Monday, 3 June 2013

As saudades do Patriarca




Ainda a propósito, a Câmara dos Lordes debate neste momento o “casamento” entre homossexuais. Consta que os bispos anglicanos, que têm assento na câmara, estão a ser fortemente pressionados a abster-se.

O campeão e a princesa do Duarte

Podemos fazer as maiores construções de lógica e de retórica... podemos argumentar até ficarmos roxos e gritar até ficarmos sem voz.

Mas os melhores argumentos, aqueles que convertem e tocam o coração, serão sempre os testemunhos simples e verdadeiros da vida real daqueles que vivem o que acreditam.

Obrigado por este texto Duarte

Thursday, 30 May 2013

Patriarca-eleito critica co-adopção e críticas literárias

D. Manuel Clemente encontra-se por estes dias em Bruxelas onde, hoje, criticou duramente a lei da co-adopção por casais homossexuais. O Patriarca-eleito de Lisboa falou também de austeridade, à margem de um encontro com líderes religiosos em que participou.

A co-autora do livro-entrevista com o Papa, quando ainda era “apenas” Arcebispo de Buenos Aires, está em Portugal e conversou hoje com a Aura Miguel, falando da experiência.

Se fosse o ano passado, hoje seria feriado… Não foi para rimar, mas hoje é o dia de Corpo de Deus, um dos feriados suprimidos por causa da crise. D. Nuno Brás explica como se deve assinalar o dia, apesar de tudo.

Recentemente foi-me oferecido um livro sobre o “perdão”, escrito por um pastor pentecostal americano. Uma vez que este é um tema que me é particularmente caro, fiz aqui a crítica a “Incondicional?”. Em breve espero acrescentar algumas outras sugestões de livros sobre o tema, para quem quiser aprofundar.

"Incondicional?", de Brian Zahnd: Meio livro bom…

Em 2006 estava sentado num hotel no Vietname quando vi, num canal de notícias internacional, a notícia da matança numa escola da comunidade Amish, nos Estados Unidos. Nessa mesma noite surgiram as primeiras notícias da reacção da comunidade, que tinha feito questão de ir ter com a família do assassino para lhes dizer que não guardavam ressentimentos e que perdoavam. O próprio assassino tinha-se suicidado.

A partir dessa altura fiquei fascinado pelo tema do perdão.  Esse fascínio resultou primeiro num texto e eventualmente numa tese de mestrado.

Foi por isso com o maior interesse que soube da publicação de “Incondicional” de Brian Zahnd, um pastor pentecostal americano, que foi publicado em Portugal pela Letras d’Ouro, que muito simpaticamente me ofereceu um exemplar.

Tendo feito a minha tese sobre este assunto conheço já os principais trabalhos que foram escritos nos últimos anos sobre o perdão. Zahnd fala de pelo menos três deles, incluindo um que foi escrito sobre o caso dos Amish, e sustenta grande parte da sua argumentação nessas obras. Para quem não os conhece isso é uma forma boa de apanhar uma síntese, mas para quem os conhece bem, e serão claramente uma minoria dos leitores portugueses, o autor traz pouca coisa de novo.

O principal propósito do livro, contudo, é conseguido nas primeiras 150 páginas, isto é, realçar que o perdão não é um acessório bonito e secundário do Cristianismo, mas sim um aspecto absolutamente central. O perdão é uma das grandes novidades que o Cristianismo introduz no mundo e ainda hoje é algo que o distingue das restantes religiões. Isto é frequentemente ignorado por quem fala de valores judaico-cristãos, como se fossem todos comuns.

Zahnd é convincente ao estabelecer que o perdão é central para o Cristianismo e que um Cristianismo sem perdão não o é verdadeiramente. Daí lança algumas das questões importantes, como por exemplo, até onde se deve ir? A dúvida é tão pertinente, que foi precisamente a pergunta que São Pedro fez a Jesus. Quantas vezes devemos perdoar? Jesus foi claro, 70 X 7, que é como quem diz, infinitamente. É nesta altura que me lembro da frase de um simpático mas simples padre que confrontado com a passagem do Evangelho em que Jesus diz que se deve oferecer a outra face, começou a homilia dizendo: “Nem tudo o que Nosso Senhor nos diz é para se levado a sério”.

Mas não, este assunto claramente é para se levar a sério. Tão a sério que as últimas palavras de Jesus na cruz são para enfatizar este ponto: “Perdoai-os porque não sabem o que fazem”.

Zahnd faz pontes interessantes e desconhecidas da maioria entre o perdão proposto por Jesus e o antigo testamento. Mas como é hábito neste género de temas o mais interessante são mesmo os casos pessoais apresentados, como o da holandesa Corrie Ten Boom, que perdeu a família toda no holocausto e foi torturada por guardas alemães, que depois da guerra andou pela sua Holanda natal e pela Alemanha a pregar o perdão, até ao dia em que foi confrontada, no final de uma palestra, pelo seu carrasco no campo de concentração, que lhe tinha vindo pedir perdão pessoalmente. A sua explicação de como ultrapassou a resistência interior para estender a mão àquele homem é uma das maiores lições sobre o Cristianismo que já li.

Zahnd apresente muitos outros exemplos, todos inspiradores, e usa-os para tentar explorar também a complexa relação entre o perdão e a justiça, concluindo, correctamente, que perdoar alguém náo equivale a livrar essa pessoa da justiça civil.

Amish, exemplos de perdão cristão
Infelizmente, contudo, Zahnd deixa alguns temas por explorar, ficando só pela rama. No caso dos Amish, que ele apresenta como o protótipo da prática do perdão cristão, baseia-se muito no livro “Amish Grace”, mas ignora totalmente os trechos desse livro que falam de como para alguns membros da comunidade, sobretudo vítimas de abusos sexuais, o facto de haver tantas expectativas sobre o perdão pode tornar-se um peso, causando traumas quando este não surge de forma espontânea. Nada disto invalida a importância e a pertinência do perdão, mas ajuda-nos a compreender que o tema nem sempre é simples.

Zahnd faz outra conclusão particularmente importante, que levanta dúvidas a muita gente. Perdão e reconciliação, são a mesma coisa? A resposta é não e a consequência dessa resposta é que é possível perdoar um infractor que não se arrependa, na medida em que é possível perdoar sem reconciliar, pois a reconciliação, essa sim, exige o arrependimento do infractor.

Temos então, até este momento, meio livro bom. O problema começa a partir daí, até ao fim da obra, com Zahnd a lançar-se no que parece ser uma interminável homilia, dirigida sobretudo a um público-alvo americano e evangélico com o qual poucos leitores portugueses se identificarão. O seu objectivo é convencer-nos que é preciso viver o Cristianismo de forma mais radical, algo que se pode aplicar tanto ao tema do perdão como a muitos outros, e de facto, pelo meio, o autor mete referências ao perdão quase que a martelo, como se lembrasse de vez em quando de que era esse o propósito do livro.

É pena, porque chega-se ao fim do livro a pensar que metade do tempo que despendemos a lê-lo foi um desperdício, o que era desnecessário, tendo em conta a riqueza do tema.

Se recomendo o livro? Recomendo sobretudo para quem quer uma introdução ao tema e para quem não tem facilidade em ler inglês e que por isso não se pode lançar a ler obras que são, para dizer a verdade, substancialmente melhores, mas estão por traduzir.


Filipe d'Avillez

Wednesday, 29 May 2013

Ter filhos, sem medo!

Quarta-feira é dia de audiência-geral no Vaticano, o que com o Papa Francisco dá sempre muitas notícias. O Papa respondeu a todas aquelas pessoas que dizem admirar Cristo mas não gostar da Igreja, defendendo que isso não faz sentido.

1º Bravo!
2º Claramente Sua Santidade não conhece a minha filha mais nova…

Esta não é de hoje, mas ainda do Vaticano, o Papa propõe uma adoração eucarística simultânea em todo o mundo para o dia 2 de Junho, Domingo para o qual foi deslocado liturgicamente o Corpo de Deus, que se celebra de facto esta quinta-feira.

Lembram-se do musical Wojtyla? Foi um grande sucesso na altura e agora está de volta aos palcos, a começar por Porto e Braga. Está tudo aqui, não percam!

Polémica em Israel, com o Governo a aprovar o fim da isenção ao serviço militar para os ultra-ortodoxos. Mais pacífica é a descoberta, em Génova, daquele que poderá ser o rolo de Torá mais antigo do mundo!

Na Venezuela falta vinho de missa, imagine-se, e a Igreja teme que dentro dos próximos dois meses poderá esgotar mesmo. Alimento é o que não falta, porém, na tradição beneditina. O mosteiro de São Martinho de Tibães (hoje em dia património do Estado), vai lançar um livro de receitas tradicionais da ordem.

Por falar em clérigos e em alimentação, o artigo do The Catholic Thing desta semana fala do perigo da luxúria entre os religiosos e começa com esta história: Enquanto o noviço olha, pasmado, para os quartos aprumados, a mobília luxuosa e os plasmas caríssimos na parede do mosteiro, exclama: “Se isto é pobreza, que venha a castidade!”

Luxúria

Randall Smith
Há uma velha piada sobre um noviço que está a conhecer o mosteiro da sua ordem mendicante. Enquanto olha, pasmado, para os quartos aprumados, a mobília luxuosa e os plasmas caríssimos na parede, exclama: “Se isto é pobreza, que venha a castidade!” Segundo consta, isto passou-se na realidade, recentemente, quando um grande benfeitor fazia uma visita guiada a um mosteiro de frades mendicantes no Leste dos Estados Unidos.

Como é hábito com o humor satírico, há aqui não só um grão de verdade nos detalhes, mas também uma sabedoria mais profunda. A relação entre pisar ligeiramente a linha no que diz respeito aos votos de pobreza, e dar vários saltos no que diz respeito aos de castidade, não é acidental. Os mestres espirituais da Idade Média, com uma sabedoria que nos escapa, costumavam falar dos perigos da luxúria, de viver uma vida “morna”, rodeada de confortos. O Papa Francisco recentemente avisou para o mesmo perigo.

Da minha parte, não posso deixar de pensar que o horror da pedofilia na Igreja terá sido causado não só pela sexualização da cultura nas décadas de 60 e 70, mas também pela incapacidade de dominar os desejos próprios, a justificação mais ouvida para a violação dos votos sacerdotais, uma realidade que radica na excessiva luxuria em que viviam os clérigos nas décadas de 40 e 50: Seminários confortáveis, boas refeições, “palácios” episcopais, botões de punho chiques, camisas brancas engomadas... todos os luxos do homem de negócios de classe média-alta. Imaginem o Don Draper, dos Mad Men, como padre, e ficam com uma ideia.

Um amigo meu europeu comentou uma vez: “Os vossos padres, aqui na América, são tão... burgueses”. Vivem em casas confortáveis, conduzem carros confortáveis, dão o seu tempo a causas confortáveis. As exigências que fazem à “carne” são decididamente poucas e as acomodações ao “mundo” são muitas.

Claro que também há padres que vivem vidas modestas e santas, mas não são tantos como deviam ser.

Frequentemente ouvimos os padres a dizer nas suas homilias que devemos aprender a viver fora das nossas “zonas de conforto”. O seu sentido é “espiritual”, ou seja, “metafórico”. É uma frase feita que aprenderam durante o curso de psicologia que tiraram em vez de se prepararem para o sacerdócio, estudando os padres e os doutores da Igreja.

São Francisco teve uma atitude diferente. Quando ouviu dizer: “Vai, vende tudo o que tens e segue-me”, foi precisamente isso que fez. E quando ouviu: “Francisco, restaura a minha Igreja”, restaurou literalmente a Igreja de São Damião. Com o Papa Francisco teremos um novo modelo para o clero? Segundo este modelo, se os padres acreditam que é importante (como insistem em dizer), sair da nossa “zona de conforto”, então talvez pudessem começar por dar o exemplo, saindo das suas zonas de conforto, literalmente.

Quando ouvimos falar em monges medievais a “disciplinar a carne”, pensamos que terão estado envolvidos nalguma forma de auto-flagelação  Na maioria dos casos, não. Não é que nunca o fizessem, é simplesmente que quando o faziam era normalmente para se recordarem de maiores graus de disciplina que deviam observar, uma disciplina de mente e de espírito – de toda a vida, incluindo desejos, vontade e intelecto, orientados para Deus.

Modelo para os padres dos anos 50?

Na Bíblia, quando São Paulo fala em não sucumbir aos desejos “da carne”, não está a dizer que o corpo é mau, da mesma maneira que quando diz que não devemos sucumbir aos desejos “mundanos”, não está a dizer que o mundo é mau. O mundo que Deus criou é bom, “muito bom”, como é a carne na qual fomos criados e na qual ele encarnou. O problema surge quando “o mundo”, em vez de nos guiar em direcção ao seu criador, nos leva no sentido contrário. O problema surge quando “a carne”, em vez de servir a pessoa, se torna mestra, e nós nos tornamos escravos dos nossos apetites e desejos.

E atenção, logo que que os desejos menores se começam a tornar nossos mestres, mais ninguém o poderá fazer. Quando começam as pequenas infidelidades contra a pobreza e a castidade, não tardarão as infidelidades contra a obediência. “Não devo obediência aos meus superiores”, ouvimos dizer. “Não enho de temperar a minha teimosia”. “Afinal de contas, porque é que existem todas estas regras tontas – regras contra ‘sentimentos’ e ‘desejos’ perfeitamente normais?” Sim, são sentimentos e desejos “perfeitamente normais”. Mas isso não significa que tenham de ser saciados. Quando começamos a pensar que sim – que têm de o ser – então é porque as sementes da infidelidade mais séria já foram plantadas.

A Igreja já esteve nesta posição. Os católicos nem sempre percebem o quão “morno” e corrupto o clero se tinha tornado antes do Concílio de Trento. Padres com pouca educação e ainda menos formação espiritual, tachos confortáveis e uma amante ou duas à disposição: Lutero tinha muita matéria para trabalhar.

É precisamente por causa do Concílio de Trento, aliás, que temos seminários. A ideia era serem um tipo de pequenos mosteiros, onde as virtudes monásticas podiam ser cultivadas e os votos de pobreza, castidade e obediência aperfeiçoados. Seriam espaços para ensinar aos jovens padres aquilo que os mosteiros já sabiam há séculos, nomeadamente que “disciplinar a carne” significa, em primeiro lugar, não ceder às tentações da luxuria – da “moleza”.

Se nas próximas décadas virmos uma “nova envangelização”, então será necessário os bispos aprenderem com as lições do passado sobre a renovação sacerdotal. Aqueles padres a viver, sozinhos, em casas nos subúrbios... são um desastre à espera de acontecer. Senhores bispos, chamem-nos de volta a casa para viverem convosco em comunidade. Viver com os seus padres numa comunidade monástica foi o que fez Santo Agostinho em Hipona, e ele mudou o mundo.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez no quinta-feira, 25 de Abril 2013 em The Catholic Thing)

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Wednesday, 22 May 2013

Ayatollahs, Chechenos e crianças santas

Novamente Paris?...
O Papa disse hoje que é blasfémia dizer-se que se mata em nome de Deus. Francisco também pediu orações pelos católicos na China.


Motins na Suécia a fazer lembrar os de Paris há alguns anos. As motivações não são religiosas, mas estão a decorrer num bairro que é 80% muçulmano.

E nos EUA as autoridades interrogaram e acabaram por matar a tiro um homem suspeito de ter sido cúmplice dos irmãos Tsarnaev num triplo homicídio que decorreu em 2011. O homem foi morto depois de atacar o agente do FBI. Tal como os Tsarnaev é checheno e estaria a preparar-se para voltar para o seu país.

Dois eventos interessantes nos próximos dias. Uma conferência sobre João XXIII e outra sobre a importância da família. Esta última decorre em Madrid e é particularmente dirigido aos profissionais de comunicação social, portanto divulguem pelos vossos conhecidos que possam estar interessados.

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