Tuesday, 11 February 2014

Francisco tweeta sobre Bento

O Papa Francisco recordou hoje o seu antecessor Bento XVI, que anunciou há precisamente um ano que ia resignar ao Pontificado. Num tweet Francisco elogia a grande coragem e humildade de Ratzinger.

Também hoje o antigo Secretário de Estado do Vaticano, Tarcísio Bertone, recordou que tentou demover o então Papa de resignar, mas sem sucesso. Irrevogável, para aquelas partes, significa isso mesmo.

Mais um episódio bizarro esta tarde no Vaticano. Meses depois de um homem se ter incendiado na Praça de São Pedro, hoje dois homens tentaram fazer o mesmo, mas foram impedidos.

Morreu o cónego Fernando Marques Dias, de Viseu, que era “amigo de todos os padres” daquela diocese.

E hoje publiquei no blogue a transcrição completa da entrevista que fiz aos Simplus, sobre o seu percurso, a importância da sua música para a fé e a importância da fé para a sua música. Não percam.

"Há pessoas que se sentem confortadas na fé com a nossa música"

Transcrição integral da entrevista aos Simplus. Ver reportagem aqui.

Como surgiu o projecto dos Simplus?
[Luís Roquette] Os Simplus surgiram com base num almoço em que eu e a Maria nos conhecemos. Nós somos primos mas nunca nos tínhamos conhecido porque ela esteve na Bélgica durante algum tempo. Nesse almoço começámos logo a compor, a escrever música, por brincadeira, mas sempre com este pano de fundo da vivência cristã. Começaram a surgir ideias, tema, começou tudo isto a florescer. Isto há uns 12 ou 13 anos. Fez agora 11 anos que começámos o projecto, quando ainda eramos Maria Durão e Luís Roquete.,

Pode-se dizer que vocês procuram evangelizar pela música?
[Maria] Não sei se adoro essa expressão. Pode-se dizer, porque a verdade é que muitas pessoas já vieram ter connosco dizer que se sentem confortadas na fé, ou nas provas que têm n a vida, ou que as ajuda na relação com Jesus e com Deus. Acho que isso é evangelizar. Não se pode dizer na medida em que não é uma coisa consciente. Não pensámos fazer um projecto de música para evangelizar. Escrevemos aquilo que vivemos. Como somos católicos, pode ser que isso ajude as pessoas a viver a sua fé.

Nesta questão da fé, estão sempre em sintonia? Os vossos percursos têm sido bastante diferentes…
[Luís] Não é difícil porque tanto eu como a Maria somos muito abertos à opinião do outro. A Maria normalmente tem mais peso nas palavras, no poema, e eu sou mais virado para a parte musical, de composição.

Nas nossas famílias sempre ouvimos falar neste tema, sempre fomos educados neste sentido. Mesmo que falemos de outro tema qualquer acaba por ir dar aí.

Até que ponto é que a música teve impacto sobre a vossa espiritualidade? Também foram evangelizados pela música?
[Maria] Lembro-me que a primeira vez que fui a um grupo de jovens, resisti meses e meses, mas da primeira vez que fui cantou-se meia hora e depois falava-se. Nos primeiros tempos só ia porque se cantava, e eu nunca cantava antes. Não era daquelas pessoas que cantava em casa e os pais aplaudiam. Foi uma surpresa para a família e para mim, descobrir que afinal cantava, e começou com a minha entrada na Igreja. Por isso claro que a música também está ligada à espiritualidade.

Fui muito marcada pelo coro de Santo António do Estoril, e as primeiras músicas que saíram tinham muito esta marca.

[Luís] Eu fui muito marcado pelo fado. Estou habituado a ouvir fado desde muito cedo e foi um bocadinho por essa via. No fado há muito este tema subjacente, até nos nomes, há uma certa espiritualidade subjacente na cultura portuguesa.

O coro de Santo António também foi importante, bem como a música clássica. Ouvimos Beethoven, Mozart, Bach, Schubert, todos eles compunham um bocado nesse sentido. Porque não, na música moderna, com influências rock e pop, falar de uma realidade que mudou o mundo e muda as nossas vidas.  

Têm feedback dos vossos fãs? Há alguma história de pessoas que se tenham convertido através dos Simplus?
[Maria] Estou a pensar numa pessoa que veio ter comigo e mostrou uma mensagem de um rapaz que tinha tido um desastre e tinha de estar deitado ou fechado em casa durante muito tempo, e dizia que o que o ajudava era rezar o terço e ouvir as nossas músicas.

[Luís] Eu costumo ir à prisão de Tires rezar com as reclusas, juntamente com um grupo grande. E houve uma vez em que se estava a contar histórias e uma rapariga começou a cantar a nossa música, a dizer que a tinha aprendido no Brasil e que era uma das músicas que a fazia sentir fora dali, que a fazia sentir uma certa liberdade, um certo consolo. De repente ela começa a cantar a entrega e cai-me a ficha e percebo que isto está mesmo fora das nossas mãos. É uma história para contar aos netos e aos filhos e que vai ter certamente impacto. É giro ver que isto está do lado das pessoas mais frágeis, a capacidade que a música tem de mover, comover e ajudar pessoas em situações mais frágeis.

O vosso percurso mais comercial tem sido dificultado pelo facto de se identificarem como conjunto cristão?
[Maria] Nem sequer tentámos muito ir pelos caminhos comerciais. Nenhum de nós vive disto. Pelo meu lado gosto mesmo de não viver disto, porque me permite fazê-lo com uma gratuidade e uma distância… não depender do projecto é uma coisa muito boa. Não percebo o que seria escrever se a minha vida fosse isto, porque eu escrevo sobre a minha vida. Entusiasma-me muito ser assim. Nunca tentámos muito entrar na via comercial. Sempre deixámos a comunicação a um grupo de amigos que nos ajuda e às pessoas que se sentem tocadas por isso. Recentemente tomámos a decisão de ter todos os nossos discos disponíveis gratuitamente na internet.

Está claríssimo para nós que é mesmo uma via não comercial, podemos chamar uma via independente. O que nos interessa é mesmo fazer e deixar nas mãos das pessoas que espalhem.

Em Portugal não existe uma grande indústria de música cristã, mas existem algumas bandas e intérpretes. Quem é que destacam?
[Luís] Nesta área propriamente não encontro ninguém específico que me preencha a mim especialmente. Mas há outros artistas portugueses, de outras áreas, que me levam, com as suas palavras e a sua forma de interpretar de outra maneira o que nós fazemos, que acho que são de sublinhar.

Principalmente estas coisas têm de ter uma certa sensibilidade, porque nem toda a gente está disposta a receber uma mensagem assim de caras. As coisas têm de ser feitas como numa conversa com uma pessoa que acredita em tudo ou não acredita em nada. A música tem esse poder, podemos estar a falar de Jesus e conseguir chegar, por outras palavras, a muita gente. Um dos artistas portugueses que consegue fazer isso é o Tiago Bettencourt. Ele tem letras que me levam a pensar que ele está a tentar explicar uma coisa que também sinto, mas de outra forma.

[Maria] Há muitas coisas no Samuel Úria, que gostava de salientar o Samuel Úria, há coisas neste último disco dele que, embora ele não fale muito abertamente de Deus, há claramente uma mensagem cristã. Tenho ouvido muito o disco dele.

Vão ter um concerto em breve…
É no dia 27 de Fevereiro, às 21h no Teatro Gil Vicente, em Cascais. Os bilhetes é tudo online, enviando uma mensagem pelo nosso Facebook. Vamos ter como convidados a Joana Espadinha, o Salvador Seixas, o Francisco Salvação Barreto, a Diana Castro e o Bernardo Romão na guitarra portuguesa.

Monday, 10 February 2014

Música, fé e um ano de resignação

Diálogo inter-religioso no terreno, onde dói
Amanhã faz um ano que Bento XVI anunciou a sua resignação. A Aura Miguel esteve a falar sobre o assunto com D. Amândio, bispo de Vila Real e com João Lobo Antunes. Podem ouvir os 23 minutos da conversa aqui.

Ontem o programa Princípio e Fim foi dedicado especialmente ao papel da música na Evangelização. Há uma reportagem especial sobre o assunto, com análise da importância da música para as diferentes religiões, uma conversa com a Kerygma sobre a evangelização pela música e ainda uma entrevista aos Simplus, um dueto que este mês volta aos palcos.

Depois de meses de terror para os cristãos na República Centro-Africana às mãos de milícias muçulmanas, agora são as milícias cristãs que perseguem e matam os muçulmanos. No meio desta tragédia, graças a Deus, o arcebispo católico e o líder da comunidade islâmica falam a uma só voz contra a violência.

O Papa publicou a mensagem para o dia dos doentes em que insiste que a dignidade não depende das faculdades físicas ou mentais. A este propósito temos ainda uma reportagem sobre ministros da comunhão que fazem chegar o sacramento aos doentes e acamados.

Thursday, 6 February 2014

Harleys, samurais e elogios budistas

Uma das Harley-Davidson que o Papa recebeu o ano passado foi hoje leiloada, juntamente com um casaco de cabedal. O leilão rendeu mais de 240 mil euros à Cáritas de Roma.

O Papa Francisco publicou hoje a mensagem para a Jornada Mundial da Juventude de 2014. Quer que os jovens não tenham medo de ir "contra a corrente”.

As memórias de João Paulo II estão a causar polémica. O Papa deixou ordens para serem queimadas, em vez disso foram ontem publicadas.

Sabia que existem santos e beatos samurais? É verdade. E em breve poderá haver mais um…

Barack Obama disse esta manhã que deve a sua carreira e a sua família ao Cristianismo.

E na Índia o Dalai Lama elogiou o trabalho dos missionários cristãos, dizendo que os monges budistas têm muito a aprender com eles.

Wednesday, 5 February 2014

ONU para Santa Sé: "Tornem-se anglicanos SFF"

Senhores da ONU, com isto talvez não
troquem tantas vezes os comprimidos...
A notícia do dia é o relatório da ONU que critica a Santa Sé pela forma como lidou com casos de abusos sexuais sobre menores. O relatório não se fica por ali e, basicamente, recomenda que a Igreja abandone grande parte da sua doutrina moral.

Para o padre, e especialista em direito canónico, José Patrício, esta é uma questão que revela a vertente ideológica da ONU. Mais, o relatório não inclui informação crucial prestada pela Santa Sé.


Noutra notícia de hoje, o Papa falou da importância da missa dominical, durante a audiência geral de quarta-feira.


Não se esqueçam que esta noite há debate sobre religião na Renascença, a partir das 23h00.

Mentes fechadas

James V. Schall S.J.
Como é que pessoas aparentemente boas acabam por defender e fazer coisas terríveis, sobretudo em questões ligadas à defesa da vida? Porque é que negam com tanto vigor que aquilo que fazem está errado? Porque é que se esforçam tanto para destruir toda a gente que descreve aquilo que fazem como sendo mal? Fazem-me muitas vezes estas perguntas. Como responder-lhes?

O Evangelho de terça-feira, segunda semana do tempo comum, é de Marcos 3. Diz respeito ao homem da “mão mirrada”. Sempre considerei esta passagem impressionante. Jesus regressa à sinagoga. Tinha estado a passear pelo campo. Os discípulos comeram grão pelo caminho. São, por isso, acusados de terem violado o sábado. Mas Cristo responde às autoridades judaicas que até os homens de David comeram os pães da proposição no Sábado, quando não encontravam mais nada. “O Sábado é para o homem, e não o homem para o Sábado.” Então Cristo denomina-se “Senhor do Sábado”. Esta afirmação significa que se está a identificar com Deus.

O que acontece de seguida? Um homem com a mão mirrada apresenta-se. Não temos razões para pensar que a mão não estava seriamente deformada, nem que o incidente tenha acontecido. Cristo sabe que está a ser observado. Os líderes judaicos estão à procura de algo com que o acusar. Já o tinham considerado implicitamente culpado por blasfémia, réu de morte. Mas têm cautela. A sua conduta enfurece Cristo. O que é que Ele faz? Ordena ao homem que se aproxime.

Cristo faz uma pergunta a quem o observa. “É lícito no sábado fazer bem, ou fazer mal?” Os líderes sabem que é uma pergunta perigosa. Não respondem, para não ficar mal diante da sinagoga. Ficam “em silêncio”. Cristo olha-os com “indignação”. O seu silêncio é malicioso. Se o homem for curado, mesmo no Sábado, é claramente uma boa obra. O demónio não consegue fazer tal coisa. Ninguém o pode chamar mal.

Mas os fariseus calculam que tal acção violaria as leis rígidas sobre o trabalho ao Sábado. Eles pensam que o homem é feito para o Sábado. A lei governa qualquer contingência. Até uma boa obra é proibida. Mas claramente reconhecem aqui algo contraditório. É por isso que ficam em silêncio. Não querem ficar mal. Mas também não mudam de ideias.

Cristo cura o homem da mão mirrada
 Marcos diz-nos que Cristo se condoeu por terem fechado a sua mente [algumas traduções portuguesas falam antes em “dureza do coração”]. Ele não diz: “Não sabem o que fazem”, mas sim “fecharam a sua mente”. Eles não querem ver o que se está a passar diante dos seus olhos. Implicitamente aceitaram a lógica de que, se alguém é curado no Sábado, isso só pode ser feito pelo Senhor do Sábado. Recusam-se a admitir quem está diante deles.

Cristo diz ao homem para estender a sua mão. Ele fá-lo. “Foi-lhe restituída a sua mão, sã como a outra.” Se não tivesse sido restituída, Cristo teria sido gozado como um impostor. Mas a mão é restituída. Os fariseus não pedem confirmação da cura. É evidente para todos, incluindo para o homem em questão e outros espectadores, que a mão foi restituída. Os fariseus podem não gostar, mas vêem a mão sã.

Como é que se explica a acção dos líderes da Sinagoga? Eles negam as implicações daquilo que acabaram de ver. Fecham as suas mentes. Não reconhecem qualquer lógica na Bíblia que os permita aceitar as premissas do evento que acabaram de testemunhar. Isso obrigá-los-ia a seguir a Jesus, e não as suas opiniões.

De seguida vemos uma das passagens mais assustadoras de todo o Evangelho. Os fariseus “saem”. Para quê? “Tomaram logo conselho com os herodianos contra ele, procurando ver como o matariam”. As provas de autoridade divina não contam contra a sua própria compreensão da autoridade divina. Eles negam a autoridade divina em nome da autoridade divina.

Se alguma vez questionar como é que fiéis ou pensadores inteligentes podem estar diante de verdades evidentes de razão ou revelação e continuar a negá-los a favor das suas opiniões preferidas, eis a razão. Nunca nos devemos espantar com aqueles, mesmo “crentes”, que rejeitam os elementos básicos da fé ou da razão porque não batem certo com a sua visão do que Deus “devia” ser, mas claramente não é.

Esta reacção é pouco comum? Não me parece. Acontece todos os dias entre nós. Continua a deixar Cristo “condoído”? Desconfio que sim. Os principais opositores da fé, tal como nos ensina a história judaica, são frequentemente aqueles que lhe deviam ser mais próximos. Os seus maiores inimigos estão dentro de portas. Eles sabem bem o que fazem. Fecham as suas mentes.


James V. Schall, S.J., é professor na Universidade de Georgetown e um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seu mais recente livro chama-se The Mind That Is Catholic.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 4 de Fevereiro de 2014 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Relatório da ONU é ideológica e não corresponde à verdade

Transcrição integral da entrevista ao padre José Patrício, a propósito do relatório que a ONU publicou esta quarta-feira, muito crítica da forma como a Igreja tem lidado com casos de abusos sexuais de menores.

O padre José Patrício, da diocese de Lamego, é especialista em direito canónico e tem acompanhado de perto todo este problema há muitos anos.


Que comentário lhe merece este relatório das Nações Unidas?

É preciso em primeiro lugar integrar o relatório nas circunstâncias em que é emitido. Comos e sabe a Santa Sé faz parte da Comissão para os Direitos da Criança, que é o órgão de controlo e monitorização de uma convenção assinada em 1989, sobre os Direitos da Criança, adoptada pela Assembleia Geral da ONU em 20 de Novembro de 1989 e entrou em vigor a 2 de Setembro de 1990.

Actualmente fazem parte 193 países. A Santa Sé foi das primeiríssimas a adoptar esta convenção.

Esta Comissão não é um tribunal, é uma comissão de estudo e de controlo, que recebe relatórios periódicos dos estados membros e que depois ao analisar o texto da convenção e a legislação interna dos estados, faz considerações.

No mesmo dia em que saiu este relatório sobre a Santa Sé saíram relatórios sobre vários estados, incluindo Portugal, que é ainda mais extenso que o da Santa Sé, em termos de recomendações. Em relação ao Vaticano isto é um instrumento normal, dentro de um tratado a que a Santa Sé aderiu livremente.

Por isso são recomendações normais para este tipo de comissão, e não são nem mais nem menos graves que recomendações feitas a outros estados membro.

Tem de ficar claro, e para a Igreja isto é claríssimo, que um só abuso sexual de menor por parte de um clérigo ou membro da igreja é algo que não devia acontecer nunca. A Igreja, neste domínio, está a fazer todos os esforços do ponto de vista jurídico e pastoral, de cuidados a ter, para evitar que ocorram abusos cometidos por membros da Igreja. Não conheço nenhum estado nem nenhuma organização que em tão poucos anos tenha promulgado tanta legislação e tenha percorrido um caminho tão longo, em tão pouco tempo, para a protecção das crianças.

Este relatório analisa apenas e só um conjunto muito reduzido de situações ou de passos dados pela Santa Sé e deixa de lado muitos outros, dados também, que vão no sentido de proteger os menores e evitar os abusos, para que a Igreja seja um lugar seguro, pacífico, para todas as crianças.

Não tem em conta sequer aquele que foi o contributo da Santa Sé dentro da comissão. No passado dia 16 de Janeiro, o Monsenhor Silvano Tomasi, representante da Santa Sé na ONU, teve uma intervenção junto desta comissão, em que forneceu um conjunto de dados, de passos que foram dados, de informações, dos quais o relatório não faz sequer menção, o que é estranho. Parece que o relatório estava feito antes de ser ouvida a Santa Sé em relação a um tema tão importante como este.

Dá-se a entender que a Santa Sé é a única organização que não tem uma legislação adequada à protecção das crianças. Pelo contrário a Santa Sé é das instituições que mais se tem esforçado para que isso aconteça e este relatório não corresponde à verdade dos factos, é preciso dizer isso com toda a clareza.

Há influência ideológica neste relatório?
Quando a Santa Sé, em 1990, ratifica a convenção, que dá origem a esta comissão, deixou muito claro que, e passo a citar: “Ao aceder a esta convenção deseja renovar a sua expressão de uma constante preocupação pelo bem-estar das crianças e das suas famílias. Mas considerando a sua singular natureza e a sua posição, ao comprometer-se com esta convenção, não prescinde de qualquer modo da sua missão específica na qual a sua dimensão religiosa e moral têm um aspecto primordial.”

Delegação da Santa Sé que falou à comissão em Janeiro
Isto foi o que a Santa Sé disse à ONU em 1990. Esta convenção, nos últimos anos, tem derivado para um conjunto de posições ideológicas que são cada vez mais incompatíveis com a doutrina cristã, com valores não-negociáveis. A Santa Sé não pode não defender aquilo que Jesus nos deixou como missão, pregar o Evangelho a todas as criaturas, na verdade. E portanto, para não faltar ao mandato de Cristo de pregar a verdade, de pregar o valor da vida nascente desde a concepção até à morte natural, a Santa Sé nestes foros, ao defender as suas posições, tem uma grande vantagem porque está a tratar à luz do direito internacional, temas que são importantíssimos para a vida da Igreja, de todos os países e de qualquer pessoa.

Mas corre sempre o risco de haver pessoas, instituições e ONGs que tenham uma ideologia contrária à religião católica e que tentem impor essa ideologia à Igreja. Devo dizer que no caso concreto desta comissão, como no caso concreto da posição da Santa Sé nas Nações Unidas, estas comissões olham para a Igreja e não sabem muito bem, por vezes, expressar o que querem dizer. Isto porque a Santa Sé não é um estado como outro qualquer. Para já não é membro pleno, é apenas observador. Em segundo lugar tem uma dupla dimensão, territorial, que é o Estado do Vaticano, mas também é o Governo central da Igreja Católica, espalhada por todo o mundo.

Enquanto que num Estado as leis de um país referem-se àquele país, e portanto no caso de Portugal temos uma constituição e depois temos um conjunto de leis promulgadas pelo Governo e é fácil recomendar alterações específicas à legislação, quando estas comissões olham para a Igreja vão ao direito canónico.

Mas a legislação da Igreja não está expressa só no Código de Direito Canónico. Está expresso no direito canónico, que vale para a Igreja Latina, está expressa no código dos cânones das Igreja orientais, que valem para as igrejas orientais, mas depois há um conjunto de normativas que não está em nenhum dos códigos e que são consideradas normas especiais ou estatutárias, que também fazem lei, regulam a conduta dos cristãos e da hierarquia e que neste caso não foram tidas minimamente em consideração.

Por exemplo, está a ser renovado todo o livro VI do código de Direito Canónico de 1983, que se refere ao direito penal, para precisamente transpor para a ordem fundamental da Igreja normas que neste momento têm um valor só de normas especiais e por isso do ponto de vista jurídico não são tão fortes como o direito canónico, mas têm a mesma validade.

Há de facto uma visão ideológica muito diferente entre a Igreja e este relatório das Nações Unidas e essa ideologia é um confronto do qual a Igreja não se pode dispensar. É preciso estar lá, debater as nossas ideias e continuar a explicar a posição da Santa Sé, mesmo que não sejamos ouvidos, que não concordem connosco, e mesmo que nos venham dizer que temos de mudar coisas que à partida sabemos que não vamos mudar, porque são coisas que não depende de nós, dependem daquilo que Jesus nos deixou.

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