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Friday, 31 March 2023

Papa hospitalizado em Roma e Centro Ismaili atacado em Lisboa

O Papa Francisco está hospitalizado com uma infecção respiratória. Por mais alarmante que isto seja, convém lembrar que estamos a falar de um homem de 86 anos com um historial de problemas respiratórios, pelo que o seu internamento à mínima preocupação não é uma grande surpresa. Em todo o caso, é sempre uma boa oportunidade para os católicos rezarem pelo seu Papa. Para quem tiver interesse, estive ontem no noticiário das 23h da SIC Notícias para participar numa conversa sobre o estado de saúde do Papa e as eventuais consequências imediatas e a médio prazo dos seus problemas de saúde. Não está online, tanto quanto vejo, mas podem recuar nas boxes para ver, se tiverem interesse. De resto, para um acompanhamento mais próximo sugiro, como sempre, a minha ex-colega e amiga Aura Miguel na Renascença.

Na terça-feira um homem atacou vários membros da comunidade ismaelita em Lisboa, matando duas mulheres e ferindo três pessoas. Chegou-se a pensar que era um atentado terrorista, motivado por extremismo religioso, mas essa possibilidade está definitivamente posta de parte, uma vez que o atacante era ele mesmo membro da comunidade. Eu ia dizer “chegou-se a temer” que era um atentado terrorista, mas a verdade é que, olhando para algumas das reacções de quem imediatamente partiu desse pressuposto parece que “temer” não é a palavra certa. Tristemente, parece haver mesmo quem anseie por um atentado que possa dar razão às suas profecias apocalípticas sobre as políticas migratórias e de admissão de refugiados. Sobre esta questão dos refugiados escrevi um texto já em 2015 que expressava a minha posição, e que mantenho.

Do Haiti chegam notícias preocupantes de mais raptos de sacerdotes. Nas últimas semanas foram dois.

Na Nigéria os cristãos ficaram preocupados quando o partido principal decidiu contrariar a convenção de apresentar uma candidatura com dois muçulmanos para os cargos de presidente e vice-presidente. Contudo, o candidato vencedor, Bola Ahmed Tinubu, sendo muçulmano, vem de uma zona marcada por diálogo e boas relações inter-religiosas e é casado com uma cristã praticante, o que dá aos bispos nigerianos alguma esperança para uma melhoria de relações entre as duas comunidades e o fim do que consideram ser discriminação.

Há notícias de um interessante milagre eucarístico nos EUA. Está a ser investigado. À primeira vista não parece ser uma coisa muito espectacular, mas neste artigo explico porque é que o aparente milagre de Thomaston pode ter um significado muito profundo para todos nós.  

Por falar em milagres, o padre Paul Scalia escreve esta semana para o The Catholic Thing sobre o milagre da ressurreição de Lázaro e como Jesus procura sempre expandir a fé de quem o segue.

Uma última nota. Na passada semana, já depois de ter enviado o mail, escrevi um texto em que falei do “caso” do Pe. Mário Rui, de Lisboa, que foi provisoriamente afastado do ministério por constar da lista da Comissão Independente. Em resultado desse artigo recebi, mais ou menos em igual medida, elogios e críticas. Mais do que uma pessoa, e algumas em público, acusaram-me de estar a partir de um ponto de presunção de culpa do Pe. Mário Rui. Isso é falso. Em lado nenhum no texto digo ou dou a entender isso. A presunção de inocência é uma conquista civilizacional que muito valorizo e pessoalmente ficarei muitíssimo satisfeito caso o Padre Mário Rui, ou qualquer outro na mesma situação, seja ilibado ou veja o processo arquivado e possa voltar ao ministério. Queria só deixar isso claro.

Tuesday, 28 March 2023

Ataque a Centro Ismaili de Lisboa - O que sabemos e o que interessa saber

O que sabemos?

Vou resumir neste post aquilo que já sabemos e o que importa ainda saber sobre o ataque ao Centro Ismaili que decorreu esta manhã de terça-feira em Lisboa.

O ataque aconteceu esta terça-feira de manhã e resultou em pelo menos um ferido e dois mortos. As duas vítimas mortais são mulheres. 

Mariana Jadaugy, de 24 anos era assistente social e Farana Sadrudin, de 49 anos, que era a gestora da fundação FOCUS - Assistência Humanitária. Ambas são portuguesas. Inicialmente surgiu a informação que uma das vítimas mortais era colega do atacante, mas embora seja verdade que o autor do ataque tenha ferido pessoas que frequentavam com ele a aula de português, incluindo o professor, nenhuma dessas vítimas morreu. 

O atacante agiu sozinho, usando uma faca de grandes dimensões. Quando confrontado pela polícia ofereceu resistência e foi baleado nas pernas. Está detido e a receber tratamento médico. 

O atacante foi identificado como Abdul Beshir, de 29 anos, um refugiado afegão que frequentava o centro para receber apoio alimentar e aprender português. Neste caso o incidente começou no contexto de uma aula de português para refugiados, e continuou no exterior da sala, onde foram asassinadas Mariana e Farana.

Abdul Beshir é viúvo, pai de três filhos menores e sofre de problemas psiquiátricos. A sua mulher morreu no centro de refugiados na Grécia onde ambos viviam. Veio para Portugal há cerca de um ano e recentemente ele vivia em Odivelas. Segundo o Ministro da Administração Interna, o cidadão afegão não estava sinalizado pelas autoridades e nada indicava que fosse uma ameaça.

Na quarta-feira a Polícia Judiciária falou sobre a questão e realçou que depois de ter falado com o suspeito e investigado aprofundadamente o seu estilo de vida, as suas comunicações e o seu percurso desde que chegou à Grécia até ao dia do incidente, não existe um único indício de que se tratou de um ataque terrorista, nem que tivesse motivos religiosos, mas que terá sido um acto levado a cabo por um surto psicótico. 

Esta quinta-feira, dois dias depois do ataque, contactei um membro da comunidade ismaelita e pude finalmente confirmar de forma independente que Abdul Beshir era ele próprio ismaelita, e que não frequentava o Centro apenas na qualidade de beneficiário de auxílio. Mais, não era um convertido, mas fazia mesmo parte da pequena comunidade ismaelita do Afeganistão, onde a esmagadora maioria da população é sunita. Fica então totalmente posta de parte a possibilidade de um ataque por motivos religiosos, sendo este claramente um incidente trágico mas intra-comunitário. 

Ficam neste momento, a meu ver, apenas duas perguntas por responder. Porque é que o atacante andava armado? Era costume nele? A presença da arma poderá apontar para alguma premeditação, embora a Polícia Judiciária o descarte nesta altura, mas também pode ser apenas um hábito de alguém que viveu numa sociedade muito violenta e que é marcado por inseguranças. 

A segunda questão tem a ver com o telefonema que Abdul Beshir recebeu e que parece ter espoletado o ataque. O presidente da Comunidade Afegã em Portugal levanta a possibilidade de ele poder estar a ser pressionado para voltar ao Afeganistão por parte dos talibãs, que estariam a ameaçar a sua família lá. A Polícia Judiciária diz que já sabe da natureza do telefonema, mas que não comenta, por se tratar de um assunto do foro privado. Sabemos que há muitos casos de pessoas que têm surtos psicóticos quando recebem notícias drásticas, que podem ter a ver com questões financeiras, ou de saúde, etc., Não é certo que alguma vez tenhamos a resposta a esta questão, mas ela parece ser uma das chaves para desvendar este mistério.

Quem são os ismaelitas?

Os ismaelitas são um ramo do islão xiita. Diferem de outros ramos xiitas, nomeadamente dos duodecimanos - maioritários no Irão e no Iraque - na medida em que aceitam como líder hereditário o príncipe Aga Khan, que consideram o legítimo herdeiro e sucessor de Maomé. 

As comunidades ismaelitas no ocidente tendem a ser conhecidos pela sua afluência e sucesso empresarial e também pelo importante trabalho que fazem a nível de acção social. Nesse sentido a comunidade portuguesa encaixa perfeitamente nessa imagem. 

Tal como a maioria da elite muçulmana em Portugal, os isamelitas têm as suas raízes sobretudo na Índia, tendo vindo para Portugal por via de Moçambique e outros países africanos de língua portuguesa. 

Em Portugal os ismaelitas são uma minoria em relação à comunidade muçulmana no geral mas não existe um historial de conflito ou sequer de grande rivalidade entre os dois grupos.

Embora exista rivalidade entre os xiitas e os sunitas, e os xiitas sejam frequentemente alvo de ataques por parte de sunitas nos países de maioria sunita, estes ataques não costumam acontecer fora do mundo muçulmano. 

Caso o atacante fosse motivado por fundamentalismo islâmico faria mais sentido - dentro da total falta de sentido - atacar um alvo cristão, não só por ser mais fácil, mas sobretudo por ter um efeito muito mais grave a nível social. 

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