quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A verdadeira religião não é violenta? Quem decide?


De nada adianta, como tantos líderes religiosos e fiéis gostam de fazer, negar que a religião tem um potencial de violência e que grande parte da violência no mundo é motivada por ela. O próprio Papa admitiu-o hoje.
Claro que isso não significa que a violência religiosa seja inevitável. Será antes uma utilização abusiva da fé: “repetimos com vigor e grande firmeza – que esta não é a verdadeira natureza da religião. Ao contrário, é a sua deturpação e contribui para a sua destruição”, afirmou hoje Bento XVI.
Mas será mesmo? Quem decide? O próprio Papa levanta estas questões antecipando-se aos eventuais críticos. No fundo está a questão: Quem está mandatado para definir o que é a verdadeira religião e o que não é?
Na Igreja Católica a resposta é mais fácil. Com uma estrutura estritamente hierárquica a legitimidade cabe ao sucessor de Pedro, que todos sabemos quem é.
Mas no Judaísmo e no Islão, com as suas múltiplas correntes? E nas igrejas protestantes e evangélicas? E na multiplicidade de seitas, com incontáveis milhões de seguidores?
Somos recordados das tentativas vãs dos políticos ocidentais, desde Bush a Blair, sem esquecer Obama e tantos outros, que insistem em falar do “verdadeiro Islão”, escolhendo como interlocutores e elevando os seus representantes mais moderados, com uma legitimidade que vem ninguém sabe bem de onde. Haverá melhor maneira de alienar um jovem muçulmano do que meter um político ocidental a dar-lhe sermões sobre a sua própria religião?
O Papa não respondeu às questões que levantou. Não pode. Ele saberá que esse debate não se ganha com retórica nem com a razão.
Essa legitimidade e autoridade ganha-se nos corações. Quando os promotores da paz forem rectos e puros de coração, quando o perdão for a sua reacção automática perante a ofensa e mostrarem ao mundo que por essa mesma razão são mais e melhores homens e mulheres; quando puderem apresentar-se credivelmente ao mundo como um novo modelo de heroísmo, aí sim os terroristas estarão em desvantagem.
O encontro que hoje decorreu é um ponto de partida, o verdadeiro trabalho terá de ser feito internamente e aí se verá quem esteve do corpo presente para aparecer nas fotografias e quem esteve de alma e coração.
Filipe d'Avillez

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