Monday, 15 April 2013

Papa nomeia conselho de cardeais e sefarditas recuperam direitos


Durante o fim-de-semana o Papa Francisco alertou para o perigo da incoerência entre os católicos e desafiou-os a dar testemunho de Cristo com coragem.



E no Porto prepara-se uma alternativa para os jovens que não possam ir às JMJ no Brasil: “Rio in Douro”.

A expressão “Cultura da Morte” é apenas uma coisa vaga e ideológica? Não, não é. Tem um rosto e um credo. Conheça-os aqui.

Por fim um aviso: No próximo dia 20 de Abril, pelas 21h30, na Sé de Lisboa, o Cabido da Sé Patriarcal promove um concerto de homenagem ao Prof. Sibertin Blanc. Os organistas são antigos alunos do Prof. Sibertin.

Kermit, o Assassino

Está a decorrer nos Estados Unidos o julgamento de Kermit Gosnell, um abortista que é acusado de homicídio de pelo menos sete bebés e de uma mulher que morreu ao seu cuidado.

Os sete bebés em causa foram fruto de abortos tardios e nasceram vivos, ao contrário do que é suposto. Por isso foram mortos já fora das mães, cortando-lhes as colunas com um par de tesouras. Gosnell é acusado dos sete casos comprovados, mas um funcionário dele admite ter feito o mesmo em “centenas” de casos e diz que era prática comum na clínica.

Para além deste pequeno horror, quando finalmente as autoridades decidiram intervir e encerrar as duas clínicas operadas por Gosnell, encontraram, entre outras coisas, frascos com restos de fetos abortados, guardados dentro de frigoríficos que continham alimentos. No relatório formal sobre o caso, a acusação mais leve tem a ver com um gato recheado de pulgas que se passeava por uma das clínicas e o facto de os instrumentos não serem esterilizados, o que levou inúmeras mulheres a contrair infecções venéreas.

É possível que Gosnell seja condenado à morte pelos seus crimes, sobretudo os de homicídio.

Imagino que a maioria dos meus leitores estejam neste  momento um pouco cépticos. Se este monstro existe mesmo, se tudo isto é verdade, porque é que nunca ouvimos falar dele? A razão é simples. É que até há uma semana, e apesar de este caso datar de 2011, nenhuma grande cadeia de notícias nos EUA se tinha dignado a falar do assunto.

Contrastemos isto com o caso trágico da mulher indiana que morreu por complicações relacionadas com a sua gravidez o ano passado, na Irlanda. Lembram-se como isso foi transformado numa gigantesca campanha a favor da liberalização do aborto naquele país? Houve abaixo-assinados, manifestações de solidariedade... tudo sem que tivesse sequer havido um inquérito sobre as circunstâncias da morte! Se bem me lembro, até algumas deputadas portuguesas se meteram ao barulho.

O caso de Savita Halappanavar é trágico, evidentemente. Mas é mais trágico que centenas de bebés nascidos vivos e depois mortos por excisão das suas colunas vertebrais? É mesmo? É este o mundo em que vivemos? É mais trágico que a Savita tenha morrido por não se lhe ter feito um aborto (se é que isso foi assim tão simples), do que Karnamaya Mongar, uma mulher de 41 anos, tenha morrido às mãos de Gosnell quando lhe faziam um aborto?

Então o que é que se passa aqui? Passa-se que chegámos ao ponto em que a imprensa que, nos EUA como em Portugal, é na sua maioria favorável ao aborto legal, considera que dar destaque a casos como os de Gosnell pode ser politica e socialmente prejudicial para a sua causa. São escrúpulos que estão manifestamente ausentes quando um candidato ao senado diz que é raro uma mulher engravidar quando é violada..., como se passou nas últimas eleições americanas.

Da próxima vez que ouvir falar em “cultura da morte”, lembre-se que não é apenas uma expressão vazia. Tem um rosto, o de Gosnell, e tem um credo, que é o que impede a imprensa liberal americana de abordar a questão.

Neste artigo, por uma questão de pudor, evitei entrar em detalhes gráficos sobre os horrores praticados por Gosnell. Mas poderão encontrar muito mais informação sobre o caso e sobre a cobertura mediática, nestas ligações:

Thursday, 11 April 2013

O regresso dos judeus, bebés e beijinhos papais


Os judeus descendentes daqueles que fugiram ou foram expulsos da península ibérica no século XVI poderão vir a receber cidadania portuguesa. O assunto está a ser discutido hoje no Parlamento, mas mesmo se for aprovado ainda não há detalhes sobre como funcionará.

Bento XVI não beijava bebés… até chegar a Portugal. O Papa Francisco sempre beijou bebés, mas adivinhem qual a nacionalidade da primeira criancinha a receber essa honra? Pois é… podemos concluir que os bebés portugueses são mais queridos que os outros?

Os bispos portugueses estiveram reunidos por estes dias em Fátima. Prometem ser uma presença activa quanto aos problemas do país nesta fase e confirmaram que o pontificado de Francisco vai ser consagrado a Nossa Senhora de Fátima.

Em mais uma prova de que as religiões são irracionais e temem a ciência, o Vaticano está a organizar a segunda conferência internacional sobre células estaminais adultas. (Para quem não notou, isto é para ler com ironia…)

Surgiu ontem a notícia de que Bento XVI estaria gravemente doente. A Santa Sé nega.


Por fim dois avisos, ambos para amanhã. O lançamento do livro do meu bom amigo Frei Bernardo Corrêa d'Almeida. Escrito antes da eleição de um sucessor de São Pedro jesuíta que adoptou o nome Francisco, o livro é sobre São Pedro, escrito por um franciscano, com prefácio de um jesuíta. O lançamento é às 21h30 (ver anexo)

Também amanhã, mas mais cedo, pelas 15h00, realiza-se um debate sobre o perdão, que tem por base o livro “Incondicional? - O apelo de Jesus ao perdão radical”, editado em Portugal pela Letras d’Ouro”. Quem me conhece sabe como este tema é importante para mim, recomendo vivamente a participação, no auditório Lusitania - Rua do Prior, nº 6, à Lapa, Lisboa.

Wednesday, 10 April 2013

Odiar o Papa?

Austin Ruse
Que coisa terrível que é um suposto católico odiar o Papa. Ódio é uma palavra muito forte? Que coisa terrível que é não gostar do Papa, ficar enraivecido com o Papa, ou desconfiar sequer do Papa. Mas lendo alguns blogues tradicionalistas nos tempos mais recentes vê-se tudo isto.

Claro que muitos de nós ficámos um bocado preocupados ou até desiludidos quando foi anunciado o nome de Bergoglio. Quase nunca tínhamos ouvido falar dele. Da Argentina? Interessante, mas essa não é uma das terras da teologia da libertação? E ele não tinha sido o candidato progressista contra Ratzinger em 2005? Afinal esta última acusação era simultaneamente verdade e mentira. Verdade que era o candidato dos progressistas, mentira no sentido em que ele não o queria.

Eu estava nas Nações Unidas quando saiu o fumo branco, num painel convocado pela Santa Sé para discutir a violência contra as mulheres. A sala de conferências estava cheia de feministas radicais que adoram ir a estes eventos para poder atacar a Igreja. Quando saiu o fumo branco os telefones de católicos fiéis começaram a tocar em todo o mundo. Também naquela pequena sala na ONU se podiam ver algumas caras felizes, incluindo o núncio, radiante.

Muitos de nós encontramo-nos no bar da ONU, ligámos os computadores e esperamos pelo “Habemus Papam”. Foi uma espera agonizante. Estava com um grupo grande de estudantes de Steubenville e quando foi anunciado Bergoglio o nosso entusiasmo esmoreceu significativamente. A confusão era palpável. Bergoglio quem?

Então começámos a receber emails de amigos com citações sobre as lutas que Bergoglio tinha travado em defesa da vida e da família na Argentina. Eram muito fortes. Ninguém espera que o Bispo de Roma seja heterodoxo nos assuntos mais importantes do dia, mas falará abertamente deles? Claramente este novo Papa fá-lo-á.

Quando Francisco baixou a cabeça e pediu a nossa bênção os estudantes com quem eu estava choraram e rezaram por ele ali mesmo. As feministas radicais que estavam à nossa volta percebiam o que se estava a passar – e estavam horrorizadas.

Mas imediatamente os nossos amigos tradicionalistas e os seus blogues começaram a encher-se de queixas. Um amigo meu no Facebook alertou que Bergoglio “não é amigo da missa tridentina”, o sine qua non do Tradicionalismo. Esta suposta frieza de Francisco pela missa tradicional tem sido repetida vezes sem conta desde a sua eleição.

Para além da missa tridentina, os tradicionalistas estão sempre alerta para detectar qualquer coisa que lhes pareça modernismo. Será que o turíbulo foi abanado o número certo de vezes tanto à esquerda como à direita?

Taylor Marshall - Uma voz sensata no meio da raiva
Taylor Marshall – um ex-padre anglicano convertido ao Catolicismo que trabalhou durante uns tempos na Catholic Information Center em Washington D.C. – é chanceler do Fisher More College no Texas e um autor influente nos meios tradicionalistas, mas com um estilo sensato. No dia 14 de Março, meras horas depois da eleição de Francisco, postou isto no seu blogue:

O Papa Francisco ainda não tinha sido eleito há duas horas e o sarcasmo começou a ser cuspido nas caixas de vários blogs. Muitos do grupo tradicional reagiram contra o Papa Francisco com palavras que eram francamente ofensivas. Se um dos meus filhos falasse assim de um padre (ou de qualquer pessoa mais velha, já agora), o rapaz levava uma palmada no rabo e uma longa estadia num quarto escuro.

Em poucos minutos do aparecimento de Sua Santidade na varanda, alguns "trads" começaram uma campanha online afirmando que ele era um perseguidor dos padres ortodoxos na Argentina. Depois disseram que proibiu a Missa Tradicional na sua diocese. Depois estavam a gozar com ele por não usar a mozeta papal encarnada. Também exprimiram desagrado sobre o facto de Sua Santidade ter rezado em italiano e não em latim. Depois, mostraram-se alarmados por ele ter tirado a estola imediatamente depois da bênção. A seguir fizeram um grande alvoroço sobre o facto de a tapeçaria que se desenrolou sobre a varanda não ser a do predecessor de Sua Santidade. E estes comentários não são sequer os piores. E nem sequer quero enumerar algumas das outras coisas que têm escrito online. [Em português aqui]

Marshall tinha razão; os blogues e as suas caixas de comentários estavam cheios de pânico, fúria, até ódio, e não eram só os habitués dos comentários que se estavam a passar. Horas depois do anúncio a Remnant TV entrevistou John Rao, um comentador frequente, que é também um dos mais proeminentes líderes dos círculos tradicionalistas raivosos. Rao afirmou: “As perspectivas não são boas. Parece que a eleição resultou de maquinações políticas por parte de um ou outro elemento daquela facção do Colégio dos Cardeais que está associado ao suposto espírito do Concílio, seja como for que interpretam isso, e que não quer saber se a Igreja morre, desde que esse espírito se mantenha.”

Príncipes da Igreja que não querem saber se a Igreja morre? Pensem bem no que estas pessoas estão a dizer. Que arrogância, que falta de fé. Que atitude de dissensão em reclamar a autoridade de se pronunciar sobre o que é verdadeiramente católico ou não.

Quando eu era tradicionalista tínhamos um grande desprezo por João Paulo II. Quase passei ao lado do seu pontificado inteiro – até sair dessas fileiras. Eles gostavam mais do Bento XVI por causa da bênção que ele deu à missa tridentina e as suas práticas mais tradicionais em geral. Mas agora dizem que Bento XVI frustrou o Espírito Santo ao resignar e que a elevação do Papa Francisco é o castigo.

Que bênção que foi, naquele dia, poder estar com estudantes católicos fiéis que choraram de alegria ao ver o nosso novo Santo Padre, e que dor de alma são aqueles que ficam zangados só de o ver, que ainda estão zangados e que sempre estarão.


Austin Ruse é presidente do Catholic Family & Human Rights Institute (C-FAM), sedeado em Nova Iorque e em Washington D.C., uma instituição de pesquisa que se concentra unicamente nas políticas sociais internacionais. As opiniões aqui expressas são apenas as dele e não reflectem necessariamente as políticas ou as posições da C-FAM.

(Publicado pela primeira vez em www.thecatholicthing.com na Sexta-feira, 05 de Abril de 2013)

© 2013 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Monday, 8 April 2013

Mais um passo no mundo do ciberespaço!

Quem me conhece sabe o quão difícil foi convencerem-me a entrar para o Facebook. Mas a verdade é que acabei por ceder e o grupo do Actualidade Religiosa já conta com mais de mil membros e discussões e conversas do maior interesse.

Agora, e porque também começava a sentir falta, aderi ao twitter. A conta está em meu nome, mas tenciono usar principalmente para assuntos profissionais, ligados ao meu trabalho na Renascença, na informação religiosa e à actividade deste blogue.

Por isso, quem quiser seguir-me está à vontade, é só clicar aqui.

Aproveito para agradecer a todos os que tornam este trabalho tão interessante, que têm a paciência de me ler e que vão seguindo o que faço, não poucas vezes expressando simpático apoio!

Ser cristão sem medo sim, mas deixem-nos chorar...

"Não tenham medo de ser cristãos e de viver cristãmente" - Papa Francisco

O Papa Francisco foi “entronizado” ontem, embora o termo já não seja esse, na Basílica de São João de Latrão. Na sua homilia disse que por piores que sejam os nossos pecados, Deus perdoa sempre e para Ele nunca somos apenas números.


Ainda ontem de manhã o Papa falou no Regina Caeli e pediu que os cristãos não tenham medo de o ser.

Medo não digo, mas ansiedade pelo menos, é o que sentem os cristãos do Egipto actualmente. Cinco morreram nos últimos dias, o mais recente for morto quando extremistas muçulmanos atacaram o cortejo fúnebre das anteriores vítimas (ver imagens).


E Jónatas Pires, dos Pontos Negros, quer dar força aos sem-abrigo, apoiando o Serve the City – Lisbon, uma organização que se preocupa mais em ajudar estas pessoas a sentir-se pessoas do que em dar-lhes comida, embora também o faça. Saiba como pode ajudar Jónatas Pires a concretizar este belo sonho e leia a interessante entrevista na íntegra aqui.

Sunday, 7 April 2013

Projecto "Tudo é Vaidade II" ajuda organização de apoio aos sem-abrigo

Jónatas Pires com alguns dos "fãs" mais especiais
do Tudo é Vaidade II
Transcrição integral da entrevista ao músico Jónatas Pires e a Alfredo Abreu, da Serve the City - Lisboa, a propósito do projecto "Tudo é Vaidade II". Podem ver e ouvir a reportagem aqui.


Qual a história por detrás do disco Tudo é Vaidade?
Divido a autoria das letras com o Kohelet, que escreveu o Ecclesiastes, porque fui basicamente inspirar-me no que ele tinha escrito e essas canções são basicamente um retratamento do Eclesiastes do princípio ao fim.

A ideia nasceu no verão de 2011 quando me pediram que fizesse uma canção para cada dia do acampamento da Juventude Baptista Portuguesa, onde íamos estudar o livro de Eclesiastes. Depois surgiu a ideia de pegar nas músicas e fazer um disco e pareceu-nos bem usar o disco para servir um propósito maior que o deleite auditivo. Tínhamos conhecimento de um projecto social que existe em Rabo de Peixe, na Ilha de São Miguel, que consiste em fornecer senhas de alimentação a crianças que não têm acesso a mais de uma refeição completa por dia.

Todo o percurso foi feito ao longo de alguns meses. O disco saiu, começou a ser vendido directamente às pessoas, e pela internet, e conseguimos enviar cerca de 6500 euros para lá o que resulta em hoje em dia estarem cerca de 52 crianças a serem apoiadas diariamente com refeições pagas e mais algumas ajudas a famílias e crianças fora de Rabo de Peixe.

Essa estrutura que ajuda as crianças em Rabo de Peixe já existia?
Sim, o projecto começou com dois professores colocados em Rabo de Peixe. Depois de perceberem das necessidades gritantes que havia entre os alunos começaram a pagar do próprio bolso as senhas a alguns alunos. Depois foram apelando a amigos e foi-se espalhando, e como foi crescendo foi chegando mais dinheiro e criaram uma estrutura.

Ainda são professores mas continuam a colaborar com pessoas de lá, incluindo os técnicos do Rendimento Social de Inserção, para identificar os casos de maior necessidade. Os apoios são dados directamente às crianças, os cartões da escola são carregados e com isso eles podem comer.

Quando existe uma necessidade mais imediata, por exemplo para uma família que de repente se vê sem nada, sem comida para uma semana, já aconteceu terem de dar uma ajuda directa mais pontual.


Agora surgiu a ideia de fazer um novo disco mas com um enfoque diferente.
Sim. Não nos desligámos do anterior projecto, as pessoas podem continuar a contribuir e a comprar o disco, mas também, desta vez, eu ao experimentar ter ido a um jantar comunitário do Serve The City, senti logo uma vontade muito forte de os poder ajudar da mesma forma, e de escrever canções que tivessem a ver com as pessoas que frequentam esses jantares, e o que elas passam.

Foi sempre com uma perspectiva de poder, através da música e das palavras, as pessoas que atravessam um inverno quase permanente, poderem encontrar pelo menos um cheiro de primavera naquelas canções.

Abordei o Alfredo e eles foram muito generosos na forma como acolheram a ideia.

Alfredo, o que é o projecto Serve the City?
Somos uma organização inspirada por Cristo mas aberta a todos. É uma organização de inspiração cristã mas que congrega pessoas de todas as convicções para servir a cidade. Esta ideia de serviço é também muito ligada a Cristo, que se apresentava como aquele que vinha servir e não para ser servido.

O nosso objectivo é dar alguma coisa da nossa vida para tornar a vida dos outros melhor, e mobilizamos pessoas para projectos de voluntariado. O primeiro grande projecto que tivemos foi este, os jantares comunitários, que inicialmente era destinado exclusivamente a sem-abrigo, mas começámos a descobrir que na comunidade das pessoas que vivem na rua há não só pessoas sem-abrigo, há imigrantes ilegais, toxicodependentes, idosos isolados, muita gente isolada, que vão às carrinhas das diversas organizações buscar algum tipo de alimento.

Foi para eles que criámos este jantar comunitário, que acontece, por enquanto, de quinze em quinze dias e que serve cerca de 250 refeições. O objectivo não é a comida, porque àquela hora em vários lugares de Lisboa há comida disponível para as pessoas da rua. O nosso objectivo é criar um espaço seguro, confortável, onde as pessoas que estão na rua ou que vivem na margem, que se sentem excluídas da sociedade, possam sentar-se à mesa com os nossos voluntários para partilhar uma refeição durante duas horas, o seu percurso de vida, simplesmente partilharem o que lhes vai no coração.

Temos parceiros católicos, a Comunidade Vida e Paz, budistas, o Centro de Apoio ao Sem-Abrigo, protestantes, o Exército de Salvação, a Câmara de Lisboa, a Associação Conversa Amiga, que penso que não tem nenhuma filiação religiosa. Todas estas organizações que já fazem um acompanhamento das pessoas da rua depois vêm sentar-se à mesa com as pessoas que habitualmente servem nos vários lugares da cidade, e aí sim desenvolvem-se relações mais profundas, permitem conversas que vão além do circunstancial. O objectivo não é dar comida às pessoas, é darem-lhes a oportunidade de se sentirem pessoas.

Esta ajuda que poderá vir, se o projecto correr bem, é importante para o vosso projecto…
Sim, porque servimos uma refeição, que tem custos. E não imputamos esses custos aos nossos voluntários, nem às pessoas que vêm da rua. Alguém tem de pagar os jantares, não há jantares grátis. Andamos sempre à procura de patrocinadores, portanto este apoio do projecto do Jónatas permite-nos libertar tempo que gastamos à procura de recursos para aumentar a nossa resposta de acompanhamento das pessoas que estão na rua.

Para isto avançar é preciso atingir um objectivo de financiamento.
[Jónatas] Numa primeira fase de recolha conseguimos juntar os fundos necessários para pagar a gravação do disco e com a ajuda muito generosa da Valentim de Carvalho gravámos lá o álbum, que está agora na fase pós-produção, e o que nos falta é o dinheiro para fazer as cópias físicas do disco, porque acreditamos que a música e os discos ainda é algo que pode ser partilhado de forma física, o que é mais significativo do que simplesmente enviar um ficheiro informático.

Os valores são baixos, porque queremos que seja o mais acessível possível, e mesmo assim possa reverter lucro para os jantares, e neste momento estamos nesta fase. Temos até dia 15 para atingir o nosso alvo. Mas mesmo que cheguemos aos 100%, encorajamos toda a gente a financiar-nos porque temos também outros objectivos.

Estive há dias a tocar alguns temas para alguns utentes da Comunidade Vida e Paz e foi uma experiência fantástica a maneira como as canções encontraram aquelas pessoas, e como elas se encontraram nas canções. Temos um sonho que queremos concretizar de poder oferecer o disco em leitores mp3 a pilhas aos nossos convidados da rua, para que lhes sirva de uma companhia quando eles estiverem em alturas de solidão.

Não se trata apenas de pôr comida nos estômagos das pessoas mas conseguir chegar aos corações a ajudar a transformar vidas e construir uma cidade melhor e mais solidária, especialmente tendo em conta o tempo que vivemos.

Como é que se pode contribuir?
Quem conhece a plataforma PPL.com.pt, o nosso está na lista de projectos. Mas é mais fácil ir a www.tudoevaidade.com e tem lá as informações todas. Vão tendo actualizações regulares, tem as ligações para a página da recolha de fundos e também tem as ligações para o disco anterior, a fase 1 do projecto. Também estamos no Facebook.com/tudoevaidade

Tudo é vaidade vem da abertura de Eclesiastes, o segundo disco também é inspirado em Eclesiastes?
O segundo é mais abrangente. As imagens mais presentes neste segundo disco são de facto o pão, mesas vazias e mesas cheias, e também a questão da solidão, daquele sentimento de, apesar de estarmos rodeados de imensa coisa, incluindo família e emprego, podemos sentir que não temos nada. Apela a uma redescoberta daquilo que é verdadeiramente importante, o “ter e não ter”.

Não tem uma inspiração tão focada como o primeiro disco, mas sendo mais abrangente também houve coisas que fui buscar a Job, outras a Salmos. Job é um livro espectacular, para escrever sobre sofrimento. Há uma música só sobre a parábola do Senhor que dá um grande banquete e todos os convidados recusam. A música diz que “Há uma grande festa, que nunca termina, onde todos cantam e ninguém desafina.” Esse é o espírito dos jantares do Serve the City.

Musicalmente tenho convidados muito especiais. O Samuel Úria, a Celina da Piedade, que tem um disco a solo lindíssimo, ela toca com o Rodrigo Leão também. Uma cantora portuguesa que canta com os Wray Gunn, a Selma Uamusse. E depois muitos amigos meus, pessoas que decidiram abrir o seu coração sem pedir nada em troca e que abrilhantam o CD de uma forma muito especial.

Nota-se aqui que todo este projecto está muito marcado pela tua fé pessoal. De que maneira alimenta o teu trabalho?
Não só este projecto. Eu tento que toda a minha música, mesmo que não tenha a palavra Cristo, ou Deus, que naquilo que eu crio transpareça a minha cosmovisão. É importante para mim que assim seja, já que vou falar é melhor que tenha alguma coisa a dizer, mas que possa ser algo que leve as pessoas a interpretar aquilo à sua maneira e descodificar aquilo que lá está. Não são músicas sobre o nada, não são um vazio intelectual ou lírico.

Um sem-abrigo de Lisboa
Tentei imaginar muito daquilo porque passam as pessoas que frequentam os jantares. Na Comunidade Vida e Paz, uma música que falava de sepulcros, um senhor que tinha sido coveiro muitos anos e que disse que se identificava com aquilo. Essa é a minha maior felicidade, que as pessoas possam pegar nas canções e sentir que aquilo lhes diz alguma coisa.

Contaste com o apoio dos Pontos Negros?
Claro, eles participam todos. O Silas, o teclista, é quem faz a parte gráfica. Apesar de ser um projecto de âmbito diferente a nossa amizade vai muito para além da música. Aliás, a amizade é algo que é partilhado pelas pessoas que fazem este disco e isso é uma coisa que transparece.

Já chegaste ao ponto em que consegues viver da música?
Já vivi, mas agora não vivo. Estou muito bem como estou. Não é por ter um emprego, de que gosto muito, e dedicar-me a isto não a full-time, que o faço com menos empenho ou dedicação. Quando eu falei com o Alfredo nem estava neste emprego, mas a premissa de nunca tirarmos nada financeiramente deste disco mantém-se e há-de se manter sempre, mesmo que não esteja a ganhar nada. Isto é algo que eu sinto que devo fazer, independentemente daquela que for a minha situação.

Alfredo, o seu trabalho no Serve The City também é voluntário?
Eu sou voluntário, não ganho nada com isto. Temos apenas uma pessoa que é paga porque entre dois jantares há uma enorme quantidade de trabalho a fazer, reuniões a marcar, contactos, follow-up que se faz com pessoas que vêm jantar connosco. Em quase dois anos já envolvemos quase 2500 voluntários, desde gestores de grandes grupos económicos a pessoas desempregadas e até alguns sem-abrigo. Misturamos tudo, o objectivo é mesmo esse, quando uma pessoa entra na sala de jantar não percebe que é o voluntário nem quem é o sem-abrigo.

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