Wednesday, 9 September 2015

Papa dá entrevista exclusiva à Renascença

A notícia do momento não é tanto uma notícia, antes uma antecipação de uma notícia.

A Renascença entrevistou ontem, em exclusivo, o Papa Francisco. Agora há uma série de passos que têm de ser seguidos, mas a entrevista será transmitida na íntegra às 9h00 de segunda-feira, com repetição às 19h do mesmo dia, com publicação no site também na segunda-feira de manhã. Não percam!


Esta quarta-feira o Papa Francisco repetiu, na sua audiência geral, que as Igrejas devem ter as portas abertas. As que não as têm, deviam chamar-se museus, afirmou.

Hoje publicou-se novo artigo do The Catholic Thing. O autor, George J. Marlin fala do livro de Mario Vargas Llosa “A Cultura do Espectáculo” e tira ilações sobre a nossa civilização actual. Não deixe de ler.

A Civilização do Espectáculo

George J. Marlin
Em 1948 o grande poeta anglo-americano e vencedor do prémio Nobel T.S. Eliot publicou uma curta obra chamada “Notas para uma Definição de Cultura”, onde argumentou que a cultura é “essencialmente a encarnação da religião de um povo” e que na Europa a religião que influenciava a cultura era o Cristianismo:

Foi no Cristianismo que as nossas artes se desenvolveram; foi no Cristianismo que as leis da Europa tinham – até recentemente – as suas raízes. É com o Cristianismo como pano de fundo que todo o nosso pensamento tem significado. Um europeu individual pode não acreditar que a fé cristã é verdadeira, porém o que diz, e produz e faz jorrará da sua herança de cultura cristã e dependerá dessa cultura para ganhar significado. Só uma cultura cristã poderia ter produzido um Voltaire ou um Nietzsche. Não creio que a cultura da Europa possa sobreviver ao desaparecimento completo da fé cristã.

Agora, num livro recém-traduzido [para inglês], “A Civilização do Espectáculo”, outro laureado com o Prémio Nobel da literatura, o romancista Mario Vargas Llosa, revisita a tese de Eliot e critica a era actual da cultura ocidental como sendo não só sub-cristã, mas por se ter tornado uma espécie de não-cultura.

Nascido em Arequipa, no Peru, em 1936, Vargas Llosa foi educado em colégios católicos e recebeu o seu doutoramento da Universidade Complutense de Madrid. Desde os 16 anos que foi jornalista amador e acabou por se mudar para Paris depois de terminados os seus estudos, onde tentou a sua sorte como escritor a tempo inteiro.

“A Cidade e os Cães”, o seu primeiro romance, publicado em 1963 e que descreve a vida numa academia militar peruana, atraiu muitos elogios nos círculos literários e recebeu o Prémio da Crítica Espanhola, mas foi descartado como a obra de uma “mente degenerada” pela estrutura militar autoritária do Peru.

Rejeitando o marxismo e o socialismo, Vargas Llosa – que foi eleito presidente da PEN International em 1975 e concorreu, sem sucesso, à presidência do Peru em 1990 – sublinhou nos seus romances que se a América Latina quer sobreviver, as suas nações-estado devem abraçar a democracia liberal.

Em 2010, quando foi anunciado que Vargas Llosa ia receber o Prémio Nobel, o comité elogiou-o pela sua “cartografia de estruturas de poder e imagens mordazes da resistência, revolta e derrota do indivíduo”. Revendo a sua carreira, o conhecido crítico literário Clive James disse que ele “exemplificava da melhor maneira a relação entre a literatura e a política no final do século XX na América Latina”.

Tal como Eliot, Vargas Llosa acreditava que a cultura “nasce no seio de uma religião” e que apesar de a cultura ocidental ter evoluído para longe do Cristianismo nos tempos modernos, “estará sempre ligada, por uma espécie de cordão umbilical, à sua fonte de alimentação”.

As proclamações feitas por ideólogos do século XX de que Deus morreu, diz Vargas Llosa, “não significaram a advir do paraíso na terra, mas antes um inferno que já tinha sido prefigurado no pesadelo dantesco da Comédia… O mundo, liberto de Deus, tornou-se gradualmente dominado pelo demónio, um espírito do mal, da crueldade e da destruição que culminaria nas guerras mundiais, os crematórios nazis e os gulags soviéticos”.

Vargas Llosa revela desespero pelo facto de ter testemunhado, na sua vida, a diminuição da cultura à mão de vigaristas. As elites sociais já não se devotam a promover e preservar a alta cultura, mas são apenas snobs. Os artistas, músicos e autores raramente procuram criar obras que “transcendam o mero tempo presente” e “permaneçam vivos para futuras gerações”. Em vez disso as suas obras são “consumidas instantaneamente e desaparecem como bolo ou pipocas”. Os empreendimentos culturais têm de ter um valor comercial e não um valor intrínseco: “O que tem sucesso e vende é bom e o que falha ou não chega ao público é mau”.

Esta cultura gasta, conclui Vargas Llosa com tristeza, “privilegia a esperteza em vez da inteligência, as imagens sobre as ideias, o humor sobre a gravidade, a banalidade sobre a profundidade e a frivolidade sobre a seriedade”. Em resultado disso, mostra-se preocupado que os teólogos e os filósofos, que tradicionalmente ajudavam a formar a visão de uma sociedade, tenham sido substituídos por publicitários.

Lamenta que os concertos a abarrotar tenham substituído as cerimónias litúrgicas: “Nestas festas e concertos lotados os jovens de hoje comungam, confessam, alcançam redenção e encontram a realização através desta experiência intensa e elementar de se perderem de se próprios.”

Quanto à utilização de drogas, Vargas Llosa afirma que elas permitem às pessoas gozar de “prazer rápido e fácil”, evitando a busca de conhecimento que apenas se consegue através do pensamento introspectivo: “Para milhões de pessoas as drogas desempenham agora o papel, previamente desempenhado pela religião e pela alta cultura, de apaziguar as dúvidas e as questões sobre a condição humana, a vida, morte, o além, o sentido ou a falta de sentido da existência”.

Mas apesar destes declínios das normas culturais tradicionais e da crença de livres-pensadores, agnósticos e ateus de que os avanços científicos irão tornar a religião obsoleta, Vargas Llosa nota que a religião está viva e muito activa. Os secularistas não “conseguiram purgar Deus do coração dos homens e das mulheres, nem acabar com a religião”.

O facto de tantas pessoas ainda pertencerem a religiões estabelecidas e de os hippies e outros boémios dos anos sessenta, terem abraçado os ensinamentos religioso-psicadélicos de Timothy Leary ou voltado para a Igreja da Unificação Moonie, ou a Cientologia ou Budismo ou Hinduísmo apenas demonstra, na perspectiva de Vargas Llosa, que as pessoas precisam de alguma forma de consolo ou salvação.

Embora Vargas Llosa tenha abandonado a sua fé católica, ele admite que está constantemente em busca de uma nova. Isto porque está convencido que “uma sociedade não pode alcançar uma cultura democrática sofisticada – por outras palavras, não consegue ser verdadeiramente livre ou respeitadora da lei – se não for profundamente saturada de vida moral e espiritual, que para a imensa maioria dos seres humanos é indissociável da religião”.

Devemos esperar que quando o Mario Vargas Llosa chegar ao fim da sua busca a sua mente tenha redescoberto a religião da sua juventude.


(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 2 de Setembro de 2015 em The Catholic Thing)

George J. Marlin é editor de “The Quotable Fulton Sheen” e autor de “The American Catholic Voter”. O seu mais recente livro chama-se “Narcissist Nation: Reflections of a Blue-State Conservative”.

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Tuesday, 8 September 2015

Nulidade agilizada e solidariedade com refugiados

Os processos de nulidade dos casamentos católicos vão ser mais rápidos e simples a partir de Dezembro. Com as reformas introduzidas pelo Papa há mais responsabilidade do bispo local o que deverá resultar em menos espera por parte de quem se encontra nestas situações complicadas.

Um especialista português fala mesmo num conceito de “via verde” da nulidade.

Numa altura em que se continua a falar muito da crise dos refugiados, um bispo húngaro criticou os pedidos do Papa para acolher quem pede ajuda. Mas a conferência episcopal da Hungria, numa prova de unidade com Francisco, publicou ontem uma carta em que se coloca ao dispor para acolher quem precisar.

Em relação ao tema dos refugiados, a sociedade civil continua a mexer-se e as igrejas vão fazendo a sua parte. De um amigo evangélico recebi a informação deste evento de 24 horas de oração pelos refugiados, para o qual todos, católicos, protestantes ou outros, se devem sentir convidados!

Ao longo destes dias era suposto ter-se realizado uma visita da imagem peregrina de Fátima a Damasco, mas tal não foi possível por razões de segurança. Mas a oração é sempre possível e por isso a fundação Ajuda à Igreja que Sofre pede que se intensifique a oração pela paz na Síria nestes dias.

Monday, 7 September 2015

Bispos em Roma, refugiados em todo o lado

Adeptos alemães mostram-nos o caminho
Regressei hoje de férias e logo numa altura de enormes e importantes novidades em termos de notícias religiosas.

Comecemos pela visita ad limina dos bispos portugueses a Roma. Hoje ouviram palavras elogiosas, mas outras duras do Papa Francisco, que pergunta se a “nossa proposta de Jesus não convence os jovens”, que estão a abandonar a Igreja.

D. Manuel Clemente falou aos jornalistas em nome dos bispos e aproveitou para dizer que estes tinham falado directamente com o Papa sobre a questão dos refugiados, pondo-se ao dispor para receber e ajudar as famílias católicas a receber os que puderem.

E esta questão dos refugiados está na ordem do dia. Ao longo dos últimos dias tenho ficado profundamente chocado e triste ao ver pessoas a criticar o acolhimento de refugiados e, o que é para mim escandaloso, a fazê-lo em nome do Cristianismo. A minha opinião tentei deixá-la clara neste artigo, mas bastaria talvez ter ido buscar esta passagem da Bíblia:

“Pois o Senhor vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e terrível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita recompensas; que faz justiça ao órfão e à viúva, e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e roupa. Por isso amareis o estrangeiro, pois fostes estrangeiros na terra do Egipto.” Deuteronómio 10, 17-19

A minha entidade patronal, felizmente, deixou a sua posição bem clara também nesta nota de abertura que vale a pena ler.

Entretanto, ao longo destas semanas de férias publiquei três artigos do The Catholic Thing, que vos convido a ler se tiverem tempo.

Em Nossa Senhora da Realidade, Anthony Esolen procura uma nova invocação da Virgem para os nossos tempos, em que fingimos que o coração que bate não é vida e em que nos convencemos que podemos inventar e reinventar a nossa identidade ao sabor dos nossos caprichos.

O Padre Mark Pilon pergunta como é que a história vai julgar uma Igreja que permitiu que a confusão se semeasse entre os seus fiéis, com atitudes contraditórias e confusas em relação sobretudo a políticos que se dizem católicos e defendem o aborto.

E por fim, o Francis J. Beckwith sobre os “Dogmas materialistas” e os erros de lógica de quem parte do princípio que o sobrenatural não pode existir.

Wednesday, 2 September 2015

Nossa Senhora da Realidade

Anthony Esolen
Uma amiga nossa perguntou a um padre idoso e devoto porque é que os católicos pedem a intercessão de Maria sob vários títulos. “O que significa ter uma devoção a Nossa Senhora de Fátima ou a Nossa Senhora de Guadalupe”, perguntou, “quando afinal de contas é a mesma mulher, porque só existe uma Maria?”

Ele respondeu, recordando-lhe das circunstâncias da aparição de Maria a Juan Diego em Guadalupe e aos pastorinhos em Fátima. Veio esmagar a cabeça do paganismo azteca no México, com a adoração do sol e sacrifício humano. Veio avisar os homens ocidentais de uma enorme apostasia, exortando-os a rezar pela conversão da Rússia antes da revolução que veio elevar a impiedade a um princípio de governo.

Não é Nossa Senhora que está dividida, é a nossa atenção. Quando nos sentamos à cabeceira de uma criança moribunda, a quem nos podemos virar? Não ao estoico pagão Epictetus, que imaginou os seus discípulos a dizer: “O seu filho morreu”, ao que ele responde: “alguma vez eu disse que ele era imortal?”. Claro que os católicos se voltam para Deus, mas Deus também nos deu este dom inestimável da mulher pura e sem pecado, Maria, a segunda Eva, o exemplo do que seríamos se fossemos inocentes. Suplicamos a Nossa Senhora das Dores, que segurou o Cristo morto junto ao peito quando O desceram da Cruz, pedindo que ela reze por nós na nossa noite escura.

Quando nos encontramos numa encruzilhada, quando cada caminho diante de nós é incerto, quando seja qual for a nossa escolha esta implicará sofrimento, voltamo-nos para Nossa Senhora, Sede de Sabedoria, que carregou debaixo do seu coração a segunda Pessoa da Trindade, Cristo, a Sabedoria de Deus, e pedimos que ela reze por nós, para que possamos esperar pacientemente e calmamente para que a decisão correcta seja revelada. Ou então voltamo-nos para Nossa Senhora do Bom Conselho, que disse aos criados em Caná, “Façam tudo o que Ele vos disser”.

Essa conversa fez-me pensar, que título é que seria mais apropriado para Nossa Senhora se ela nos aparecesse agora? Consigo pensar em vários:

Para pessoas cuja alma foi deturpada por pornografia, Nossa Senhora da Pureza.

Para pessoas que dão mais importância à casa do que ao lar, e que entregam os filhos para serem criados por estranhos, Nossa Senhora da Vida Familiar.

Para pessoas que deixam aos filhos a factura da sua própria insensatez, hedonismo ou ambição, Nossa Senhora dos Santos Inocentes.

Para pessoas cuja atenção é deturpada pelas inanidades da política e do entretenimento de massas, Nossa Senhora das Horas Caladas.

Para pessoas que procuram preencher o vazio das suas vidas com coisas, Nossa Senhora da Pobreza.

Mas talvez haja um título que vá mais directamente ao cerne de toda a loucura que subjaz às nossas dificuldades. Achamos que uma coisa muda porque lhe damos um nome em vez de outro: Um homem torna-se uma mulher apenas porque diz que sim. Ou então recusamo-nos a acreditar que as coisas têm natureza sequer: Um homem não é um homem porque não existe sequer tal coisa. Ou catalogamos uma coisa de acordo com as suas características superficiais, e dizemos que algo é uma democracia só porque existem eleições, mesmo que a influência de um homem sobre o seu governo seja de facto menor que a de uma pulga sobre um elefante.

Ou então rimo-nos da ideia de que uma coisa possa ser melhor que outra, mais bonita ou mais verdadeira, e por isso temos os nossos museus de arte moderna cheios de coisas que pessoas saudáveis de outra cultura qualquer considerariam hediondas, absurdas, ineptas ou triviais e as bibliotecas, depois de terem vendido os seus livros verdadeiros a três dólares cada e despejado o resto em aterros, enchem as suas prateleiras de vazio.

Nossa Senhora da Realidade
O título em que estou a pensar é: Nossa Senhora da Realidade. Não estou a brincar.

Pensem em Maria na sua casa em Nazaré. Ela não sofreu com as desvantagens deste mundo. Nós somos bombardeados com irrealidades e a nossa relação com a criação sólida e misteriosa de Deus é ténue. Maria sofreu as desvantagens salutares de um mundo em que uma mulher simples, casada com um carpinteiro, tinha de mergulhar na realidade. Tinha de levar trigo para ser moído. Tinha de meter as mãos na massa, para trabalhar o fermento. Tinha de tecer a lã para fazer linha. Apenas um telhado de palha a separava do sol do Verão. Apenas uma parede forrada a lama servia de barreira ao frio invernal.

Quando ouviu dizer que a sua prima Isabel estava grávida apressou-se a ir para os montes, possivelmente de mula mas provavelmente a pé. Estava lá quando nasceu o Baptista. As suas mãos poderão ter sido mesmo as primeiras a tocar no corpo do recém-nascido. Quando nasceu Nosso Senhor, ela apertou-o junto ao peito enquanto os animais na manjedoura batiam os pés e se ajeitavam. Em Maria existe sempre esta firmeza que vem de estar ancorada na criação.

“Como será isso”, perguntou ao anjo, “se eu não conheço homem?” Essa é a pergunta de uma realista. Quando o anjo responde que o que será feito será obra do Espírito Santo – mais real que as coisas passageiras que seguramos nas mãos, mais verdadeiro do que nós próprios – ela submete-se à maior das realidades: “Seja feita em mim a Vossa vontade”.

Um dia a neblina dissipará e as sombras fugirão e tudo o que é irreal desaparecerá como um sonho. Aí poderemos ver o Filho que ela nos deu. Eu imagino-O a aparecer como um rapaz, a chamar por nós com a alegria juvenil nos olhos. “Vou subir para as montanhas”, diz. “Vem comigo”.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 27 de Agosto de 2015 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Deixem-nos entrar!

A Europa está dividida sobre o que fazer em relação à crise dos refugiados que nos batem à porta a pedir uma oportunidade de vida. Dos refugiados que vêm de contextos de tal forma desesperados que estão dispostos a arriscar a vida só para tentar ter uma vida melhor.

Temos aqui vários dramas.

Em primeiro lugar há o drama dos que tentam fazer as viagens intermináveis por terra, ou mais curtas e letais por mar. Não é uma crise que se compreenda com números, é uma crise que se conta com vidas e histórias individuais. Cada refugiado que é retirado morto do Mediterrâneo ou do porão de um navio, é uma pessoa profundamente amada e desejada por Deus, uma pessoa com potencial para o bem e para o mal, para a grandeza; amada por um pai e por uma mãe, que ama profundamente os seus filhos, que brincou em criança, que correu e fez asneiras, que chorou um primeiro coração despedaçado. São homens e são mulheres e estão a morrer para tentar ter um pedaço desta vida que nós vivemos e que ainda nos atrevemos a dizer que é de crise.

Há ainda o drama dos países e das realidades de origem, que é um drama pintado em tons de guerra e de violência, razão da fuga.

Mas o drama que mais me aflige – já que os outros sempre os teremos connosco – é o drama de que nós somos personagens. Com estas vagas de pessoas a bater-nos à porta, a suplicar pelas suas vidas para entrar, que haja sequer um debate sobre como agir e se devemos abrir a porta ou não revela uma fraqueza moral da Europa de tal forma profunda que nos deve entristecer e chocar.

Deixem-me colocar isto na primeira pessoa, para não andar apenas pelo reino das teorias, que são tão fáceis… O meu avô inglês combateu na Segunda Guerra Mundial. Perdeu dois irmãos no conflito. Casou em Londres ao som de rockets V2 e teve o copo-de-água num hotel cuja parede tinha sido destruída na véspera.

O meu avô português era piloto da força aérea e durante a guerra foi para Inglaterra receber formação de jactos que Portugal ia comprar aos britânicos. Durante pelo menos uma das sessões de formação o instrutor inglês detectou aviões alemães e informou os seus formandos portugueses de que tinha de os atacar. Eles, contra todas as convenções e ordens, juntaram-se a ele.

Tenho como um dos maiores orgulhos do meu património familiar o facto de, numa altura em que a Europa se dividia entre o mais puro do mal e aqueles que resistiam, ambos os meus avôs não só estavam do lado certo como foram à luta. Ambos, certamente, agiram com base na sua educação e nos valores cristãos que sempre os animaram.

Eu sou também herdeiro desses valores. Num outro tempo, noutras circunstâncias, mas são valores que transpõem todos os tempos e todas as circunstâncias. A verdade é assim mesmo.

Portanto digo em nome próprio, a quem é de direita ou de esquerda, a quem é conservador ou liberal, a quem é ateu ou crente, a quem é católico ou protestante… Enquanto houver um homem ou mulher a bater desesperado à nossa porta e esta não se abrir, devíamos cobrir a cara de vergonha e lavar a boca antes de reivindicar uma cultura e valores cristãos.

Sim, eu ponho esta questão em termos religiosos porque é isso que sinto. Esta crise é uma prova ao nosso Cristianismo. E choca-me que aqueles que alertam para o perigo de uma “invasão” de estrangeiros para a cultura e civilização da Europa não percebam, pobres almas, que são eles mesmos o mais visível sinal da morte dessa mesma civilização.

Deixem-nos entrar.

Por amor do Santo Deus, do Senhor dos Céus e da Terra, do Cristo que foi refugiado no Egipto, deixem-nos entrar!

Ou então mantenham as portas fechadas, mas nesse caso retirem definitivamente os crucifixos das paredes, os nomes de santos às terras e às escolas e atirem-nos todos ao mar, porque definitivamente deixámos de os merecer.

Filipe d'Avillez

Thursday, 27 August 2015

Como é que a História nos vai Julgar?

Pe. Mark A. Pilon
Passo a apresentar um pouco de história revisionista, claramente inventada, mas que vale a pena contemplar nos dias que correm.

Suponhamos que do início da década de 30 até 1945 a Alemanha tinha-se mantido uma democracia, em vez de se transformar numa ditadura de partido único, como foi com o Terceiro Reich. Suponhamos ainda que muitos representantes democraticamente eleitos de partidos liberais e conservadores tinham juntado forças com os Nazis de Hitler no que diz respeito às políticas antissemitas. Por fim, imaginemos que mesmo alguns deputados católicos da oposição tinham votado em conjunto com o Partido Nazi para levar a cabo a chamada “solução final” para a questão judaica e que tinham apoiado publicamente a sua implementação. Suponha, por agora, que tudo isto eram factos históricos.

Vamos então um bocado mais longe. Imagine que os bispos alemães não tinham tomado qualquer acção disciplinar contra esses políticos católicos, seja de que partido fossem, quer excomungando-os, quer negando-lhes os sacramentos. (Sabendo hoje que estas medidas já foram aplicadas pelos bispos alemães nos nossos dias apenas por não se pagar o chamado imposto da Igreja ou para com católicos que não se registam como tal com o Governo). Mas imaginemos que naqueles dias negros não se tinha feito nada do género e imaginemos ainda que as sondagens mostravam cada vez mais católicos alemães confusos sobre estas questões moralmente graves ou decididamente a favor das medidas racistas e genocidas.

Como é que acha que um historiador julgaria esses bispos e esses líderes religiosos? Alguém acreditaria que os bispos alemães tinham desempenhado fielmente o seu papel de proteger a fé dos seus rebanhos – incluindo dos políticos católicos – sem pressionar os católicos no parlamento para defender as vítimas inocentes, fazendo tudo o que estivesse ao seu alcance para impedir as atrocidades do Governo? Será que a Igreja local teria, mais tarde, que se arrepender e pedir perdão, mais até do que os papas têm feito nos últimos anos em reconhecimento de erros do passado?

Talvez se considerasse que os leigos católicos tinham sido apanhados pelos tempos e pela mentalidade tão sagazmente difundida pela máquina de propaganda Nazi. E poderia ser considerada uma atenuante o facto de terem ficado naturalmente confusos com o facto de verem os políticos católicos a evitar serem disciplinados pelos líderes eclesiais e a receber publicamente a comunhão e outros sacramentos, enquanto se continuavam a apelidar de católicos fiéis e alinhados com a Igreja.

Mas voltemos à nossa realidade e ao nosso mundo actual. Durante os últimos 50 anos os leigos católicos na América ouviram os seus bispos a condenar muito claramente o crime monstruoso do aborto. Mas ao mesmo tempo têm visto políticos católicos a apoiar abertamente o chamado direito ao aborto e a combater as medidas para o restringir – com alguns até a defender os horrores da Planned Parenthood, sobre a qual vários bispos já falaram, mas pouco mais. Entretanto estes políticos continuam a apelidar-se de católicos e a receber a comunhão publicamente, por vezes das mãos dos próprios bispos.  

Ao longo deste tempo mais de 55 milhões de seres humanos foram chacinados, o que supera até as terríveis monstruosidades do Terceiro Reich. Entretanto, mais de metade da população católica deste país passou a apoiar o direito ao aborto. Devemos acreditar que não existe ligação entre este distanciamento em massa da verdade e prática moral do Catolicismo e a recusa dos bispos em disciplinar os políticos católicos?

Na verdade, a maioria dos políticos pró-aborto, católicos ou não católicos, são vistos frequentemente a receber homenagens de instituições católicas. Universidades que se dizem católicas contratam professores que divergem publicamente do ensinamento moral católico e, mais uma vez, os leigos não vêem qualquer acção disciplinar. Não surpreende, por isso, que exista muita confusão, sobretudo entre jovens, acerca do ensinamento católico relativo ao aborto e ao casamento. Será que os bispos vão assumir a responsabilidade por esta perda de fé católica em questões tais como o aborto, o casamento, a eutanásia e outros temas morais que se deve à ausência de censura pública de políticos católicos ou de instituições cujos funcionários apoiam estes desvaneios morais?

Como é que a história vai julgar esta geração de líderes da Igreja quando a carnificina chegar finalmente ao fim? Como é que as gerações futuras de católicos julgarão os líderes espirituais desta geração se olharem para trás e virem que nenhum político católico foi alguma vez disciplinado por apoiar e votar favoravelmente não só o aborto como a perversão do casamento? Os mesmos políticos católicos que apoiaram o direito a acabar com vidas humanas inocentes estão agora a apoiar o direito ao casamento homossexual e até a pedir à Igreja que mude os seus ensinamentos. A seguir virá, sem dúvida, a eutanásia, disfarçada de misericórdia.

Até parece que a democracia se tornou um absoluto que supera tudo. Se o aborto é imposto democraticamente, ou legalizado por juízes que trabalham num enquadramento democrático, então os líderes da Igreja ficam como que paralisados quando toca a disciplinar os seus próprios fiéis políticos ou juízes. Se agem no contexto de uma democracia, têm carta branca, é isso? Não podemos dar a ideia de estar a minar a democracia disciplinando sequer católicos que votam pelo direito a matar os inocentes?

Um abortista católico está automaticamente excomungado, mas com o político católico que vota de forma a permitir que o abortista possa exercer o seu trabalho, não se passa nada? Se o juiz [do Supremo Tribunal] Anthony Kennedy atropelar o ensinamento católico com uma decisão bizarra no caso Obergefell [que legalizou o casamento homossexual nos EUA], com ele também não se passa nada. Os políticos e os juízes católicos não podem ser beliscados pela disciplina católica, porque agem a coberto da democracia e da separação entre a Igreja e o Estado e tudo isso. Por isso o juiz Kennedy continua a ser tratado como homem honrado e – mais ainda – pode continuar a afirmar-se um bom católico sem demais consequências.

Questiono-me se um futuro Papa terá de pedir perdão por toda esta hesitação da parte dos bispos de exercer a sua liderança através da disciplina pública, e não só por palavras, mas cobrindo-se de saco e sentando-se em cinzas, penitenciando-se pela fraca resposta dos líderes da Igreja enquanto dezenas de milhões de novos e velhos pagavam o preço dessa inacção com as suas próprias vidas.


O padre Mark A. Pilon, sacerdote da Diocese de Arlington, Virginia, é doutorado em Teologia Sagrada pela Universidade de Santa Croce, em Roma. Foi professor de Teologia Sistemática no Seminário de Mount St. Mary e colaborou com a revista Triumph. É ainda professor aposentado e convidado no Notre Dame Graduate School of Christendom College. Escreve regularmente em littlemoretracts.wordpress.com

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 19 de Agosto de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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