quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Tempo Comum

Francis X. Maier
Ao longo da última semana eu e a minha mulher arrumámos finalmente as decorações de Natal. Um novo ano estende-se diante de nós e aceitámos, relutantemente, o facto de que estamos de volta ao “tempo comum”, um período de confiança paciente em Deus, marcada pela Igreja com os paramentos verdes dos seus sacerdotes.

Infelizmente, porém, a paciência não é uma virtude americana e à sombra da Covid a tentação para a fúria e para o medo pode ser feroz. Pior, estes dias de Janeiro têm sido tudo menos “comuns” em termos políticos, com o Capitólio invadido por uma multidão enfurecida da direita e o espírito venenoso de represália dos orcs do congresso e dos media de esquerda.

Agostinho diria que este é o estado natural da Cidade do Homem. Também diria que não adianta de nada queixarmo-nos dos tempos em que vivemos, porque quem faz o tempo somos nós. Os tempos refletem quem nós somos e nós mudamo-los, para melhor ou para pior, uma alma de cada vez, a começar por nós mesmos. No espaço sagrado da nossa consciência e das nossas escolhas pessoais, nenhum de nós é impotente e nenhuma vida, por mais obscura ou limitada que seja, é inconsequente. A forma como vivemos a nossa vida interessa. Deixem-me dar um exemplo.

Há quase 70 anos, na vila onde eu vivia, o leite era-nos entregue todos os dias à porta de casa por uma carrinha. Naqueles dias o leite ainda vinha em grandes garrafas de vidro. Eu tinha 4 anos e a minha irmã mais nova tinha 1. Todos os dias tomávamos uma sesta indesejada (e involuntária) juntos. E porque a minha irmã era muito irrequieta a minha mãe dava-nos palmadinhas nas costas enquanto nos cantava uma música de embalar irlandesa, para nos adormecer.

Um dia a minha mãe estava a servir-nos um copo de leite, mesmo antes da sesta. A garrafa caiu-lhe das mãos e partiu-se. Os estilhaços de vidro eram pequenos e afiados como lâminas e quando ela se aproximou para limpar a porcaria que estava no chão cortou-se de um lado ao outro da palma da mão. Sujou a roupa toda de sangue e acabou por estancar a ferida atando um pano branco à volta da mão. Ainda consigo lembrar-me da mancha encarnada viva que a ferida deixou à medida que o sangue ensopava o tecido.

Mas é aqui que quero chegar: cinco minutos mais tarde estávamos os dois na cama, com ela a cantar-nos uma das suas canções de embalar, dando-me palmadinhas com a sua mão boa e à minha irmã com aquele couto encarnado. E lembro-me de pensar, ao modo de um rapaz de quatro anos – “isso deve doer”. E depois, “ela deve gostar mesmo de nós”.

A lição desta história vai muito para além da nostalgia sentimental. Se queremos um exemplo do melhor que as vocações leigas nos oferecem, não temos de ir mais longe do que isto. Esta mulher não inventou nenhuma vacina, não geriu uma empresa, não foi autora de legislação inovadora. Na sua vida aparentemente sem importância poderia ter escolhido estar zangada. Podia ter sido egoísta. Podia ter-se esquecido dos seus filhos para cuidar de si. Em vez disso cuidou dos seus pequenos filhos até que adormecessem os dois.

Ao longo das próximas décadas, sempre que me cansava de ouvir os meus pais falar de Deus – as conversas eram especialmente cansativas quando eu fazia coisas que eles odiavam, e sabia que tinha razão – esta imagem regressava à minha memória e as palavras irritadas falhavam-me.

Porque, estão a ver, podemos ignorar o amor, ou fugir dele. Mas não o podemos refutar. A vocação desta mulher leiga não tinha um grande título ou uma qualquer fórmula secreta. Ela estava simplesmente a tentar amar como Deus ama, nas circunstâncias diárias práticas em que Deus a tinha colocado, sem drama e sem heroísmo. E ao fazê-lo acabou por afetar profunda e permanentemente as vidas dos seus filhos, um de cada vez. Tornou-se o género de “boa infeção” de que Madre Teresa tanto falava.

A maioria dos crentes já conheceu histórias ou pessoas parecidas na sua vida, ou então não seriam crentes. O que converte as pessoas não são instrumentos ou estratégias inteligentes, mas sim outras pessoas. Não podemos dar aquilo que não temos. O activismo dos leigos, as organizações dos leigos e a colaboração dos leigos em todos os assuntos da Igreja – são tudo oportunidades vitais para dar glória a Deus. A Igreja precisa da liderança de leigos fiéis e criativos agora mais do que em qualquer outra altura da sua história recente.

Mas no final de contas o verdadeiro “poder” dos leigos não reside no dinheiro, na capacidade profissional ou em cargos de influência na burocracia da Igreja. Reside, sim, no testemunho pessoal de santidade que é ao mesmo tempo simples e exigente. Isto está tudo muito bem pensado. Não há Igreja sem Eucaristia. Não há Eucaristia sem o padre. Mas também não há padres se não houver leigos comprometidos que educam os seus filhos para ouvirem o chamamento de Deus e para se sacrificarem por amor a Deus e à comunidade de crentes.

C. S. Lewis escreveu certa vez que “não há terreno neutro no universo; cada centímetro quadrado, cada milésima de segundo é reclamado por Deus e contra-reclamado por Satanás”. João Paulo II acrescentou que “contra o espírito do mundo, a Igreja empreende de novo – todos os dias – uma luta pela alma do mundo”. E Henri de Lubac, o maior teólogo jesuíta, escreveu que “o Evangelho avisa que o sal pode perder o seu sabor. E se nós” – isto é, a maioria de nós – “vivemos mais ou menos em paz no meio do mundo, talvez seja por sermos mornos”.

Comecei por referir que os orcs estão de volta ao poder em Washington, mas terminarei com um pensamento de Tolkien, que conhecia tão bem essa espécie, a sua malícia e a única forma de os vencer. Não nos é permitido escolher os tempos em que vivemos. Mas podemos “decidir o que fazer com o tempo que nos é dado”. A nossa tarefa é a de amar bem, desinteressadamente, seja qual for o local, seja qual for o tempo, em que Deus nos coloca. E isso basta.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 20 de Janeiro de 2021)

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2 comentários:

  1. Não nos é permitido escolher os tempos em que vivemos. Mas podemos “decidir o que fazer com o tempo que nos é dado” ----- eu acrescento que também jamais poderemos ser ingénuos na luta pelo bem, tão bem demonstrada pela personagem do Gandalf. E se assim não formos, corajosos e diligentes, seremos os principais responsáveis pelo mal do mundo. E isso infelizmente vejo-o cada vez mais em muitos falsos católicos que papam tudo o que leem e ouvem da comunicação social

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  2. Artigo muito bom, que merece reflexão. Obrigado pela partilha!

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