Monday, 22 April 2013

Os "judeus da nação portuguesa"

Rabino Lopes, à direita
Transcrição completa da entrevista com o Rabino Luciano Mordekhai Lopes, da comunidade sefardita de origem portuguesa. A notícia pode ser vista aqui.

Quem são os sefarditas?
Os judeus sefarditas, historicamente, são os de origem ibérica. Embora hoje em dia, depois da criação do Estado de Israel sejam considerados todos os judeus que não de origem europeia, isto é, que não sejam alemães, franceses e posteriormente os de origem eslava, chamados Ashkenazis.

Os judeus ibéricos seriam sefarditas. Mas hoje em dia mesmo os judeus do
Iémen, ou Iraque, são chamados Mizrahim, orientais, e outros chamam sefarditas simplesmente para distinguir entre dois grupos, como se houvesse apenas dois grupos de judeus, mas não, há muitos grupos de muitos locais.

Portanto os judeus sefarditas são os de origem ibérica, mesmo que tenham emigrado como aconteceu depois de 1492 em Espanha, em que muitos foram para o Império Otomano, ou para a África do Norte. Alguns chegaram mesmo até à índia, mas esses eram de origem portuguesa. Portanto no sentido mais estrito são exclusivamente os de origem ibérica ou os que não sendo, foram criadas no seio dessa cultura.

Entre os que têm ligação histórica a Portugal, existe também uma ligação sentimental?
Isso é muito importante. Os judeus ibéricos são muito arreigados a essa questão da idade de ouro, que abarca Portugal, que na altura do domínio muçulmano fazia parte do Al-Andaluz.

Até hoje entre os judeus portugueses na Holanda, apesar de não falarem português e de 90% da comunidade ter sido exterminada durante a Segunda Guerra, mantêm palavras em português no ritual. Quando se chama alguém para ir ler o Livro da Lei a pessoa é chamada em português. Outra coisa é o apelido, raramente as pessoas mudam o apelido. É o caso da minha família que saiu de Portugal no século XVII e mantiveram o apelido em Itália até emigrarem de Itália para o Brasil.

Mantêm alguns pratos típicos. No ano novo é tradicional comer-se bacalhau. A questão cultural é muito arreigada e os judeus portugueses sempre se referem a si mesmos como judeus da nação portuguesa. Sempre foi deixado claro, as pessoas que conseguiram sair de Portugal sempre mantiveram laços com os familiares em Portugal, fosse por razões mercantilistas ou por casamento.

No meu caso sempre que posso vou a Portugal. Quando vivia em França, todas as férias que tinha ia a Portugal, só não conheço o Algarve.

A ligação é muito forte, o próprio rito usado é o luso-castelhano mas é o rito tipicamente português. A maneira de pronunciar o hebraico, o serviço na Sinagoga, é um serviço que tem origens em Portugal e a musicalidade do serviço é típica dos judeus portugueses. Embora os sefarditas sejam um só grupo, os hispano-portugueses, histórica e culturalmente diferem dos espanhóis que emigraram para o império otomano ou para Marrocos.

E como é que recebeu esta notícia da aprovação da lei que permite conceder nacionalidade portuguesa aos judeus sefarditas com ligação a Portugal?
Com muita felicidade, porque na verdade isto começou a nível pessoal há 13 anos. Eu já tinha vindo a consultar com cônsules e serviços portugueses no exterior. Tentei com o cônsul português em Vancouver, no Canadá, escrevi algumas vezes ao Governo, e as respostas não eram de má vontade, mas simplesmente as pessoas não sabiam o que responder.

Rabino Luciano, em Jerusalém
Há cerca de dois anos mantive contacto com o deputado José Ribeiro e Castro, do CDS, e na mesma época com o professor Mendo Castro Henriques, que me apresentou ao Francisco Cunha Rego, do Instituto de Democracia Portuguesa. O deputado Carlos Zorrinho, a Maria de Belém e o advogado Bruno Cabecinha também estiveram muito envolvidos. O deputado Ribeiro e Castro lançou umas perguntas parlamentares nesse sentido e recebeu umas respostas que nos permitiram analisar o que fazer.

Com o apoio destes amigos estivemos dois anos a trabalhar nisto, a enviar informações e explicações, porque as pessoas precisavam de saber quem são os judeus portugueses, onde vivem, se são muitos, se são poucos, todas estas informações foram trocadas ao longo de dois anos.

Ficámos ansiosos quando soubemos que a lei ia ser votada agora, esperava que só fosse depois das autárquicas, por causa do contexto dos problemas que Portugal está a passar agora. Acordámos bastante cedo e ficámos a acompanhar as votações no Canal Parlamento. Assim que saiu a notícia comemorámos muito. A minha esposa chorou bastante. É uma luta, embora não esteja 100% terminada, espera-se que tudo acabe bem. Foi uma notícia grandemente recebida, o meu primo em Israel ficou muito feliz e outros judeus sefarditas também.

Há cerca de dois anos tinha sido apresentado um projecto na Câmara de Lisboa mas as reacções não foram muito positivas.

Estamos a falar de quantas pessoas? Será uma medida mais simbólica? Quantas pessoas poderão vir a pedir a nacionalidade?
A comunidade sefardita de origem portuguesa é relativamente pequena dentro da comunidade sefardita em geral. Muitos poderiam interessar-se pelo ponto de vista simbólico e nostálgico. Eu mesmo sempre tive a intenção de viver em Portugal, mesmo quando vivia em França, há sete anos, sempre visitei o país, tenho inúmeros amigos lá e gostava que as minhas filhas crescessem lá, porque considero uma sociedade muito sadia. Quando a minha família saiu foi para Itália, mas sempre tive muito mais carinho por Portugal.

Estimo que pelo menos, de início, talvez umas 50 pessoas, das que eu conheço pessoalmente, estarão interessadas. Há outros que eu não conheço e que poderão querer aproveitar-se disto, nem que seja de maneira simbólica.

Com esta medida Portugal fez as pazes com a comunidade sefardita?
Eu creio que sim, acho que não se pode apagar o que se fez no passado mas pode-se consertar coisas para o futuro.

O povo português, historicamente, nunca foi um povo anti-semita. Historicamente, tirando o período da inquisição, não cultivou o anti-semitismo. Por isso a meu ver este gesto, sim, acho que sim, fecha uma página da história, que não pode ser apagada, mas a vida segue.

Os sefarditas têm muito isto, não tendem a lamentar-se das coisas, mas sim lembrar-se das coisas que se passaram e as lembranças boas da vida na Península Ibérica foram o que ficou para os sefarditas, muito mais do que as atrocidades no período inquisitorial.

Friday, 19 April 2013

Missa às escuras e terroristas chechenos

Missa às escuras

Ontem realizou-se uma vigília pelas vítimas, três mortos e mais de 170 feridos, durante a qual foi lida uma mensagem do Papa Francisco.



Wednesday, 17 April 2013

Igreja não é babysitter e a morte de uma lenda

Nem a Igreja é nossa babysitter...
Dias depois de eu ter escrito sobre o caso Gosnell o julgamento começa a merecer mais destaque na imprensa e na sociedade nos EUA, mas também em Portugal.

O Papa Francisco continua a fazer homilias públicas todas as manhãs, que por sua vez dão cada uma três ou quatro notícias. Hoje disse que a Igreja é, para os católicos, uma mãe… e não uma babysitter!


Amanhã Francisco recebe o novo embaixador português e, das suas mãos, uma garrafa de vinho do Porto com 20 anos.

O Corpo de Deus deixou de ser feriado, mas não é por isso que os católicos devem deixar de participar na respectiva procissão, pede o Patriarca de Lisboa.


E por fim, morreu George Beverley Shea. Menos conhecido em Portugal, era uma lenda da música gospel, como podem constatar:

Homens como Cristo, Cabeça da Igreja

Randall Smith
Durante o Inverno, depois de um nevão particularmente pesado, saí de manhã cedo e liguei o motor do carro da minha mulher, depois arranquei uma camada de gelo de dois centímetros do vidro e retirei cerca de 30 centímetros de profundidade de neve do caminho entre a casa e o carro. Enquanto a minha mulher retirava o carro da entrada da garagem não pude deixar de pensar para comigo, enquanto permanecia ali de pé na neve, cansado e com frio: Adoro ser casado!

A sério.

Casei-me um pouco tarde, por isso as alegrias de fazer coisas como limpar a neve para outro poder retirar o carro, ou retirar gelo do seu pára-brisas, estavam-me vedados durante os meus anos de solteiro. Estou verdadeiramente arrependido disso agora, embora seja difícil perceber, mesmo em retrospectiva, como é que Deus poderia ter lidado comigo de outra forma. Para poder gozar um casamento é necessário deixar de ser um egoísta tonto. Infelizmente, ainda não estava preparado.

Conheço muitas raparigas católicas solteiras que são talentosas e bonitas (onde é que andavam quando eu era mais novo?), e todas têm a mesma queixa. Onde estão todos os – aliás, – onde está qualquer bom homem católico que esteja pronto para casar? Costumava pensar que estavam apenas a carpir – as pessoas gostam muito de se queixar. Mas começo a entendê-las melhor. À medida que procuro encontrar esposos adequados para as muitas jovens católicas que estão ansiosamente à procura, descobri que de facto não há muito por onde escolher.

Adoro os meus alunos católicos. Alguns são mesmo porreiros. Mas mesmo os melhores deles não estão propriamente prontos para a alta competição, pelo menos por enquanto, e sabem-no. De facto, sabem-no até bem demais. Muitos não se imaginam a casar durante os próximos dez, talvez mesmo vinte anos – se é que se imaginam a casar sequer.

Não é por isso que deixam de desejar ter sexo, claro, mas essa é outra história. Desde que as noções de “casamento” e “sexo” foram basicamente separados na nossa sociedade, a falta de casamento não costuma apresentar um obstáculo demasiado difícil de ultrapassar para o desejo sexual de todos excepto os que (A) tiveram uma educação moral escrupulosa (cujo poder regulador tende a esvanecer perante o assalto constante de televisão, jogos de computador e pornografia); ou (B), os que são excessivamente "nerds" e incapazes de manter relações com mulheres. A triste verdade é que enquanto nos preocupamos em preencher as cabeças dos nossos filhos com informação técnica sobre coisas como computadores e sexo, fazemos pouco ou nada para os preparar para a vida de casados.

Deixem-nos ser felizes!

Ainda assim, por mais que possamos, e devemos, fazer muito melhor na preparação dos nossos jovens rapazes para a vida de casados, continuo a ter uma dúvida insistente: Talvez os homens, enquanto tal, nunca estejam preparados. Isto é, talvez seja só a partir do casamento que verdadeiramente crescemos e nos tornamos adultos civilizados e responsáveis. Talvez seja por isso que as sábias culturas do passado tentavam casar os seus jovens relativamente cedo: Não por causa do instinto sexual, mas porque queriam tornar os seus adolescentes irresponsáveis e confusos em esposos úteis e produtivos que pudessem, pela primeira vez na vida, fazer algo de realmente significativo que lhes desse verdadeira satisfação.

A questão é esta: Não me parece que a maioria dos homens possa ser mesmo feliz a não ser que estejam a sustentar, sacrificar-se ou a trabalhar desinteressadamente por uma esposa. Sei que pode ser difícil para um rapaz novo acreditar nisto, mas confiem em mim: cuidar de uma esposa é uma daquelas coisas que dá sentido à vida. Às vezes há sexo, outras vezes não. Mas o mais importante é que fez alguma coisa pela sua mulher e a vida dela é melhor por sua causa. Há algo no fundo de cada homem que não está completo até ele se sacrificar por algo maior do que ele. Para a maioria de nós, isso costuma ser a família.

A este respeito fico admirado com a forma como  muitas pessoas tratam as passagens de Efésios 5 e 1 Coríntios 1 – que traçam a analogia entre “maridos” e “Cristo”, por um lado, e “esposas” e “Igreja”, do outro. O significado da analogia parece-me claro em Efésios 5,25: “Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela”.

Pagãos tolos que somos, ouvimos a palavra “Senhor” ou “Cabeça” e pensamos: “É suposto eu assenhorear-me da minha mulher e controlá-la, e ela deve ser-me submissa”. Talvez isso fosse verdade se o Deus cristãos fosse como Zeus, mas não é. Onde é que fomos buscar a ideia de que Cristo se tornou “cabeça da Igreja” assenhoreando-se dela e exigindo “submissão” aos seus caprichos? O elemento essencial do domínio de Cristo está no seu sacrifício desinteressado por nós na cruz. Nós, enquanto Igreja, somos chamados a receber esse sacrifício com gratidão e amor.

Desta perspective, as mulheres são solicitadas a receber este sacrifício por parte dos seus maridos e compreender que os seus maridos provavelmente não ficarão satisfeitos nem felizes enquanto não souberem que alcançaram algo másculo e responsável que torna a vida das suas mulheres muito melhor do que seria. De facto, quando uma mulher compreender que este tipo de sacrifício é essencial para o bem-estar do homem, e decide-se a descobrir que tipo de coisas o marido pode fazer por ela e aceita de bom grado esses dons, estará a ajudá-lo a tornar-se tão preenchido como possível nesta vida.

E se isso implica que ela tenha de passar menos tempo a limpar neve no Inverno, pois bem, esse é um esforço que ela terá de fazer.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez no quinta-feira, 11 de Abril 2013 em http://www.thecatholicthing.org/)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Tuesday, 16 April 2013

Parabéns Bento XVI, obrigado políticos espanhóis!

Happy Birthday to you!
Os noticiários foram dominados pelo que se passou em Boston ontem à noite. O bispo local é, recorde-se, o Cardeal Seán O’Malley. O Cardeal, que se encontrava na Terra Santa, regressou imediatamente para os Estados Unidos e já manifestou a sua proximidade com as vítimas.

Mal começaram a circular as notícias começaram também as reacções. O Cardeal Dolan foi dos primeiros a falar.


Esta manhã, na missa que celebra em Santa Marta, o Papa criticou aqueles que querem regressar ao período pré-conciliar.

Essa missa foi celebrada por intenção de Bento XVI, que hoje faz 86 anos e festejou em Castel Gandolfo, na companhia do seu irmão.

Com tudo isto pode ter passado despercebido a muitos o facto de o Governo espanhol ter anunciado que quer mudar a lei do aborto, tornando-o muito mais restrito. Um elemento do PP espanhol diz que a lei “não vai agradar aos bispos”… permita-me discordar Sr. Alonso, acredito que vai agradar bastante mais que a actual!

Quem estiver pelo Porto, não deixem de participar na exposição itinerante “São Francisco de Assis – Património Vivo no Porto”. Quem não estiver, não deixem de ir visitar o novo site da iMissio com a qual tenho a honra de passar a colaborar.

São Francisco de Assis - Património Vivo no Porto

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