quarta-feira, 23 de outubro de 2019

“Graças a Deus”: Uma recensão

Brad Miner
O escândalo de abusos sexuais na Igreja Católica persegue-nos a todos, e não só nos Estados Unidos. Nenhuma nação com igrejas católicas foi poupada. É verdade que o pior, isto é, o abuso sexual de meninos, rapazes e jovens adultos, parece ter passado, mas temos aprendido as lições certas? A tempestade já passou? Ou estamos apenas no olho do furacão?

Eu não tenho respostas, mas Bento XVI ofereceu-nos algumas nas suas instruções sobre a educação nos seminários. Esperemos que essas orientações estejam a ser implementadas de forma eficaz.

Contudo, continuamos a assistir a esforços por parte de algumas vítimas à procura de justiça, bem como tentativas por parte de bispos para evitar as suas responsabilidades. É por isso que o filme do realizador francês François Ozon, “Graças a Deus”, é tão importante.

A virtude deste filme está no foco que põe nas vítimas, ao contrário do Spotlight, um filme de Tom McCarthy de 2015, que venceu um Óscar e que focava os jornalistas que revelaram a dimensão do encobrimento de abusos sexuais na Arquidiocese de Boston.

Ozon é conhecido em França por filmes que são sensíveis ao femininom, (conhecidos como cinema du corps, ou “cinema do corpo” e que incluem títulos como "8 Femmes" e "Swimming Pool"). O realizador começou por tentar filmar um documentário, mas depois percebeu que a história das vítimas do abusador em série Pe. Bernard Preynat (desempenhado por Bernard Verley, o melhor do filme) e o encobrimento por parte do cardeal Philippe Barbarin, Arcebispo de Lyon (François Marthouret), exigiam uma narrativa mais dramática, com ênfase nas personagens, ao estilo de um romance baseado em factos verídicos.

Nas palavras de Ozon, essa era também a vontade das vítimas:

Elas imaginavam um filme ao estilo do Spotlight, em que seriam personagens fictícias, desempenhadas por actores famosos. Então pensei: é isto que elas querem e é isto que eu sei fazer.

O história conta como Alexandre Guérin (Melvil Poupaud) começa a aperceber-se dos abusos que sofreu anos antes, às mãos do padre Preynat. Confiando na integridade do cardeal Barbarin, escreve ao arcebispo, que aceita marcar um encontro cara-a-cara entre Alexande, o padre (agora idoso) e uma funcionária da diocese, Régine Maire (Martine Erhel). Tanto Alexandre como a sua mulher e alguns amigos com quem falou sobre o assunto esperam que Preynat tente embrulhar o assunto, ou mesmo negar tudo. Mas não o faz.

Chocado, mas encorajado, Alexandre pede a Preynat que torne pública a sua confissão.

“Sinceramente”, diz o padre, “eu preferia evitar os excessos e ataques físicos que isso poderia provocar”, explicando que alguns anos antes tinha sido atacado no jardim da sua casa de campo por pais “violentos e histéricos”.

“Você abusou dos filhos deles”, diz Alexandre.

“Sim”, diz o velho padre, “mas isso não é razão para se ser violento!”

Nesta altura Alexandre está confiante de que Preynat será laicizado e ainda acredita que o cardeal Barbarin é um homem corajoso e honesto. Mas quando o cardeal lhe concede aquilo que apenas pode ser considerado uma audiência, Barbarin começa a arrastar os pés em relação às medidas a tomar contra Preynat. Alexandre não compreende porque é que o arcebispo deixaria um pedófilo manter-se no ministério.
 
“Por favor, não use essa expressão”, diz o cardeal, num tom muito formal.

Porque não?

Porque, explica Barbarin, “no sentido etimológico pedófilo significa ‘amar crianças’”.

O cardeal pede a Alexandre para ser paciente e recorda-lhe que o Papa Francisco tinha pedido aos cardeais para “enfrentar corajosamente este mal”. Depois, numa evocação do juízo que Alexandre tinha feito dele inicialmente, garante, “eu serei corajoso”.

Mas por esta altura o Alexandre já começa a duvidar das promessas, sobretudo depois de ter descoberto que Barbarin e Preynat são velhos amigos. Fica ainda mais desencorajado depois de outra reunião com um funcionário da arquidiocese, um padre que reconhece os “crimes” de Preynat mas diz francamente que ele não será laicizado: “Para quê desenterrar estas velhas histórias?”

É então que Alexandre começa um grupo de antigas vítimas que se intitulam “La Parole Libérée”, o que significa literalmente “a Palavra libertada” mas é traduzida pelos próprios para inglês como "Lift the Burden" [Retira a Carga].

O título do filme vem de uma conferência que Barbarin deu em 2016 na qual, em resposta à pergunta de um jornalista sobre a extensão da crise em Lyon, diz “a maior parte dos factos, graças a Deus, já prescreveram”. Ou, por outras palavras, “se a lei civil não nos obriga a responder, então não responderemos”.

Algumas das cenas de “Graças a Deus” fazem lembrar o Spotlight. Na recensão que fiz desse filme escrevi:

Há uma cena perto do fim do filme em que um jornalista está de pé na parte de trás de uma igreja, ouvindo um coro infantil a cantar músicas de Natal. A Igreja é linda, os miúdos são lindos e a música é linda… Senti alegria por causa dessa beleza essencial, a beleza da fé católica, mas também tristeza por causa da traição de padres e bispos que não responderam à esta onda de crimes com sequer um semblante de compaixão cristã, preferindo antes um carreirismo católico.

Há uma cena praticamente idêntica em “Graças a Deus” e – tal como no Spotlight – parte-nos o coração.

Por causa da atenção que dá não só à história de Alexandre como à de três outros homens, este filme é um bocadinho repetitivo. E em vez de ter um final emocionante o fim – que se resume a uma longa conversa ao jantar entre os fundadores de “Le Parole Libérée – desilude um pouco.

Bernard Preynat abusou de pelo menos 70 rapazes e foi finalmente reduzido ao estado laical em julho deste ano. Como disse uma das suas vítimas, era um verdadeiro Preynador”. Antes, no mesmo ano, o cardeal Barbarin foi julgado e condenado por não ter denunciado casos de abusos sexuais. Recebeu uma sentença de seis meses, pena suspensa. O Papa Francisco não aceitou a sua resignação.

Na última cena de filme um dos filhos de Alexandre chega a casa e pergunta como correu o tal jantar do “La Parole Libérée”. Foi tenso, mas correu bem, diz o pai. Estavam a celebrar o facto de terem ganho o prémio de cidadãos do ano de Lyon. “Sabes quem é que ganhou o ano passado?”, pergunta ao filho. “Não”, responde o jovem. A resposta: Barbarin.


(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 16 de Setembro de 2019 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

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