Monday, 5 October 2015

Sínodo, sínodo, sínodo e sauditas

"Sínodo? Não! Falemos antes de mim!"
Antes de mais um pedido de desculpas, a semana passada folguei alguns dias e nos outros estive demasiado ocupado para conseguir enviar o mail, mas não desesperem, porque estou de volta!

A razão da minha ausência foi a produção de três reportagens sobre o sínodo para a Família. Uma foi sobre a questão dos “recasados” e inclui uma explicação sobre o que significa verdadeiramente “comunhão espiritual”. Outro artigo foi sobre a questão do acolhimento aos homossexuais e, por fim, falei com uma mediadora familiar sobre os problemas que afectam as famílias “normais”.

Esta mesma mediadora familiar esteve entretanto no debate semanal “Conversas Cruzadas”, dedicado precisamente às questões do sínodo.

Tenho transcrição integral das três entrevistas no blogue, destacarei um por dia, hoje ficam com o cónego Carlos Paes, que desenvolve muito trabalho com os divorciados e recasados.

Entretanto, depois da missa inaugural de ontem, os verdadeiros trabalhos do sínodo arrancaram hoje. O Papa avisou que o sínodo não é lugar para negociar consensos, o cardeal Erdö disse que não vai haver mudanças de doutrina e o cardeal Vingt-Trois, de Paris, concordou, falando ainda do caso do padre polaco que no sábado se assumiu publicamente como homossexual, exigindo que a Igreja mude as suas práticas.

O Cardeal D. Manuel Clemente, já em Roma, abordou também o tema do padre polaco, que acusa de ter tentado manipular o sínodo.

No meio disto tudo 52 clérigos sauditas declararam jihad contra a Rússia, cujo patriarca ortodoxo diz que a intervenção russa na Síria é uma “guerra santa”.

Para terminar, não deixem de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing, onde Howard Kainz pergunta se as vítimas do divórcio não serão as viúvas e os órfãos dos dias de hoje. 

Comunhão espiritual e acolhimento de homossexuais

Transcrição integral da entrevista feita ao padre Bernardo Magalhães, antes do início do Sínodo sobre a Família de 2015. Para além de comentar a questão do acolhimento aos homossexuais, o padre Bernardo ajuda-nos a compreender do que se fala quando nos referimos a "comunhão espiritual". A reportagem sobre a questão dos homossexuais pode ser lida aqui, e as referências à comunhão espiritual aqui.

Tem-se falado muito em comunhão espiritual, como opção para as pessoas que não podem receber sacramentalmente. De onde vem este conceito, e o que significa exactamente?
É um conceito muito antigo.

Qualquer sacramento que uma pessoa recebe tem um efeito espiritual. A comunhão tem um efeito espiritual, a união com Cristo, a união na fé e na caridade com Cristo. Portanto toda a comunhão é comunhão espiritual. A comunhão sacramental está ordenada, tem como sentido, esta união espiritual com Jesus Cristo e com o mistério da sua Paixão, morte e Ressurreição. 

Depois, ao longo da história, para prever as situações em que uma pessoa deseja comungar, deseja unir-se a Cristo e ao seu amor levado até ao fim na Cruz, na paixão... Este desejo por vezes não é possível concretizar, porque não tenho acesso aos sacramentos, não posso ir à missa, estou doente, inválido, longe de uma igreja, numa circunstância que, independentemente da minha vontade, me impede de comungar.

O Cardeal Van Thuan, por exemplo, teve anos e anos preso. Algumas vezes conseguia celebrar missa, mas vivia da comunhão espiritual, da união espiritual ao sacrifício de Cristo, que não se concretizava numa união sacramental.

Agora, o problema que se põe com os divorciados e recasados, é um problema diferente. Quando o Papa Bento XVI, o Papa Francisco, o Papa João Paulo II na Familiaris Consortio, falam na Comunhão Espiritual, o que querem dizer é que os divorciados e recasados em concreto, ou qualquer outro cristão nas mesmas circunstâncias que não pode comungar sacramentalmente, deve procurar as disposições interiores para poder unir-se espiritualmente a Cristo, embora não o possa fazer porque a sua vida, livremente escolhida, contradiz de alguma maneira o mistério a que a comunhão nos une. Portanto, a comunhão espiritual também passa a ser entendida como um caminho quase penitencial, um caminho para dispor aqueles fiéis que não estão em Estado de Graça, como se diz na Teologia, em condições de comungar. 

Portanto são duas realidades distintas. A comunhão espiritual para aqueles que não podem receber o sacramento por uma circunstância externa em relação a eles, e independentemente da sua vontade, e que se podem unir espiritualmente àquele mistério e que podem gozar dos efeitos dessa união, serem sustentados na sua fé, na sua caridade e na sua vida cristã, e aqueles que não podem participar plenamente nesse mistério, porque as suas escolhas de vida, de alguma maneira não lhes permitem isso, mas que são chamados como qualquer outro cristão a caminhar nesse sentido. Isto é, no fundo, a comunhão espiritual vivida desta segunda maneira é um apelo à conversão, que é feito a todos e cada um de nós, que cada vez nos aproximemos mais de uma verdadeira comunhão espiritual com Cristo. 

Na prática, esse apelo à conversão poderia levar por exemplo em casos de uniões irregulares, a que os membros do casal vivessem "como irmãos". Sabendo que isso não é comum nem realístico para muitos casais, sobretudo casais em que só uma das pessoas é que manifesta essa vontade, essa disposição para ir-se aproximando é uma coisa que basta... 
Em si mesmo esta disposição é uma coisa óptima e já é uma acção da graça de Deus. Agora, repito, está ordenada à plena comunhão que implica uma adesão, plena também, ao mistério de Cristo, com todas as suas exigências. A fidelidade ao vínculo matrimonial, de fidelidade aos compromissos assumidos, levada até ao fim, até participar e comungar do mistério da paixão de Cristo. Para isso tende toda a vida cristã. Quando se diz que a Eucaristia é o centro e a raiz da vida cristã, é isto que se está a dizer.

Portanto isto não é uma utopia, é uma vocação. O homem tem como vocação comungar com Cristo. Nesta terra, no mistério da sua paixão, que nos conduz à Glória eterna, porque participamos da sua ressurreição também. 

Isto é a nossa vocação que, por vezes, tem traduções práticas difíceis e exigentes. E as pessoas que estão numa situação de casadas depois de um divórcio são pessoas que o experimentam de uma maneira especial e, por isso, justificam tantos cuidados pastorais, tanta atenção, justificam tanto isto que o Papa nos pede, quase que exige aos pastores, acompanhar essas pessoas, sem baixar a bitola, sem baixar a exigência, sem dizer que são chamados a um estado de vida cristã de segunda ordem, acompanhar as pessoas no seu concreto caminhar, como a todos os cristãos é pedido. Façam do mistério pascal de Cristo o centro da vossa vida, aquilo de que se alimenta toda a vossa vida, todas as dimensões da vossa vida. O vosso casamento, o vosso trabalho, tudo. 

Estas pessoas não têm uma vocação específica por estarem nessa situação, têm um problema concreto. E um problema concreto que é possível resolver, com a Graça de Deus, quando as pessoas se deixam transformar. Por isso precisamos todos, e em primeiro lugar os pastores da Igreja, de nos deixarmos transformar pelo mistério de Cristo. Não há nada específico do ponto de vista da vocação cristã para estas pessoas. Há dificuldades concretas para as quais temos de estar mais alerta.

O padre Bernardo (2º da esquerda) no dia da sua ordenação
Imaginemos então o caso de uma pessoa que está verdadeiramente convencida que o seu primeiro casamento era nulo, mas que, por alguma razão, ainda não recebeu um decreto de nulidade. Essa pessoa poderia fazer comunhão espiritual, ou deve ser encorajada a fazê-lo?
O casamento é um acto público, feito diante de Deus e da sua Igreja, e por isso não pode nenhuma pessoa, privadamente, declarar a nulidade do casamento. E por isso uma pessoa pode estar convencida o sacramento é nulo, mas enquanto não for considerado nulo a pessoa não pode ter a certeza e a garantia que o casamento é nulo. Portanto aqui põe-se um caso muito simples de uma consciência que, necessariamente, enquanto não há uma sentença que declare nulo o casamento, é necessariamente dúbia. Que não pode ter a certeza do seu juízo. Se eu não tenho a certeza se sou casado ou não e estou junto a outra pessoa, então aceito a possibilidade de estar a trair o meu primeiro vínculo e, portanto, a possibilidade de estar fora da comunhão plena com Cristo, que a comunhão sacramental significa e torna eficaz. 

Por isso não, não se põe a possibilidade de uma pessoa nessas circunstâncias comungar espiritualmente nesse sentido de adesão plena ao mistério de Cristo.

Outro tema de que se tem falado muito é do acolhimento dado aos homossexuais. Perante as novas realidades sociais, incluindo o chamado casamento entre pessoas do mesmo sexo e a possibilidade de adopção por parte de homossexuais, que é legal em muitos países, que novos desafios é que a Igreja poderá enfrentar, que mereçam discussão no sínodo?
Aquilo a que estamos a assistir, de um crescente número de pessoas que manifestam essa tendência, essa atracção por pessoas do mesmo sexo, de casamentos homossexuais que se tornam legislação comum dos estados, colocam um desafio porque a Igreja tem por missão anunciar o Evangelho da família, que Deus criou o homem e a mulher para se unirem, formarem uma família e geraram novas vidas.

Agora, o Papa Francisco tem sido claro e todos temos de levar muito a sério o que ele nos diz. A nossa missão não é dizer às pessoas para saírem porque têm problemas. A nossa missão é dizer às pessoas: "O senhor tem este problema, vamos olhá-lo à luz de Cristo, vamos olhar para a sua vida à luz de Cristo. O senhor tem esse problema em concreto, outros terão outro, e todos os problemas do homem se resolvem com Cristo. A receita para o homem é o mistério da Encarnação". Por isso isto levanta, do ponto de vista social, problemas gravíssimos mas do ponto de vista pastoral parece-me que nos obriga a olhar para este problema da homossexualidade à luz do Evangelho. Portanto, ver nela uma desordem, um afecto desordenado, mas ver nas pessoas que a têm filhos de Deus chamados a ser santos como qualquer outra pessoa.

O mundo está cheio de desordens, que Cristo vai resolver. Isto põe um problema também à Igreja, porque isto é um problema que põe a Igreja claramente contra a corrente, como o Papa Francisco também nos pede".

A questão é particularmente complexa no que diz respeito a crianças, ou não? Como é que uma escola católica, por exemplo, deve agir se um “casal” homossexual quiser inscrever crianças na escola, ou pedir baptismo, etc? Acredita que do sínodo virão indicações sobre estes casos e outros do género?
Certamente que sim, porque o sínodo é convocado justamente para isso, para marcar as linhas de acção pastoral e ajudar o Papa nessa sua missão, por isso certamente que sim e é um problema realmente complicado.

Mas também tem uma dimensão simples, a que o Papa Francisco também apela muitas vezes. Isto é... era o que faltava não baptizar uma criança, desde que os seus pais, como quaisquer outros, se disponibilizem para a educar na fé. Era o que faltava não lhe permitir uma educação cristã. 

Depois há outras questões. Como há muita propaganda à volta destes temas, há muitos lobbies, corremos o risco de sermos instrumentalizados e usados como propaganda. Mas acho que não vai haver nunca uma resposta prudencial muito fácil e talvez a melhor maneira seja reconhecer que é melhor uma Igreja acidentada que uma Igreja paralisada, a cheirar a bafio. 

A virtude da prudência cresce com a experiência e saber o que é bom em cada momento, que decisão concreta devo tomar em cada momento, é preciso ver caso a caso, com a experiência do tempo, porque isto é tudo muito novo. 

Por isso é que nos faz bem ver um Papa que abre o coração a esta experiência, para que não nos fechemos e simplesmente nos enclausuremos nas nossas convicções e deixemos de anunciar o Evangelho a quem quer que seja, seja homossexual ou o que for. Mas anunciar o Evangelho. 

Portanto acho que o Papa, nesse aspecto tem sido um desafio para todos os pastores, e para todos os cristãos e do sínodo poderão sair indicações sobre isso. Mas acho que mais do que do sínodo, sairá da experiência concreta de tratar destes casos. Experiência essa que tem como trave mestra a disponibilidade para levar o Evangelho e todos.

"Sínodo deve revalorizar o matrimónio na sua dignidade natural e sobrenatural"

Transcrição da entrevista feita ao cónego Carlos Paes, que acompanha muitos casais em uniões irregulares através das Equipas de Santa Isabel. A reportagem pode ser lida aqui.

Na sua experiência de trabalho com casais em uniões irregulares que tentam, na medida do possível, viver a fé católica, esta questão do acesso aos sacramentos é fonte de sofrimento?
Normalmente sim, até por motivos psicológicos. Uma pessoa que está privada do acesso à comunhão, nomeadamente, mas também à absolvição sacramental, acaba sempre por ter o sentimento de alguma exclusão, de alguma penitência, que lhe é imposta.

Às vezes aquilo que se passa na consciência de cada um é diferente do juízo que pode ser feito por fora. É por isso que desde a Familiaris Consortio que o Papa assinalou que essas pessoas continuam a ser membros da Igreja e não estão fora da comunhão, não estão excomungadas, embora não possam receber os sacramentos como as outras pessoas. Mas isso não quer dizer que não tenham acesso a outras formas de comunhão e, além disso, não estão castigadas, porque às vezes as pessoas têm a sensação que fizeram uma coisa má  e agora têm de suportar o castigo. Também não estão castigadas.

Esse é o ponto de partida, depois a Familiaris Consortio, e isso continua com este Papa Francisco, sugere caminhos de integração, de participação, de inclusão, dessas pessoas, para que não se sintam marginalizadas.  

Como é evidente não sabe quais serão as conclusões do sínodo, mas nesta altura parece inevitável que ficará muita gente desiludida, seja qual for. Acredita que será possível ainda encontrar uma proposta que satisfaça todas as partes?
Que satisfaça todas as partes, não prevejo, porque há pessoas que são mais radicais, mais exigentes, temem que possa ser uma "Igreja em saldos" para ser mais bem acolhida... Mas eu acredito sobretudo que começar por essas questões é começar pelo fim, porque há todo um trabalho a montante que será a melhor solução para uma reintegração positiva dessas pessoas e até para que esses casos não se multipliquem, como parece continuar a acontecer.

Acho que seria pobre fixarmo-nos aí e só procurarmos se vai haver solução, abertura, absolvição geral... Não. Porque o problema dessas situações resulta também do modo como esses casamentos, a montante, surgiram. As próprias pessoas têm consciência de que não viveram um verdadeiro sacramento de matrimónio, embora tenham vivido um casamento natural muito justo, muito razoável... Mas mesmo o casamento natural não foi perfeito porque se houve a ruptura alguma coisa falhou.

Às vezes há uma certa cultura do descarte, do descompromisso, imaginam que se houver algum problema separam-se, sem mais, mas não é para isso que as pessoas se casam.

Há muita ignorância acerca da beleza do matrimónio e da família, como célula base e mais importante, quer para a sociedade civil, quer para a comunidade religiosa, seja cristã ou de outra religião. Portanto há toda uma riqueza que se pode perder no meio dessa discussão, se vão ser admitidos ou não, se podem receber absolvição ou não, isso não é o principal com certeza e ficaria desiludido se a tónica principal fosse essa e não fosse exactamente revalorizar o matrimónio na sua dignidade natural e sobrenatural. 

Na sua dignidade quer para a sociedade civil quer para a comunidade cristã.

Tem-se falado muito na palavra misericórdia, mais especificamente numa “abordagem misericordiosa”. O que é isto?
A abordagem misericordiosa é, sobretudo, uma abordagem criativa, uma abordagem medicinal, uma abordagem transformadora, uma abordagem reveladora. 

Às vezes pensamos que é simplesmente passar um pano, para limpar, sem mais. Não. A abordagem misericordiosa é sempre reconstrutiva, porque o Deus que é misericordioso, antes de o ser, é misericordioso. E todos os gestos de Deus trazem a marca da criação e Deus cria e recria constantemente o seu povo  e os membros do povo de Deus em geral e também individualmente, exactamente oferecendo uma possibilidade de reconstrução e regeneração. 

Às vezes as pessoas parece que querem simplesmente que não lhes levantem mais problemas, mas que deixem passar, não tem importância, Deus é misericordioso... Não, há aqui um trabalho bonito que tem a ver com o próprio sentido positivo da penitência, a penitência não é um sacramento passa-culpas, a penitência é um sacramento onde cada um tem a oportunidade de olhar para a sua história de vida e perceber que aí pode introduzir um espírito criador novo, pode introduzir uma energia reconsrutiva, que lhe pode fazer divisar capítulos muito mais bonitos, não esquecer as coisas tristes do passado, mas sobretudo capítulos muito mais bonitos, muito mais reconhecidos no seu valor. Porque Deus usa todos os acontecimentos, até mesmo as vicissitudes da vida, para nos proporcionar uma reconstrução, uma regeneração, uma recriação. É sobretudo essa a ideia, isso está muito ligado ao sacramento da penitência.

As pessoas querem simplesmente satisfazer os seus desejos, as suas revoluções, ou estão abertas a uma conversão permanente de vida que lhes permita participar construtivamente, quer na regeneração da sociedade civil, quer na conversão da comunidade cristã.

Neste contexto seria de sublinhar a importância que tem a família no seio da Igreja e da comunidade civil, porque a família é, no seu todo, uma unidade responsável. Não é apenas um ajuntamento de pessoas na mesma casa, a família é para a Igreja a primeira unidade pastoral. 

O melhor que se pode imaginar para se tornarem cada vez mais pessoas responsáveis, mais participativas... ai daquele que não tiver uma experiência positiva, construtiva e feliz de família. 

Pela sua experiência com casais em situação irregular, nomeadamente através das Equipas de Santa Isabel, também há aí famílias sólidas que contribuem para  a Igreja e para a sociedade dessa forma?
Muitas vezes o que se passa é que eles próprios têm consciência que é agora que estão a viver uma verdadeira família, porque aquilo que aconteceu a montante não correu bem, acabou por se desfazer porque não chegaram a mergulhar na verdade. Às vezes um primeiro erro pode dar oportunidade a uma reconstrução mais consciente, mais participativa e às vezes esses casais são excelentes porque já tiveram de aceitar humildemente que nem tudo correu bem, mas que acreditam que é possível e às vezes... 

Entretanto dessas famílias nascem muitas vezes mais filhos. Esses filhos têm direito a encontrar em sua casa um lar feliz, completo, cristão. Eles não podem ser discriminados porque os pais vivem em união de facto ou não são casados pela Igreja. Às vezes estão num processo, não podemos discriminar com base no facto de serem casados ou não, terem ido à Igreja ou não, cumprirem ou não. Temos de perceber qual é a dinâmica daquele casal, o que é que estão a viver? Sentem-se ou não uma família renovada? Com que alegria é que buscam isso? Os filhos têm o direito de se sentirem perfeitamente normais no seio de uma família cristã e participativa, este é todo um trabalho que é muito bonito, muito estimulante e que não podemos esquecer, para felicidade de todos.

O cónego Carlos Paes foi alvo de outra entrevista o ano passado, na antecipação do primeiro sínodo, e que pode ser lida aqui.

"Dificuldades da família levam a sensação de solidão"

Transcrição integral da entrevista a Assunção Guedes, católica e mediadora familiar credenciada. A Assunção trabalha no acompanhamento de mulheres grávidas em dificuldade e suas famílias, com o Vida Norte, no Porto. A reportagem desta entrevista pode ser lida aqui.

Da sua experiência a trabalhar com famílias, quais são as principais dificuldades que estas enfrentam actualmente?
Há dificuldades internas e dificuldades externas. 

Nas dificuldades internas incluo sobretudo as dificuldades de relação, quer entre o casal quer entre gerações. Essas dificuldades têm sobretudo a ver com dificuldades de comunicação, de incompreensão, de dificuldade de entrega uns aos outros.

Para usar uma expressão do Papa, que acho muito certeira, nós temos dificuldade em gastarmo-nos uns com os outros. Numa relação de família, conjugal ou até de relação entre pai e filho, irmãos e irmãs, sogros e noras, há dificuldade nisto, em gastarmo-nos uns com os outros, de nos dedicarmos uns aos outros. É difícil porque isso implica esquecer-me de mim e pôr o outro à frente.

Por outro lado há dificuldades externas e que têm impacto directo e evidente nas relações familiares e aí vejo mais as questões da sociedade actual, de ritmo de vida, de exigências laborais, exigências de consumo e uma necessidade de consumo extremada, exagerada, que é difícil corresponder e que tem estragos evidentes nas relações. 

Depois, ao mesmo tempo, uma dificuldade que é externa mas que também é muito interna é o cansaço. O cansaço provocado por este ritmo de vida acelerado mas que implica falta de tempo e de disponibilidade para o outro, ou seja, a sociedade actual é de tal forma frenética que não nos permite estarmos uns com os outros; estamos desaprendidos de estar uns com os outros, de simplesmente estar, sem um programa estipulado, mas simplesmente para dar tempo à relação para estarmos juntos. Isto acontece de forma mais grave nas relações conjugais, mas na família no seu todo. 

São portanto dificuldades externas e internas, mas com implicações mútuas e que, de certa forma, só para concluir, ambas acabam num factor mais grave, que é a solidão. Ou seja, esta confusão toda termina numa sensação individual de solidão, que vejo muito nas famílias que acompanho. 

Ouvimos muito dizer que o conceito de família está a mudar. Concorda? E isso é bom, ou mau?
Acho que há aspectos que são novos e que são fruto de há umas décadas para trás. Podemos pegar se calhar na revolução francesa como pontapé de saída para estas mudanças familiares, mas desde então as mudanças são a um ritmo alucinante, da geração dos nossos pais para a nossa, da nossa para os nossos filhos, as mudanças são de uma riqueza e de uma violência enormes. 

Agora, se há benefícios? Claro que há benefícios, sem dúvida. Um dos benefícios mais evidentes que vejo é uma maior proximidade das relações dos pais com os filhos. Se calhar há duas gerações as relações dos pais com os filhos era de uma distância muito grande. O papel de educar cabia à mulher, ponto final. Hoje em dia não, há uma envolvência pais-filhos muito maior, que por um lado dá um acompanhamento e um carácter afectivo e emocional à relação pais-filhos muito mais próxima da nossa relação com Deus, por isso muito mais verdadeira e muito mais rica. Isso também é um benefício dessas mudanças todas, por isso efectivamente houve um papel muito grande sobretudo nas funções da mulher, na sua entrada no mercado de trabalho, mas a verdade é que o pai é muito mais tido e achado no seu papel de educador e de membro no seio de uma família.

Acha que o sínodo tem dado demasiada importância a questões fracturantes, e não o suficiente a famílias ditas normais, mas que também enfrentam problemas?
É preciso distinguir duas coisas. Uma é o que são os assuntos em cima da mesa no sínodo dos bispos, outra é o que se fala mais através da comunicação social. Aquilo que a comunicação põe mais em cima da mesa é o que acaba por ser mais falado e, por isso, atenção porque podemos estar a descurar e a descredibilizar o papel que os bispos têm em relação às famílias ditas normais e que, sim, precisam de imensa atenção, têm problemas concretos e que têm de ser vistos e pensados e reflectidos. Acredito, sim, que o sínodo não ignora essas questões.

Agora, que efectivamente a comunicação social também dá mais ênfase às questões fracturantes é natural, porque é o que está mais quente neste momento e que, de certa forma, não é disparatado. De facto há muitos assuntos que são fracturantes e que são gravíssimos - no sentido de importantes - e que estão em cima da mesa e que são de uma seriedade inegável, por isso não acho que se esteja a desvirtuar importâncias, acho que o sínodo dará certamente importância às questões de ordem normal das famílias, mas acho que não pode deixar de olhar com muita seriedade, tempo e com muita reflexão para os assuntos mais quentes. 

Acho que é evidente que no momento que estamos a passar agora, tem de ser olhado com muita seriedade, precaução e cautela. 

Perante os desafios que a família enfrenta hoje em dia, a proposta da Igreja é adequada? 
A resposta adequada encontraremos sempre no Evangelho, sempre. Abertos à acção do Espírito Santo, olhando para o Evangelho, certamente encontraremos a resposta ao desafio que temos em mãos em determinado momento. 

Também acredito que entre a doutrina social da Igreja e esta abertura dinâmica à acção do Espírito Santo, a seu tempo, na Igreja se vão encontrar as resposta que cada sociedade e cada tempo da história do mundo precisa. 

Portanto acho que neste momento, e digo isto por experiência de ter à minha frente inúmeras vezes situações difíceis e dramáticas de determinadas famílias, ou de determinado conjunto de pessoas, em que é difícil o que a Igreja propõe. É difícil muitas vezes a adesão ao que a Igreja propõe. Mas daí a dizer que a proposta que a Igreja nos faz é errada, é um caminho longuíssimo, uma coisa não é a outra. Que a proposta seja difícil é um caminho, que a proposta seja errada, é diferente. 

No limite a resposta está no Evangelho, e com oração e abertura ao Espírito Santo encontramos a resposta de certeza absoluta. Aliás, o próprio Papa é a isso que nos convida. Acredito que no momento em que vivemos, entre a Doutrina Social da Igreja e a abertura ao Espírito Santo, encontraremos para cada caso uma resposta adequada. 

O Papa Francisco tem falado do perigo para a família que representa a “colonização ideológica”. Como é que entende este termo e, concorda que a ameaça existe?
Acho o termo genial para explicar o que se passa. Acho que é uma expressão desafiadora. 

De certa forma o que o Papa nos quer dizer é que esta colonização vem de fora. Quem coloniza é quem vem de fora. Aquilo que o Papa nos explica é que há ideologias diversas, inúmeras, que vêm procurar desvirtuar o conceito de família, o objectivo número um da família e aquilo que Deus planeou para as famílias, que é o sonho de Deus da construção de uma família fundada no amor. Há inúmeras ideologias que vêm deturpar isso, e deturpar a origem da família é, no limite, deturpar a construção da sociedade.

Concordo completamente com a expressão do Papa. Temos de estar atentos, porque há imensas ideologias subtis, em nome de uma felicidade enganosa.

Por exemplo?
A forma como muito facilmente, na sociedade encontramos a promoção do divórcio em vez de uma luta por um casamento feliz. Um casamento feliz não significa um casamento baseado em alegrias e gargalhadas, mas sim um casamento fundado na confiança, no amor e na capacidade de em conjunto ultrapassar dificuldades e obstáculos, isso é possível. Mas o que na maioria das vezes encontramos na sociedade é o contrário, o que é claramente enganador. Promover que uma família se destrua em vez de promover que a família lute pelo seu casamento e pela sua felicidade verdadeira é enganador. Não é encaminhar para o bem.

Wednesday, 30 September 2015

As Viúvas e os Órfãos dos Nossos Tempos

Howard Kainz
O cuidado pelas viúvas e pelos órfãos é um tema constante tanto no Antigo como no Novo Testamento. Há exortações e provisões sobre como devem ser tratados no livro de Deutoronómio e do Êxodo. O livro de Job, dos Psalmos e, em particular, dos profetas, aponta continuamente para o mau trato das viúvas e dos órfãos como um mal que será vingado por Deus.

No Novo Testamento Jesus critica os fariseus pelas suas injustiças para com as viúvas (Mt. 23,14). São Tiago sublinha o cuidado pelas viúvas e pelos órfãos como uma das grandes “obras” que deve caracterizar a fé dos cristãos (Ti. 1,27). Os convertidos gregos queixaram-se aos apóstolos de que as suas viúvas não estavam a ser tratadas da mesma forma que as hebraicas (Actos 6,1) e São Paulo aponta vários factores que devem orientar o tratamento das viúvas na congregação de Timóteo (1Tim. 5,3).

Nos primeiros anos do Cristianismo a esperança média de vida era cerca de 35 anos, sobretudo devido aos níveis extremamente altos de mortalidade infantil. Se ajustarmos a estatística tendo isso em conta, a esperança de vida aos 10 anos era cerca de 45 ou 47 anos. As mulheres, claro está, sempre viveram mais tempo que os homens, em média. Logo, as viúvas, incluindo viúvas com filhos, eram mais do que os viúvos. E para as comunidades cristãs iniciais a justiça social para com as necessidades de viúvas e seus filhos era um desafio constante.

Nos tempos modernos, apesar da maior esperança de vida, e das redes sociais que existem nos países industrializados, o problema de assistência a viúvas e suas famílias mantém-se. Mas talvez um problema ainda maior seja, agora, tanto para a Igreja como para os governos (no seguimento da revolução sexual e da era do divórcio fácil), o número enorme de divorciados que se tornam encarregados pobres de famílias monoparentais. As domésticas, que dependiam dos maridos para o sustento financeiro, são particularmente afectadas quando os seus maridos as abandonam. E depois há as trabalhadoras cujo rendimento após o divórcio é insuficiente para sustentar uma casa, filhos e tudo o resto.

Hoje a Igreja está a debater se as mulheres católicas, que se encontravam nestas situações e voltaram a casar, podem receber a comunhão. Às vezes estes casos envolvem divorciadas que foram abandonadas por maridos que decidiram que são homossexuais, ou que abusam fisicamente das mulheres e dos filhos, ou que simplesmente decidiram que querem ser livres dos filhos, ou para poder recasar. Certamente estas mulheres estão numa posição vulnerável para recasar, não apenas por amor e para ter companhia, mas também pelo motivo adicional de sobreviver e poderem criar as suas famílias, sobretudo onde não existe qualquer tipo de assistência estatal.

Em certo sentido, as mulheres recém-divorciadas são para nós o que eram as viúvas para os primeiros cristãos. Algumas paróquias têm organizações para pais solteiros, para ajudar a enfrentar o problema. Mas se a Igreja se vai manter fiel à indissolubilidade do casamento sacramental para pessoas que foram abandonadas pelos esposos, existe alguma medida efectiva para ajudar essas mães solteiras a manter a sua dignidade, manterem-se celibatárias e ao mesmo tempo sustentar os seus filhos e a sua educação?

Jesus cura o filho de uma viúva
Na minha própria família já vi casos em que mulheres divorciadas, com três filhos ou mais, acabaram por ter de ir viver para casa de parentes durante anos, depois de terem falhado todas as tentativas de independência económica. Mas estas combinações por vezes não existem e esta é uma causa que sem dúvida merece uma assistência organizada por parte da Igreja. Para muitas destas mulheres, não basta dizer “fiquem bem e sustentem as vossas famílias – mas se tiveram um casamento sacramental, lembrem-se que é indissolúvel”. Existem também as versões modernas dos “órfãos” dos cristãos primitivos. Provavelmente os exemplos mais visíveis são as crianças vítimas de divórcio, indesejados, sujeitos a negligência ou crueldade, por vezes fugitivos, passados de uma família de acolhimento para outra.

Hoje os orfanatos estão fora de moda, provavelmente devido aos efeitos de histórias como o “Oliver Twist”. E há casos reais verídicos, como as revelações recentes de escândalos nos orfanatos geridos pelos Irmãos Cristãos e as Irmãs da Misericórdia, na Irlanda, ou casos de abusos sexuais praticados contra órfãos, como no orfanato de St. Joseph, em Burlington, Vermont. Se for ao orphanage.org, verá que ainda há alguns orfanatos de católicos, protestantes ou privados. Mas muitos deles mudaram a designação ou então especializaram-se só em encontrar famílias adoptivas ou em tratamento para crianças com deficiência. Noutros casos os sites que aparecem quando se pesquisa por orfanatos são apenas para ex-alunos de orfanatos que entretanto deixaram de existir.

Antes de o aborto se ter tornado a solução fácil para crianças indesejadas, uma familiar minha colocou todos os seus filhos num orfanato católico gerido por freiras, na Califórnia. Mas agora, tal como com as escolas católicas, praticamente não existem freiras suficientes para dar seguimento a um ministério tão exigente.

Existem muitas organizações pró-vida que merecem o nosso apoio, mas quase nenhuma se dedica à adopção – o que parece ser a resposta positiva mais evidente para quem está a pensar abortar. Poucas organizações especializam-se em ajudar mulheres durante as suas gravidezes e também em ajudá-las a encontrar pais adoptivos bons e competentes.

Há muitos casais que querem adoptar crianças – um processo que envolve longos processos, custos consideráveis e burocracia. O Papa Francisco acabou de simplificar os processos de nulidade. Tornar a adopção mais fácil é não menos importante e pode ajudar a reduzir as nossas estatísticas de aborto assustadoras. Talvez alguns dos manifestantes à porta das clínicas de aborto deviam levar sinais a dizer que ajudam a completar um processo de adopção.

Claro que ainda existem muitas viúvas e órfãos no sentido tradicional, mas as mudanças na moral dos nossos dias e a existência de divórcios fáceis criaram problemas que são em tudo parecidos.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 26 de Setembro de 2015)

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Friday, 25 September 2015

Papa pede reforma do Conselho de Segurança

O Papa na ONU
Continuamos a acompanhar o Papa nos EUA, onde hoje fez um discurso à ONU e pediu – o que é inédito para um Papa – uma reforma do Conselho de Segurança. A Renascença preparou um explicador sobre o que está em causa com este pedido. Aqui, o essencial do discurso do Papa.

Francisco seguiu depois para o Ground Zero onde decorreu um encontro inter-religioso muito bonito e muito colorido e onde o Papa falou da esperança que nasce do local daquela tragédia.

Entretanto, ontem o Papa não se esqueceu de mencionar a tragédia de Meca. Morreram mais de 700 pessoas e a culpa, dizem os sauditas, é das próprias vítimas.

A visita termina apenas no domingo e até lá podem ir acompanhando toda a informação na Renascença.

Esta sexta-feira o Patriarca de Lisboa apelou ao voto nas eleições legislativas, lamentando ainda que não haja referências à família nos programas eleitorais dos partidos.

Thursday, 24 September 2015

Papa faz história nos EUA, mais uma tragédia em Meca

O Papa Francisco protagonizou esta quinta-feira um momento histórico, ao discursar diante do Congresso americano. Foi um longo discurso em que Francisco falou de quase todos os temas importantes – como a pena de morte, aborto, ecologia, casamento, capitalismo, refugiados, migrações, etc. – e deixou o edifício sob uma ovação de pé.

Logo de seguida, Francisco foi almoçar com pobres e sem-abrigo. Aí fez um discurso muito mais rápido mas também muito profundo. Não há razão para as pessoas não terem casa, disse o Papa, e a oração é um veículo de nivelamento social, uma vez que na oração somos todos irmãos, afirmou.

Ontem, já depois de eu ter enviado o mail diário, Francisco celebrou a missa de canonização de Junípero Serra onde fez um apelo muito bonito e apaixonado pela evangelização.


Mudando de assunto, deu-se hoje uma terrível tragédia em Meca, onde milhões de muçulmanos congregam para a peregrinação anual. Mais de 700 mortos e centenas de feridos em mais uma debandada que resultou em esmagamentos.

Por fim, o Patriarca de Lisboa voltou a falar da questão dos refugiados, dizendo que estes precisam de casa, escola e trabalho.

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