão eficientes como a pílula. Proclama a boa nova da sua emancipação da pílula no seu site, num manual de instruções (Coming off the Pill: a Guide) e, como já tinha mencionado, num documentário que está a ser produzido. Também promove uma aplicação para smartphone e tablet – Kindara, uma forma “completa e sofisticada” para seguir os ciclos.

Um defensor católico dos Métodos Naturais gostaria mais de ver uma ênfase no direito natural, e veria os problemas enumerados por Grigg-Spall como manifestações empíricas da violação dessa lei. Mas como São Tomás de Aquino, que sublinhou que se devia apreciar a verdade, independentemente da sua origem, devíamos encarar este movimento, que põe a nu uma das mais potentes armadilhas da revolução sexual, como um passo na direcção certa.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 11 de Abril de 2015)

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Wednesday, 28 January 2015

Porque é que o Sínodo de 2015 não fala de Contracepção?

Pe. Mark Pilon
Talvez a coisa mais surpreendente sobre as novas Perguntas para o acolhimento e o aprofundamento da Relatio Synodi – o pedido de opiniões em preparação para o sínodo de Outubro 2015 – não seja o que contêm mas a ausência de questões sobre um assunto que se poderia esperar de um documento deste género. Entre as 46 questões, nem uma toca directamente a questão da contracepção.

É incrível. Como é que um sínodo que lida com o tratamento pastoral do casamento e da família nos dias de hoje consegue excluir completamente qualquer pergunta que tenha a ver especificamente com um assunto que tem sido central para essas mesmas questões ao longo dos últimos cinquenta anos?

Não acredito que seja coincidência. A contracepção tem tido um impacto inegável e grave sobre a instituição do casamento. Pode-se argumentar que o impacto tem sido positivo, mas ninguém pode dizer que se trata de uma preocupação marginal. E, todavia, aqui temos um documento que nem sequer menciona a questão directamente. Há uns pontos gerais sobre o encorajamento da generosidade no acolhimento da vida e a relação essencial entre o casamento e a abertura à vida; e bem. Mas nunca se toca na relação evidente entre a contracepção e o facto de muitos casamentos estarem fechados a ambos.

O documento menciona as “mudanças” demográficas e perguntas se as pessoas têm “consciência das graves consequências” que daí advêm, sem nunca explicitar de que mudança se fala realmente e evitando assim usar descrições mais sérias como “suicídio demográfico” ou “inverno demográfico”, a formulação usada por São João Paulo II.

No Humanae Vitae, esta “mudança” era entendida como sendo uma explosão demográfica, mas hoje não é o caso. Quão importante pode ser esta questão, se não merece mais do que uma frase na pergunta 43? Os países europeus estão em queda-livre demográfica e o documento contém uma referência vaga e nenhuma referência a contracepção nem aqui nem em parte alguma?

Mas não é só a crise demográfica que pede alguma referência de contracepção e da mentalidade contraceptiva. Um dos discernimentos centrais do Beato Paulo VI e, sobretudo, de São João Paulo II era de que o uso de contraceptivos num casamento é destrutivo não só do sentido procriativo mas também da sua dimensão unitiva.

Mas a aparente falta de preocupação com a questão da contracepção parece trair uma convicção de que a instabilidade marital e a crise das famílias tem pouca ou nenhuma relação com o facto de a vasta maioria dos casais católicos usarem contracepção.

Mais, existe uma miopia notável em não compreender os falhanços da catequese e das preparações para o matrimónio por todo o mundo no que diz respeito ao mal moral que é a contracepção. E porém, enquanto o documento inclui questões sobre a catequese e a preparação dos matrimónios no que diz respeito à indissolubilidade do casamento, por exemplo, não existe qualquer questão relacionada com uma correcta catequese e preparação para o casamento no que diz respeito à contracepção -  a não ser que se acredite que a referência à “abertura à vida” cobre o assunto, o que seria absurdo.

Então o que é que se passa aqui? Durante meio século, segmentos inteiros da hierarquia da Igreja, tanto padres como bispos, têm-se mantido em silêncio, para não usar um termo pior, no que diz respeito à contracepção e à preparação para o casamento. O mesmo em relação ao confessionário. Tem sido uma revolução silenciosa. Não podiam mudar a doutrina, por isso ignoravam os ensinamentos.


Será que isto explica o silêncio do documento sinodal? Este ensinamento não pode ser alterado, como o Papa Francisco já disse claramente. E porém, parece claro que muitos líderes na Igreja continuam a manter-se cegos à verdade dos ensinamentos de dois grandes papas, de que a contracepção é um veneno para o casamento e para a sociedade em geral.

Então qual é a solução? Faz-se o mesmo que se tem feito ao longo das décadas, enterra-se a questão com silêncio. Fala-se vagamente da “abertura à vida” da “generosidade” no casamento, mas não se especifica que a contracepção leva as pessoas a estarem fechadas à vida ou egoístas em relação a ter filhos. É como uma comissão médica a falar de SIDA sem referir que ter relações promiscuas tem muito a ver com a sua transmissão.

A velha “Aliança Europeia”, que teve tanta influência nas primeiras fases do Concílio Vaticano II, poderá ter voltado ao poder neste sínodo. Os principais defensores da contracepção no Vaticano II eram principalmente teólogos e bispos europeus que faziam parte desta Aliança Europeia, tão bem retratada no livro “The Rhine Flows into the Tiber”.

Os nomes podem ter mudado, mas a rejeição básica do ensinamento da Igreja sobre contracepção mantém-se. A “sensibilidade” pastoral exige que se as pessoas querem contraceptivos, então devem tê-los. Esse não é certamente o objectivo do sínodo, mas é uma questão que não vai desaparecer. Se o sínodo se mantiver silencioso sobre o assunto, isso será entendido quase de certeza como um abandono da Igreja em relação a este assunto, ao nível “pastoral”.

A tragédia é que este sínodo poderia ter tido um impacto positivo, não só para a renovação do casamento, mas para salvar um continente Europeu apostado em autodestruir-se. Se não lidarmos directamente com a questão da contracepção de forma frontal e positiva, então o Sínodo terá pouco impacto na renovação e estabilidade do casamento, e a Europa, bem como a América e grande parte do resto do mundo, continuará a trilhar o caminho do suicídio demográfico, não por meio de armas de destruição maciça, mas através de pílulas minúsculas, mas poderosas.


O padre Mark A. Pilon, sacerdote da Diocese de Arlington, Virginia, é doutorado em Teologia Sagrada pela Universidade de Santa Croce, em Roma. Foi professor de Teologia Sistemática no Seminário de Mount St. Mary e colaborou com a revista Triumph. É ainda professor aposentado e convidado no Notre Dame Graduate School of Christendom College. Escreve regularmente em littlemoretracts.wordpress.com

(Publicado pela primeira vez no Sábado, 24 de Janeiro de 2015 em The Catholic Thing)

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Wednesday, 17 December 2014

O Grande Ausente do Sínodo: A Contracepção

Vários casais foram convidados para participar no recente Sínodo Extraordinário que decorreu no Vaticano em Outubro, como auditores, sem direito a voto, para partilhar as suas experiências no terreno com os padres sinodais.

Um casal brasileiro, Arturo e Hermelinda Zamperlini, mostraram de forma impressionante como a contracepção é o contexto segundo o qual os muitos problemas que dizem respeito ao casamento devem ser compreendidos. A sua experiência coincide certamente com os factos das famílias católica noutras partes do mundo.

Pelas suas palavras: “Devemos admitir sem medo que muitos casais católicos, mesmo os que procuram viver o seu casamento de forma séria, não se sentem na obrigação de usar os métodos naturais [de planeamento familiar]… A isto acresce que normalmente não são questionados sobre o assunto pelos seus confessores… Em geral não consideram que seja um problema moral”.

Os Zamperlini pediram ao Papa e ao Sínodo que clarificassem e propagassem os ensinamentos da encíclica de Papa Paulo VI, Humanae Vitae. Um dos padres sinodais, o Cardeal Andre Vingt-Trois de Paris, apoiou-os, indicando que existe um novo “paradigma” (uma nova “norma”?) para os casais católicos: “Tudo isto tem consequências para a prática sacramental dos casais que frequentemente não encaram o uso de métodos contraceptivos como um pecado e, por isso, tendem a não confessar o facto e recebem comunhão sem problemas”.

O relatório final do sínodo menciona brevemente a contracepção no parágrafo 58, recomendando os “métodos naturais de regulamento da natalidade”. Mas a frase final, traduzida para inglês, levou a algumas interpretações ambíguas. No italiano lê-se: “Va riscoperto il messaggio dell’Enciclica Humanae Vitae di Paolo VI, che sottolinea il bisogno di rispettare la dignità della persona nella valutazione morale dei metodi di regolazione della natalità”, e o inglês diz: “we should return to the message of the Encyclical Humanae Vitae of Blessed Pope Paul VI, which highlights the need to respect the dignity of the person in morally assessing methods in regulating births.” [devemos regressar à mensagem da encíclica Humanae Vitae, do beato Paulo VI, que sublinhou a necessidade de respeitar a dignidade da pessoa na avaliação dos métodos naturais de regulação dos nascimentos.]

Os padres sinodais referem-se, como é evidente, à insistência de Paulo VI no Humanae Vitae de que os métodos de regulação dos nascimentos deviam respeitar a dignidade pessoal. Por exemplo, o parágrafo 17, que diz: “É ainda de recear que o homem, habituando-se ao uso das práticas anticoncepcionais, acabe por perder o respeito pela mulher e, sem se preocupar mais com o equilíbrio físico e psicológico dela, chegue a considerá-la como simples instrumento de prazer egoísta e não mais como a sua companheira, respeitada e amada.”

No final do Sínodo Extraordinário, Nicole Winfield, uma jornalista da Associated Press, propôs uma interpretação diferente: “No documento sinodal final os bispos reafirmaram a doutrina, mas disseram ainda que a Igreja devia respeitar os casais na sua avaliação moral dos métodos contraceptivos” [ênfase acrescentada]. Por outras palavras, ela interpreta os bispos como dizendo que precisamos de respeitar a dignidade da pessoa no acto de avaliar que métodos usar para regular os nascimentos, que é tudo uma questão de consciência individual. Se uma pessoa e o seu confessor acharem que a pílula não tem problema, tudo bem, respeitamos essa decisão.

Esta interpretação errada pode bem coincidir com a opinião geral dos casais católicos (e dos seus confessores) e ser a razão pela qual a vasta maioria dos católicos não se opõe à contracepção. Se for o caso, muitos dos assuntos familiares/maritais discutidos no sínodo têm como “denominador comum” as práticas contraceptivas generalizadas. Isto devia ter um efeito sobre as deliberações do sínodo.

Arturo e Hermelinda Zamperlini

Alguns exemplos:

·         Se um casal divorciado nunca pretendeu estar aberto à procriação, o casamento é inválido aos olhos do Direito Canónico, pelo que uma declaração de nulidade poderá mesmo parecer desnecessária.

·         Se um cônjuge num casamento válido decidir usar contraceptivos para evitar ter filhos, e o esposo não consentir, isto deve ser razão suficiente para declarar a nulidade do casamento?

·         Se os casais estiverem a praticar sexo antiprocreativo, como é que podem julgar consistentemente os homossexuais que também o fazem? Ou proibi-los de casar?

·         Se um casal que coabita estiver a usar contracepção, deve isto ser um impedimento ao casamento sacramental?

·         Quando se fala em admitir uma pessoa em união irregular à comunhão, o factor contraceptivo deve ser tido em conta? Ou já não é relevante?

Na conclusão do Sínodo Extraordinário de Outubro o meu pároco mostrou-se surpreendido, na sua homilia dominical, pelo facto de o tema do acesso aos sacramentos por parte de pessoas em uniões irregulares ser sequer uma questão teológica, uma vez que ele e os seus colegas concedem frequentemente esse privilégio a muitos que o procuram, sem qualquer autorização superior.

Esta prática (chamada praxis in foro interno, i.e. que diz respeito ao “foro interno” da consciência) foi aprovada em 1973 pela Congregação para a Doutrina da Fé, mas restringido em 1981 pelo Papa João Paulo II na sua exortação apostólica Familiaris Consortio.

Numa exortação apostólica de 2007 o Papa Bento XVI (que em 1972, enquanto teólogo, tinha manifestado algum apoio à prática), afirmou que o Sínodo da Eucaristia de 2005 “confirmou a prática da Igreja, fundada na Sagrada Escritura (Mc 10, 2-12), de não admitir aos sacramentos os divorciados recasados, porque o seu estado e condição de vida contradizem objectivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja que é significada e realizada na Eucaristia”.

Mas pelos vistos o forum internum continua a ser utilizado frequentemente pelos confessores não só para permitir a comunhão a divorciados e recasados, mas também o uso de contraceptivos.

Vale a pena sublinhar que os padres sinodais que se mostraram favoráveis à admissão de católicos divorciados e recasados à comunhão não abordaram o tema da contracepção, que seria um impedimento adicional. Talvez estivessem a partir do princípio que a maioria dos divorciados e recasados, ao contrário de muitos dos outros católicos, evitariam a contracepção.

O Sínodo Ordinário da Família e Evangelização de 2015 terá uma nova oportunidade para abordar estas questões, que a Igreja, como os Zamperlinis disseram, e com razão, precisa de confrontar claramente e directamente.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination(2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 13 de Dezembro de 2014)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 11 June 2014

Medicina Ideológica

Matthew Hanley
Há poucas semanas a Centers for Disease Control (CDC) anunciou novas recomendações para a prevenção da SIDA. Pessoas não-infectadas em risco de contracção de HIV deviam tomar um comprimido – um medicamento antiretroviral – diariamente. Refere-se a isto como profilaxia “pré-exposição”.

A ideia de uma pessoa não infectada ter de tomar o mesmo medicamento que um infectado, por um período indefinido, é de certa forma triste, mesmo sem ter em conta a despesa, as possibilidades de efeitos secundários graves e as implicações em termos de resistência aos medicamentos no futuro.

Nem toda a gente acredita que o comprimido vai mudar o rumo da prática actual, devido à forma imperfeita de protecção que providencia, a potencial falta de adesão e o facto do efeito preventivo poder ser anulado por um aumento de comportamentos de risco (como se viu quando se introduziram os antiretrovirais e profilaxia de pós-exposição). Mas a medida está a ser anunciada como uma revelação.

Seja como for, esta nova recomendação – que corresponde a uma mudança de ênfase – surge acompanhada de um reconhecimento que foi pouco divulgado. Os responsáveis da CDC, segundo o New York Times, “há muito que estão frustrados pelo facto de o número de infecções de HIV nos Estados Unidos mal ter mudado ao longo de uma década, mantendo-se teimosamente nos 50,000 por ano, apesar de 30 anos a recomendar o uso de preservativos para bloquear a transmissão”.

Não digam a ninguém, mas isto significa, basicamente, que Bento XVI tinha razão quando teve a ousadia de observar que o preservativo não é a solução para a crise da SIDA. Por isto, como se recordam, foi criticado e acusado de ser uma ameaça à saúde pública. Que conclusões devemos tirar dos nossos próprios responsáveis de saúde?

Este falhanço tem de ser encarado com silêncio porque a questão mais séria – que precisamos de humanizar a sexualidade – é considerada anátema. Nem quando estamos perante uma morbidez grave as autoridades sentem que se deve ir por aí.

Estamos perante aquilo que o bispo e especialista em bioética Elio Sgreccia referiu como “medicina ideológica”, que se opõe claramente à medicina tradicional e hipocrática. A medicina ideológica preocupa-se com poder – com a imposição de uma agenda que “ignora ou ultrapassa a questão da verdade”. No seu diagnóstico, esta realidade corresponde precisamente à “exploração da profissão médica para fins ideológicos, legais ou não, que estão presentes na sociedade”.

A disciplina de Saúde Pública tem sido utilizada para avançar o objectivo ideológico da normalização. (Aliás, seria difícil encontrar uma profissão que não tenha sido sujeita às mesmas pressões). Os exemplos são muitos, mas a Dra. Vanessa Cullins, vice-presidente para “questões médicas” na Planned Parenthood deu-nos recentemente um exemplo claríssimo, num recente vídeo de “orientação” online: “Em termos de doenças sexualmente transmissíveis, deve esperar contrair o Vírus Papiloma Humano quando iniciar a sua intimidade sexual”.


Ou então o editorial recente do New England Journal of Medicine, que afirma que “a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo pode melhorar a saúde e o acesso a cuidados de saúde para pessoas da comunidade LGBT”. Porquê? “Pessoas LGBT que vivem em estados que proíbem o casamento homossexual têm maiores probabilidades que os seus pares noutros estados de, por exemplo, apresentar sintomas de depressão, ansiedade e abuso de álcool”.

Não faço ideia se o editor que deu espaço a este artigo de propaganda acredita verdadeiramente que se trata de uma contribuição medicamente útil. Também não sei o que é que é pior: pensar que sim, ou pensar que não mas aceitar ainda assim. O que realmente vale a pena notar, contudo, é o assumir implícito de que estes sintomas “depressão, ansiedade e abuso de álcool”, resultam do facto de não se legalizar o casamento homossexual.

A medicina ideológica insiste que estes sintomas não podem verdadeiramente, decisivamente, derivar do comportamento em si (incluindo traumas prévios). Li algures, numa fonte de confiança, que o índice de suicídio entre jovens homossexuais é muito mais alto do que a média nacional. Tanto quanto sei não existe uma solução técnica para isso.

Em todos os casos, seja por causa do risco acrescido de contracção de HIV ou de suicídio, é necessário manter-se a ilusão de que o comportamento subjacente é normativo e saudável. A fachada de que os pacientes possam estar a ser bem servidos desta forma é um exemplo clássico de medicina ideológica.

Seria muito melhor, embora rebuscado, se o responsável pela CDC fosse um discípulo de Pascal. Acreditar no que ele escreveu nos seus Pensamentos seria um obstáculo ao avanço profissional, mas chegaria ao cerne do problema com a filosofia actual de “redução de riscos”:

É perigoso mostrar claramente ao homem a sua igualdade com as bestas sem lhe revelar também a sua grandeza. É também perigoso mostrar-lhe demasiado claramente a sua grandeza, sem a sua vileza. É ainda mais perigoso deixá-lo na ignorância de ambas.

As estratégias médicas para prevenção da SIDA conseguem simultaneamente ter o homem em demasiado alta e demasiado baixa conta. Demasiado alta no sentido em que justificam e facilitam qualquer forma de comportamento, sem ver qualquer necessidade de emenda, porque consideram que o homem não pode fazer o mal; em demasiado baixa conta porque acreditam que o homem não tem capacidade de mudar e está irrevogavelmente preso a estilos de vida destrutivos.

Ir demasiado longe em qualquer um destes sentidos é pedir um desastre. E nós já fomos longe de mais.

A lei inscrita no coração do homem, como testemunha Santo Agostinho nas suas Confissões, é tal que nem o mal mais entranhado pode apagar. Não me parece ingénuo dizer que a esperança que deriva desta verdade vale mais do que qualquer profilaxia farmacêutica.

Mas em vez de se tornar prioridade, essa esperança é posta de lado. As pessoas que trabalham tão arduamente para esconder a verdade deviam compreender claramente, nas palavras de Romano Guardini, que estão a “privar o homem da sua humanidade”; mesmo as verdades mais evidentes são colocadas à margem, porque a sua “realização os esmagaria e destruiria”.


Matthew Hanley é Investigador sénior no Centro Nacional de Bioética Católica. Matthew Hanley é autor, juntamente com Jokin de Irala, de ‘Affirming Love, Avoiding AIDS: What Africa Can Teach the West’, que foi recentemente premiado como melhor livro pelo Catholic Press Association. As opiniões expressas são próprias, e não da NCBC.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 5 de Junho 2014 em The Catholic Thing)

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