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Sunday, 13 August 2023

Habemus Patriarcham

A grande notícia do dia é a nomeação do novo Patriarca de Lisboa. D. Rui Valério foi o escolhido pelo Papa Francisco para suceder a D. Manuel Clemente. Escrevi aqui um pequeno artigo sobre o novo Patriarca, com alguns dados sobre a sua vida, mas também alguns dos desafios que ele terá pela frente.

De resto, estamos ainda a ressacar da incrível experiência que foi a JMJ. Durante a Jornada eu não tive tempo para ir actualizando o blog, ou para enviar o mail semanal, mas fui-me mantendo ocupado. Para além de ter entrado várias vezes em antena na SIC Notícias, com a qual estava a colaborar como comentador, ainda dei uma perninha na Rádio Observador e escrevi um artigo diário para o The Pillar.

Os artigos para o The Pillar estão em inglês, mas podem ser lidos aqui:

Sobre o diálogo inter-religioso na JMJ

Entrevista ao Pe. Francisco Crespo, pároco da Serafina

Diário do primeiro dia da JMJ

Diário do segundo dia da JMJ

Entrevista ao único padre do Butão, que explica como um cartão de Natal levou à suaconversão

Diário do terceiro dia da JMJ

Diário do quarto dia da JMJ

Diário do quinto dia da JMJ

Diário do sexto dia da JMJ

Houve ainda um relato de um milagre na JMJ. As informações que circulam são ainda bastante confusas, nomeadamente sobre onde é que se realizou o milagre, mas o meu colega Edgar Beltrán, do The Pillar, conseguiu chegar ao fundo da questão da Jimena, que recuperou a visão. Podem ler aqui em inglês, ou então em espanhol.

Quem também esteve presente na JMJ foi a fundação Ajuda à Igreja que Sofre. Podem ler mais sobre esse assunto aqui.

Fui também convidado pelo Expresso para escrever um artigo mais focado nas críticas que surgiram de alguns sectores à JMJ. Podem ler aqui se forem assinantes. Mas gostaria de sublinhar – como faço no artigo – que embora também houvesse críticas e guerrinhas nas redes sociais, uma das coisas que mais me tocou foi precisamente o facto de na JMJ terem estado tantas pessoas, de tantas tendências diferentes, unidas por uma só causa, a rezar, a adorar e até a dormir lado-a-lado.

No meio de tudo isto continuei a publicar artigos do The Catholic Thing em português. Esta semana temos Randall Smith a escrever sobre as lições que São Tomás de Aquino tem para os actuais pregadores, e no da semana passada temos Russell Shaw, que tem uma larguíssima experiência de participação em sínodos, a revelar as suas reservas sobre o Sínodo da Sinodalidade.

Wednesday, 27 October 2021

Conhecimento que Cega

Pe. Paul Scalia

O “Peitoral de São Patrício” contém uma oração curiosa a invocar o poder de Deus “contra todo o conhecimento que cega a alma do homem”. Às vezes é traduzido como o conhecimento que “corrompe”, que “agrilhoa” ou que “profana”. Seja qual for o termo, o ponto permanece e é contrário ao modo de pensamento da nossa cultura. Nós vivemos de acordo com a noção simplista de que “Conhecimento é poder”. Não conseguimos imaginar um conhecimento mau.

Mas São Patrício sabia melhor. Ele sabia que temos de ser defendidos contra aquele “conhecimento” que não só não nos ajuda, como ameaça. É um conhecimento que promete visão, mas resulta em cegueira.

Pelo menos o cego Bartimeu, cuja história ouvimos no Evangelho do passado domingo, sabia que era cego. Foi esse conhecimento que o levou a clamar: “Jesus, Filho de David, tem piedade de mim”. A cegueira dele era saudável, na medida em que o levou a procurar uma cura. Mas a cegueira causada pelo nosso próprio conhecimento é outra coisa. Cega enquanto afirma dar-nos visão e por isso deixa-nos cegos para a nossa cegueira.

Pensemos por exemplo na mentalidade contraceptiva. Com a aceitação generalizada do uso de contracepção pensávamos que tínhamos obtido um conhecimento e uma sabedoria melhores que as dos nossos antecessores. De facto, a mentalidade contraceptiva cegou-nos para aquilo que os nossos antepassados bem sabiam: as verdades sobre o homem, a mulher, a sexualidade e o casamento.

Se a procriação pode ser eliminada da relação sexual, porque é que esta deve ser reservada ao casamento? Para que é que precisamos do casamento? Aliás, por que razão deve este acto ser restringido a um homem e uma mulher? E uma vez que a contracepção rejeita aquilo que é distintivo do homem e da mulher (a sua capacidade para procriar), porque havemos de pensar que ser homem ou mulher significa algo, ou é sequer uma realidade? Assim vemos que nos tornámos cegos a verdades que outrora eram bem conhecidas.

A mentalidade contraceptiva está ligada a outro conhecimento que cega, a ideia moderna de que a liberdade significa a capacidade de fazer o que me apetece. Segundo esse entendimento, a liberdade requer a rejeição de todos os limites. Claro que quando removemos os limites às coisas elas perdem o sentido. As coisas apenas têm sentido na medida em que são limitadas. O ilimitado não é liberdade, e falta de sentido. Quando insistimos nesta liberdade cegamo-nos ao nosso próprio sentido e assim abrimos a porta à dissolução que agora vemos.

Depois temos o conhecimento cegante do “cientismo”. No seu devido lugar, a ciência é um instrumento útil. Mas o cientismo, por outro lado, é autoritário. O cartaz anuncia: “A Ciência é Real”. Mas o que isso significa na realidade é que mais nenhuma forma de conhecimento será aceite como real. É tanto uma afirmação como é uma ameaça. O cientismo fornece a narrativa de que o homem estava na escuridão e ignorância até que a revolução científica o salvou. Desde esse momento salvífico, somos todos mais sábios. Dominámos o mundo (não obstante as pandemias). Claro que tudo o que o cientismo faz é truncar o próprio conhecimento. Os nossos antepassados reflectiam sobre o físico e o espiritual, o temporal e o eterno. O cientismo confina-nos ao físico e temporal. O único verdadeiro conhecimento (A Ciência é real!) é aquilo que podemos medir e quantificar. Longe de iluminar, isso cegou-nos para todo um campo de visão. A narrativa dualista (velho mau/novo bom) criou um preconceito nas nossas mentes, tornando-nos hostis a qualquer conhecimento ou verdade que tenha havido antes.

O pior é que o “conhecimento” do cientismo nos cega quanto à verdade de nós mesmos. Enquanto corpos com alma somos mais do que o cientismo pode estudar. Ele reduz o nosso propósito e sentido apenas a este mundo. Tornamo-nos assim apenas mais um objecto físico a estudar, manipular e aperfeiçoar. Deixámos de conseguir compreender-nos a nós mesmos.


O cego Bartimeu mostra-nos como se pode sair da cegueira. Primeiro, e mais importante, ele mostra que a fé conduz à visão. “A tua fé te salvou”, diz-lhe o Senhor. A sua fé permite-lhe ver. Ao contrário do mito moderno, a fé permite-nos conhecer. Nas palavras de João Paulo II, “a fé purifica a razão e abre horizontes que, por si só, a razão nunca poderia considerar”.

Bartimeu mostra também que a visão requer uma certa pobreza. Quando ele ouviu que o Senhor o estava a chamar “largou a sua capa e, de um salto, pôs-se de pé e foi ter com Jesus”. A capa representava a totalidade das suas posses. Mantinha-o quente quando estava frio e talvez servisse de almofada quando se sentava para pedir. Mas a capa não era mais importante que a visão. Ele está disposto a largá-la para poder correr, livremente, em direção à cura.

A liberdade da cegueira requer pobreza, a disposição para perder a nossa riqueza e o suposto controlo. No Sul, no Século XIX, os benefícios financeiros da escravatura cegaram os homens para o grave mal dessa instituição. Da mesma forma nós temos criado vidas autónomas e confortáveis em torno do cientismo, uma noção falsa da liberdade e a mentalidade contraceptiva.

A capa que usamos é pesada, não é fácil descartarmo-nos dela. Mas só vamos conseguir recuperar a nossa visão quando estivermos dispostos a purgar-nos de tudo o que o nosso “conhecimento” nos deu. Resumindo, o nosso problema não está ao nível do intelecto, mas da vontade. Temos de estar dispostos a mudar radicalmente as nossas vidas para poder ver claramente.

Precisamos de ver. Precisamos de ser curados da nossa cegueira. Seguindo o exemplo Bartimeu, descartemo-nos da nossa falsa autonomia e riqueza, e corramos em direção ao Senhor, com aquela simples oração nos lábios, “Senhor, que eu veja.”


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero. É autor de That Nothing May Be Lost: Reflections on Catholic Doctrine and Devotion e coordenador de Sermons in Times of Crisis: Twelve Homilies to Stir Your Soul.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 24 de Outubro de 2021 em The Catholic Thing

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.  

Wednesday, 13 July 2016

A Freira e o Submarino

Michael Baruzzini
Numa noite de verão o Kiowa Maru, um pesqueiro japonês, navegava ao largo da costa do Peru. No lusco-fusco, a tripulação do navio de repente sentiu um embate. Sem luz, não lhes pareceu ver nada de estranho, mas em todo o caso relataram um possível embate e seguiram caminho.

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Em Dezembro de 1892 uma menina, Marija, nasceu na ilha de Korčula. A sexta filha de Marija e Antun Petković revelou uma devoção precoce a Deus e pelos actos de caridade e em 1906 tinha já feito um voto de castidade e trabalhava com as Filhas de Maria, chegando rapidamente à presidência deste e de outros movimentos nos anos seguintes. Em 1919 Marija entrou para um convento das Servas da Caridade.

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O submarino USS Atule (que como outros daquela era foi baptizado com o nome de um peixe) foi inaugurado em Março de 1944. Em Outubro estava pronto para acção e já tinha chegado a Pearl Harbour; pouco depois rumava a alto mar para combater as forças navais do Japão. Participou na busca por navios inimigos que fugiam à Batalha do Golfo de Leyte e depois seguiu para o Mar da China. No dia 1 de Novembro o Atule afundou o Asama Maru. Continuou em serviço até ao fim da guerra e anos mais tarde.

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Pouco depois de Marija Petković ter entrado no convento, a madre superiora morreu e as restantes freiras regressaram à Itália. Marija ficou na Croácia e, em 1920, estabeleceu uma nova ordem religiosa, a Congregação das Filhas da Misericórdia. Marija foi escolhida como a primeira Madre Superiora. Ao longo dos anos seguintes as obras de misericórdia da ordem multiplicaram-se, primeiro pela Croácia e depois nas regiões circundantes – e finalmente para a América do Sul, onde a própria Marija viveu durante 12 anos e onde a ordem e a sua fundadora ganharam fama pelo seu serviço aos pobres.

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Em 1970 o já antigo submarino Atule foi desactivado. Foi vendido ao Peru quatro anos mais tarde e activado novamente como BAP Pacocha, em homenagem a um conhecido conflito entre rebeldes peruanos e a Marinha Britânica.

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Marija Petković foi da América do Sul para Roma em 1952. Em 1954 ficou paralisada devido a um AVC, mas continuou como superiora da sua ordem. Sete anos mais tarde resignou e dedicou-se a uma vida de oração e silêncio. Morreu no dia 10 de Julho de 1966, aos 74 anos.

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No dia 26 de Agosto de 1988 o BAP Pacocha navegava à superfície, a caminho da base, com 49 almas a bordo. Ao cair da noite foi atingido pelo navio de pesca Kiowa Maru. As escotilhas exteriores estavam abertas e, afundando-se, começou a meter água. O comandante do submarino, capitão Daniel Neva Rodriguez, morreu ao fechar a escotilha na ponte da torre. Outros três marinheiros morreram com o impacto inicial. Vinte e três conseguiram abandonar o navio antes de se afundar e, destes, três morreram nas águas geladas. Os restantes ficaram presos no interior.

Na sala dos torpedos dianteira, o tenente Roger Cotrina Alvarado estava a fechar as escotilhas e as portas estanques. Quando tentava fechar a escotilha da sala dos torpedos entrou água com uma força irresistível, entalando a perna de um marinheiro. A água salgada jorrava para dentro da sala. Cotrina não tinha força para contrariar o fluxo e mover a escotilha para libertar a perna do marinheiro e selar a sala.

Beatificação de Marija Petkovic
Foi então que o tenente começou a rezar, por intercessão de Marija Petković.

Um relatório da Marinha Americana sobre o incidente, feito em 1989, explica o que se passou a seguir: “Com a Pacocha a descer até ao fundo do mar, a água jorrou pela escotilha dianteira, atirando com o tenente Cotrina pela escada abaixo mas, felizmente, pouco depois, a água fechou a escotilha”.

O relatório continua: “O tenente Cotrina considera que se tratou de um milagre”.

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No espaço de cinco minutos o Pacocha, gravemente danificado, tinha assentado no fundo, debaixo de 40 metros de água. Com as escotilhas essenciais fechadas, de forma a evitar a entrada de mais água, vinte e dois homens continuavam encurralados lá dentro. O tenente Cotrina era o oficial mais graduado a bordo. Quando o Pacocha não chegou ao porto, e tendo em conta o relato de uma possível colisão por parte do Kiowa Maru, foi rapidamente lançada uma missão de resgate. A tripulação encurralada lançou foguetes de iluminação e foram enviados mergulhadores. Estabeleceu-se comunicação com os sobreviventes dentro do navio afundado e quando chegou a manhã a tripulação dividiu-se em grupos e começou a usar, à vez, os sistemas de evacuação de emergência.

Por terem estado encurralados a tal profundidade há tanto tempo, alguns dos tripulantes começaram a exibir sintomas de doença de descompressão quando chegaram à superfície. Usou-se uma câmara de pressão para os tratar, mas apesar dos esforços um dos tripulantes morreu. Ainda assim, dos 49 tripulantes originais do Pacocha, 41 sobreviveram.

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Investigações levadas a cabo tanto pela Marinha peruana como pelo Vaticano concluíram que o fechar da escotilha da sala dos torpedos era humanamente inexplicável. Em Roma, a Congregação para as Causas dos Santos atribuiu o evento à intervenção de Marija Petković. No dia 6 de Junho de 2003, o Papa João Paulo II celebrou a sua missa de beatificação em Dubrovnik. Entre os presentes encontrava-se o tenente Cotrina.

No passado domingo cumpriram-se 50 anos da sua morte.


Michael Baruzzini é um freelancer e editor da área científica que escreve para publicações científicas e católicas, incluindo a CrisisFirst ThingsTouchstoneSky & TelescopeAmerican Spectator e outras. É também o fundador de CatholicScience.com, que oferece currículos e recursos científicos online para estudantes católicos.

(Publicado pela primeira vez no Domingo, 10 de Julho de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Thursday, 15 August 2013

Nada de Milagres

Anthony Esolen
O excerto que se segue é de Anne Roche Muggeridge, num estilo irónico, digno do seu sogro Malcolm:

O que é que, na verdade, deve fazer o cristão moderno, crítico e maturo, quando reúne os seus filhos para celebrar o Natal? Deve juntar os pequenos de volta do presépio e ler Raymond Brown [biblista da escola histórico-crítica] em vez de São Lucas a falar da concepção virginal de Jesus?: “Concluindo, o meu juízo é de que a totalidade das provas cientificamente controláveis deixam a questão em aberto”. Como os seus olhos brilharão e os seus pequenos corações arderão no seu peito enquanto ouvem essas palavras! Quão comovidos ficarão quando a criança mais pequena colocar, reverentemente, um ponto de interrogação na manjedoura vazia.

Quando estamos de caras com um milagre, aquilo que é “cientificamente controlável”, por definição não entra em cena. O Raymond Brown é suficientemente inteligente para o perceber, mas gosta de jogar nos dois campos, aparecendo para o Natal, mas piscando o olho aos illuminati. Ou devemos acreditar que o Deus que criou o universo é incapaz de frutificar um óvulo no seio de uma mulher?

Este é mais um exemplo da mitologização dos desmitologistas. Acreditar no nascimento virginal de Jesus e na criação divina do mundo é coerente. Não acreditar nem num nem noutro também. Mas acreditar no primeiro e dizer que o segundo é impossível é que não é coerente.

Isso seria transformar Deus numa coisa imaginária: Um Deus suficientemente potente para criar um universo, mas que é incapaz de fazer maravilhas dentro desse mesmo universo. Tal completada. Um Apollo que não é bem de fora do mundo, nem bem presente em todo o mundo; um Deus comprovado nem pela Escritura, os ensinamentos da Igreja ou as conclusões do raciocínio metafísico. Uma fantasia dos académicos.

Quando eu era novo, passei um Verão numa casa de Operários Católicos, onde conheci um noviço jesuíta que tinha sido enviado para trabalhar lá como parte da sua formação pastoral. Foi dele que ouvi pela primeira vez o Mito dos Farnéis Escondidos.

O Mito dos Farnéis Escondidos é um bom exemplo da mitologização moderna. A maioria dos meus leitores não deve conhecer. Quando Jesus e os seus apóstolos estavam com as multidões no deserto e caiu a noite e o povo não tinha que comer, Ele instruiu os seus discípulos a distribuir uns poucos pães e peixes e shazzam! De repente aquelas pessoas, envergonhadas, tiraram os seus Farnéis Escondidos e comeram abertamente, e até partilharam a sua comida uns com os outros, e os restos chegaram para encher 12 cestos, e toda a gente se divertiu.

 “Ora bem”, diz o modernista, com o braço à volta do seu ombro, a sua voz cheia de sinceridade, “não será esse o verdadeiro milagre nesta cena? Que as pessoas tenham aberto os corações? Que me dizes? Tu és inteligente, és subtil, não compras esta banha da cobra, sabes onde está a verdade!”

Vamos lá então examinar de perto aquilo que o Mito dos Farnéis Escondidos pede que acreditemos:

Devemos acreditar que não tenha ocorrido aos discípulos de Jesus, que tinham passado meses a viajar com ele sobre estradas difíceis em campo aberto, que talvez as pessoas tivessem pensado em trazer comida consigo se tivessem a pensar estar longe das suas casas durante um ou mais dias.

Devemos acreditar que pessoas que tinham de pensar todos os dias sobre o que é que iam comer não tivessem pensado nisso desta vez, quando o texto nos diz que era nisso que os discípulos estavam a pensar, porque as multidões tinham seguido Jesus no calor do momento, por assim dizer, e os discípulos sabiam que não havia nada para eles comerem.
 
Somos todos tão fixes e tão modernos!
É suposto acreditarmos que os discípulos não teriam feito o mais óbvio, perguntando às pessoas na multidão se havia comida.

Devemos acreditar que as pessoas esfomeadas não teriam, por sua livre iniciativa, retirado a comida que tinham consigo, se é que tinham, e começado a comer.

Devemos acreditar que, numa sociedade em que a primeira das virtudes era a hospitalidade, todas as pessoas estavam a esconder pães e peixes por dentro das suas capas, como o Tio Patinhas agarrado às suas moedas, algo que nem nós, no auge do nosso egoísmo, faríamos.

Devemos acreditar que os apóstolos eram completamente estúpidos no que toca a questões em que eles, como homens habituados a suar para ganhar o seu pão, tinham de facto maior conhecimento, os hábitos diários dos seus conterrâneos.

Devemos acreditar que ficaram completamente estupefactos quando os Farnéis Escondidos apareceram.

Devemos acreditar que o milagre, referido pelos quatro evangelistas, é por isso acidental.

Uma vez que tudo isto aconteceu não por vontade do Senhor, mas por vontade das pessoas, não pode ter nada a ver com a maravilha que é a Eucaristia, nem com o maná do deserto, nem com as bodas do Cordeiro. Não tem nada a ver com a encarnação do Verbo em Nazaré, presente em todos os sacrários do mundo. É um mito de auto-celebração. “Vede como somos bons! Partilhamos as nossas sanduíches de paio e as nossas bolachas!”

Perguntei ao novice se Deus poderia ter feito o milagre como vem descrito nos Evangelhos. “Teria de pensar no assunto”, respondeu. Poucos dias depois disse-me que sim, Deus poderia tê-lo feito.

Espero que Ele esteja devidamente agradecido pela cedência.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 14 de Agosto de 2013 em The Catholic Thing)

© 2013 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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