Na noite de terça para quarta-feira tive o prazer de estar à conversa com António Vieira, da Rádio Amália, no programa Madragoas.
Falámos sobre o meu livro "Que fazes aí fechada?", sobre o paradoxo que é a liberdade que sente quem faz votos de pobreza, obediência e castidade, sobre ser cristão hoje em dia e sobre o meu trabalho enquanto jornalista da Renascença, especializado na área de religião. Também foi tema de conversa a natureza da Renascença enquanto emissora católica.
Pelo meio sugeri músicas, incluindo dois fados do Peu Madureira, meu amigo e cunhado.
Podem ouvir tudo aqui. Espero que gostem.
Thursday, 19 October 2017
Participação no Madragoas, da Rádio Amália
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Wednesday, 18 October 2017
Um país coberto de cinza
Portugal está de luto, novamente. Politiquices à parte, vários
bispos
manifestaram-se
sobre os incêndios, com o Patriarca a dizer que a tragédia era evitável, e o Papa enviou hoje uma mensagem de solidariedade.
Também hoje o Papa lamentou outra tragédia do
fim-de-semana, o atentado em Mogadishu que fez mais de 300 mortos. Uma coisa absolutamente
hedionda.
Em menor escala, mas também muito triste, é o assassinato de um padre copta, à facada. Uma sucessão de azares,
ou mais um dia na vida daquela comunidade? (Aqui têm uma versão inglesa do mesmo artigo, caso queiram partilhar com os
vossos contactos internacionais).
Entretanto na semana passada terminaram oficialmente as celebrações do centenário de Fátima.
Sobre Fátima, decorre um musical, no Estoril, sobre a mensagem de Fátima. Há
três novas sessões previstas para este próximo fim-de-semana. São os últimos, por isso aproveitem!
Hoje há novo artigo do The Catholic Thing. Como
jornalista, este diz-me muito. Leiam o professor de Jornalismo Clemente Lisi a explicar porque é que faz falta mais católicos nas redacções dos órgãos de comunicação.
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Terços que Assustam os Media
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| Clemente Lisi |
Num tempo marcado por “fake news”, os leitores são
bombardeados todos os dias com histórias – na maior parte dos casos legítimas,
mas às vezes totalmente inventadas – alimentadas pelas redes sociais. O processo
de angariação de notícias – o método através do qual os jornalistas e os
editores avaliam o valor das histórias – tem-se tornado cada vez mais tema de
discussão.
Os leitores já não se limitam a aceitar as notícias que
aparecem de manhã nos jornais ou que lhes chegam continuamente através dos seus
feeds do Twitter. Erros básicos, falta de isenção e a eleição presidencial do
ano passado ajudaram a alimentar a narrativa de que a imprensa generalista está
desligada da realidade dos americanos. A internet tem-se revelado uma
oportunidade para os jornalistas, mas cada vez mais um desafio, também.
A minha experiência indica que falta diversidade nas
redacções. Todas as empresas procuram ter diversidade nos seus quadros hoje em
dia, mas nenhuma indústria precisa mais dela do que o jornalismo. A diversidade
na redacção conduz a boas ideias, melhores debates e cobertura jornalística de
melhor qualidade. Existe diversidade racial entre o pessoal? Devemos contratar
outra mulher? Estas são questões com as quais as empresas se debatem cada vez
que há uma vaga.
Mas o que nunca parece preocupar os empregadores é se
existe um número suficiente de católicos praticantes na redacção, ou se devem
contratar uma pessoa de fé – qualquer fé – para escrever sobre o que se passa
no mundo e na comunidade. A crença em Deus é tabu na redacção.
Dizer que as pessoas religiosas estão mal representadas
no mundo jornalístico é pouco. Mas esse facto faz uma grande diferença na forma
como grandes órgãos de comunicação social tratam temas importantes como o
aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. A cobertura mediática pode
influenciar a opinião pública e ajudar a determinar as leis e as políticas. Tem
um impacto sobre as normas sociais e está a ser feita, em larga medida, sem a
contribuição de pessoas religiosas em lugares chave.
Não existe espaço mais secularizado do que uma redacção.
O preconceito liberal existe nos media, mas a maioria dos jornalistas não dá
por ele. Não se consegue distinguir o preconceito quando toda a gente à nossa
volta pensa e sente da mesma maneira.
Tomemos como exemplo a recente concentração de cidadãos
polacos ao longo da fronteira da sua nação. O evento do dia 7 de Outubro, a que
se chamou, “Terço nas Fronteiras”, foi organizado para coincidir com o
aniversário da Batalha de Lepanto, entre cristãos e o Império Otomano, em 1571.
Neste caso tratou-se de um evento solene e pacífico, mas para muitos nos media
foi automaticamente classificado como sinistro porque envolvia católicos e
terços. A “Newsweek” não resistiu a classificá-lo assim logo no título:
“Católicos polacos rezam na fronteira, em evento tido como anti-islâmico”.
Se os muçulmanos tivessem organizado uma iniciativa
semelhante jamais teria sido descrito de forma negativa. Ainda por cima a “Newsweek”
embebeu um vídeo sobre a Sexta-Feira Santa nas Filipinas (provavelmente o único
vídeo relacionado com catolicismo que tinham disponível), em que são
reencenadas as últimas horas de Jesus – incluindo homens a serem pregados a
cruzes – numa prática que o Vaticano já condenou. A imprensa cobre este evento
porque representa fanatismo, ao contrário de devoção normal.
Mas a “Newsweek” está em boa companhia. A “BBC” e outros
órgãos descreveram o evento de oração como “controverso”, como se isso fosse um
simples facto.
Estamos habituados a ver este tipo de preconceito na
forma como os media cobrem eventos como a Marcha pela Vida anual, mas a maioria
de nós não tem noção de como muitas outras “notícias” são afectadas.
Os jornalistas tendem a ser caucasianos, educados, a
viver em Nova Iorque ou em Los Angeles, duas das cidades mais liberais do país.
A maioria das pessoas conservadoras acaba por entrar para o sector privado,
oferecendo frequentemente o seu tempo ou doando dinheiro para causas que crêem
que podem ajudar outros. Os liberais apostam no jornalismo porque é uma
profissão que valorizam.
Os jornalistas que trabalham nos jornais de grande
circulação de áreas metropolitanas importantes costumam ter licenciaturas de
universidades da Ivy League – mais um bastião de liberalismo – e querem
promover a mudança através do pensamento crítico e da escrita. O jornalismo é
visto como um trabalho intelectual e passou de ser um trabalho de classes
socialmente mais baixas para classe média ou alta nos anos que se seguiram ao
caso Watergate.
Este conjunto de factores deixa católicos devotos – e
crentes devotos de qualquer fé – praticamente sem espaço nas redacções actuais.
Isso em si faz com que a cobertura mediática seja enviesada. O escândalo dos
abusos sexuais na Igreja Católica, por exemplo, não é tratado da mesma forma do
que escândalos envolvendo rabinos ou imãs.
Para os jornalistas liberais a Igreja Católica é um autêntico
saco de pancada. O jornalismo que levou ao desmascarar de padres culpados de
abusos sexuais é um exemplo de profissionalismo – e uma fonte de grande
vergonha para mim enquanto católico. Mas os representantes da Igreja nunca
recebem o benefício da presunção da inocência que vimos atribuída a polícias,
ou até a outras pessoas, acusadas de homicídio. As únicas alturas em que vemos
a Igreja a receber cobertura mediática positiva é quando apoia a agenda liberal
– basta ver a cobertura aos bispos americanos que se opuseram a Trump quando
ele tentou acabar com a política que protegia imigrantes ilegais que tinham
chegado aos Estados Unidos enquanto crianças.
A diversidade de pensamento, em geral, seria muito útil
para melhorar as redacções e o jornalismo que produzem. Mas contratar alguns
jornalistas que percebem de facto alguma coisa sobre religião – um dos aspectos
centrais da vida de seres humanos em todo o mundo – ou que talvez fossem eles
próprios crentes, é tão ou mais importante para garantir que as notícias são
completas do que a cor da pele ou o historial étnico de um repórter.
Talvez um dia os órgãos generalistas dos media acordem
para essa realidade.
Clemente Lisi, um novo colunista no “The Catholic Thing”,
é professor assistente de Jornalismo na King’s College, em Nova Iorque. Tem
quase 20 anos de experiência enquanto jornalista e editor em órgãos de
comunicação social como o “New York Post”, “ABC News” e o “New York Daily News”.
(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 12 de
Outubro de 2017 em The Catholic Thing)
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Friday, 13 October 2017
Samaan’s misfortune
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| Fr. Saaman Shehata |
A run of misfortune yesterday left one man dead in Egypt.
The bad
luck began with the fact that Samaan Shehata was from Beni Suef, a poor region
in Egypt. Because of that poverty, he had offered to go to Cairo to gather
humanitarian aid which had been made available to his community.
The next
stroke of bad luck was the fact that a crazy man – at least the police
considered him crazy even though he was not diagnosed by a professional – saw
him walking down the street and decided to give chase. Unfortunately the mad
man had a knife, with which he stabbed him several times.
There
were plenty of people on the street, but as luck would have it, nobody came to
his aid.
But
apparently Samaan did not die straight away. But he was terribly unfortunate in
that it took over na hour for the ambulance to arrive and, when it did, he was
unlucky in that the first responders decided not to attend to his wounds.
The
police arrived later and partly due to misfortune, partly because they already
knew the killer was a mad man – even though he had not been diagnosed by a
professional – they didn’t set up a crime scene or investigate further.
In the
midst of all this misfortune, there is one coincidence. All this happened on the
same day that Aid to the Church in Need presented a report in Lisbon, where I
live and work, which concluded that Christian persecution has reached levels
never before seen in history. That means that we are worse off now than we were
when the Romans had Christians devoured by wild animals in the arena.
What
does this have to do with Samaan Shehata? It so happens that Samaan is a Coptic
Christian priest. As a Coptic priest he would have been easily identifiable by
his long black cassock and traditional hat. He would have been easy to spot by
somebody – crazy or not – who would want to kill him. And as luck would have it
there is no shortage of men in Egypt – crazy or not – who want to kill Christians.
On
second thought, maybe none of this had anything to do with misfortune at all. Because
this story is becoming all to common, it’s happened too many times before, to
be put down to bad luck. Misfortune had nothing to do with the fact that bombs
were placed in Egyptian churches in April this year, killing almost 50 people. Misfortune did not kill the pilgrims whose buses were pulled over, massacred by
automatic gunfire by the side of the road.
Father
Saaman’s parishioners have been left without a pastor. His wife – Coptic
priests are traditionally married – is now a widow and his children orphans.
But that isn’t bad luck either. It’s just one of the risks that comes with
being a Christian in the Middle East.
Filipe d'Avillez
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Wednesday, 11 October 2017
Do Ódio
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| James V. Schall S.J. |
Tanto o Antigo como o Novo Testamento contêm passagens em
que somos advertidos a odiar algo, como o mal, mas não o nosso irmão. Estamos
familiarizados, talvez demasiado, com a expressão “odiar o pecado mas amar o
pecador”. Este aforismo corre o risco de nos deixar com a impressão de que o
nosso pecado é algo que flutua por aí, totalmente independente de nós, que nos
mantemos puros como a neve virgem. Mas não existe pecado sem pecador. Mais, há
pecadores que fazemos bem em evitar ou, pelo menos, tratar de forma cautelosa.
Quando Aristóteles trata a ira, que em si é uma coisa
boa, fala do controlo, ou descontrolo de uma reacção apaixonada a algo que é
perigoso ou errado. Normalmente exageramos. Mas não nos irarmos com coisas más
é um vício. Algumas coisas devem despertar em nós a ira.
O ódio é uma resposta emocional ao nosso reconhecimento
de que há algo de específico errado com o mundo. Diz-me o que odeias e
dir-te-ei quem és. E se me dizes que nada odeias porque não há nada de errado
no mundo, então fico com uma imagem ainda mais clara do que és – incuravelmente
ingénuo.
Dito isto, estou interessado neste fenómeno relativamente
novo a que se chama “discurso de ódio”. Poucas coisas são potencialmente mais
perniciosas, sobretudo quando os governos e as instituições começam a defini-lo
ou a fazer cumprir a sua proibição. O “discurso de ódio” e a liberdade de
expressão estão claramente em conflito um com o outro. As pessoas que em tempos
estavam interessadas em explorar as fronteiras da liberdade de expressão – ao
ponto de se poder dizer praticamente qualquer coisa com impunidade – são as
mesmas que agora, que controlam a cultura, querem suprimir qualquer expressão
que não seja do seu agrado.
Mas afinal de contas de onde veio esta questão do “discurso
de ódio”? A sua origem está no esforço, agora em larga medida bem-sucedido, de
derrubar a estrutura moral da sociedade. De forma geral, esta transformação foi
levada a cabo através do uso perspicaz da conversa de “direitos”. Aquilo a que
antes se chamava, por razões racionais, uma desordem ou um vício começou por
ser tolerado, depois finalmente um “direito”. Mal se torna um “direito”
qualquer pessoa que lhe chama pecado ou mal torna-se automaticamente um
caluniador e violador da dignidade e do orgulho humanos.
A linguagem tem um propósito. Serve para definir, e
depois nomear, aquilo que designa realmente. Se começarmos a usar a mesma
palavra para duas realidades diferentes, temos de passar a deduzir pelo contexto
a realidade a que nos referimos. Se casamento passa a designar tanto a relação
entre macho/fêmea e macho/macho, a realidade a que a palavra se refere não
muda. Uma coisa não é a outra.
É aqui que entra em cena o “discurso de ódio”. Uma vez
que a lei afirma agora que ambos os arranjos maritais são “iguais”, deixamos de
ter a liberdade de afirmar que não o são. As pessoas sentem-se magoadas se lhes
disserem que aquilo que fazem é, ou não é, um casamento. A afirmação de que não
é ganha estatuto de desordem cívica que deve, em nome da prevenção da
perturbação, ser proibida. Podemos dar por nós ostracizados ou até detidos por
afirmar aquilo que é verdade e argumentar nesse sentido. A liberdade de
expressão, que tinha como objectivo afirmar a verdade das coisas, já não é
permitida. A verdade é uma ameaça à sociedade.
![]() |
| Uma nova revolução cultural |
Quando se universaliza esta situação percebemos que temos
de providenciar espaços onde as pessoas estão protegidas de ouvir sequer algo
que questione a rectidão das suas escolhas ou da lei civil que agora reivindica
jurisdição sobre todo o nosso discurso. Um dos aspectos mais odiosos das
sociedades totalitárias era a montagem de postos de escuta, ou o hábito de
levar as crianças a revelar o que os seus pais diziam em privado. Este mesmo
fenómeno já está entre nós. Agora está disfarçada de forma de proteger as
vítimas do ódio daqueles que se recusam a aceitar o novo regime de “direitos”
que insiste que a sua lei é a única e mais alta lei da nação.
Ao discutir o direito, são Tomás de Aquino perguntava se
devemos ter uma lei que proíba todos os vícios. Inicialmente parecia uma boa
ideia, mas na verdade é uma ideia terrível. Aquino compreendia que dar tal
poder ao Estado implicaria um conhecimento divino e acabaria com a liberdade de
errar que nos permite estabelecer o nosso próprio destino.
São Tomás sabia que alguns vícios tinham de ser
reprimidos, caso contrário estaríamos num estado de guerra constante. Mas dar
poder ao Estado para nos livrar de todos os vícios equivaleria a dar-lhe poder
absoluto, algo que demasiados políticos anseiam. Os cidadãos perderiam então
esse espaço de liberdade e de inteligência em que podem tomar as suas próprias
decisões. As “leis de ódio” radicam, em última análise, do esforço do Estado
moderno para alterar a natureza humana.
James V. Schall, S.J., foi professor na Universidade de
Georgetown durante mais de 35 anos e é um dos autores católicos mais prolíficos
da América. O seus mais
recentes livros são The Mind That
Is Catholic, The Modern Age, Political
Philosophy and Revelation: A Catholic Reading, e Reasonable
Pleasures
(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 9 de Outubro de 2017 em The Catholic Thing)
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Wednesday, 4 October 2017
Justiça restaurativa, sangue e sofrimento
Está em discussão em Cascais a Justiça Restaurativa. Seria capaz de perdoar ao seu agressor? Concorda que os reclusos estrangeiros em Portugal sejam apoiados? Estas e outras questões debatidas num assunto fundamental.
O Papa Francisco dedica o mês de Outubro à oração pelos direitos dos trabalhadores e esta quarta-feira renovou o apelo de Fátima de se rezar pela Igreja.
Igreja essa que nas Filipinas continua a fazer frente ao
carniceiro Rodrigo Duterte. Agora os bispos oferecem guarida e ajuda a quem quiser testemunhar contra a “guerra
à droga”.
Sabia que um em cada cinco países do mundo tem religião oficial? E que a maioria
desses países são muçulmanos? Mas o cristianismo é das religiões que mais tem
tratamento preferencial.
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Aceitar o Dom do Sofrimento
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| Philip Hawley Jr. |
De vez em quando Deus coloca na nossa vida alguém tão rico em
graça que esta parece submergir-nos completamente. A Emma foi uma dessas
pessoas para mim.
A sua morte, depois de uma batalha de cinco anos contra o
cancro, não foi referida na imprensa local. A Emma era uma imigrante pobre que
esfregava o chão da minha casa quando não estava a mudar as fraldas aos meus
filhos. A sua humildade era tão misteriosamente profunda que podia desaparecer
de vista mesmo quando era a única outra pessoa na sala.
E contudo – ou, aliás, devido a estas qualidades – estou
certo de que um coro de anjos fez tremer as portas do céu durante os seus
últimos momentos na terra, porque, na morte como na vida, ela esvaziou-se em
Deus numa viagem indescritivelmente bela de sofrimento e graça.
A Emma sofreu emocional e espiritualmente nos últimos meses
e a minha experiência enquanto médico de pouco serviu para aliviar as suas
aflições. Todos já passámos pela angústia de ver alguém de quem gostamos em
sofrimento. Há uma aversão profunda ao sofrimento na natureza humana, bem como
compaixão para com aqueles que sofrem.
Estes aspectos da nossa natureza são ainda mais aparentes
nestes tempos em que o desenvolvimento da medicina eliminou grande parte do
sofrimento físico que, para os nossos antepassados, era simplesmente parte da
vida e da morte. Não obstante serem bons em si, estes avanços levam-nos a ver o
sofrimento como uma anomalia, algo a ser eliminado, até na hora da morte.
O sofrimento é um denominador comum em todas as razões
dadas por doentes com pensamentos suicidas. O apoio ao suicídio medicamente
assistido radica, no fim de contas, na crença de que a eliminação do sofrimento
– físico, psicológico, espiritual ou existencial – é um bem moral mais
importante do que sustentar a vida.
Alguns destes argumentos são espúrios, como a afirmação de
que a dor severa é comum no final da vida. Na verdade os cuidados paliativos
tornaram-na bastante rara. Mas a mera negação destes medos, que são
compreensíveis, nada faz para ajudar aqueles que contemplam o suicídio, só faz
com que se sintam mais isolados.
Uma sondagem da Pew Research de 2014 revelou que 71% dos
americanos consideram-se cristãos. É um número quase idêntico ao dos americanos
que apoiam o suicídio assistido. Isto sugere que a maioria dos cristãos apoia o
suicídio assistido. Então pergunto aos meus correligionários, sobretudo aos
católicos: O que é que Jesus Cristo nos tem a dizer sobre o sofrimento em fim
de vida? Afinal de contas, o seu exemplo devia ser da maior importância para os
seus seguidores.
A nossa fé cristã assenta, em última análise, na Paixão de
Cristo. Se Cristo significa alguma coisa, é em primeiro lugar o Deus-homem que
sofreu para nos redimir do pecado. A Paixão não é apenas o que Cristo fez, mas
quem Ele é.
Os defensores do suicídio assistido costumam argumentar que
uma morte arrastada é indigna. Mas antes de aceitar esta afirmação, pensem por
momentos nos detalhes da Paixão de Cristo. Se uma morte sofrida é indigna,
então a de Cristo foi a mais indigna de todas. Porque é que Cristo, ou o Pai,
não puseram fim rapidamente à indignidade? Tendo em conta que a prolongada
morte de Cristo causou sofrimento aos que o observavam aos pés da Cruz, talvez
ele tivesse o dever de morrer rapidamente.
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| São João Paulo II: Um exemplo de dignidade no sofrimento |
Mas o sofrimento de Cristo continuou até à morte, o que
aponta para outra verdade. Ao contrário dos conceitos triviais de dignidade a
que nos costumamos agarrar, a verdadeira dignidade humana deriva directamente
da fonte: Imago Dei. O sofrimento não é uma afronta à nossa dignidade. Quando
oferecida da forma como Deus nos pede, é uma afirmação da nossa dignidade. Nos
seus últimos anos, o Papa São João Paulo II viveu esta verdade de forma a que
todos a pudessem ver.
A morte é uma coisa confusa e por vezes fisicamente
revoltante. Desconfio que a morte de Cristo na cruz tenha sido bastante mais
hedionda do que a Bíblia diz. Mas apesar disso a sua mãe permaneceu aos pés da
cruz do seu filho e viu-o a morrer de uma forma indescritivelmente horrível.
Apesar da agonia física e espiritual, tanto a mãe como o Filho aceitaram as
suas cruzes. Ao fazê-lo, Cristo parece estar a dizer algo para todos aqueles
que sofrem junto de um doente moribundo.
Para lá da Paixão de Cristo, a história da Igreja antiga é
também, na sua dimensão humana, uma história de sofrimento. Todos os apóstolos
à excepção de João foram martirizados e são incontáveis os que morreram pela fé
nos primeiros tempos da Igreja.
Não quero dar a entender que compreendo uma morte sofrida,
ou como Deus retira graça do mal físico. Estas e muitas outras coisas
permanecem misteriosas para mim, mas há uma verdade que me parece clara: Cristo
não aceita apenas o sofrimento para si. Ele pede-nos que sofra com ele e esse
pedido está no coração da nossa fé cristã.
A Emma nunca deixou de sorrir, mesmo por entre o seu
sofrimento imenso. É algo que não me imagino capaz de fazer. Ela aceitou o
convite de Cristo e, nessa sua entrega, eu fui abençoado com a visão do Cristo
sofredor e com a luz de uma graça inexplicável. Ela demonstrou como se pode
optar por sofrer simplesmente porque é isso que Cristo nos pede.
Nas suas palavras e acções Jesus nunca sugere que a nossa
vida – um dom de Deus – é nossa para destruir. Através da sua Palavra revelada,
aliás, é precisamente o contrário que se torna evidente, como poucas verdades o
são.
O suicídio não é uma libertação compassiva do sofrimento. A
morte não é o fim. Eu não pretendo saber como é que Deus pesará a decisão de
quem quer que seja debaixo de um sofrimento tão intenso, mas o que nos está a
pedir quando chegar a hora da nossa morte parece-nos evidente.
Deus quer-nos com ele no Céu e o sofrimento em fim-de-vida
é um apelo dramático e último para entregarmos a Ele a nossa vontade. Para
aqueles, como eu, que são pecadores, esse é o maior dom que Ele nos podia
oferecer. Não estou a dizer que vai ser fácil, mas temos o exemplo de Emma e de
outros como ela para seguir.
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(Publicado pela primeira vez
no domingo, 24 de Setembro de 2017 em The Catholic Thing)
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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As
opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o
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Philip Hawley, Jr, MD, é médico num hospício e antigo professor
assistente de Pediatria Clínica na University of Southern California Keck
School of Medicine.
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