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Friday, 14 April 2023

Quando pensamos que Deus está a dormir, afinal está no Ruanda

Espero que tenham tido uma Santa Páscoa! Para mim, o ponto alto foi poder ouvir de novo o Precónio Pascal cantado durante a vigília de Sábado.

O mail da semana passada tinha como título “Para alguns cristãos toda a vida é uma Sexta-feira Santa”. Na altura ainda não sabia que na Nigéria, em plena Sexta-feira Santa, um novo ataque a um campo de deslocados de maioria cristã fez dezenas de mortos. É uma situação de desespero a que se vive naquele país, sem fim à vista.

Onde está Deus nestes momentos de horror? A resposta, por vezes, só é compreensível anos mais tarde. Leiam esta entrevista feita a um padre ruandês que acompanha e ajuda a reintegrar na sociedade reclusos que foram condenados por participar no genocídio contra os tutsis. No Ruanda existe um ditado: “Deus passa os dias noutros países, e vem passar a noite ao Ruanda”, mas este sacerdote garante que hoje pode dizer que “Deus estava com os seus filhos sofredores, com os justos perseguidos, sinal da vitória da vida sobre a morte, sinal da esperança num futuro melhor em Jesus Cristo”.

Como já devem ter percebido, o podcast Hospital de Campanha está em hibernação. Em larga medida por falta de tempo, não temos gravado novos episódios. Mas a Renascença acaba de anunciar um novo podcast de assuntos religiosos que estreia amanhã. Fiquem atentos.

A questão dos abusos parece ter caído da agenda mediática, mas isso não significa que tenha perdido importância, e tenciono ir acompanhando o assunto. Entretanto no final do mês será entregue a lista de alegados abusadores dos institutos e ordens religiosas, portanto podemos esperar novo interesse dos meios de comunicação. Vale a pena ler esta entrevista ao padre Pedro Fernandes, provincial dos Espiritanos e vice-presidente da Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal sobre este assunto.

A semana passada chamei atenção para uma série de reportagens de José Pedro Frazão sobre a fé na linha da frente na Ucrânia. Entretanto foi acrescentada uma importante entrevista com o responsável da Cáritas da igreja latina na Ucrânia, mais reportagens de Zhaporizhzhia e de Kharkiv. Está tudo aqui.

Uma simpática leitora chamou-me atenção a semana passada por não ter feito referência à homilia do Patriarca D. Manuel na missa crismal, em que ele assume que foi a última vez que presidia à celebração na qualidade de Patriarca. Foi de facto um lapso da minha parte. Não só a homilia é bonita, como a referência, não surpreendente, é importante. Deduz-se que para D. Manuel ter dito tal coisa é porque já recebeu alguma garantia de que a sua renúncia vai ser aceite, provavelmente logo a seguir à JMJ. Já no Domingo de Páscoa o Patriarca assumiu também que a crise dos abusos foi a mais difícil dos seus dez anos no cargo.

E para terminar, não percam o artigo desta semana do The Catholic Thing. Randall Smith questiona movimentos como o “Caminho Sinodal” da Alemanha, que considera existirem apenas como caprichos de uma elite aburguesada, com a agravante de minarem as próprias fundações daquilo que pretendem avançar, a justiça social.

Wednesday, 19 April 2017

O Esposo

Pe. Paul Scalia
Jesus saiu com os seus discípulos e atravessou o vale de Cédron, até ao ponto onde havia um jardim (Jo. 18,1). Cristo, o Novo Adão, vai até um jardim para desfazer aquilo que num jardim foi feito. O primeiro Adão vivia num jardim e recebeu uma mulher. Foi lá que se revoltou contra o Pai e falhou em relação à sua mulher. Agora, o Novo Adão vai para um jardim para obedecer ao seu Pai e oferecer-se à sua Esposa. Toda a narrativa da Paixão – desde a agonia de Cristo no horto até às suas palavras finais na Cruz – é nupcial. Nela compreendemos que “Cristo amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef. 5,25).

As núpcias de um noivo e de uma noiva requerem votos – palavras através das quais doam a vida um ao outro, para o bem de um e de outro. Por isso o casamento de nosso Senhor começa com palavras de doação – para todos os efeitos, com um voto. Mas neste caso as palavras são dirigidas ao Seu Pai, para o benefício da Esposa: “Abbá, Pai, tudo te é possível; afasta de mim este cálice! Mas não se faça o que Eu quero, e sim o que Tu queres” (Mc. 14,36). Deste modo oferece-se eternamente à sua esposa. É neste momento que se submete definitivamente à vontade do Pai. O primeiro Adão falhou a sua mulher através da desobediência. O Novo Adão conquista a sua esposa obedecendo: Seja feita a vossa vontade.

Jesus tinha antecipado este momento na Última Ceia: “Este é o meu corpo, que será entregue por vós” (Lc. 22,19). O dom de si próprio no casamento não é uma questão apenas de palavras, mas de corpo. O corpo é parte daquilo que somos e, por isso, é essencial no dom de si mesmo. O casamento não tem a ver apenas com bonitos pensamentos e palavras, mas com o dom de corpos, um ao outro; na geração de nova vida através desses corpos; no cuidar do corpo do outro quando o fim se aproxima. Agora, no horto, Jesus oferece definitivamente o seu corpo. O voto tem um efeito corporal. “Cheio de angústia, pôs-se a orar mais instantemente, e o suor tornou-se-lhe como grossas gotas de sangue, que caíam na terra” (Lc. 22,44).

Todos os casamentos têm as suas dificuldades. O primeiro Adão foi testado pelo malévolo, que o desviou da confiança no Pai e, por isso, do amor pela sua mulher. O Novo Adão também é posto à prova – através de Judas, em quem o demónio entrara: “Apareceu Judas, um dos Doze, e com ele muita gente, com espadas e varapaus” (Mt. 26,47). O demónio, cujas anteriores tentações tinham sido mal sucedidas, encontra aqui o seu “tempo oportuno”. Ao infligir dor, humilhação ridicularização e morte, procura separar Jesus da vontade do Pai e da sua Esposa. Mas será novamente derrotado através da simples confiança e obediência: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc. 24,46).

Todos os casamentos exigem sacrifício – a vivência dos votos na vida real. As palavras pronunciadas no altar, no dia do casamento, são vividas diariamente através de actos de amor sacrificial, pequenos e grandes. Por isso, a Paixão de nosso Senhor, não é mais do que o vivenciar do seu voto no jardim. Os espancamentos, interrogações, ridicularizações… a flagelação e a coroação de espinhos… o carregar da Cruz e a crucificação. Que são estas coisas se não o viver dos votos? Estão todas implícitas no dom de si mesmo. Assim, no cume do seu sacrifício ele grita que o voto está completo, cumprido, vivido ao máximo. O termo usado é perfeitamente nupcial: “Consummatum est – Está consumado” (Jo. 19,30).

O sacrifício de Cristo, que hoje recordamos [este artigo foi publicado originalmente na Sexta-feira Santa] é a cura de todos os nossos pecados e ilumina toda a nossa escuridão. Dada a confusão que actualmente reina sobre o casamento, porém, devemos compreender o sacrifício como sendo particularmente de Jesus, esposo da Igreja, quem restaura o sentido original do casamento e, através da sua graça, permite aos casais viverem-no (Catecismo da Igreja Católica #1614).

Dito de forma mais simples, a morte do Senhor revela como o casamento deve ser vivido. O seu voto e sacrifício são o padrão para a vida de casado. Os votos que a noiva e o noivo fazem no dia do casamento formam o compromisso de darem as suas vidas – tal como nosso Senhor se comprometeu a dar a sua. As suas vidas de casados devem ser a vivência desse dom – tal como o sacrifício do Senhor foi a vivência do seu voto. Que são todos os pequenos sacrifícios e dificuldades se não o viver dos votos? Os casamentos prosperam e trazem felicidade unicamente na medida em que têm a Cruz do Senhor por modelo.

O dom do seu corpo – na sala da Última Ceia, no horto e na Cruz – recordam-nos aquilo que a nossa cultura preferiria esquecer: A verdade do corpo humano. A contracepção e a esterilização deram início à rejeição do sentido do corpo. Agora, vemos os frutos maduros na “ideologia do género”, que afirma que o meu corpo não sou eu e não tem qualquer significado. Que a nossa adoração do seu corpo crucificado ajude a curar esta maleita.

Na sua Paixão o Senhor mostra ainda a forma simples de ultrapassar as dificuldades do casamento: Obediência à vontade do Pai. Essa simples virtude não lhe permite evitar os desafios, mas triunfar neles. Talvez tenhamos o hábito de complicar demasiado as coisas. Uma obediência confiante na verdade do casamento – permanente, fiel, geradora de vida – permite a um casal não só ir ultrapassando as dificuldades, mas triunfar nelas. É um caminho simples – mas não fácil – que demasiadas pessoas ignoram.

Isto não é apenas para casais casados, mas para todos os fiéis: “Toda a vida cristã é marcada pelo amor esponsal de Cristo e da Igreja” (CCC 1617). Todos os fiéis beneficiam de casamentos bem vividos – casamentos que obtêm um aumento de graças para a Igreja e que apontam para além deste mundo, para as núpcias do Cordeiro. Nisto, como em tudo, Cristo o Noivo revela a Cruz como spes unica – a nossa única esperança.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 14 de Abril de 2017 em The Catholic Thing)

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Monday, 28 March 2016

Páscoas que são sextas-feiras santas no Paquistão

Páscoa na primeira pessoa
Terminei o último mail com votos de Santa Páscoa, mas para muitos cristãos no Paquistão o dia mais importante do seu ano litúrgico transformou-se numa longa Sexta-feira Santa. O Papa já condenou os atentados que causaram dezenas de mortos, o Governo português também.

Por trágica coincidência, dois dias antes tinha sido publicada a minha entrevista com um cristão paquistanês que se encontra a viver em Lisboa e que conta porque é que teve de fugir e o que sofrem os seus correligionários que continuam por lá.

Entretanto, hoje surgiu outra notícia trágica, a dizer que o padre indiano raptado no Iémen há algumas semanas tinha sido crucificado na Sexta-feira Santa. Rapidamente a notícia se espalhou nas redes sociais e alguns órgãos de comunicação social também a divulgaram. Mas graças a Deus, e ao que parece, é falsa. Rezem à mesma pelo Pe. Tom, mas tudo indica que ele continua vivo.

Um rápido apanhado de outras notícias pascais: O Papa condenou os “fundamentalismos que profanam o nome de Deus” e deu sacos-cama aos sem-abrigo de Roma; o Patriarca de Lisboa quer que os católicos se dêem aos mais desprotegidos e reforça que o ressuscitado é “fonte de esperança” e D. Jorge Ortiga pediu orações pela humanidade.

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