Tuesday, 11 June 2013

“Cristianismo está sob ataque de um politicamente correcto totalitarista”

Transcrição integral da entrevista feita a Octávio dos Santos. A notícia completa pode ser lida aqui.


Temos aqui uma colecção de ideias e propostas, uma grande preocupação sobre Portugal. De onde vem esta preocupação?
Não sei ao certo de onde vem, mas sei que vem de há muito tempo. Aliás o primeiro texto do livro, que é como o início oficioso do mesmo, porque eu só comecei a pronunciar-me sobre a realidade portuguesa em 1985/1986, mas há um texto de 1975/76.

Claro que eu era muito novo ainda quando foi o 25 de Abril e o PREC e eu via tudo a passar-se à minha volta e sentia e os meus pais explicavam, que o país estava a passar por grandes transformações. Com o decorrer dos anos fui formulando a minha personalidade, vendo o que se passava e senti a necessidade de exprimir o que pensava, o que deveria ser diferente, o que devia ser melhorado. Os anos foram passando, os protagonistas também, mas eu sentia que muitos dos problemas continuavam por resolver, alguns até se iam agravando.

Para si grande parte destes problemas têm as suas raízes há mais de um século…
Sem dúvida alguma. A instauração da República. O meu processo de maturação política e do meu pensamento levou tempo. Vamos conhecendo a história, falando com as pessoas, conhecendo aspectos que não são divulgados, propositadamente. Passado pouco tempo pude descobrir, como qualquer pessoa pode, que antes da implantação da república havia um regime que, longe de ser perfeito, tinha qualidades e estava em consonância com o que se passava noutros países da Europa da altura. Havia liberdade de expressão, foi a época da geração de 70 em que Eça e todos os seus contemporâneos puderam exprimir-se, desenvolver-se. Rafael Bordalo Pinheiro, houve progresso material, Fontes Pereira de Mello, e não só.

O que é certo é que a implantação da República, ao contrário do que muitos apregoaram e as comemorações do Centenário da República há três anos pretendeu inculcar essa ideia, que é falsa, a implantação da República não foi uma melhoria, nem um progresso. Pelo contrário, foi um retrocesso. Portugal e os portugueses passaram a ter menos liberdades menor liberdade de expressão, e em termos económicos e sociais houve claramente uma degradação do Estado do país.

Não estamos aqui perante um incidente isolado que mudou o regime. Há aqui uma ideologia que condena também e que identifica com outros factores, como a introdução do “casamento” entre homossexuais, por exemplo…
Digamos que ao longo dos últimos anos tem-se visto a hipocrisia por parte de certos políticos. Por um lado incentiva-se que a população se pronuncie, mas ao mesmo tempo que se queixam que essa participação não se verifica, o que é certo é que em determinados assuntos que são fundamentais, polémicos e controversos, mas fundamentais, não é dada a oportunidade aos portugueses de se manifestarem, e este é apenas um exemplo.

Outro exemplo ainda mais absurdo e anedótico é o acordo ortográfico em que todo um fundamento basilar do país e da nossa identidade é posto em causa de forma inútil e absurda, imposta de cima para baixo, contra todos os pareceres, excepto os dos que elaboraram o dito acordo, e em que as vozes dissonantes, que representam mesmo a maioria da população são sistematicamente caladas.

Não há, ao contrário das grandes promessas que foi havendo ao longo dos tempos, sobretudo depois do 25 de Abril, não há uma transparência e uma relação de lealdade para com os cidadãos. O que é mais grave é que vozes de outras pessoas, como eu, que têm certas ideias, sentem-se e por vezes são mesmo postas de lado e não têm acesso tão fácil a certos meios para partilhar as suas ideias.

É monárquico, fala disso várias vezes, tem um percurso nesse sentido, incluindo a publicação da obra de ficção “A República Nunca Existiu”. Mas que monarquia é que quer, tendo em conta que muitas das monarquias europeias actuais também têm os escândalos e as medidas que tanto critica, como o “casamento” entre homossexuais, por exemplo.
Há que ver o que se passou, para já, na nossa história. O que se passa em Portugal é que a discussão entre república e monarquia não é, ou não deve ser, meramente teórica, porque já temos experiências concretas de uma e de outra, portanto dá para comparar. Depois, podemos estar atentos com o que se passa noutros países e aprender com os erros que se passam nesses países.

Claro que, para já, para um país como Portugal em que o grande problema não é só financeiro e económico, mas também de ânimo, psicológico, em que o país precisaria de um novo dinamismo e incentivo, de uma nova vontade para crescer e desenvolver-se, a crise não passa com esta classe política e com esta forma de dirigir o país em que o Presidente da República, seja quem for, acaba por se comportar, ou pelo menos é visto como tal, como um elemento de uma facção, porque aliás ele é sempre um elemento de uma facção. Ele nunca é eleito ou aclamado ou sufragado pela generalidade do povo português. Portanto para um país como Portugal, com a sua história e as suas características, a monarquia é, aliás já era e continua a ser, a melhor solução nesse aspecto. Mas como eu digo também, num artigo que encerra o meu livro “Um Novo Portugal”, a solução não passa simplesmente por alterar a chefia de Estado, teria de haver, idealmente, uma completa reformulação em muitas das instituições do país.

Tem aqui muitas críticas. Não falta um tom de esperança?
Digamos que já houve um período em que tive mais esperança do que tenho hoje. Na viragem do século, final dos anos 90, em que coincidiu aqueles anos da Expo 98, todo aquele movimento foi algo de espantoso que não se via há muito tempo, como a solidariedade com Timor. Naquela altura pensei, “bom, talvez estejamos no caminho certo”. Mas depois as coisas complicaram-se. Houve ali um dinamismo que não teve continuidade, não apenas por questões políticas.

Eu não tenho dúvidas que homens e mulheres de qualidade possam existir na esquerda e na direita, embora eu não me considere nem uma coisa nem outra, mas o que é certo é que se os dados estão viciados à partida, se as instituições e o modo de funcionamento já mostraram que não são os adequados, é difícil as pessoas, por maiores que sejam as qualidades, consigam alterar o estado de coisas, esse funcionamento.

Não tenho motivos de esperança quando, por causa desta crise que estamos a atravessar, que nunca é demais recordar é da inteira responsabilidade do anterior primeiro-ministro, torna-se difícil quando vemos tanta das nossas capacidades, nomeadamente através dos nossos concidadãos, desistirem ao ir para o estrangeiro, ou até ficando cá e desistindo de participar e dar o seu contributo porque não têm incentivos para isso, porque sentem coarctados os seus esforços.

Tem também textos sobre a regionalização, um debate que se vai reacendendo. Contrapõe com o municipalismo. O que é esse conceito, e de que modo é melhor que a regionalização?
Tem longas tradições. Aliás isso é algo que distingue Portugal na sua história de outros países. Tenho dúvidas que Portugal tenha passado por um regime feudal. Portugal nasceu por causa de uma personalidade de um rei forte. D. Afonso Henriques tinha uma personalidade fortíssima e o certo é que sempre que na história o rei de Portugal não foi forte, o país ressentiu-se. Portanto havia nobres com importantes papéis e contributos, prestígio e influência, mas o crescimento de Portugal passou muito por dar voz e autonomia, pelos forais, às populações e aos concelhos.

Por isso, apesar dos muitos abusos que se verificaram, creio que o contributo do poder local acabou por ser mais positivo que negativo, embora sem dúvida com alguns defeitos. Mas caramba, não vamos esperar que todas as pessoas sejam perfeitas e é por isso que devia existir, por um lado, um sistema de justiça que funcione, atento, eficaz. Não o temos tido. Uma comunicação social atenta, que até certo ponto faz isso, que denuncia, que informa, que alerta. Portanto nesse nível como em todos tudo passa por cada um de nós, individualmente, ou integrados nas organizações em que estamos integrados, darem o seu contributo e esforçarem-se por fazer o seu melhor, não se conformarem, mas na situação em que estamos é difícil a pessoa não se sentir um bocado desalentada.

Estamos a chegar ao dia 10 de Junho. O Octávio considera que esse não devia ser o dia de Portugal. Porquê, e que alternativa propõe?
Pura e simplesmente 10 de Junho começa por ser o dia de Camões. É talvez a única data que podemos associar a Camões, mas é a data da morte dele.

Aquilo que me parece incongruente é que o dia de Portugal, em que devíamos celebrar a nossa existência, enquanto nação independente, seja para já a data da morte de um poeta, do nosso maior vulto literário, mas que é também a data em que Portugal perdeu a sua independência, em que a dinastia dos Felipes entra em Portugal e assume a liderança e os destinos do país.

Para mim não faz sentido que o dia de Portugal seja da época em que Portugal perdeu a sua independência. Outras datas haveria. Eu elenco-as, mas creio que o dia que melhor serviria seria o 14 de Agosto, da Batalha de Aljubarrota. Essa foi uma data a todos os níveis importante, em que Portugal reafirmou a sua independência, consolidou a dinastia de Avis, com tudo o que veio a proporcionar a seguir, a expansão, os descobrimentos.

Estranha-se, no seu livro, uma ausência de referências ao papel da religião na sociedade portuguesa…
Digamos que essa é uma questão complicada, faz parte da minha própria evolução pessoal. A religião está sempre presente, mesmo que seja de forma sub-reptícia, seja para mim, seja para os outros, mesmo que não queiram assumir. O livro é feito de artigos escritos e publicados em locais e anos diferentes, mas se isso não está claro quero que fique aqui, que é algo de que me orgulho, da tradição cristã portuguesa, que não deve ser posta em causa. É um debate que passa também pelo resto da Europa, em que o Cristianismo nas suas diferentes facetas parece estar sob ataque de um politicamente correcto que em alguns aspectos assume formas de verdadeiro totalitarismo.

Por isso, valores que são totalmente contra os nossos princípios de sociedade ocidental de tolerância e desenvolvimento acabam por surgir. Defender o Cristianismo, e não estou com isto a dizer que não deve haver tolerância para os outros, é um valor que deve ser preservado, se não na sua vertente religiosa, pelo menos na vertente social, de valores, de respeito pelo próximo, mas respeito sem permitir que aquilo que temos de melhor seja posto em causa.

Friday, 7 June 2013

Problemas psiquiátricos do Papa e diálogo selectivo

O Papa pôs de lado o seu discurso hoje, por considerar ser “demasiado aborrecido” ler um texto de várias páginas perante um auditório cheio de estudantes de colégios jesuítas. Seguiu-se uma animada sessão de perguntas e respostas com o Papa a dizer, entre outras coisas, que foi viver para a casa de Santa Marta por razões de ordem psiquiátrica.



Thursday, 6 June 2013

Papa sem férias e viagens que se prolongam no tempo...

O mais próximo que o Papa vai
estar de uma palmeira este verão
Começa hoje uma peregrinação à Terra Santa da Universidade Católica. Este é o tipo de viagem que não acaba com o regresso a casa, explica uma peregrina que a fez recentemente. Aqui podem ler a entrevista completa ao padre João Lourenço, especialista na Terra Santa e orientador desta peregrinação.

O Papa Francisco não vai para Castel Gandolfo nas férias, não fazia férias enquanto arcebispo de Buenos Aires, não fará agora, explica o Vaticano.

Os futuros diplomatas do Vaticano correm o risco de se tornarem leprosos… ou de serem carreiristas, o que segundo o Papa é mais ou menos a mesma coisa. Seja como for, o melhor é ter cuidado, alerta Francisco!


“Uma peregrinação à Terra Santa é um belíssimo instrumento de evangelização”

Transcrição integral da entrevista ao padre João Lourenço, director da Faculdade de Teologia da Universidade Católica, a propósito da peregrinação à Terra Santa da Universidade. A notícia encontra-se aqui.


Quantas pessoas vão nesta peregrinação e quanto tempo dura?
Trata-se de uma peregrinação que eu considero um programa longo, são duas semanas. Inclui a totalidade de Israel e também a Península do Sinai, incluindo a subida ao Monte Sinai e a visita ao Convento de Santa Catarina.

É uma peregrinação singular porque feita a partir da Universidade Católica, mas também porque reúne dois grupos, um que vem directamente de Macau, constituído por 17 pessoas, que vêm via Hong Kong, e um grupo de Lisboa, incluindo pessoas ligadas à universidade, na sua maioria, e outras menos próximas. As ligadas à universidade são essencialmente as que frequentam os cursos que eu oriento, ou pessoas amigas. De Lisboa vão 16 pessoas.

É uma tradição a Universidade Católica peregrinar à Terra Santa?
Eu já orientei outras iniciativas semelhantes a esta, a partir da universidade. A primeira, propriamente, que remonta a uma relação com a universidade foi em 1988, em que participou D. José Policarpo que nesse mesmo ano tinha sido nomeado reitor. Várias vezes fiz peregrinações destas com grupos de finalistas. Depois a tradição interrompeu-se e desde o meu regresso desenvolvi mais neste sentido.

Da sua parte não será a primeira vez. Que experiência tem da Terra Santa?
Estudei em Israel durante dois períodos de tempo que perfazem cinco anos, quatro a fazer o meu doutoramento, de 1980 a inícios de 1985, depois mais tarde por alguns meses entre 2003 e 2004, em licença sabática para preparar a minha agregação. Portanto posso dizer que conheço melhor Israel que Portugal, pelo menos na sua diversidade geográfica, histórica, espiritual, nos seus caminhos e itinerários. Para além disso dirigi já várias viagens. Uma das que faço frequentemente é precisamente ao monte Sinai, ao qual espero subir em breve pela 12ª vez.

Portanto vou lá num ritmo relativamente anual, às vezes com duas ou mais visitas, se bem que desde que sou director da Faculdade de Teologia tenho menos tempo. Para além disso tenho cartão de guia de peregrinações, pelo que não só organizo e preparo os programas, como faço de guia na totalidade da peregrinação, não só espiritual. Isso dá-me uma satisfação muito grande porque acredito e sinto que uma peregrinação à Terra Santa é um belíssimo instrumento de evangelização e de fazer uma nova catequese, que contextualizada, localizada, quer histórica e geograficamente pode retirar-se e colher-se mais benefícios espirituais, tanto em grupo como individualmente.

Para mim é um instrumento muito importante, que por outro lado, como sou professor de Sagrada Escritura, me ajuda a actualizar e a passar aos peregrinos aquilo que já escutaram e sentiram a partir do texto, ou no estudo exegético e hermenêutico dos textos bíblicos.

É importante, a seu ver, viajar com um guia, alguém que já conheça o local e as suas histórias?
Essa é uma questão muito importante. Em Israel há bons guias, conheço alguns bons, excelentes, respeitadores, conhecedores da realidade cristã e atenciosos. Não diria que todos, mas uma parte sim. O que é importante quando se prepara uma viagem à Terra Santa, se se quer que seja verdadeiramente uma peregrinação e os peregrinos colham os melhores frutos dessa experiência e dêem por bem empregues os custos e os sacrifícios que fazem para poder beneficiar desses momentos, creio que uma viagem dessas deve ser bem preparada e deve ter alguém, se não o guia primeiro da peregrinação, pelo menos um bom assistente espiritual.

O que sucede muitas vezes é que os programas são de descanso disfarçado, são viagens quase iguais às outras, os grupos compram os programas e não propõem os seus programas.

No meu guia da Terra Santa deixei algumas propostas de programas que se podem fazer, para grupos, sacerdotes, orientadores de peregrinações, com motivações, lugares, itinerários, percursos adequados, o que permitirá aos grupos beneficiar mais. Portanto uma viagem à Terra Santa, para ser uma peregrinação, tem de ter esta matriz, esta identidade específica. Caso contrário não será uma peregrinação, chamem-lhe uma visita turística, um percurso, um itinerário de matriz histórica, tudo isso tem o seu lugar, mas acho que para uma identidade específica de um grupo em peregrinação, e para poder beneficiar dessa riqueza, que pode proporcionar, tem de ser bem acompanhada e bem organizada, não deixar que sejam as agências a fazer os percursos, mas que cada guia, chefe ou responsável do grupo, saiba de facto ter uma identidade específica para conferir a esse grupo.

Isso é uma tarefa muito importante e creio que com isso todos beneficiam e as viagens podem tornar-se de facto um momento privilegiado na vida de cada pessoa.

Durante a peregrinação existe algum contacto com as comunidades cristãs locais?
Procuramos algum contacto. Não é fácil. Os contactos que acima de tudo procuramos é sermos recebidos por alguém da Custódia da Terra Santa, que nos apresenta as dinâmicas pastorais e motivações fundamentais que presidem à espiritualidade da Terra Santa e à presença dos cristãos.

Os contactos com as comunidades, às vezes ocasionais, acontecem com grupos que se cruzam connosco ou que celebram ou antecedem as nossas celebrações. É difícil fazermos visitas porque as comunidades só se reúnem ao domingo, Sábado ou sexta-feira, de acordo com as possibilidades que têm, e isso é de facto muito difícil, porque os itinerários são marcados por um ritmo acelerado. Para podermos fazer mais esse contacto com os santuários, as experiências dos lugares, o percurso das estradas e dos itinerários bíblicos, o nosso tempo é muito limitado. Mesmo com duas semanas, muito fica por fazer.

Para os cristãos não há centros de peregrinação obrigatórias, como existe no Islão, por exemplo, mas acha que todos os cristãos devem tentar ir à Terra Santa?
Eu diria que isso era um ideal, desde que fosse uma experiência espiritual, não uma obrigação ou uma necessidade.

Um contacto com a Terra Santa pode ajudar os cristãos a interiorizar, a percepcionar, a ter aquela experiência interior, de uma dimensão mais contextualizada e mais vivenciada daquilo que é a realidade bíblica, dos dinamismos da experiência e da teologia bíblica. Contextuar, situar no espaço e no tempo, ter uma geografia bíblica da realidade da palavra bíblica é uma experiência importante e um elemento importante.


Na minha experiência os inúmeros grupos que têm ido comigo, muitos dizem que a partir da visita toda a riqueza da palavra tem um novo sabor, um novo sentido.

Wednesday, 5 June 2013

Lords give me patience!

"Oh dear lord..."

Com tudo o que se está a passar na Turquia, não me admirava que isto fosse aproveitado por Erdogan para dar polémica… O Papa disse na passada segunda-feira que a tragédia que se abateu sobre os arménios no início do século XX foi “o primeiro genocídio do século XX”. Os turcos não vão gostar…

Pelo Reino Unido esperava-se um voto renhido, mas o “casamento” entre homossexuais foi aprovado na Câmara dos Lordes por larguíssima maioria. Ainda por cima os bispos anglicanos mostraram-se divididos com nove a votar contra e cinco a absterem-se.


Lembram-se da história de Audrey Stevenson, narrada por Austin Ruse em The Catholic Thing? Hoje publicamos mais uma história das “pequenas almas sofredoras”, não deixe de ler!

Entretanto não se esqueça que hoje é dia de debate sobre religião na Renascença. Quem quiser deve sintonizar a partir das 23h30, mais ou menos.

As Pequenas Almas Sofredoras, 2ª parte: Margaret Leo de McLean

(Este é o segundo artigo de Austin Ruse sobre este tema. O primeiro encontra-se aqui)

Porque é que um juiz do Supremo Tribunal tem em cima da sua secretária dois desenhos feitos por uma menina que morreu há seis anos? E porque é que o director de um influente “think tank” em Washington D.C. rezou por intercessão da mesma rapariga para salvar o seu pai de um tumor cerebral? E que dizer do importante pensador de Washington que lhe reserva uma devoção particular?

Margaret Leo sofria de uma grave deficiência provocada por espinha bífida, que a deixou paralisada da cintura para baixo. Partes do seu cerebelo e tronco cerebral estavam pressionados contra a abertura da sua coluna. Tinha um tubo no cérebro, que lhe causava muitas dores, para garantir a circulação do líquido cefalorraquiano, sem o qual a sua cabeça incharia, causando-lhe a morte. Barras de titânio foram inseridas para lhe endireitar a coluna, mas acabaram por dobrar-se. Com o passar do tempo uma dessas barras começou a tentar irromper através do seu pescoço.

Vomitava regularmente e não controlava nem a bexiga nem os intestinos. A boca era tão sensível que apenas conseguia comer alimentos moles, como massa.

Mas havia algo que atraía a ela, que era desprovida de poder, tanto os poderosos como as pessoas comuns.

A amizade alegre era o seu dom especial. Interrogava incansavelmente quem lhe aparecesse pela frente no elevador, sempre com um firme e grande sorriso: “Como é que te chamas?” “Para onde vais?”, “Quando é que fazes anos?”. Era notório que estava mesmo interessada em saber. Não era uma rapariga de artifícios. Isso é algo que até atrai juízes do supremo tribunal.

Mas o que essas pessoas não sabiam, porque ela nunca falava nisso, nem mesmo à sua família, era que provavelmente estava a sofrer dores inimagináveis. Pensem numa barra de titânio a ser dobrada pela vossa coluna e prestes a irromper pela pele do pescoço; ou um tubo dentro do cérebro.

Não era propriamente uma “atleta espiritual”. A sua fé era muito infantil. Toda a vida rezou em voz alta a simples oração que a sua mãe lhe tinha ensinado em criança: “Jesus, obrigado por teres vindo a mim na Eucaristia”.

Adorava padres. Aos três anos perseguiu o bispo no fim da missa, gritando: “Papa. Papa. Papa”. Insistia em entrar na sacristia depois da missa para falar com os padres. Sabia sempre quem era o santo do dia. Durante dois felizes anos preparou-se para o Crisma, que recebeu apenas alguns meses antes de morrer.

Na manhã do dia 5 de Julho de 2007 o seu pai reparou que estava com dificuldades a respirar. Ela disse que estava bem, mas ele chamou a ambulância de qualquer maneira. Morreu a caminho do hospital – o tubo no cérebro tinha falhado.

As cerimónias fúnebres desta rapariga de 14 anos estavam repletas de pessoas e rapidamente começaram a circular histórias sobre ela. Homens adultos manifestaram-se profundamente comovidos, alguns ainda levam consigo a sua pagela.

Depois começaram a ocorrer coisas… alguns chamam-lhes milagres.

Primeiro começaram a surgir medalhas do Sagrado Coração nos lugares mais insuspeitos – numa taça de rebuçados de um hotel em São Francisco, debaixo de uma máquina de lavar numa casa de férias, no assento de um lugar de avião.
 
Margaret Leo
Depois, seis semanas após a sua morte, uma ambulância conduziu William Shaunessy (nome falso) à urgência do hospital. Estava a ter convulsões. Um raio-X revelou um tumor enorme no cérebro. Entrou em coma e os médicos temiam a existência de cancro. A sua mulher preparou-se para a sua morte.

Meses antes Shaunessy tinha ido ver um jogo de basebol do seu neto. Leonard Leo, vice-presidente executivo da Federalist Society e um dos conservadores mais influentes da capital, também lá estava.

Shaunessy falou longamente com Margaret, a menina de cadeira de rodas que era filha de Leonard e Sally Leo. A sua simpatia, a sua profunda atenção e a sua “santidade”, como mais tarde ela a descreveu, tocaram-no profundamente. Quando soube da sua morte comentou: “Está certamente no Céu”.

Quando Shaunessy estava às portas da morte, nesse dia 26 de Agosto, a sua família orou por intercessão de Margaret Leo. Acontece que esse era o dia de anos de Margaret. Dentro de poucos dias o “grande tumor” no seu cérebro estava reduzido a uma pequena mancha de sangue seco. Os médicos não o sabem explicar.

O terceiro milagre envolve o seu irmão mais novo, Francis, que foi concebido pouco depois de ela ter morrido. Para choque da família o nascituro foi diagnosticado com precisamente a mesma maleita de que Margaret tinha sofrido, espinha bífida, algo que raramente surge na mesma família duas vezes.

Sally Leo rezou por intercessão de Margaret, pedindo apenas que o rapaz não precisasse de colocar um tubo no cérebro, precisamente a coisa que tinha feito sofrer tanto Margaret e eventualmente levado à sua morte. Mas aconteceu que ele veio mesmo a precisar de um. Dentro de um ano chegou o pesadelo. O tubo falhou e a cabeça de Francis começou a inchar perigosamente.

Antes de a cirurgia começar o inchaço diminuiu. Como precaução os médicos deixaram o tubo lá dentro, caso voltasse a ser preciso. Cinco anos depois continua lá, inutilizado.

Porque é que o juiz Clarence Thomas mantém uma foto dela em cima da sua secretária? E como é que ela comoveu tantos outros? Porque carregou a sua imensa cruz com uma alegria infecciosa, sim, mas também porque se interessava genuinamente por todos aqueles com quem se encontrava, desde o poderoso ao desconhecido.

Em casa dos Leo há uma fotografia de Margaret a conversar com Virginia, a mulher de Thomas, num evento em Washington, o tipo de evento onde ninguém se olha nos olhos, estando sempre à procura de alguém mais importante com quem ir falar.

Aquilo que se nota na foto é o aspecto central da vida de Margaret. Ela está completamente absorvida pela Virginia. Para Margaret, naquele momento, não existia mais ninguém na sala e foi assim que ela viveu a sua vida. Esta menina, completamente desprovida de poder, possuía, afinal, o maior poder de todos: amor. Talvez o maior dom dela tenha sido a capacidade de ver Cristo em todas as pessoas com quem se cruzava. Não podemos deixar de pensar que agora é na cara de Cristo que as vê.

Margarte Leo de McLean, rogai por nós.


Austin Ruse é presidente do Catholic Family & Human Rights Institute (C-FAM), sedeado em Nova Iorque e em Washington D.C., uma instituição de pesquisa que se concentra unicamente nas políticas sociais internacionais. As opiniões aqui expressas são apenas as dele e não reflectem necessariamente as políticas ou as posições da C-FAM.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 31 de Maio 2013 em The Catholic Thing)


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