Tuesday, 18 September 2012

Outras vozes islâmicas...

Estas sim, vale a pena ouvir e divulgar.



Sunday, 16 September 2012

Resumo da Exortação Apostólica para o Médio Oriente


Já é conhecido o texto da Exortação Apostólica para o Médio Oriente, cuja revelação e entrega está na base da visita que o Papa fez ao Líbano nos últimos dias.

O texto completo pode ser lido aqui, mas só para quem tiver paciência e tempo, porque são 96 páginas!!! Por isso, para vossa comodidade, aqui fica um curto resumo com os principais pontos.

O primeiro ponto a destacar tem a ver com as relações ecuménicas. Aqui o Papa aborda um problema que é muito grave e talvez o menos conhecido por parte de quem vive fora da região, a unidade. Claro que seria bom haver mais unidade entre cristãos de diferentes denominações, não só no Médio Oriente como no resto do mundo, mas infelizmente nos países árabes, onde os cristãos são sempre uma minoria e muitas vezes uma minoria perseguida, não existe sequer unidade entre católicos de diferentes ritos, quanto mais entre estes e ortodoxos, que são outros tantos.

O Papa faz questão de enfatizar que a unidade que se pede não é sinónimo de uniformidade de tradições e liturgia. É antes o estabelecimento de boas relações e de abrir canais de comunicação para que os cristãos possam falar a uma só voz sobre temas fundamentais.

Já o disse antes, considero que este é um dos assuntos chave a resolver no Médio Oriente. É absurdo que os refugiados cristãos sírios no Líbano sejam ignorados e desprezados pelos seus correligionários locais, bem como é absurdo que os cristãos e seus bispos na Síria continuem a tratar cada um dos seu quintal, sem tomar uma posição comum que pudesse fazer a diferença.

Interessantemente o Papa deixa espaço para o desenvolvimento de uma “communio in sacris”, isto é, a possibilidade de cristãos poderem usufruir de sacramentos nas diferentes igrejas. Actualmente, só em caso de emergência é que um católico pode receber a comunhão, ou confessar-se, por exemplo, numa Igreja ortodoxa, mas Bento XVI deixa espaço para contrariar isso, o que levará tempo e diálogo, mas que essencialmente vira ao contrário a noção de ecumenismo que tem reinado no Ocidente, de um diálogo longo e complexo que visa culminar na mesa da comunhão, para um encontro em diálogo precisamente à volta da mesa, que parte dos sacramentos para tentar construir a unidade nas vidas e corações. Francamente, a mim sempre me pareceu uma abordagem mais humana as divisões na Igreja...

O texto fala depois do diálogo inter-religioso. O Papa pede, essencialmente, o fim da violência inter-religiosa. Reconhecendo que cristãos, muçulmanos e judeus adoram todos os mesmo Deus, estes devem reconhecer uns nos outros a dignidade e evitar situações de violência que são “injustificáveis” para “verdadeiros crentes”. Aqui o Papa faz um apelo à liberdade religiosa, tendo o cuidado de explicar que não se trata de sincretismo.

Por fim, nesta primeira parte do texto, Bento XVI fala dos cuidados a ter com os imigrantes que vão para o Médio Oriente principalmente de países africanos e asiáticos, sendo que muitos são cristãos. Muitos vivem em países onde a prática da sua religião não é tolerada, como a Arábia Saudtia, por exemplo. Outros, mesmo nos países onde há cristãos, por não pertencerem a comunidades tradicionais, são vítimas de discriminação.

A segunda parte tem secções dedicadas aos Patriarcas, Bispos, Padres e Leigos, mas tanto quanto consigo perceber não tem grandes novidades. Talvez a coisa mais interessante seja o apelo do Papa para que os filhos fiquem no país, ou que regressem, para que não acabe a presença cristã na região, sem a qual “O Médio Oriente não seria o Médio Oriente”.


Interessantemente, no texto o Papa nunca fala especificamente de países. Por um lado, é natural que assim seja, a mensagem é dirigida a cristãos e não a Estados. Por outro, isso significa que nunca se fala de Israel, nem do problema israelo-árabe, algo que foi amplamente discutido no Sínodo do qual este texto resulta.

Outro tema muito importante que foi falado no Sínodo mas que não vejo reflectido aqui é a falta de liberdade das igrejas orientais no Ocidente. Passo a explicar. Tomemos a Igreja Melquita, por exemplo. O Patriarca está na Síria e é responsável pelos melquitas em todo o Médio Oriente. Fiel à tradição da sua Igreja, pode ordenar homens casados para o sacerdócio. Mas segundo as regras ainda em vigor, um bispo melquita nos EUA ou noutro país de tradição ocidental, não pode ordenar homens casados. Este é só um exemplo. Há casos nos quais as Igrejas orientais em território tradicionalmente “latino”, em vez de responderem perante os seus patriarcas, respondem directamente a Roma.

Vários bispos queixaram-se disto no Sínodo. A ideia é a Igreja ser uma comunhão de diferentes igrejas de direito próprio, ou sui iuris, em Latim. Mas na realidade, actualmente, as igrejas orientais têm um estatuto inferior, na prática. Para além de ser uma falta de respeito por estas igrejas veneráveis e antigas, é também um péssimo sinal ecuménico que se dá, levando os ortodoxos a concluir rapidamente que, caso aceitassem reunificar a Igreja, ficariam subjugados à Igreja Latina, quando a ideia não deve ser essa.

Com o texto já publicado resta saber se passará das palavras aos actos. Para isso, e voltando ao primeiro ponto, é preciso unidade e diálogo, o que já por si seria um avanço para os cristãos que vivem no mundo islâmico.

Filipe d'Avillez

Saturday, 15 September 2012

Luzes! Câmara! Acção! Culpar os judeus!


Cena do filme "A Inocência dos Muçulmanos".
Qualquer semelhança com a realidade actual...
Tem acontecido muita coisa nos últimos dias, e hoje em particular, e infelizmente não tenho podido acompanhar os desenvolvimentos todos com a atenção que merecem.

O Papa chegou hoje ao Líbano. Vai ser uma viagem muito rica, ao nível dos discursos especialmente. É de notar que o Líbano tem sete igrejas católicas diferentes, e mais uma quantidade de ortodoxas. O Papa vai ter palavras para todos eles e ainda para as outras comunidades religiosas.

Escreví o outro dia que um dos pontos que esperava que o Papa abordasse seria a questão da falta de unidade entre as diferentes comunidades cristãs no Médio Oriente. Já hoje nos discursos houve leves referências a isso. Entretanto hoje um dos oradores do curso que estou a frequentar em Roma é um especialista no Médio Oriente e quando lhe perguntei precisamente sobre a questão da unidade cristã, revelou que já teve acesso à Exortação Apostólica, i.e. O texto final com as conclusões do sínodo dos bispos do Médio Oriente que teve lugar em 2010 e que o Papa foi ao Líbano entregar, e que nesse documento há uma secção inteira só sobre a unidade dos cristãos e a importância de falarem a uma só voz.

Michelle Zanzucchi, director da revista Cittá Nuova, do movimento Focolares, falou longamente sobre a questão da Primavera Árabe e da situação dos cristãos no mundo árabe e no Médio Oriente. Uma coisa que retive de forma particular foi em relação ao Irão, o menino mau regional. Segundo Zanzucchi a Arábia Saudita vai explodir dentro dos próximos 8-10 anos, e isso terá influências no resto do Médio Oriente. Nessa altura, acredita, o Irão, que deverá sofrer uma importante transição nos próximos quatro anos, será fundamental para ajudar a pacificar a região, isto porque, segundo ele, o Irão é de longe o país do Médio Oriente que é mais próximo, em termos de mentalidade, do Ocidente.

É uma perspectiva interessante. De facto o Irão não é um país árabe, mas sim indo-europeu e quem conhece a realidade persa actual diz que o fundamentalismo islâmico do regime praticamente não tem raízes no país, sobretudo na capital.

Entretanto houve alguns confrontos no Líbano hoje, motivados sobretudo pelo terrível filme anti-islâmico que foi feito nos EUA. Os manifestantes, no norte do país, gritaram contra o filme e também contra a visita do Papa.

Com o passar dos dias vão surgindo mais dados sobre esse tal filme chamado “The innocence of Muslims”... alguns são curiosos. Ora senão vejamos:
Inicialmente surgiu a informação de que o filme tinha sido feito por um tal Bacile, um agente imobiliário israelo-americano que tinha reunido dinheiro doado por uma centena de judeus para avançar com o projecto.

Mas algumas pessoas desconfiaram do nome e rapidamente se percebeu que Bacile é um nome falso e que não existe nenhum israelita com esse nome. O que se soube foi que um dos grandes promotores do filme é Morris Sadek, um extremista cristão copta Egípcio, que vive nos Estados Unidos e que é conhecido pelas suas posuições radicalmente anti-islâmicas.

Depois de mais alguma investigação os jornalistas conseguiram determinar que quem fez o filme, o tal Bacile, é de facto um Nakoula Basseley Nakoula, que é também cristão copta.

O que é que isto quer dizer para os coptas que ainda vivem no Egipto? Más notícias...

Porque é que começaram por culpar os judeus? Bom, todos os coptas que eu conheço pessoalmente, e não são muitos, são pessoas fantásticas, simpáticas e tolerantes. Mas a verdade é que os cristãos do Médio Oriente, por regra, não são grandes fãs de Israel. A culpabilização dos judeus poderá ter sido vista como uma forma de criticar os muçulmanos desviando eventuais represálias para Israel e os judeus, matando, por assim dizer, dois coelhos com uma só cajadada.

Ou seja, para além de estúpido e pouco inteligente, este projecto é também desonesto e mal-intencionado.

Ainda por cima a Igreja Copta está neste momento orfã, e no processo (elaboradíssimo) de eleger um novo Patriarca. Mas hoje recebi uma nota do bispo copta Angaelos, do Reino Unido, que é clara e objectiva. Vou transcrevê-la, pois imagino que todos consigam seguir o inglês:


Statement by His Grace Bishop Angaelos, General Bishop of The Coptic Orthodox Church in the UK

In assessing the recent developments surrounding the release of the film ‘Innocence of Muslims’ that insults Islam, and the alleged involvement of ‘Coptic Christians’, it is imperative that a clear distinction be made between the vast majority of Coptic Christians, and a minute minority that may choose to use inflammatory and insulting means to further political agenda. Coptic Christians in Egypt, across all churches and denominations, are known to be a peaceful people who have faced persecution for centuries and have never retaliated in any way that would insult or demean any other faith or faith group.

Having the largest Christian presence in the Middle East and numbering in the order of 18 million, Coptic Christians have peacefully coexisted alongside their Muslim brethren for centuries. Despite repeated attacks by religious extremists upon churches and communities, they continue to live a message of love, forgiveness, peace, and tolerance.

In this and in similar cases, it is of course the right of individuals or groups to protest in a responsible manner against conduct that insults what they hold sacred. Having said that, as these protests continue to escalate, sometimes dangerously out of hand, there must be a realisation that in Egypt, its surrounding region, and beyond, it is only local citizens and communities, and the reputation of these states that is being damaged through such aggressive and violent behaviour.

In a changing region that hopes to safeguard the rights of every individual, it is of course unacceptable for anyone to demean or insult another faith, whether it be the film currently in the spotlight or the radical Muslim cleric who burned, spat on and threatened to further desecrate a Holy Bible in a public square in Cairo.

While we must realise and accept that there will always be differences on faith matters between religious communities, it must also be agreed that interaction, conversation, debate, dialogue and even protest must be in a respectful and peaceful manner that safeguards the wellbeing of individuals and the harmony of communities.

Thursday, 13 September 2012

Em Roma chove...

"Ena! Como chove"
É já amanhã que o Papa parte para o Líbano, para uma viagem que promete ser muito interessante. A Aura Miguel vai estar lá e a Renascença terá toda a cobertura, portante estejam atentos. Eu não vou poder actualizar a página do Facebook com a regularidade que gostaria, mas outros se encarregarão certamente.



Aqui em Roma choveu torrencialmente o dia todo, mas o curso que estou a fazer continua a ser muito interessante. Hoje falou-se de China, África e o arcebispo Fisichella (na foto) apresentou o pensamento do Papa. E ainda fomos visitar uma das únicas bibliotecas do mundo que excomunga quem roubar livros... Tudo explicado em mais umas notas de Roma.

Por fim, todos já pensámos no “Problema do Mal”. Porque é que existe, qual o sentido, porque é que sofrem os inocentes... mas já pensaram no “Problema do Bem?” Como é que se explica a existência de tanto bem no mundo? É a questão que coloca o artigo desta semana de The Catholic Thing.

Mais notas romanas


Biblioteca do Vaticano, onde há um decreto perpétuo
que ameaça de excomunhão quem roubar livros...
Temos tido dias muito cheios aqui em Roma. Ontem entre trabalho e o texto sobre a visita do Papa ao Líbano que fiz para o blogue, acabei por dormir só umas cinco horas, mas tem valido bem a pena.

Ontem foi dia de visita à Signatura Apostólica, o mais alto tribunal da Santa Sé, onde fomos recebidos pelo Cardeal Burke. Foi interessante vê-lo descrever os processos judiciais do Vaticano, e a existência de tribunais, como uma forma de garantir aos fiéis o acesso aos seus direitos. Facilmente imaginamos estas instituições como sendo unicamente repressivas, mas a lógica não é essa, ou pelo menos não deveria ser.

Da parte da manhã fomos à audiência-geral do Papa. Estávamos num óptimo lugar, muito perto da frente, mas é preciso chegar cedo e tudo leva bastante tempo. Depois a catequese do Papa é em Italiano, e por isso difícil de seguir. É mais animado quando se começa a dizer os nomes dos grupos presentes e as pessoas gritam, ou cantam para mostrar onde estão. Ontem estavam presentes três bandas e por isso tivemos direito a muita música.

Cardeal Burke
O almoço foi de trabalho, com a presença de dois vaticanistas que nos explicaram as particularidades de cobrir a Santa Sé. Segundo eles, é muito difícil conseguir fontes entre a Cúria Romana e, quando finalmente se consegue, é ainda mais difícil conseguir uma entrevista “on the record”. Ambos são americanos e falaram de uma questão que também é muito interessante. Uma vez que é tão difícil arranjar informação fidedigna, muitas vezes os órgãos internacionais vão buscar a sua informação à imprensa italiana. Mas o estilo da imprensa italiana nada tem a ver com o estilo anglo-saxónico, ou mesmo o português. É muito mais comum publicar boatos, histórias sem fonte identificada etc. e se não forem verdadeiras, ao fim de poucos dias ninguém quer saber. Por isso os riscos para o resto do mundo de confiar na imprensa italiana são enormes, porque em muitos países não se pode escrever ou publicar dessa forma.

Ainda tive tempo ontem para visitar o museu judaico de Roma, que é muito giro e tem duas sinagogas belíssimas, mas infelizmente, por razões de segurança, é completamente proibido tirar fotografias.

Hoje: China, África e amor...
Penso que esta Quinta-feira foi, até agora, um dos dias mais interessantes.

Pe. Sergio Sergianni, especialista na China
O dia começou com uma conferência sobre a Igreja na China, dada por um padre italiano que trabalha na Propaganda Fidei e viveu 25 anos na China (especificamente Taiwan e Hong Kong, mas com muitas visitas à China e muitos contactos). Foi tudo “off the record”, mas serviu muito bem para compreender o que se passa naquele país em relação à Igreja e as relações entre a igreja oficial, controlada pelo Estado, e a Igreja subterrânea, que é fiel ao Papa.

Depois tivemos uma conferência do Arcebispo Fisichella, sobre o pensamento do Papa. Fisichella é um excelente orador, com um raciocínio extraordinariamente bem organizado e claro.

Dois pontos principais a reter. Primeiro, o Papa terá dito que o seu trabalho teológico tem por base o Concílio, e o primeiro documento do Concílio trata da liturgia. Por isso a liturgia, ou seja, a forma correcta de adorar a Deus, está no centro das preocupações do Papa, o que é evidente para quem o tem acompanhado desde que foi eleito.

Em segundo lugar, a centralidade do conceito de amor, sendo que o amor é a essência da teologia cristã, e a necessidade de perceber de que tipo de amor falam os cristãos quando usam o termo, que provavelmente não é o mesmo sentido que a sociedade hoje lhe dá.

Fisichella explicou também, a certo ponto, a diferença entre ética e valores. Enquanto os valores são próprios de cada religião, sendo por isso subjectivos, a ética é independente das religiões, porque depende exclusivamente da razão. Por isso pode-se falar de uma ética universal, porque a razão é igual para todos. Isto tem obviamente uma ligação ao conceito, caro aos cristãos mas que antecede o Cristianismo, da Lei Natural.

Faço aqui um parêntesis para dizer que uma das coisas que me tem impressionado no contacto próximo com estas figuras é a sua fé. Pode parecer uma parvoíce, porque estamos a falar de bispos e padres, mas quando estamos fora ficamos facilmente com a ideia de que em Roma tudo se resume a politiquices e intrigas. Há muito disso, claro, mas os homens que temos conhecido (sim, só homens...) são todos pessoas de grande fé e que estão claramente apaixonadas por Jesus Cristo e pela Igreja e isso é, para um católico, reconfortante.

Padre Fortunatus ao centro, com dois africanos que
estão a participar no curso também.
Termino com aquele que foi um dos pontos mais altos do dia. O padre Fortunatus Nwachukwu, um nigeriano que é responsável pelo departamento do protocolo do Vaticano mas que nos veio falar sobre a Igreja em África. O nome dele pode ser complicado de pronunciar, mas fixem-no, porque acredito mesmo que ele há-de ir muito longe...

Falou de muita coisa, mas retive especialmente um tom de preocupação com a Igreja africana. Explicou que em África, no início do Cristianismo, havia uma Igreja fortíssima e muito rica no Norte de África, em Cartago. Mas mesmo essa Igreja tão vibrante, não resistiu ao Islão.

É verdade que o Cristianismo está em forte crescimento em África, disse, mas o Islão também. E se Cartago não resistiu ao Islão naquele época, como é que a Igreja africana, tão dividida por tribalismos, vai resistir? Disse que era um optimista, mas que isso o deixava preocupado.

Contou-nos uma história curiosa para ilustrar isso. Diz que uma vez comentou com um amigo nigeriano, padre também, que sonhava com uma Igreja na Nigéria em que um bispo do Norte pudesse ir para uma dioceses do Sul, e vice-versa. Nisso o amigo interrompeu-o e disse: “Fortunatus, para com essa conversa. Estás a sugerir que a minha tribo pudesse ter como bispo um homem da tribo X”, e estava verdadeiramente ofendido com a ideia. Sabem o que aconteceu a esse padre? Foi feito bispo... preocupante.

Outro grande problema é que em sociedades tribais, que têm reis e chefes locais, há uma forte pressão por parte dos fiéis de encararem o seu bispo como um chefe tribal. Se o bispo deixar que isso aconteceça, mesmo que não queira, é uma bota muito difícil de descalçar. E a verdade é que um chefe tribal tem como principal função defender a sua tribo, algo muito diferente de um pastor que tem de cuidar de todas as ovelhas, sejam de que cor ou ascendência forem.

Foi uma conversa muito franca e muito elucidativa e aquele homem brilhava com paixão pelo Evangelho. Uma surpresa muito agradável.

Amanhã também promete, com uma conferência sobre a Primavera Árabe.

Líbia, Líbano e leigos


Leigo e perito? I want you!
Ontem foi um dia trágico. No 11º aniversário do 11 de Setembro, foi morto o embaixador americano na Líbia. A causa? Um filme anti-islâmico...


Ontem o Vaticano anunciou a contratação de um leigo, perito em transparência financeira. É a segunda vez em meses que a Santa Sé se vira para o exterior para resolver problemas de funcionamento em áreas sensíveis.

Eu continuo por Roma. Hoje houve um encontro com o Cardeal Raymond Burke, responsável pelos tribunais do Vaticano. O principal tema com que lidam são declarações de nulidade de casamentos, ele falou bastante sobre isso, e sobre como Portugal é um caso especial nesse aspecto.

Qualquer pessoa já pensou no problema da existência do mal. Mas quando é que foi a última vez que meditou sobre todo o bem que existe no mundo? É isso que pergunta o artigo desta semana de The Catholic Thing.

Compreender a viagem do Papa ao Líbano


Grafiti das Forças Libanesas, um grupo militante
cristão. Notar que a cruz acaba em forma de adaga.
Na Sexta-feira Bento XVI viaja para o Líbano, naquilo que muitos consideram ser a sua viagem mais arriscada até agora.

Qual é o risco? O principal perigo vem da Síria. A guerra civíl na Síria é em grande parte um conflito religioso/étnico, mas que tem ramificações regionais muito importantes. O confronto é fundamentalmente entre sunitas da oposição e o regime composto por alauítas, um ramo do Islão xiita. Do lado dos rebeldes encontramos todos os países de maioria sunita e do lado do regime os países de maioria xiita, nomeadamente o Irão e o Iraque.

O Líbano está numa posição particularmente complicada. Naquele país vivem xiitas e sunitas em números significativos e há sempre um risco de o conflito se espalhar para lá, como já aconteceu algumas vezes em casos isolados e específicos. É preciso ter em conta também o factor Hezbollah. O partido xiita é actualmente a principal força do Líbano, não só em termos políticos mas também em termos militares. E quem arma o Hezbollah? O Irão. Mas as armas só chegam lá com a conivência da Síria e do regime Sírio.

Por isso vemos que o Hezbollah tem todo o interesse, aliás um interesse vital, em sustentar o regime de Bashar Al-Assad. Se este cair o Hezbollah fica isolado, para gaudio do bloco sunita. Por isso quanto mais fraco fica o regime sírio, maior o perigo de uma reacção desesperada do Hezbollah.

Como é que isto pode afectar a visita do Papa? A verdade é que provavelmente não afectará. O risco da visita do Papa não é tanto directo como indirecto. Se de um momento para o outro o conflito espalhar para o Líbano, então não será seguro para ninguém, quanto mais para Bento XVI. Mas os grupos muçulmanos não terão qualquer interesse, neste momento, em atingir o Papa e hostilizar essa forma a Igreja e o Ocidente. O Irão preza muito as suas relações diplomáticas com a Santa Sé, e por mais que os grupos islâmicos clamem contra o Cristianismo, reconhecem no Vaticano uma voz de moderação e de paz nos assuntos do Médio Oriente que, por exemplo, não hesitou em dizer às potências ocidentais que condenava a invasão do Iraque em 2003.

Presidente Michel Suleiman e o Patriarca maronita
Bechara Rai, dois dos cristãos mais influentes
Porquê o Líbano?
O Papa vai ao Médio Oriente entregar a exortação apostólica relativa ao sínodo dos bispos para o Médio Oriente, que decorreu no Vaticano em 2010. A escolha do Líbano faz sentido porque é o único país da região que tem uma grande proporção de cristãos e o único, por exemplo, que tem um chefe de Estado cristão.

Mas independentemente disso, e apesar dos riscos, que locais são mais seguros? O Iraque não tem condições de segurança ainda para receber uma visita deste nível, o Egipto está demasiado instável e, sobretudo, tem um número muito pequeno de católicos, apesar de ter muitos cristãos coptas ortodoxos. A Síria seria uma boa-escolha há dois anos, mas actualmente é obviamente impossível. A Jordânia é estável e tem uma população cristã, mas é pequena e ainda por cima o Papa já lá foi.

Restam países que não têm qualquer população católica significativa ou que simplesmente não permitem actividades cristãs, como é o caso da Arábia Saudita.

As grandes questões
Há várias questões que merecem a nossa atenção durante esta visita. Bento XVI vai certamente falar da questão da fuga dos cristãos do Médio Oriente, uma situação que é dramática em vários países. A única excepção poderá ser o Líbano e até há pouco tempo era também a Síria.

Será inevitável falar da questão Síria. Aí podemos esperar sobretudo os costumeiros apelos à paz, mas seria bom talvez uma palavra forte dirigida aos cristãos, a insistir que não peguem em armas, mesmo que se sintam ameaçados, algo que parece que já estará a acontecer nalguns bairros de Damasco.

Para mim, contudo, a grande questão a abordar é a falta de unidade entre os cristão do Médio Oriente. O Cristianismo lá é uma autêntica manta de retalhos, o que é maravilhoso em termos de variedade e tradições litúrgicas e espirituais, mas um verdadeiro pesadelo quando toca a representar os interesses dos cristãos em geral. Pelo que tenho conseguido apurar, os bispos das diferentes igrejas, mesmos as diferentes igrejas católicas, não falam uns com os outros, não se coordenam. Cada um olha só para o seu próprio quintal. O resultado é que são sempre um alvo fácil. Será que o Papa vai falar disso?

18 comunidades diferentes
O Líbano é um microcosmo de todo o Médio Oriente. Penso que não haverá corrente religiosa que não esteja representada. Ao todo existem 18 confissões religiosas com reconhecimento oficial. No universo islâmico há os sunitas e os xiitas e ainda os alauitas e os drusos. No Cristianismo há ortodoxos de diferentes ramos e depois uma panóplia de igrejas católicas. Latinos, Maronitas, Melquitas, Siríacos, Caldeus, Arménios... de tudo um pouco.

Os cristãos ao todo serão mais de 30%, uma diminuição, uma vez que já foram maioria. Não são representados por um só partido político, mas têm vários partidos, alguns que são aliados dos xiitas, outros dos sunitas.

Isto é uma visão muito geral do país e da situação que o Papa vai encontrar. Se tiverem mais dúvidas a esclarecer deixem um comentário que, quando tiver tempo, farei os possíveis por responder.


Filipe d'Avillez

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