Friday, 29 December 2023

O ponto mais baixo do pontificado de Francisco?

Com o ano a aproximar-se do fim, e no final de uma década de pontificado de Francisco, está na altura de perguntar se o Papa está a perder controlo da Igreja. A verdade é que a publicação do Fiducia Supplicans espoletou uma reacção que se vem juntar a uma divisão prolongada com as facções tradicionalistas, mas também com os progressistas na Alemanha e agora com uma diocese inteira da Igreja Siro-Malabar. Este artigo é uma versão mais curta de um que vai sair ainda hoje no site do Expresso e na edição impressa desta semana.

O tema das bênçãos para pessoas em uniões homossexuais foi, claro, um dos vários abordados no episódio desta semana do podcast E Deus Criou o Mundo, em que tive o privilégio de participar. Podem ouvir aqui. E fiquem atentos, porque também estarei no próximo.

Está a chegar ao final mais um ano de muitos conflitos. A fundação Ajuda à Igreja que Sofre dá-lhe uma lista de 10 países ou regiões que estão a precisar especialmente de orações.

Infelizmente o Natal passou com mais uma tragédia para os cristãos na Nigéria. São pelo menos 160 mortos e centenas de feridos no mais recente ataque.

Numa nota um pouco mais positiva, convido-vos a conhecer a história de Milad, um jovem sírio cujo nome significa Natal. Vale a pena ler, acreditem!

No artigo desta semana do The Catholic Thing o padre Paul Scalia analisa a diferença entre a pergunta que Nossa Senhora fez ao Arcanjo Gabriel, e a que Zacarias fez ao anjo que lhe anunciou o nascimento de João Baptista.

Thursday, 28 December 2023

Estará Francisco a perder o controlo da Igreja?

[Esta é uma versão resumida de um artigo que escrevi para o Expresso, que pode ser lida na edição impressa e no site]

O Pontificado do Papa Francisco poderá estar a atravessar o seu momento mais difícil, com crises em diferentes pontos do mundo católico a pôr seriamente em causa a autoridade de Roma e a própria unidade da Igreja.

A declaração Fiducia Supplicans causou bastante polémica na Igreja, com o Dicastério para a Doutrina da Fé a anunciar que pessoas em uniões homossexuais podem receber bênçãos. Sem surpresas, a ideia que passou para o mundo foi de que o Papa acabava de aprovar a bênção de uniões homossexuais, apesar de o texto dizer explicitamente que a bênção é para as pessoas, e em caso algum para a relação em si.

No seguimento dessa declaração aconteceu um facto muito pouco comum, com muitos padres, bispos, e até conferências episcopais inteiras, a dizer que não aplicarão a Fiducia Supplicans nos seus territórios.

Pelo menos 10 conferências episcopais, incluindo a Polónia e o Canadá, já reagiram negativamente ao documento, algumas proibindo explicitamente a sua implementação, e outras apenas reiterando a proibição de bênçãos específicas para relações e uniões homossexuais.

E se é verdade que algumas das reações negativas vieram dos “suspeitos do costume”, também há bispos que são tidos como próximos de Francisco, como Ambongo Besungo, da República Democrática do Congo, que faz parte do grupo de cardeais consultores do Papa desde 2020 e chegou mesmo a pedir uma resposta conjunta de todos os bispos africanos, na qualidade de presidente do Simpósio de Conferências Episcopais de África e Madagáscar.

Talvez uma das respostas mais firmes tenha sido do arcebispo maior Sviatoslav Shevchuk, que é o líder da Igreja Greco-Católica da Ucrânia, que se demarcou do documento, dizendo que ele não se aplica à sua igreja. Shevchuk e Francisco podem ter tido alguns desentendimentos por causa da guerra na Ucrânia, mas são amigos e conhecem-se há muitos anos, pois Shevchuk liderou a comunidade ucraniana na Argentina.

Alemanha e Índia

Entretanto a maioria dos bispos alemães continua a defender o seu “caminho sinodal”, que já apelou explicitamente a mudanças na doutrina moral e sexual da Igreja e tem um caráter marcadamente progressista e liberal.

Francisco criticou abertamente o “caminho sinodal”, dizendo que “a Alemanha já tem uma Igreja evangélica, não precisa de outra”, mas até agora tem evitado tomadas de posição mais firmes que possam acelerar a divisão ou mesmo promover uma rutura. Esta atitude, contudo, leva as alas mais conservadoras a estranhar a dualidade de critérios, recordando que o Papa tem tido mão firma contra outras comunidades, como por exemplo os tradicionalistas, que viram limitada a liberdade que o Papa Bento XVI tinha concedido para a celebração de missa de acordo com a liturgia anterior ao Concílio Vaticano II.

O clima de desconfiança entre Roma e os grupos tradicionalistas espalhados pelo mundo tornou-se conhecida como a “guerra litúrgica” e torna ainda mais bizarro o que está a acontecer neste momento na Índia, onde o clero de uma diocese inteira pode estar prestes a ser excomungado.

Trata-se da diocese de Ernakulam-Angamaly, a principal da Igreja Siro-Malabar, a segunda maior igreja católica de rito oriental do mundo, a seguir à já referida igreja ucraniana. A Igreja Siro-Malabar tem mais de quatro milhões de membros, e só a diocese de Ernakulam tem 500 mil, com pelo menos 400 padres.

Tal como outras igrejas de rito oriental, a Igreja Siro-Malabar tem a sua própria liturgia, de origem siríaca, muito anterior à chegada dos portugueses à Índia. Contudo, essa liturgia sofreu muitas influências latinas ao longo dos séculos, que a Igreja tem tentado retificar. Uma dessas influências levou a que em algumas dioceses, incluindo em Ernakulem, os padres passassem a celebrar a liturgia voltados para a comunidade, em vez de seguir a tradição de celebrar voltados para o altar.

Como parte do esforço de uniformização e regresso às raízes litúrgicas, o sínodo da Igreja Siro-Malabar chegou a uma fórmula de consenso em que os padres celebram voltados para os fiéis, exceto a liturgia eucarística, em que se voltam para o altar. Todas as dioceses aceitaram, menos a de Ernakulem, onde padres e fiéis se revoltaram de tal forma contra as novas regras que a polícia encerrou a catedral para evitar cenas de violência e grupos de fiéis queimaram efígies de cardeais da cúria romana.

Falhadas várias tentativas de mediação, o Papa Francisco enviou uma mensagem para a diocese em que pediu aos padres para “não se tornarem uma seita”, sublinhando que a persistência na desobediência poderia levar à excomunhão. Francisco deu até ao Natal para se começar a celebrar o novo rito, mas no dia 25 de dezembro os padres da diocese limitaram-se a celebrar uma missa de acordo com essa liturgia, deixando claro que o faziam por respeito ao Papa, e que ela não se tornaria regra. A possibilidade de um acordo não está descartada, mas o braço-de-ferro mantem-se.

A ironia de o Vaticano estar, de um lado, a pressionar os fiéis de rito latino que querem celebrações com o padre voltado para o altar e, do outro, a ameaçar com excomunhão os padres e fiéis que querem celebrar voltados para o povo, tem sido sublinhada, embora as situações não sejam idênticas. Mas o que as duas realidades revelam é que Francisco tem entre mãos uma Igreja Católica universal cada vez mais dividida, com conflitos abertos sem solução evidente à vista.

Acresce que a idade avançada do Papa, e a sua saúde frágil, tornam ainda menos provável que ele consiga resolver estas crises antes do final do seu pontificado, até porque os seus opositores podem estar dispostos simplesmente a esperar que seja eleito o seu sucessor, para terem um novo parceiro de diálogo, o que implica também que todas estas questões: as bênçãos a homossexuais, o caminho sinodal alemão e as diferentes frentes das guerras litúrgicas, podem vir a desempenhar um papel importante no próximo conclave. 

Wednesday, 27 December 2023

A Pergunta de Maria

Pe Paul Scalia

Ora aqui está uma coisa curiosa. A Bendita Virgem Maria – o último máximo de humildade, fé e obediência – faz algo que normalmente não associamos a essas virtudes. Faz uma pergunta: “Como será isso, se não conheço homem?”. Claro que a pergunta é feita precisamente com toda a humildade, fé e obediência. Ao fazê-la ela ensina-nos a perguntar e, por isso, a pensar rectamente sobre a nossa fé.

E devemos mesmo pensar sobre a nossa fé. Não o fazer seria um mau serviço à fé em si. A revelação de Deus é feita a criaturas racionais e deve ser recebida e respondida como tal. Jesus Cristo, a plenitude da revelação de Deus, é o Logos – o verbo, a ideia e ou o pensamento – tornado carne. Deus é o nosso “culto racional” (Romanos 12,1). A ausência de pensamento deturpa e distorce a fé católica. Conduz a uma fé superficial, supersticiosa e frágil, pronta para ser estilhaçada mal seja confrontada por uma boa pergunta.

Fiéis que não pensam tornam-se alvo fácil para predadores. São como a semente que caiu ao longo do caminho. “Quando um homem ouve a palavra do Reino e não a entende, o Maligno vem e arranca o que foi semeado no seu coração” (Mateus 13,19). Um magistério que não pensa torna-se uma tirania que não ensina a palavra de Deus com autoridade, mas impõe simplesmente o seu poder.

Agora, para apreciar a pergunta de Nossa Senhora, temos de a contrastar com a pergunta de Zacarias que surge mais cedo no Evangelho de São Lucas (ver Lucas 1,5-23). O Anjo Gabriel aparece-lhe no templo. Junto ao altar, anuncia a resposta às orações de Zacarias, o nascimento de João Baptista. Em resposta, Zacarias pergunta: “Como terei certeza disso?” À primeira vista, a pergunta é semelhante, praticamente a mesma feita por Maria. Mas a diferença é profunda.  

Como terei a certeza disso? Bom, tens à tua frente o mensageiro de Deus. Isso devia ser prova suficiente. Se o envio de anjo por Deus não é suficiente, então que mais será preciso? Em termos modernos, a pergunta de Zacarias soaria a algo como “deve ser, deve”, ou “Ai sim? Então prova.” Ele não está aberto à verdade que lhe está a ser anunciada. Pelo contrário, insiste que Deus lhe dê provas. Zacarias é um cético, não procura conformar a sua mente à realidade, mas insiste que a realidade se comprove ao seu gosto. Isso torna Zacarias uma imagem adequada da maioria dos pensadores modernos.

A pergunta de Maria é diferente. “Como pode ser isso?” pode ser traduzido como “como será isso?” ou ainda “Como é que isto vai ser?” O ponto é que ela aceita que aquilo que o anjo lhe anunciou será. Mas também quer saber como. Maria confia – tem fé – de que o mensageiro de Deus está a dizer a verdade. Depois, quer compreender como é que esse milagre irá ocorrer

Esta é, por isso, a primeira lição que Nossa Senhora nos ensina sobre como pensar: fazer perguntas com fé. A definição de teologia é uma fé que tenta compreender. Primeiro, acreditamos naquilo que Deus revelou; depois procuramos compreendê-lo melhor. Não condicionamos a nossa fé à compreensão. Não dizemos: “Acreditarei, depois de me convenceres”. Isso foi o que fez Zacarias, e foi punido por isso. A fé no que Deus revelou é necessária ao pensamento correcto na Igreja.

Na verdade, a fé é necessária para qualquer tipo de pensamento. Todos os professores compreendem isto, porque a primeira coisa que os seus alunos devem fazer é confiar neles. Se o aluno não tiver este tipo de fé natural, se recusar-se a confiar, então não será capaz de receber aquilo que o professor tem para partilhar. Os revolucionários instam-nos questionar a autoridade, mas esse é o mantra daqueles que se recusam a ser ensinados e por isso nunca aprenderão a pensar.

Em segundo lugar, Maria mostra-nos que devemos fazer perguntas com a disposição certa para receber a resposta. A pergunta de Zacarias era a única resposta que ele queria. A pergunta de Nossa Senhora revela abertura a aprender. Aqui devemos recordar a frase de Newman de que “dez mil dificuldades não formam uma dúvida”. Uma dificuldade é uma perplexidade ou questão sobre algum aspecto da fé. Leva a questionar e à disposição para acolher o que Deus tem para dizer.

Já a dúvida tem as suas raízes no cepticismo, e conduz ao mesmo. Coloca Deus no Banco dos Réus e coloca sobre Ele o ónus da prova. A ironia é que Deus fez muitas coisas para provar o seu amor por nós. Mas não estamos abertos às suas respostas. Estamos constantemente a mudar o alvo, insistindo que ele se prove de acordo com os nossos critérios.

Terceiro, Maria revela que as nossas questões devem servir para a autodoação. A sua pergunta não é apenas um exercício intelectual. Não está a perguntar só porque era giro saber. Ela não sofre do vício de curiositas. Antes, pergunta, procura compreender mais, para que se possa conformar à verdade de Deus. É por isso que devemos fazer perguntas sobre a fé: para que, ao compreender melhor, possamos dar-nos mais. 

O castigo de Zacarias foi ficar mudo – porque os cépticos não têm nada de útil para dizer. Maria foi premiada com uma explicação e uma prova. Ela não as exigiu; Deus deu-lhas na sua generosidade. Nem sempre Ele fala tão rápida ou claramente. Mas retribui sempre aqueles que o buscam com corações retos e sinceros, que desejam conhecê-lo e compreendê-lo mais, não segundo os seus critérios, mas segundo os dele.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 24 de Março de 2023 em The Catholic Thing

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.   

Friday, 22 December 2023

Assassinatos na Terra Santa e bênçãos polémicas na Santa Sé

O Papa Francisco fez esta semana 87 anos, e que semana foi!

Começou no passado sábado com a notícia da condenação de dez pessoas e quatro empresas no megaprocesso de corrupção no Vaticano. O Cardeal Becciu recebeu a sentença mais pesada, com cinco anos e seis meses de prisão. Agora haverá recursos, como é evidente, e a coisa pode ser demorada, mas a primeira fase está concluída.

Este processo é de uma complexidade enorme, e é muito difícil acompanhar tudo em detalhe. Uma das pessoas que tem feito o melhor trabalho nesse campo é o Ed Condon, do The Pillar. Por isso, se lêem bem inglês, sugiro que acompanhem a reportagem dele, que será certamente a melhor fonte de informação.

Dois dias depois de ter saído a sentença, o Dicastério para a Doutrina da Fé lançou um documento sobre bênçãos, que explica que pessoas em uniões irregulares, incluindo em uniões homossexuais, podem pedir bênçãos aos ministros da Igreja. O documento foi apresentado na imprensa como uma revolução e como se a Igreja estivesse a aceitar as uniões homossexuais. Não é mesmo assim tão simples. Fui chamado várias vezes a falar do assunto, para diferentes órgãos de imprensa, sugiro que cliquem aqui e sigam os diferentes links para ver a minha opinião.

Estamos em vésperas do Natal e a Terra Santa, onde tudo começou, continua a ferro e fogo. Recentemente tivemos a terrível notícia do assassinato – é mesmo esse o termo – de duas mulheres cristãs que se encontravam dentro do complexo da paróquia Católica em Gaza. Foram mortas com tiros de sniper, e outras sete pessoas ficaram feridas. Quem carregou no gatilho? Israel dirá Hamas, Hamas dirá Israel. A própria da comunidade cristã palestiniana acredita que foi Israel, mas o que interessa é que isto é mais um prego no caixão da já pequena comunidade de Gaza.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, no qual Stephen White comenta o facto de a nossa civilização guardar cada detalhe minúsculo do passado, mas não parecer capaz de produzir nada que dure mais do que uma ou duas gerações. Para saber o que isto tem a ver com a Basílica de São Pedro, leia.

Convido ainda a quem possa ou queira que leia o meu artigo na edição em papel da revista Brotéria, que está agora à venda, e que oiçam o programa “E Deus Criou o Mundo” da RDP de dia 26 de Dezembro, para o qual fui convidado.

Só me resta desejar a todos um Santo Natal! Voltarei para a semana, se Deus quiser.

Wednesday, 20 December 2023

As minhas declarações sobre o Fiducia Supplicans

Ao longo dos últimos dias tenho sido chamado a pronunciar-me algumas vezes sobre a mais recente declaração do Dicastério para a Doutrina da Fé "Fiducia Supplicans".

Junto aqui links para os que estão disponíveis.

Aqui encontram o meu texto para o Expresso online. É apenas para assinantes. Vai sair outro texto na edição impressa desta semana.  

Aqui encontram as minhas declarações à Rádio Observador.

Aqui encontram a minha participação na SIC Notícias de quarta-feira de manhã.

Aqui podem ouvir a minha participação no podcast Expresso da Manhã. 

E por fim, aqui encontram o artigo que escrevi sobre esta questão em Outubro, quando foram publicadas as respostas às dubia, em que este assunto apareceu.

Lembrar de esquecer

Stephen P. White

No início do Século XVI o Papa Júlio II decidiu demolir a Basílica de São Pedro. A antiga basílica, construída por Constantino por cima do túmulo do apóstolo, no Século IV, tinha servido bem, mesmo segundo os padrões romanos. Mas depois de doze séculos de terramotos, pilhagens e descuido generalizado, a antiga Basílica de São Pedro estava em risco de desabar. Por isso, o Papa Júlio desistiu dos seus planos de renovar o edifício e mandou-o demolir e substituir.

A basílica que conhecemos hoje, com a sua majestosa cúpula – a basílica de Bramante e de Miguel Ângelo e Bernini – começou a ser edificada em 1506 e foi consagrada em 1626. Ou seja, a Basílica de São Pedro que conhecemos hoje só existe há um terço do tempo que a sua antecessora.

Como se não bastasse a demolição de um dos mais sagrados santuários da cristandade, o mármore usado para a fachada da nova basílica veio de um local próximo e barato, a pedreira preferida dos romanos: o Coliseu. Os romanos da idade média, e até bem mais tarde, nunca tiveram problemas em reutilizar pedras de antigos edifícios e monumentos.

Retirar mármore do Coliseu pode-nos parecer hoje um acto de vandalismo histórico e cultural, mas fazê-lo para construir algo tão grandioso como a Basílica de São Pedro é certamente louvável quando comparado com os outros usos que os romanos contemporâneos davam às toneladas de mármore do Coliseu, que costumavam esmagar e queimar para fazer cal viva.

Que cultura é esta que tem a audácia de usar o Coliseu (e não apenas o Coliseu, mas a maioria dos antigos edifícios romanos) como pedreira? Que cultura tem a temeridade de demolir um dos edifícios mais veneráveis do mundo, a antiga Basílica de São Pedro, mas tem também a confiança, capacidade e visão para construir algo tão magnífico como a basílica actual?

Lembro-me de ficar a pensar nesta incongruência há uns anos, quando estava em Roma. Por um lado, não podemos se não lamentar a aparente indiferença para com a preservação de monumentos que agora consideramos de significado histórico e cultural insubstituível. Porém, esta mesma disposição para pilhar o passado produziu alguns dos maiores feitos de arte e arquitectura em toda a civilização ocidental.

Hoje jamais nos passaria pela cabeça arrancar nacos do Coliseu para construir uma nova igreja. Mas também não parecemos capazes de construir nada que tenha o significado e a beleza duradouras da Basílica de São Pedro. Podemos tentar manter e restaurar um edifício antigo, mas é difícil imaginar simplesmente demoli-lo, quanto mais de imaginar a nossa cultura a construir um substituto que possa rivalizar com o original, ou exceder a sua beleza intemporal e a sua magnificência original.

Naquele dia em Roma dei por mim a pensar se não existirá alguma ligação causal entre a disposição de uma cultura para largar o passado – deixar que esse passado esvaneça na memória, ou ser mesmo esquecido – e a capacidade para o tipo de criatividade e confiança necessárias para construir algo tão novo e tão magnífico como a actual Basílica de São Pedro.

O nosso mundo tem uma grande dificuldade em desligar-se do passado. Os museus que construímos para albergar coisas belas, mas também curiosas ou apenas antigas, são uma invenção relativamente recente. Os mundos antigos e medievais não tinham nada como museus, pelo menos no sentido que lhes atribuímos hoje. Sim, havia colecções de arte e de escultura, e por aí fora, mas a preservação em larga escala até dos mais pequenos artefactos do passado é um fenómeno distintivamente moderno.

Estudamos atenciosamente os detritos de eras passadas, mas, no entanto, construímos pouco que mereça ser preservado daqui a mil anos, se é que dure tanto tempo. O que criamos hoje em dia raramente é pensado para durar para sempre, ou sequer mais do que uma ou duas gerações. E não é só na arquitectura. Pensem em quanta da nossa arte e literatura contemporânea se resume ao comércio da nostalgia, sequelas e prequelas infinitas, reedições de filmes antigos, mas com efeitos especiais modernos.

Não pensem que estou a subvalorizar o passado. A memória é uma parte fundamental da existência humana, de certa forma, é a melhor parte. Agarramo-nos àquilo que amamos e estimamos, e conhecemos muito bem a dor da perda. O desejo de explorar o passado e aprender dele é perfeitamente saudável. E o anseio por preservar e sustentar o que é bom surge naturalmente, tal como o esquecimento – pelo menos daquilo que é verdadeiramente importante – é a morte de qualquer sociedade ou civilização.

Ainda assim, não consigo se não pensar que uma preocupação pouco natural com a preservação – a exagerada fixação pelas coisas boas deste mundo – anda de mão dada com uma imaginação diminuta daquilo que ainda está por vir. O horizonte da nossa experiência abre-se diante de nós e fecha atrás.

“O que foi, o que será; o que foi feito, o que será feito. Nada há de novo debaixo do sol!”. Assim fala Qohélet.

Entretanto, estamos todos presos algures no meio. A transitoriedade deste mundo, de nós mesmos e de tudo o que podemos construir e estimar, permanece como um facto teimoso da existência humana. Isso, pelo menos, não se pode atribuir aos males próprios da modernidade.

O esquecimento é, também, parte da providência divina. O esquecimento pode também ser libertador, tal como quando a misericórdia apaga o arrependimento. Talvez a nossa cultura, na qual tudo é catalogado e armazenado para sempre “na nuvem”, e que parece nunca se esquecer de nada excepto aquilo que é importante, tivesse a ganhar com o esquecimento de algumas coisas, ou com a contemplação de algumas novas.

O Advento é um bom tempo para reflectir sobre tudo isto. Durante o Advento a Igreja recorda-nos do fim de todas as coisas enquanto se prepara para a celebração da única coisa genuína e radicalmente nova que aconteceu em toda a história da criação. Que alegria em poder contemplar aquela criança na manjedoura! É o suficiente para nos abandonarmos nas mãos de Deus e esquecer tudo o resto.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing no Domingo, 17 de Dezembro de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Friday, 15 December 2023

Devem os bispos meter-se em política? Tolentino é Prémio Pessoa 2023

Esta semana houve novos dados sobre a questão dos abusos na Igreja em Portugal, com o Grupo Vita a revelar alguns números. A falta de detalhes dos dados revelados impede-me de usar estes números para actualizar as minhas tabelas e listas, porque não tenho como saber se não se tratam de casos duplicados. Na mesma altura, o novo Patriarca de Lisboa afirmou que não pode haver vítimas de primeira e de segunda, e que se as vítimas da Igreja devem ser indemnizadas, então as vítimas do resto da sociedade também.

Na véspera, o JN publicou um artigo em que tenta explicar quantos dos padres que foram originalmente afastados cautelarmente por constarem das listas da Comissão Independente já foram reintegrados, e quantos continuam afastados. O artigo consegue a proeza de dar números gerais correctos, mas com base em números parciais errados. Neste artigo eu desmonto a questão, mostrando onde estão os erros dos números do JN, mas também a explicar que é exactamente por esta razão que a Igreja devia tomar a iniciativa de ter e fornecer dados centralizados e tratados de forma homogénea.

O artigo do The Catholic Thing desta semana explica como alguns católicos apoiaram o regime da Nicarágua que agora se voltou contra a Igreja com toda a sua força. São detalhes interessantes e lições importantes a reter, e na semana passada disse neste boletim que os bispos da Baviera, na Alemanha, tinham condenado o partido Alternativa para a Alemanha, o que gerou alguma polémica na caixa dos comentários. O que estas duas notícias têm em comum é o envolvimento da Igreja no campo da política partidária. Neste artigo publicado hoje, partilho alguns pensamentos sobre essa questão, deixando ainda algumas ideias sobre a realidade portuguesa, numa altura em que nos preparamos para as novas campanhas políticas e eleições. Leiam e juntem-se à discussão.

Continua a terrível guerra no Médio Oriente. A paróquia católica de Gaza foi novamente atingida, desta vez por estilhaços de bombas que causaram alguns danos materiais. Felizmente há quem esteja a prestar apoio material aos cristãos em Gaza e no resto da Terra Santa, que também estão a sofrer os efeitos deste conflito. Saiba tudo aqui. E se querem dar uma ajuda material mais imediata, vejam como aqui.

E soube-se hoje que D. Tolentino Mendonça venceu o Prémio Pessoa deste ano, um dia depois de ter proferido na Assembleia da República uma conferência sobre a liberdade religiosa, dizendo que é fundamental “escutar a sabedoria das religiões”.

Numa notícia algo curiosa, o bispo da Guarda, D. Manuel Felício, anunciou que pediu ao Papa Francisco que aceite a sua resignação, três anos antes da idade limite dos 75 anos, para que se possa dedicar a uma missão fora da diocese.

Termino com uma recomendação. Se é aluno, pai ou professor, e se preocupa com quem dá formação sobre educação sexual nas nossas escolas, então sigam este link para conhecer uma organização de confiança que trabalha neste campo. São iniciativas destas, mais do que petições ou constantes lamúrias, que conseguem realmente mudar alguma coisa no terreno.

Por hoje é tudo. Não sei ainda se volto para a semana, mas caso não o faça, ficam desde já os desejos de um Santo Natal!

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