quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Biden e os Bispos

Stephen P. White
Enquanto pai eu sou responsável pela formação moral de muitas pessoas pequenas, cada uma das quais com uma forte inclinação para a tirania ou, pelo menos, para a anarquia. O cumprimento destes deveres tem-me tornado, ao longo dos anos, mais cuidadoso no que diz respeito aos meus juízos sobre como os outros devem disciplinar as suas ninhadas.

Saber disciplinar uma criança de uma forma que não só preserva a paz no lar, mas também contribui para o crescimento e a maturidade da mesma não é fácil. Às vezes uma criança responde melhor à misericórdia e ao carinho; noutras é preciso uma mão mais firme. Depende das circunstâncias. Depende do filho. Navegar entre o legalismo e a laxidão requer prudência e bastante humildade.

Como em todas as coisas, o guia mais seguro é o amor.

Tudo isto serve de prelúdio à questão de se políticos pró-aborto como Joe Biden devem ou não ser admitidos à comunhão. Russell Shaw escreveu de forma interessante sobre o assunto recentemente, não pretendo duplicar o seu esforço, mas recomendo a leitura.

Desde então também o arcebispo Chaput tomou posição contra a comunhão para Biden. A Conferência Episcopal dos Estados Unidos já juntou uma comissão para considerar o assunto. O cardeal Gregory, na qualidade de arcebispo de Washington DC, já indicou que vai manter a prática pastoral que está em curso desde os tempos em que Biden era vice-Presidente, dizendo que não lhe será negada a comunhão.

O cardeal está no seu direito de tomar uma decisão pastoral nesse sentido. Devemos partir do pressuposto de que foi tomada tanto para o bem do fiel em questão como da igreja local, uma vez que a politização de discussões sobre a receção dos sacramentos é tudo menos favorável ao sentido de unidade e de cura necessários numa arquidiocese que ainda está a sofrer com o escândalo do cardeal McCarrick e a resignação do cardeal Wuerl.

E, claro, há muitos católicos – pelos quais os nossos bispos são também responsáveis – que consideram pura hipocrisia ver a hierarquia a julgar os políticos quando os próprios bispos se mostraram tão inefectivos a lidar com a crise dos abusos sexuais. A prudência exige que compreendamos que o exercício da autoridade legal está fortemente ligado à autoridade moral e aqueles a quem esta escasseia devem ter cautela em parecer ter demasiada vontade em exercer aquela.

Pondo de lado os detalhes particulares do caso de Biden, os pastores que agem com grande solicitude por causa de um só pecador podem às vezes não dar atenção suficiente aos que foram prejudicados por esse mesmo pecador, nem à comunidade eclesial como um todo. (Há aqui um paralelo com a forma como alguns bispos reagiram à situação de padres abusadores com grande solicitude para com o pecador mas sem preocupação suficiente para com quem sofreu diretamente com os seus crimes, ou pelo bem da comunidade no seu todo).

Em nenhum lado a tendência individualista do catolicismo americano se revela mais profundamente do que na crença de que a recepção da Santa Eucaristia é um assunto privado entre mim e Deus. A recepção da Comunhão é um assunto profundamente pessoal, mas é um acto fundamentalmente eclesial, e não privado. Este facto informa todos os debates correntes sobre políticos católicos e comunhão, e explica porque é que os argumentos antecedem longamente a eleição de Joe Biden e vão certamente continuar muito depois de ele ter abandonado o cargo.


Mais, não é difícil perceber porque é que tratar actos eclesiais pela lente dos actos privados tem implicações que vão muito além da disciplina dos sacramentos.

A Igreja fala frequentemente e consistentemente sobre a ideia de pecado social e estrutural. Como escrevi em 2020, “a noção de responsabilidade coletiva – de ‘pecado social’, para usar um termo muito criticado – não deve ser estranha a ninguém que esteja familiarizado com as escrituras. Deus julga-nos como indivíduos, sim, mas também como membros de povos, atribuindo culpa e julgando agravos tanto pessoal como corporativamente”.

Mas aqui nos Estados Unidos o ensinamento da Igreja sobre o “pecado social” costuma ser (erradamente) descartado como um esquema político de esquerda. Porquê? Uma das razões é porque, durante décadas, políticos católicos têm defendido e expandido o direito ao aborto, subsidiando-o tanto internamente como no estrangeiro, com quase total impunidade. Entretanto o leigo e a leiga comuns são chamados a sentirem-se pessoalmente responsáveis por todo um leque de assuntos estruturais – das mudanças climáticas ao racismo e o alojamento de refugiados – que estão muito para além do seu controlo direto.

Fica-se claramente com a impressão de que existe um padrão de expetativa e de comportamento para os católicos comuns e outro para católicos influentes e bem relacionados: que a nossa fé deve ter consequências para a nossa política, mas que a nossa política não tem qualquer influência na nossa fé. Se os bispos querem mesmo lidar com a questão do pecado social, então porque é que continuam a tolerar – sem quaisquer consequências eclesiais – o apoio direto e claro da expansão de uma injustiça sistémica (o aborto) que custa milhões de vidas?

Se os bispos não conseguem agir como se o apoio direto de alguém a um mal tão grave tivesse consequências eclesiais diretas, então porque é que alguém há de levar a sério a suposta urgência de assuntos sobre os quais os católicos individuais têm muito, muito menos influência? O desafio pastoral em causa vai muito para além da comunhão e do aborto. Estende-se à credibilidade do testemunho público da Igreja.

Já disse muitas vezes antes que nada é mais contrário a uma ética consistente da vida do que o apoio à erradicação em escala industrial de vidas inocentes através do aborto. É precisamente por isso que os bispos afirmaram que o aborto é a sua principal preocupação política. E é precisamente por isso que os bispos formaram uma comissão para coordenar a sua resposta aos desafios colocados por terem agora um Presidente católico pró-aborto.

A linha de acção que melhor serve o bem da Igreja e das almas é matéria sobre a qual bons homens podem discordar. Não invejo aos bispos essa tarefa. Rezemos pelos nossos bispos e pela Igreja. 


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2020)

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1 comentário:

  1. O Papa Francisco já o afirmou, a Igreja apenas tem que cumprir. Só os nomes do ex-cardeal McCarrick e do Cardeal Wuerl são suficientes para saber que a Igreja tem a obrigação de cumprir a sua doutrina de negar a comunhão a pecadores impenitentes, sobretudo quando estão empenhados em campanhas anticatólicas e na promoção de uma cultura de morte. A posição oficial da Igreja está bem definida, até pelo próprio Papa Francisco. É incompreensível porque o actual papa, com a frontalidade que lhe é reconhecida ainda não obrigou toda a Conferência de Bispos Católicos dos Estados Unidos a cumprir as suas directrizes. Esperemos que o Papa Francisco não tenha esmorecido nesta questão. Foi isto que o Papa Francisco afirmou: "[As pessoas] não podem receber a Sagrada Comunhão e, ao mesmo tempo, agir com actos ou palavras contra os mandamentos, particularmente quando o aborto, a eutanásia e outros crimes graves contra a vida e a família são encorajados. Esta responsabilidade pesa particularmente em relação aos legisladores, chefes de governo e profissionais de saúde."/ "Estas são as directrizes de que precisamos para este tempo na história." https://www.lifenews.com/2013/05/07/pope-francis-pro-abortion-politicians-ineligible-for-communion/?fbclid=IwAR0pbWqMP_1DG7qC-o9ikj45TgSjtth2MSCeIezx0TmXUQvmDJ0SDJtKVv4

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