Showing posts with label Constantinopla. Show all posts
Showing posts with label Constantinopla. Show all posts

Monday, 16 October 2023

Papa a caminho da Turquia?

[Afinal enganei-me! Mas ainda fui a tempo de emendar a mão.]

O Papa Francisco cancelou a audiência geral que tinha marcada para o dia 30 de Novembro. Este cancelamento ainda não foi divulgado oficialmente pelo Vaticano, mas já foi comunicado às delegações que pretendiam tomar parte na audiência, como é o caso de um grupo de representantes da organização da JMJ Lisboa, que iam viajar para Roma para o efeito.

O motivo do cancelamento é uma “viagem não programada” do Santo Padre nos dias à volta do dia 30. Não se sabem mais detalhes.

Contudo, 30 de Novembro é dia de Santo André, o padroeiro do Patriarcado de Constantinopla. Sabemos que o Papa Francisco – como era o caso dos seus antecessores – tem óptimas relações com o Patriarca Bartolomeu de Constantinopla, que por sua vez tem primazia de honra em toda a comunhão ortodoxa. É normal os dois hierarcas trocarem mensagens de saudação no dia do respectivo santo padroeiro, mas também já se visitaram oficialmente, sendo que Bartolmeu esteve pessoalmente em Roma para a oração ecuménica que marcou o início do Sínodo sobre a Sinodalidade, no dia 30 de Setembro.

Não seria de descartar que Francisco tenha sido, por isso, convidado a visitar Istanbul, na Turquia, para celebrar com Bartolomeu o dia de Santo André, ou, eventualmente, que ambos tenham decidido celebrar o dia noutro local.

Para além da importância ecuménica da relação entre Roma e Constantinopla, ela faz ainda mais sentido numa altura em que a autoridade de Bartolomeu está a ser activamente ameaçada pelo Patriarcado de Moscovo e as Igrejas dos países eslavos que tendem a alinhar com a Rússia.

A Guerra na Ucrânia acentuou esta crise interna da Igreja Ortodoxa e levou a algum isolamento de Moscovo. Roma, não obstante o interesse que tem em não cortar relações com Moscovo e em conseguir que o Papa um dia visite a Rússia, quer sem dúvida que Constantinopla saia fortalecida desta situação, mantendo a sua primazia de honra na Comunhão Ortodoxa. Uma visita do Papa, sobretudo no dia 30 de Novembro, ajudaria certamente.

A viagem calharia ainda numa altura em que a Turquia, liderada por Erdogan, parece estar a fazer esforços para melhorar as relações com o mundo cristão. No fim-de-semana passado foi inaugurada a primeira igreja cristã construída em solo turco nos últimos 100 anos, desde a fundação da República turca. Trata-se de uma Igreja Ortodoxa Siríaca, mas o simbolismo destina-se certamente a todo o mundo cristão. Apesar de as relações entre o Estado turco e o Patriarcado de Constantinopla não serem fantásticas, Erdogan sabe com certeza que tem mais a ganhar em manter o centro espiritual do mundo ortodoxo no seu quintal do que em deixá-lo passar para Moscovo.

Devo deixar claro que tudo isto é, por agora, especulação. A única coisa de que temos a certeza é que o Papa vai viajar, e a viagem não estava prevista, o que é raro. Veremos nas próximas semanas, ou mesmo dias, que outras novidades surgem de Roma para confirmar ou desmentir esta possibilidade de uma visita a Constantinopla.

Friday, 17 July 2020

O problema não é a mesquita, é mesmo Erdogan

Num mundo perfeito a Hagia Sophia seria ainda uma das maiores igrejas da Cristandade, localizada numa cidade chamada Constantinopla, ainda de maioria cristã.

Mas nós não vivemos num mundo ideal e, obviamente, há muitos muçulmanos e turcos que discordam radicalmente da minha visão de como seria esse mundo.

Ao contrário do que se poderia pensar lendo algumas das críticas que têm surgido, a Hagia Sophia não foi repentinamente transformada de igreja em mesquita pelo atual Presidente da Turquia, agora em julho de 2020, mas sim pelo Sultão Mehmet, em 1453, quando as suas forças conseguiram ocupar a cidade.

Durante quase 500 anos a antiga catedral funcionou como mesquita.

Só em 1933 é que o pai da ocidentalização da Turquia, Ataturk, transformou a mesquita em museu. Foi esse decreto que foi agora considerado inválido pelo mais alto tribunal turco, que assim consumou a transformação do museu novamente em mesquita. Mais do que um atentado ao Cristianismo, foi um atentado ao secularismo da Turquia. Mais um.

Tendo em conta que a hipótese ideal de a Hagia Sophia voltar a ser uma igreja não é viável, o que é que é melhor? Ser uma mesquita ou ser um museu? A Igreja Católica reconhece que os muçulmanos adoram o verdadeiro Deus. Isto é muito diferente de dizer que o Islão possui a verdade da revelação, mas não deixa de ser significativo. Tendo isso em conta, é melhor que continuem a ressoar louvores ao verdadeiro Deus – ainda que entendido de forma incompleta, sem a sua dimensão trinitária – ou que seja um espaço secularizado?

Honestamente, não sei para que lado virar. Mas isso também não é o mais importante. O que eu quero explicar com este texto é que o problema de Erdogan ter transformado a Hagia Sophia numa mesquita não é a mesquita, é mesmo Erdogan. Ou melhor, é o projeto de islamização da sociedade que Erdogan tem em marcha na Turquia.

Depois de anos a baterem à porta da União Europeia os turcos finalmente perceberam que Bruxelas nunca os ia deixar entrar. Então Erdogan virou-se para o Oriente e vai, aos poucos, tentando ressuscitar o cadáver do Império Otomano.

E se a transformação de um museu numa mesquita pode ferir o nosso orgulho, e fragilizar o Patriarca de Constantinopla – razão pela qual a Rússia, sempre tão ciosa dos direitos dos cristãos perseguidos, agora considera que isto é um assunto interno de Ancara – são as outras medidas de Erdogan que verdadeiramente ameaçam os cristãos.

A atuação da Turquia na Síria é inqualificável. Apoiando os mesmos grupos jihadistas que andaram a decapitar cristãos e tantos outros e atacando frontalmente os grupos curdos no nordeste da Síria, aliados dos cristãos, que construíram o que há de mais próximo de uma democracia naquela região. No interior da Turquia o clima continua a tornar-se cada vez mais hostil para os cristãos que permanecem no país, tanto para os membros das comunidades históricas – arménios, siríacos, gregos – como para os poucos turcos que se convertem a confissões evangélicas, com grande sacrifício pessoal.

Tudo isto acompanhado de um aperto cada vez maior da democracia interna, de que a eleição para a câmara de Istanbul foi apenas um exemplo, com o Governo a mandar repetir o escrutínio depois do seu candidato ter perdido.

Mas é interessante ver o que aconteceu nesse caso. O tiro saiu pela culatra e o candidato da oposição acabou por ver a sua maioria crescer na segunda votação, ao ponto de ter sido impossível a Erdogan interferir mais.

E este contexto é importante. Há dias eu escrevi no Twitter que não tinha acreditado que Erdogan fosse ao ponto de tomar mesmo esta decisão com a Hagia Sophia. Recebi uma resposta de um português que vive e estuda na Turquia a dizer que este é um acto de desespero de quem está a começar a perder o controlo do país e tem de recorrer a malabarismos cada vez mais impressionantes para cativar a sua base.

Será esse o caso? Veremos. Talvez o canto do Muezzin que vai voltar a ouvir-se dos minaretes que os otomanos colocaram à volta da catedral dedicada à Santa Sabedoria sejam mesmo o canto do cisne do aspirante a sultão.   

Wednesday, 15 July 2020

De Museu a Mesquita. A Importância da Hagia Sophia

Ines A. Marzaku

Hoje está na moda anular a história. Começou nos Estados Unidos, mas já se espalhou para Itália, Espanha, Inglaterra, Bélgica e, mais recentemente, a Turquia. Algumas das principais técnicas incluem o derrube e a profanação de monumentos e estátuas que funcionam como museus exteriores, contando a história das pessoas que fizeram História. Pode-se conhecer a história de uma cidade explorando as estátuas e os monumentos nos parques e áreas comuns.

O Presidente da Turquia, Tayyip Erdogan, juntou-se agora ao grupo quando declarou a sua intenção de converter a majestosa basílica cristã de Hagia Sophia (Igreja da Santa Sabedoria) – atualmente um museu nacional e um dos locais mais visitados na Turquia – numa mesquita. E o Conselho de Estado, o mais alto órgão administrativo da Turquia, concordou que o pode fazer.

Qual é a história da Hagia Sophia?

Distingue-se pela sua beleza indiscritível, sendo de tamanho e de harmonia de medidas excelentes, sem excesso nem deficiência; sendo mais magnífica que os edifícios normais, e muito mais elegante que aqueles que não são de tão justas proporções. A Igreja é singularmente repleta de luz e de sol; pode-se declarar que o espaço não é iluminado de fora, pelo sol, mas que os raios são produzidos no seu interior, tal é a abundância de luz que entra nesta igreja.

Assim escreveu Procópio de Cesareia (circa 500-565 A.D.), um importante historiador bizantino de Constantinopla (hoje Istambul), na descrição que fez da Hagia Sophia no seu livro "De Aedificiis" (Sobre Edifícios), que foi escrito por volta de 554. Nessa obra atribui ao Imperador Justiniano, entre outros, a responsabilidade por tão magnífico feito.

A Igreja de Justiniano tornou-se um ícone de Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente. O imperador ficou tão satisfeito com o resultado que durante a cerimónia de dedicação, em Dezembro de 537, exclamou: “Oh Salomão, eu superei-te!”, comparando a sua igreja ao Templo de Salomão, em Jerusalém.

Durante 900 anos a Hagia Sophia esteve no centro do Império Bizantino. Era a sede do Patriarca Ecuménico de Constantinopla, o lugar onde se realizavam os concílios ecuménicos, onde os imperadores eram coroados e se faziam vigílias nocturnas e majestosas procissões até à queda de Constantinopla para os Otomanos, a 29 de Maio de 1453.

Andando a cavalo pelas ruas da cidade conquistada, o Sultão Mehmet II “desmontou às portas da igreja e baixou-se para pegar numa mão cheia de terra, que polvilhou por cima do turbante, como acto de humildade diante de Deus”. O sultão converteu a Igreja de Hagia Sophia na Grande Mesquita de Aya Sofya, como permaneceu até 1934, quando um decreto do primeiro presidente da República da Turquia, Mustafa Kemal Atatürk, transformou o edifício num museu.

Em 1985 a UNESCO declarou-a Património Mundial.

Porque é que é importante que a Hagia Sophia continue a ser um museu?

Interessa para a história e interessa às pessoas, tanto cristãos como muçulmanos. É importante preservar a memória e os museus e as estátuas são formas comprovadas de preservar a cultura e a religião – no que merece ser preservado, recordado, valorizado e transmitido a futuras gerações.

O museu comprovou ser uma excelente forma de recordar tanto a Igreja de Hagia Sophia como o Mesquita de Aya Sofya. Serviu não só como registo de uma história multissecular, mas como transmissor de conhecimento dos impérios romano e bizantino para a República Turca de Atatürk. Este edifício magnífico, e outrora religioso, é uma recordação visível e tangível de impérios e religiões do mundo Mediterrânico, numa belíssima síntese.

Desde cedo na sua carreira política, o Presidente turco Recep Tayyip Erdogan lamentou a conversão por Atatürk da Mesquita de Aya Sofya num museu. Em vez disso ele prefere anular mais de nove séculos de história cristã, para grande consternação do Patriarca Ecuménico de Constantinopla, Bartolomeu I, do Patriarca russo Cirilo e do Papa Francisco.

Para Bartolomeu I, a Hagia Sophia é um lugar sagrado em que o Oriente e o Ocidente se abraçaram. A anulação desta memória causará uma profunda divisão entre estes dois mundos. Mantendo o seu estatuto de museu, o local continuaria a servir como um exemplo de solidariedade e de compreensão mútua entre o Cristianismo e o Islão.

O Patriarca Cirilo da Rússia considera que a conversão da Hagia Sophia de museu em mesquita é uma ameaça ao Cristianismo. Numa recente entrevista à Interfax, o Metropolita Hilário, responsável pelas Relações Externas do Patriarcado de Moscovo, expressou o seu desapontamento com a atitude de Erdogan, dizendo: “A Hagia Sophia é património mundial. Não é por acaso que as notícias da mudança do seu estatuto abalaram o mundo inteiro, especialmente o mundo cristão. A Igreja é dedicada a Cristo, Sophia, a Sabedoria de Deus, é um dos nomes de Cristo.”

Ainda este fim-de-semana o Papa Francisco, que tem feito um grande esforço para cultivar boas relações com os muçulmanos, falou com uma franqueza incaracterística: “Penso em Istanbul. Penso na Hagia Sophia. Estou muito consternado”.

A história não pode ser destruída, cancelada ou alterada. Até alguns turcos têm-se queixado dos esforços do Presidente para tentar criar uma história única e falsa.

Para os católicos a história tem um sentido transcendente, uma mensagem a transmitir e uma lição a aprender – e o historiador é chamado a discernir as raízes desse sentido. A história não é linear nem ideológica – ou, pior ainda, para ser usada com motivos políticos – mas reclama continuamente nova reflexão e análise, para que o passado seja revisitado e os erros não sejam repetidos.

O grande filósofo romano Marco Túlio Cícero escreveu em “De Oratore” que Historia magistral vitae est (A História é mestre da vida). A história, os seus monumentos e museus não devem ser destruídos ou anulados, especialmente num esforço para dominar o presente. Eles têm o direito a falar connosco – e a serem ouvidos.

No que diz respeito à Hagia Sophia, o tempo dirá como esta moda de anular a história resultará para a Turquia. Por enquanto parece que a chamada para a oração voltará a ressoar no dia 27 de julho, na mais magnífica estrutura da Igreja Oriental.


Ines A. Murzaku é professora de Religião na Universidade de Seton Hall. Tem artigos publicados em vários artigos e livros. O mais recente é Monasticism in Eastern Europe and the Former Soviet Republics. Colaborou com vários órgãos de informação, incluindo a Radio Tirana (Albânia) durante a Guerra Fria; a Rádio Vaticano e a EWTN em Roma durante as revoltas na Europa de Leste dos anos 90, a Voice of America e a Relevant Radio, nos EUA.

(Publicado pela primeira vez na Segunda-feira, 13 de Julho de 2020 em The Catholic Thing)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Partilhar