Tuesday, 26 April 2016

Eutanásia, das intenções à realidade

A mãe de Tom Mortier, eutanasiada por depressão
A eutanásia chegou ao Parlamento. Os promotores portugueses querem uma lei à imagem das que existem noutros países. Fomos ver o que se passa na Bélgica, onde as pessoas podem ser legalmente mortas por estarem deprimidas ou cansadas de viver e na Holanda, onde uma ex-deputada nos garante que a legalização da eutanásia não trouxe mais dignidade para os doentes.

O Papa Francisco não se esquece dos padres e bispos raptados durante estes longos anos de guerra civil na Síria.

Francisco também não se esquece da Ucrânia, para quem destinou os ofertórios de todas as missas na Europa do passado fim-de-semana. Os ucranianos agradecem.

Durante o fim-de-semana Francisco esteve com os adolescentes, em Roma, para uma celebração jubilar dedicada a eles. Surpreendeu ao ouvir confissões em São Pedro e no domingo disse-lhes que a felicidade não é como uma aplicação que se descarrega.

A propósito do 25 de Abril fomos ouvir um capelão militar que está ao serviço há mais de 30 anos e que já esteve em vários cenários de conflito.

Recordo o artigo da semana passada do The Catholic Thing, sobre como a revolução que abala o mundo ocidental é menos contra o Cristianismo do que contra a própria realidade e aproveito para pedir desculpa pela inconstância dos meus mails, o que tem a ver tanto com folgas como com variações na minha carga de trabalho. Pode ser que em Maio a coisa acalme.

Wednesday, 20 April 2016

Cristianismo que não se verga, nem perante o absurdo

Bateladas de dons
O Papa Francisco não esquece o conflito na Ucrânia e por isso destinou às vítimas do conflito naquele país a receita dos peditórios de todas as missas na Europa do próximo fim-de-semana.

Ontem o Papa voltou a falar dos refugiados, descrevendo-os como “um dom” e não “um custo” e pedindo-lhes perdão pela falta de abertura e indiferença de que são vítimas. No fim-de-semana Francisco tinha recordado a história de um muçulmano que conheceu em Lesbos, cuja mulher cristã tinha sido degolada por terroristas.

A exortação do Papa continua a dar que falar. A jornalista Matilde Torres Pereira foi falar com casais católicos em situação irregular para saber como encaram o documento.

E esteve em Portugal, para participar no Meeting de Lisboa, o responsável pelo movimento Comunhão e Libertação. O padre Julian Carron apresenta um Cristianismo que “não se verga perante as dificuldades”.

Hoje é quarta-feira, dia de artigo do The Catholic Thing. Esta semana David Carlin fala-nos da “revolução do absurdo”, ou como a nova ortodoxia liberal insiste que devemos acreditar emcoisas que não fazem o menor sentido.

A Revolução do Absurdo

David Carlin
Eu já fui politicamente liberal. Acreditem ou não, era orgulhosamente liberal – nos tempos em que o liberalismo ortodoxo acreditava em coisas como Segurança Social, sindicatos, igualdade racial, liberdade de expressão, anticomunismo e uma forte defesa nacional. Estou a falar do liberalismo de Franklin Delano Roosevelt, Harry Truman e John F. Kennedy.

Mas depois a ortodoxia liberal começou a mudar. Radicalmente. Começou por incluir o direito ao aborto. Isso não foi o suficiente para me fazer desistir do liberalismo. Em vez disso dizia que era liberal excepto no que diz respeito ao aborto. Mas o liberalismo continuou a mudar, acrescentando artigos ao seu credo. Por isso passei a dizer que era liberal – excepto no que diz respeito a todas essas coisas.

Até que um dia ocorreu-me que a minha versão do credo liberal estava tão cheio de buracos que eu era um liberal do estilo queijo suíço. Por isso decidi que afinal já não era um liberal e devia ser um conservador político e cultural.

Muitos de vocês devem estar a pensar que eu devia ter desistido do meu liberalismo mal este adoptou o aborto como artigo de fé. Concordo – hoje. Mas como muitas pessoas que começaram na minha posição (incluindo muitos católicos), eu não estava suficientemente atento ao que se passava para ter percebido, de início, o quão importante isto é. O aborto é tão claramente errado que as pessoas que acreditam na sua justiça só podem ter um defeito nas suas faculdades de juízo. Se pudessem estar errados quanto ao aborto, então era natural que estivessem errados sobre muitas outras coisas.

Dizer que eu era liberal excepto em relação ao aborto era mais ou menos como um alemão nos anos 30 dizer que era Nazi excepto no que diz respeito ao anti-semitismo. O anti-semitismo era a essência do nazismo, e se os nazis estavam equivocados sobre uma coisa tão obviamente errada como o anti-semitismo, então era natural que tivessem um defeito nas suas faculdades de juízo e que se viessem a enganar sobre muitas outras coisas. E assim foi.

Hoje, para se ser liberal, é preciso acreditar numa série de coisas absurdas. Por exemplo:

  • Que os nascituros não são bebés, que não são seres humanos;
  • Que relações sexuais entre dois homens ou duas mulheres são uma coisa perfeitamente natural;
  • E, por isso, que apenas mentes pequenas e discriminatórias se oporiam ao casamento homossexual.

Recentemente foram acrescentados a este credo liberal dois artigos:

  • Que se um homem pensa que é uma mulher então é mesmo, e que se uma mulher sente que é um homem, então é mesmo.
  • Que é discriminatório pensar que as casas de banho para homens deviam ser reservadas para homens e as de mulheres para mulheres.

Alguns liberais não são tão progressistas como outros. Eles ainda não abraçaram estes últimos dois artigos. Mas, como os extraterrestres dizem nos filmes de ficção científica: rendam-se, é inútil resistir. Têm de se render, e fá-lo-ão em breve. Até Novembro deste ano o candidato democrata à presidência (seja Bernie Sanders, seja Hillary Clinton) terá, para não perder o voto liberal, de defender o uso misto de casas de banho como um direito humano fundamental, ao nível do direito à vida, à liberdade e à busca da felicidade. 

Não se trata de uma mera suposição, o destino assim o dita.

Portanto, para se ser um liberal ortodoxo hoje é preciso acreditar numa lista cada vez maior de coisas que não são apenas erradas, são completamente absurdas. Não me espanta que daqui a 10 ou 20 anos seja necessário acreditar que se alguém se identifica como um coelhinho então é mesmo um coelhinho.

Chegará o dia em que um liberal será obrigado a respeitar a opinião de pessoas que dizem que 7 + 5 não é igual a 12? Talvez. Afinal de contas, se se defende que Bruce Jenner é uma mulher, porque não defender que a matemática não passa de uma opinião pessoal e subjectiva? Ou que a minha crença de que a minha resposta é a correcta é o produto de matemática imperialista ocidental, ou uma mera construção social.

Ao longo dos últimos 50 anos testemunhámos aquilo a que apelidámos de revolução sexual. Mas eu suspeito que seja mais do que isso. A questão sexual foi apenas a brecha. Os filósofos, moralistas e papas falam sobre relativismo – até sobre a ditadura do relativismo – e coisas como narcisismo, niilismo, autonomia radical, a era da vontade pura e outras noções intelectuais. Mas é ainda mais radical do que isso.

Esta é uma revolução do absurdo; uma revolução contra a razão; uma revolução contra a civilização. Contra a própria realidade.


David Carlin é professor de sociologia e de filosofia na Community College of Rhode Island e autor de The Decline and Fall of the Catholic Church in America

(Publicado pela primeira vez no sábado, 9 de Abril de 2016 em The Catholic Thing)

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Friday, 15 April 2016

Makeover em Lesbos, Meeting em Lisboa

Polícia moral da Arábia Saudita
O Papa vai amanhã para Lesbos, visitar um campo de refugiados. O campo, diz a nossa enviada especial, levou um “makeover” para a ocasião. Esta é uma visita puramente humanitária e ecuménica, explica a Santa Sé.

Começa hoje o “Meeting de Lisboa”, organizado pela Comunhão e Libertação. O Presidente da República deve marcar presença na inauguração. O programa completo está aqui.

A iniciativa “Escutar a Cidade”, que pretende recolher testemunhos de pessoas às margens da Igreja a propósito do Sínodo Diocesano de Lisboa, já fez chegar ao Patriarca o seu relatório final.


E boas notícias do mundo árabe (para variar). Os agentes da “polícia da moral” da Arábia Saudita, famosa por ter deixado arder 15 raparigas em 2002 ao impedir que saíssem de uma escola em chamas porque não estavam correctamente cobertas, perdeu poderes. É um começo.

Wednesday, 13 April 2016

Generosidade grega e leituras leirienses


Papa vai ao encontro dos refugiados
O Papa Francisco elogiou esta quarta-feira a generosidade do povo grego que tem acolhido tantos refugiados. Recordo que Francisco viaja para a ilha de Lesbos no sábado para estar com os migrantes.

Entretanto a União das Misericórdias esteve hoje representada em Roma onde explicou ao Papa precisamente que trabalho tem desenvolvido com os (ainda) poucos refugiados que têm vindo para cá.

A exortação apostólica do Papa continua a merecer reacções de vários quadrantes. Depois de D. Manuel Clemente ter dito que não foi feita qualquer alteração no que diz respeito à recepção de sacramentos, o bispo de Leiria Fátima parece ter um entendimento diverso. A minha leitura do documento está aqui.

Hoje é quarta-feira e voltamos a ter um artigo de Mary Poplin no The Catholic Thing em que fala da Madre Teresa de Calcutá. No ano em que ela vai ser canonizada, vale a pena aprofundar os conhecimentos.

E deixo-vos com um convite para irem ao Meeting deste ano do movimento Comunhão e Libertação, que é inaugurado na sexta-feira e decorre durante o fim-de-semana. 

Santidade de Madre Teresa: Sabedoria para além do Secular

Mary Poplin
Agora que a beata Madre Teresa vai ser canonizada é com naturalidade que vemos ressurgirem algumas das velhas críticas que lhe foram feitas. Não existem novas. O ateu-mor Christopher Hitchens “popularizou-as” para uma pequena elite em meados dos anos 90 e um “investigador” canadiano limitou-se a repetir estas “revelações” na secção de opinião do New York Times a semana passada. As acusações são de condições pouco sanitárias, recusa de medicamentos, gostar de pobreza e o carácter pouco recomendável de algumas das pessoas que lhe davam dinheiro, bem como a forma como ela o usava. William Doino Jr. respondeu claramente a estas acusações há três anos e, claro, a Congregação para as Causas dos Santos tê-las-á investigado também.

Contudo, eu quero ir para além destas defesas e sugerir que o nosso desafio, enquanto cristãos, passa por compreendermos as coisas de uma perspectiva diferente. O pensamento cristão assume uma racionalidade superior, que não contradiz a verdadeira racionalidade do mundo secular, mas que a ultrapassa. O mundo é racional, mas também é espiritual. Há leis espirituais que transcendem as meras leis da lógica. Estas são normalmente reveladas nas vidas de pessoas como a Madre Teresa. São pessoas que conhecem e vivem a vida de forma diferente.

Quando trabalhei como voluntária num dos lares para crianças de Madre Teresa, em 1996, não vi nenhuma das condições apontadas pelos seus críticos. Não duvido que alguém, num centro qualquer, possa ter-se esquecido de passar uma seringa por água. Mas não há falhas terríveis em hospitais modernos? Ainda assim, é importante lembrar que os centros não são hospitais. A madre Teresa insistia que os centros eram religiosos.

Havia lá irmãs com cursos de medicina e de enfermagem, e médicos voluntários. Quando uma criança ficava gravemente doente, as irmãs levavam-na às urgências. Contudo, a madre Teresa sempre insistiu que elas eram chamadas a fazer trabalho religioso e não social.

A Madre Teresa e as Missionárias acreditavam que cada pessoa de quem cuidavam era Jesus disfarçado de pobre. Esta é uma realidade espiritual, que não está ao alcance da lógica do humanismo secularista, embora os secularistas e os cristãos estejam de acordo quanto à necessidade de haver cuidados de saúde para os pobres.

Outra coisa que distinguia as Missionárias da Caridade era que nunca pediam dinheiro, nem aceitavam fundos do Governo (ou sequer do Vaticano). Era proibido pela sua constituição. Achavam que se estavam a fazer o trabalho de Deus, então seria do agrado de Deus sustentar todas as suas necessidades. Para grande raiva dos seus críticos, Ele fê-lo abundantemente.

Devido à fé determinada de que Deus providenciaria, elas não confirmavam as fontes de contribuições privadas. E porque haviam de o fazer? Duvalier ou Keating eram como qualquer outro doador. Sim, queriam tirar fotografias ao seu lado, mas como eles havia milhares de outros.

Há dois princípios bíblicos que explicam como estes fundos acabaram por ir parar aos centros religiosos de Madre Teresa. Em Provérbios 13,11 diz que “a riqueza de procedência vã diminuirá, mas quem a ajunta com o próprio trabalho a aumentará.” Foi precisamente o que aconteceu no caso de Charles Keating, que oferecia aos seus clientes insuspeitos taxas de juro muito altas. Em Provérbios 13,22 diz que a riqueza do pecador é depositada para o justo e em 28,8 que “o que aumenta os seus bens com usura e ganância ajunta-os para o que se compadece do pobre.”

Os cristãos são chamados a estes carismas particulares ou a trabalhar com a ajuda e a inspiração do Espírito Santo. O chamamento específico de Madre Teresa era de servir os mais pobres dos pobres – aqueles para quem mesmo os serviços típicos aos pobres não costumam estar disponíveis. Pela sua própria natureza ela era muito frugal, tendo sido criada em pobreza depois da morte prematura do seu pai.

Queria abrir centros em todo o mundo e actualmente existem mais de 700 em 131 países.

Eu estava com a Madre Teresa em Calcutá quando saiu o livro de Hitchens, pouco depois do seu documentário crítico na BBC. Tive a oportunidade de lhe perguntar sobre o assunto e, depois de se ter esforçado por se recordar do incidente, respondeu: “Ah, o livro. Não interessa. Ele está perdoado”. Ela e as irmãs simplesmente obedeciam ao mandamento de Cristo para perdoar incondicionalmente.

Há quem diga que não perdoar é como beber veneno na esperança de que a outra pessoa morra. As irmãs leram o livro, rezaram, jejuaram, examinaram-se para encontrar qualquer erro e seguiram com a sua vida. Libertaram-se do seu ódio, mas ele permaneceu cativo.

Por fim, o enfoque da Madre Teresa era em ajudar uma pessoa de cada vez. As Missionárias são como um homem na praia, desesperadamente a lançar estrelas-do-mar para dentro do oceano enquanto os seus amigos lhe dizem que não vale a pena, dado o grande número espalhados pela areia. Ele limita-se a pegar no próximo e atirá-lo ao mar, dizendo que para aquele valeu a pena sim.

A Madre não se interessava por grandes programas, apenas por cuidar de cada pessoa abandonada e ferida, fossem crianças atiradas para caixotes do lixo, fossem idosos deixados nos becos para morrer. O sorte deles era o sofrimento. É impossível estar muito tempo no meio da pobreza de Calcutá sem conhecer o seu desespero. Ela valorizava a persistência dos pobres, a sua simplicidade e honestidade. Não amava o seu sofrimento, se assim fosse não teria trabalhado tanto para o aliviar.

Qualquer cristão, seja quão profunda for a sua fé, sabe que o sofrimento pode bem produzir frutos e que as pessoa que sofrem podem ser das mais generosas que há. A Madre Teresa era disso um exemplo perfeito. Ela sofreu muito através das noites escuras de sofrimento e padecimentos físicos. Quanto mais sofria, mais alcançava e mais pessoas vinham ao seu encontro apenas para a poder ver, falar com ela ou tocar-lhe. Isto é sofrer de modo cristão – para a glória de Deus e redenção dos outros.

É uma insensatez – embora os seus críticos não o percebam – julga-la pelos padrões do secularismo humanista. O seu chamamento e a sua vida existiam noutro plano, mais alto.


Mary Poplin é uma nova contribuidora para o The Catholic Thing. É professora na Claremont Graduate University e autor de Finding Calcutta: What Mother Teresa Taught Me e Is Reality Secular?

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 7 de Abril de 2016 em The Catholic Thing)

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Monday, 11 April 2016

Amoris Laetitia decoded e aniversários vários

Afinal de contas, o que diz o “Amoris Laetitia”? Eu continuo convencido que diz que algumas pessoas em situação irregular poderão comungar, após processo de discernimento. Explico porquê neste texto.

O Papa Francisco vai visitar a ilha de Lesbos precisamente para recolocar o drama dos refugiados no mapa e nas atenções do mundo, diz o cardeal Peter Turkson.

Foi publicado em Portugal o livro com perguntas que crianças fizeram ao Papa e com as respostas dele. Conheça-o aqui.

Não fui o único a fazer anos este fim-de-semana. A Renascença também está de parabéns!

Hoje é a vez dos Leigos para o Desenvolvimento e no sábado foi a vez das Doroteia sem Portugal.

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