quarta-feira, 16 de outubro de 2019

O Regresso dos Deuses Fortes

Michael Pakaluk
O editor do First Things, R. R. Reno, acaba de publicar um livro chamado “The Return of the Strong Gods”. Confesso que o título me dá os arrepios. Não gosto de linguagem idólatra, nem como metáfora – e não é porque acho que esses falsos deuses não existem. Devemos conjurar esses velhos deuses, ou ser por eles controlados? Apenas devemos aguardar a vinda de um Deus, enquanto Moloque e Dionísio estão entre nós, mais fortes que nunca. Ou se calhar sou só eu.

O termo alude à teoria de Émile Durkheim de que as divindades que inventamos resultam da unidade social que desejamos. “Os deuses de outrora estão a envelhecer ou a morrer”, escreveu, “e ainda não nasceram os novos… Chegará um dia em que as nossas sociedades voltarão a conhecer horas de efervescência criativa, durante as quais surgirão novos ideais e novas fórmulas para guiar a humanidade durante um tempo”.

O livro de Reno é, essencialmente, um comentário a essas frases. Durante o período de 1914-45, observa, os “deuses fortes” de povo, sangue, classe e destino histórico governavam com mão firme muitas nações. Uniram a Itália, Alemanha, Japão e o Império Russo, mas puseram homem contra homem em guerras destrutivas de agressão e genocídios. Não podemos deixar que isso volte a acontecer. Então como é que as sociedades livres devem ser protegidas e formadas na sequência dessas guerras?

Entre os líderes dos vencedores democratas da guerra surgiu o consenso de que a melhor forma de avançar era a promoção de mentes abertas, uma sociedade aberta e fronteiras abertas. Destas, a primeira foi decisiva. Deste ponto de vista, a verdade é, inerentemente, autoritária e divisiva uma vez que quem acredita numa verdade importante não cede e está disposto a morrer por ela. Daí que a promoção da verdade teve de ser substituída pelas palavras bonitas do “sentido”.

Por isso as classes governantes promoveram todo e qualquer pensador que tinha por objetivo “desencantar” o nosso mundo. A consequência foi uma sociedade aberta, instintivamente oposta a tradições e convenções. Depois, para alcançar as fronteiras abertas fizeram-se aliados dos economistas como F.A. Hayek, que defendia que as relações económicas, embora fracas, eram (em termos práticos) mais alcançáveis, ou Milton Friedman, que defendia a competição do mercado livre contra quais todas as formas de controlo social.

Reno admite que este “consenso do pós-guerra” levou a uma prosperidade incrível. Pode-se acrescentar a isso o facto de o mundo não ter voltado a experimentar uma guerra cataclísmica. Mas a postura constante da nossa elite de ser “anti” os “desuses fortes” da verdade, religião e patriotismo (veja-se a rapidez com que estes termos são criticados como “racismo” e “fascismo”) praticamente destruiu a solidariedade.

As “três sociedades necessárias” de que escreveu Russell Hittinger – família, pátria e igreja – estão a sofrer terrivelmente. “O casamento está a ruir entre as classes operárias americanas”, observa Reno, “face a esta realidade, é praticamente uma insanidade fixar a atenção política nas casas de banho transgénero”.

Mas o homem é um ser social e, avisa Reno, poemos estar certos de que os “deuses fortes” vão regressar. Cabe-nos a nós decidir se serão benévolos ou malévolos.

A esperança de Durkheim por uma nova era de “efervescência criativa” encontra eco no livro de Reno. Ele simpatiza com os jovens que se vêem como que presos num século anterior, enquanto os líderes da sua sociedade moribunda lutam contra miragens de Hitler e do KKK. Num par de curtos parágrafos Reno interpreta o fenómeno de Trump como expressão de uma ansiedade, que devemos apoiar, para começar uma nova narrativa.

A força deste livro depende, na minha opinião, do padrão. Se assumirmos que Reno está a fornecer uma perspetiva em falta, ou unificadora, então é simplesmente brilhante e exige que reconsideremos (ou leiamos pela primeira vez, com atenção) muitas obras influentes da cultura do pós-guerra.

R.R. Reno
Mas se partirmos do princípio que se trata da “perspetiva chave” ou a “síntese orientadora”, então não tenho tantas certezas. Ao contrário do que muitos americanos afirmam, não existiu um consenso pós-guerra simples. Em vez disso a resposta a 1914-45 foi de recuperar as fundações da democracia e, até, de transmitir esta tradição através das universidades. Neste respeito Reno é injusto para com William F. Buckley.

As raízes do liberalismo do pós-guerra remontam até antes das grandes guerras e não são apenas políticas, mas intelectuais. Mais, o liberalismo contemporâneo tem muitas reações instintivas para além de ser “anti” fascista. Sentimento de culpa pela prosperidade; favorecimento do estranho acima do amigo (amor próprio desordenado); abuso do princípio de Mill de negar que há vítimas e depois de ignorar as vítimas que se apresentam; usar a riqueza de outros para fazer amigos; sacrificar amigos para fazer amigos; favorecer procedimentos gerais acima de juízos “paternais” de proximidade; a romantização do banal e do primitivo; julgar os agentes governamentais pelas intenções, mas os privados pelos resultados. Tudo isto são aspectos da personalidade liberal que a tese de Reno nem sequer toca.

Reno não apresenta o seu livro como sendo católico, ou sequer cristão. Mas como é que o devemos julgar enquanto católicos?

Bom, como é que um católico pode pensar entrar neste novo século sem carregar com ele a análise, feita no século passado, de João Paulo II – que conscientemente conduziu a Igreja para o novo milénio. Reno nunca refere o seu diagnóstico de uma “cultura da morte”. Para Reno isso não faz parte do puzzle nem é uma perspetiva concorrente que deve ser contestada.

Por falar nisso, o livro também não refere nunca o mal do aborto a pedido. Mas esse fenómeno parece ser uma peça chave do declínio do amor na família e na piedade nacional. Como é que podemos ter pietas tradicional por uma sociedade que nem se responsabiliza pelo nosso direito a nascer? Também prejudicou a solidariedade: que solidariedade é possível se nos limitamos a ver aqueles que dizemos ser nossos irmãos e irmãs conduzidos para a morte?

É de novos deuses que precisamos? Não bastará encontrar a coragem de combater os males presentes e genuínos com a mesma paixão com que os liberais, no vácuo por nós criado, tratam os males do passado?


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
  
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 15 de Outubro de 2019)

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