quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Mitras e Mós

Stephen P. White
Ouvi uma vez uma homilia sobre vocações ao sacerdócio que concluiu com o seguinte desafio aos homens novos da paróquia: “Se não há sequer uma pequena parte de vós que quer ser padre, é porque não sabem verdadeiramente o que é um padre”.

Nessa altura, com vinte e poucos anos e acabado de sair de um período de discernimento, achei que este era um ponto muito profundo e muitas vezes desvalorizado. Por um lado, contraria a ideia do sacerdócio ordenado como um tipo de serviço eclesial selectivo, como se alguns homens fossem chamados e outros simplesmente não. Mas o que me chamou mais a atenção foi a confiança do padre quanto à universalidade do seu apelo. Estava a fazer uma afirmação subtil, mas ainda assim forte, não só sobre o que significa ser padre, mas sobre o que o que significa ser homem.

E nisso tinha razão. Há algo da essência da masculinidade num homem que se distingue dos demais, pelos demais, e oferece um sacrifício em nome daqueles que lhe são confiados. Não pavoneia a sua autoridade sobre as pessoas; dá a vida por elas. Sem querer confundir aqui as diferentes vocações, de certa forma isso descreve bem a vocação de todos os homens.

Se é verdade que o sacerdócio revela algo sobre o ser-se homem, então também se aplica que a paternidade deve revelar algo sobre a essência do sacerdócio. Se um padre não compreende de alguma maneira o que significa ser-se pai – não necessariamente no sentido natural, mas espiritual – então por mais que seja tratado por “padre”, terá dificuldade em viver bem o sacerdócio.

E com isto chegamos aos bispos americanos, que na próxima semana se encontrarão em Baltimore para o plenário anual da Conferência Episcopal*. A crise dos abusos sexuais – e sobretudo as falhas dos bispos em responder adequadamente a esses abusos – estará no centro das atenções.

Os bispos terão de colocar muitas perguntas a si mesmos e uns aos outros. Mas há uma pergunta que toca em cheio na fúria e na revolta sentidas por milhões de fiéis católicos: Que tipo de pai, que tipo de homem, reage aos abusos praticados sobre os seus próprios filhos da forma como muitos dos nossos bispos responderam aos abusos cometidos sobre os seus?

A pergunta encerra em si a resposta.

Quantos são os bispos que compreendem que as suas falhas são falhas de paternidade, e que as suas traições e as suas mentiras são sentidas com a mesma devastação? Quantos bispos têm a coragem de denunciar os seus próprios colegas – mesmo que em privado – nestes termos?

A reunião dos bispos começa na Segunda-feira com um dia inteiro dedicado a “oração e discernimento”, que terminou com Missa. Isto dará aos bispos a oportunidade de contemplar estas questões, tenham eles essa coragem.

Por providência, as leituras para a Missa de Segunda-feira devem contribuir para um exame de consciência.

A primeira leitura é de Paulo, que instrui Tito, seu “verdadeiro filho” na fé, quanto à selecção de homens para o sacerdócio: “Estabelece presbíteros em cada cidade, como te instruí, na condição de que sejam irrepreensíveis”. A seguir Paulo instrui Tito nas suas responsabilidades enquanto bispo, exortando-o a rectidão moral e concluindo com a necessidade de “reter firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes.”

São palavras boas e edificantes para os bispos (e todos nós) escutarem. Mas se as palavras de Paulo são edificantes, as palavras de Cristo aos apóstolos no Evangelho de Segunda podem ter um efeito diferente: “É mister que venham escândalos, mas ai daquele homem por quem o escândalo vem! Melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de azenha, e se submergisse na profundeza do mar, do que causar escândalo a um só destes pequeninos”

Quantos são os bispos que abordam os deveres do seu ofício com tremor e temor, não vão eles trocar as mitras por mós?

Nosso Senhor não os deixou apenas com esse aviso. Não basta que os apóstolos deixem a sua própria casa em ordem, se ignorarem aquilo que se passa à sua volta. Eles são responsáveis pelos “pequeninos”, mas também uns pelos outros.

“Estejai atentos! Se o teu irmão pecar, repreenda-o.”

Um bispo que se recusa a proclamar a verdade aos seus irmãos bispos, um bispo que não oferece (nem aceita) correcção fraterna, não só falha na caridade para com os seus irmãos bispos, mas falha os “pequeninos”, que são os que mais sofrem pela sua negligência.

Mais uma vez, não se trata de bispos a exibirem a sua autoridade uns sobre os outros, mas de levar a sério a sua vocação enquanto bispo, padre, pai e homem.

E quando um bispo falha, o que fazer?

“Se ele se arrepender, perdoa-o. E se te ofender sete vezes num só dia, e voltar sete vezes dizendo ‘desculpa-me’, deves perdoá-lo”.

Ora, aqui somos nós que devemos fazer um exame de consciência. Os nossos bispos são homens, isto é, são pecadores. Não obstante a importância de punição justa e prudente, estamos dispostos a perdoar os nossos bispos quando estes se arrependem e pedem perdão? E estamos dispostos a distinguir entre erros honestos e erros de juízo, por um lado, e depravação e corrupção por outro? Ou será que estamos tão seguros da nossa revolta que não consideramos necessário fazer tais distinções?

Esperemos e rezemos para que os bispos tenham a coragem e a humildade de enfrentar as questões mais difíceis, e que nós tenhamos a sabedoria de responder, honestamente, como os apóstolos às admoestações de Cristo: “Aumenta a nossa fé”.

* O encontro entretanto já começou.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 8 de Novembro de 2018)

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