Wednesday, 27 January 2021

Revelado o hino das jornadas, economia de Francisco em debate

Já é conhecido o hino da Jornada Mundial da Juventude que se vai realizar em Lisboa em 2023.

Pode saber tudo, e ouvir o hino, aqui. A ideia, diz o secretário-executivo, é “chegar a todos”.

Num tempo em que a solidão é maior, os jesuítas criaram um “ponto de escuta” que pode ajudar quem precisa de companhia. Saiba tudo aqui.

O projeto sobre a “Economia de Francisco” continua a dar que falar. Hoje há uma mesa redonda sobre o assunto com jovens e menos jovens, a que pode assistir por zoom. Toda a informação aqui e na imagem que vai em anexo.

As escolas católicas não gostaram da ordem do Governo para interromperem as atividades letivas.

Morreu um padre assassinado nas Filipinas.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, sobre como a santidade se pode construir nas coisas mais simples da vida. 

Tempo Comum

Francis X. Maier
Ao longo da última semana eu e a minha mulher arrumámos finalmente as decorações de Natal. Um novo ano estende-se diante de nós e aceitámos, relutantemente, o facto de que estamos de volta ao “tempo comum”, um período de confiança paciente em Deus, marcada pela Igreja com os paramentos verdes dos seus sacerdotes.

Infelizmente, porém, a paciência não é uma virtude americana e à sombra da Covid a tentação para a fúria e para o medo pode ser feroz. Pior, estes dias de Janeiro têm sido tudo menos “comuns” em termos políticos, com o Capitólio invadido por uma multidão enfurecida da direita e o espírito venenoso de represália dos orcs do congresso e dos media de esquerda.

Agostinho diria que este é o estado natural da Cidade do Homem. Também diria que não adianta de nada queixarmo-nos dos tempos em que vivemos, porque quem faz o tempo somos nós. Os tempos refletem quem nós somos e nós mudamo-los, para melhor ou para pior, uma alma de cada vez, a começar por nós mesmos. No espaço sagrado da nossa consciência e das nossas escolhas pessoais, nenhum de nós é impotente e nenhuma vida, por mais obscura ou limitada que seja, é inconsequente. A forma como vivemos a nossa vida interessa. Deixem-me dar um exemplo.

Há quase 70 anos, na vila onde eu vivia, o leite era-nos entregue todos os dias à porta de casa por uma carrinha. Naqueles dias o leite ainda vinha em grandes garrafas de vidro. Eu tinha 4 anos e a minha irmã mais nova tinha 1. Todos os dias tomávamos uma sesta indesejada (e involuntária) juntos. E porque a minha irmã era muito irrequieta a minha mãe dava-nos palmadinhas nas costas enquanto nos cantava uma música de embalar irlandesa, para nos adormecer.

Um dia a minha mãe estava a servir-nos um copo de leite, mesmo antes da sesta. A garrafa caiu-lhe das mãos e partiu-se. Os estilhaços de vidro eram pequenos e afiados como lâminas e quando ela se aproximou para limpar a porcaria que estava no chão cortou-se de um lado ao outro da palma da mão. Sujou a roupa toda de sangue e acabou por estancar a ferida atando um pano branco à volta da mão. Ainda consigo lembrar-me da mancha encarnada viva que a ferida deixou à medida que o sangue ensopava o tecido.

Mas é aqui que quero chegar: cinco minutos mais tarde estávamos os dois na cama, com ela a cantar-nos uma das suas canções de embalar, dando-me palmadinhas com a sua mão boa e à minha irmã com aquele couto encarnado. E lembro-me de pensar, ao modo de um rapaz de quatro anos – “isso deve doer”. E depois, “ela deve gostar mesmo de nós”.

A lição desta história vai muito para além da nostalgia sentimental. Se queremos um exemplo do melhor que as vocações leigas nos oferecem, não temos de ir mais longe do que isto. Esta mulher não inventou nenhuma vacina, não geriu uma empresa, não foi autora de legislação inovadora. Na sua vida aparentemente sem importância poderia ter escolhido estar zangada. Podia ter sido egoísta. Podia ter-se esquecido dos seus filhos para cuidar de si. Em vez disso cuidou dos seus pequenos filhos até que adormecessem os dois.

Ao longo das próximas décadas, sempre que me cansava de ouvir os meus pais falar de Deus – as conversas eram especialmente cansativas quando eu fazia coisas que eles odiavam, e sabia que tinha razão – esta imagem regressava à minha memória e as palavras irritadas falhavam-me.

Porque, estão a ver, podemos ignorar o amor, ou fugir dele. Mas não o podemos refutar. A vocação desta mulher leiga não tinha um grande título ou uma qualquer fórmula secreta. Ela estava simplesmente a tentar amar como Deus ama, nas circunstâncias diárias práticas em que Deus a tinha colocado, sem drama e sem heroísmo. E ao fazê-lo acabou por afetar profunda e permanentemente as vidas dos seus filhos, um de cada vez. Tornou-se o género de “boa infeção” de que Madre Teresa tanto falava.

A maioria dos crentes já conheceu histórias ou pessoas parecidas na sua vida, ou então não seriam crentes. O que converte as pessoas não são instrumentos ou estratégias inteligentes, mas sim outras pessoas. Não podemos dar aquilo que não temos. O activismo dos leigos, as organizações dos leigos e a colaboração dos leigos em todos os assuntos da Igreja – são tudo oportunidades vitais para dar glória a Deus. A Igreja precisa da liderança de leigos fiéis e criativos agora mais do que em qualquer outra altura da sua história recente.

Mas no final de contas o verdadeiro “poder” dos leigos não reside no dinheiro, na capacidade profissional ou em cargos de influência na burocracia da Igreja. Reside, sim, no testemunho pessoal de santidade que é ao mesmo tempo simples e exigente. Isto está tudo muito bem pensado. Não há Igreja sem Eucaristia. Não há Eucaristia sem o padre. Mas também não há padres se não houver leigos comprometidos que educam os seus filhos para ouvirem o chamamento de Deus e para se sacrificarem por amor a Deus e à comunidade de crentes.

C. S. Lewis escreveu certa vez que “não há terreno neutro no universo; cada centímetro quadrado, cada milésima de segundo é reclamado por Deus e contra-reclamado por Satanás”. João Paulo II acrescentou que “contra o espírito do mundo, a Igreja empreende de novo – todos os dias – uma luta pela alma do mundo”. E Henri de Lubac, o maior teólogo jesuíta, escreveu que “o Evangelho avisa que o sal pode perder o seu sabor. E se nós” – isto é, a maioria de nós – “vivemos mais ou menos em paz no meio do mundo, talvez seja por sermos mornos”.

Comecei por referir que os orcs estão de volta ao poder em Washington, mas terminarei com um pensamento de Tolkien, que conhecia tão bem essa espécie, a sua malícia e a única forma de os vencer. Não nos é permitido escolher os tempos em que vivemos. Mas podemos “decidir o que fazer com o tempo que nos é dado”. A nossa tarefa é a de amar bem, desinteressadamente, seja qual for o local, seja qual for o tempo, em que Deus nos coloca. E isso basta.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 20 de Janeiro de 2021)

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Monday, 25 January 2021

Ecumenismo que floresce e polémica de fim de vida em Inglaterra

Abriu no Porto um novo museu do Holocausto, o primeiro da Península Ibérica, que permite conhecer a interessante história da comunidade judaica daquela cidade.

O Papa deseja para o ecumenismo a força viva das árvores!

Há uma nova polémica no Reino Unido relacionado com cuidados em final de vida. Neste caso é um cidadão polaco a quem se interrompeu o suporte artificial de vida e também a nutrição e a hidratação. Bispos ingleses e o Governo polaco já intercederam a seu favor.

O Papa Francisco está com uma crise de ciática. É um problema antigo que o volta a acometer e que afeta a sua agenda.

O ex-presidente e fundador da CNIS lamenta que o Estado seja “calaceiro” na resposta aos mais necessitados e a mesma organização pede agora que se cumpram as regras de vacinação nos lares.

Não deixem de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing, sobre a relação entre Biden e os bispos e aproveitem também para ler o artigo do padre Paul Scalia sobre São José e a importância de um ano dedicado a ele.

Friday, 22 January 2021

Biden bem, Biden mal, nacional-vacinismo nunca mais!

Duas notícias hoje sobre a nova administração Biden, uma positiva (a meu ver) outra negativa (idem). A suspensão das ordens radicais de deportação de imigrantes ilegais – independentemente do seu percurso no país ou do facto de terem mulher e filhos – está a permitir a dezenas de pessoas saírem de igrejas onde procuraram asilo há mais de três anos.

Por outro lado, a redefinição de todas as leis de discriminação sexual abre as portas a uma enxurrada de abusos e de violações da liberdade religiosa, entre outros. O artigo desta semana do The Catholic Thing é sobre algumas das dificuldades de relação entre Biden e os bispos católicos.

O Papa quer que o mundo evite o “nacional vacinismo”.

Com a suspensão das missas públicas, a Renascença voltará a transmitir missa diariamente na Rádio. Também o Santuário de Fátima transmite cinco celebrações por dia.

O médico que descobriu a forma de diagnosticar a Síndrome de Down durante a gravidez e que compreendeu o perigo disso mesmo, está a caminho dos altares. Dizem que faltam milagres, mas eu digo que cada bebé com trissomia que consegue nascer, sobrevivendo ao genocídio em curso, é um milagre! Aqui podem ler sobre outro homem admirável que também está a caminho dos altares!

Eu queria evitar escrever este texto, mesmo, mas em consciência não posso. Tenho assistido com desalento a várias pessoas que partilham da minha visão do mundo e dos meus valores a ir no que considero ser o canto da sereia. Estou a falar do “fenómeno” André Ventura… Leiam aqui para compreender melhor.

Eu não voto, mas se votasse não era nele

Desde os 14 anos que sou monárquico e nunca votei em eleições presidenciais. Faço-o conscientemente. Claro que há muitos monárquicos que votam nestas eleições, e não os critico, mas a minha forma de mostrar a minha discordância com o regime é de não participar no processo.

Pela mesma lógica não costumo comentar os candidatos ao cargo, mas escrevo este texto porque André Ventura tem-se tornado um fenómeno maior do que aquele que representa nestas eleições em particular e porque estou verdadeiramente preocupado em ver muita gente com quem em princípio me identifico – católicos ou cristãos, tendencialmente conservadores, preocupados com questões sociais como o aborto e a eutanásia, etc., – a deixarem-se levar por um fascínio que não só não compreendo como acho perigoso.

Uma última nota, antes de continuar. Há quem diga que os críticos do Chega da direita só temem a perda de influência dos seus partidos. Sobre isso sou insuspeito. Não tenho partido, nunca tive, muito menos exerci qualquer cargo ou tenho em perspetiva fazê-lo.

1 – A fraude

O André Ventura até pode ser mais ou menos simpático, não está em causa o gosto pessoal. O problema é que eu não confio em André Ventura. E não confio em André Ventura porque acho que ele é uma fraude.

É inteligente, sem dúvida; é articulado, sem dúvida; tem boa presença, sem dúvida e é cativante, evidentemente. Mas tudo isso só torna mais perigoso o fenómeno, porque a verdade é que eu não acredito por um segundo que ele concorde com uma fração das coisas que diz para cativar o eleitorado do Chega.

E isso – um político que prega aquilo em que não acredita, acicatando rivalidades e divisões para se promover e conquistar eleitores – é muito grave. Mas o populismo é isso mesmo.

Eu não acredito que Ventura seja contra o casamento homossexual, que seja contra a eutanásia e que seja contra a legalização do aborto. Há registos de ele ter defendido quase todas estas coisas, e mais, como a legalização da prostituição e alguns desses registos são até bem recentes. Um homem não pode mudar? Pode. O problema é que não vejo qualquer sinal de que essa mudança seja sincera e não um simples aproveitamento político.

Da mesma forma não acredito por um segundo que Ventura seja o devoto católico por que se faz passar, deixando-se fotografar ajoelhado em oração, afirmando sem vergonha na cara que a sua missão está intimamente ligada à mensagem de Fátima e depois criticando o Papa.

André Ventura é um actor. No teatro e no cinema isso não é vergonha nenhuma, mas na política faz dele uma fraude.

2 – As políticas

Há políticas que o Chega defende que são discutíveis, mas há outras que são pura e simplesmente inaceitáveis. A castração química é uma solução aparentemente fácil para um problema terrível, mas é uma solução que não tem provas dadas, tem efeitos secundários gravíssimos para a saúde e por isso jamais pode ser imposto a quem quer que seja.

A prisão perpétua atira pela janela toda a base de um sistema penal que tem por objetivo reformar o cidadão e não o castigar ad aeternum e toda a insistência na segurança faz passar uma imagem completamente falsa de Portugal ser um país inseguro, que não é. Da mesma forma, nunca, repito nunca, terá o meu apoio quem publicamente apelida pessoas – sejam quais forem os seus crimes – de monstros, como o Chega faz quando fala da questão da criminalidade.

Um dos problemas mais graves é mesmo a insistência na tecla dos ciganos. E o mais irónico é que eu acho que André Ventura foi mal compreendido quando, ainda candidato pelo PSD a Loures se tornou polémica a frase dele sobre os ciganos. Na altura ele disse que há um problema com os ciganos e foi crucificado por isso, mas é inegável que existe em Portugal – mais nuns sítios do que noutros – um problema com a integração dos ciganos. A forma como ele foi crucificado por um lado, mas elogiado por muitos, por outro, terá tido um papel no percurso que veio a seguir?

Agora, o discurso actual de Ventura sobre os ciganos é inacreditável. Propor leis específicas para membros de uma etnia? Está tudo maluco? E se reconhecemos que existe um problema com a integração dos ciganos, digam-me, por favor, como é que resolvemos isso cavando um fosso ainda maior entre ciganos e não ciganos? Hostilizando-os? Este género de discurso tem o condão precisamente de piorar as situações que pretende denunciar.

Por fim, o discurso desumanizante sobre os imigrantes é demoníaco. Sim, é esse o termo. Trata-se de criar um fantasma à volta de um problema que em Portugal simplesmente não existe e que acicata ódios e alimenta discursos xenófobos. Um cristão pode, naturalmente, defender a existência de regras e de limites à imigração, mas não pode, nunca, adoptar o tipo de discurso que o Chega adopta, sobre este assunto, muito menos o pode fazer invocando alguma espécie de messianismo fatimista. Mete nojo.

3 – Os apoiantes

Deixem-me clarificar já, para não ser mal-entendido. Se eu achasse que todos os apoiantes do Chega são idiotas, não estaria a escrever este texto. O que me preocupa é precisamente ver bons amigos, pessoas próximas, pessoas com as quais me identifico, a deixarem-se levar por este engodo.

A minha preocupação principal neste ponto é aquela franja de apoiantes do Chega que são inegavelmente de uma extrema-direita feia, porca e má e que estão a ganhar relevância e a sentir-se em casa no Chega.

Quando eu participo nas cerimónias do 10 de junho, em Lisboa, frente ao monumento de homenagem aos mortos nas guerras, sei que estão sempre lá os skinheads da praxe. Estão num grupinho, sozinhos, fazem a sua própria festa, mas não é possível olhar à volta e confundir o espírito do evento com a sua presença marginal. Portanto se eu visse que havia uma extrema-direita que votava Chega por achar que era o melhor que se arranjava, eu até compreendia. Mas não é isso que eu vejo. Eu vejo uma extrema-direita que se sente em casa no Chega e que o partido não se limita a aturar, mas que procura mesmo seduzir, com o discurso, com os gestos, com a simbologia. E isso… Bom, isso Chega para mim.

A imagem do apoiante de Ventura a fazer uma saudação romana durante o comício dele não é um infeliz acidente e a forma como outro se aproxima dele e o convence a baixar o braço não tem nada de condenação, mas de cautela e preocupação com a imagem. E este é apenas um caso de pessoas com claras conotações fascistas (uso o termo de forma pensada, e não como a esquerda que considera fascista tudo o que não esteja à esquerda do PSD) que estão felizes e entusiasmados no partido e não se vê nada da parte da estrutura para os demover ou para contrariar esse entusiasmo.

E por isso pergunto às pessoas de bem – os tais de quem o Ventura diz que quer ser Presidente – é neste barco que querem andar? São estes os vossos companheiros de viagem? Bem sei que a existência de fascistas e neo-nazis no partido não faz de vocês fascistas e neo-nazis mas devia, pelo menos, deixar-vos desconfortáveis. Deixa? É que eu não conseguiria estar ali de consciência tranquila. 

Thursday, 21 January 2021

Médicos a escolher quem vive e quem morre é mau, menos quando é bom

Quando regressei, há uns meses, disse que ia tentar voltar a mandar estes mails com regularidade. Ao longo do último mês isso foi completamente impossível, por várias razões, e por isso peço desculpa. Agora vai assim, dia-a-dia, a ver o que se consegue fazer.

Os bispos voltaram a suspender as missas com presença de fiéis, numa altura em que a Covid atingiu dimensões nunca vistas em Portugal. A maioria das comunidades religiosas minoritárias já tinha tomado decisão igual antes.

E numa altura em que morrem centenas de pessoas por dia de coronavírus e os médicos choram, literalmente, por se encontrarem na posição de ter de decidir quem vive e quem morre, o nosso Parlamento não achou melhor ideia do que aprovar uma lei que permite aos médicos matar os seus doentes. A lei da Eutanásia segue agora para Belém, veremos o que acontece a seguir.

Biden foi empossado ontem. A cerimónia teve muita simbologia e linguagem religiosa e o Papa mandou uma mensagem. O presidente da Conferência Episcopal Americana também o fez, mas essa não caiu tão bem, causando até divisões dentro do episcopado. A relação entre Biden e os bispos promete dar que falar e foi tema do artigo desta semana do The Catholic Thing em português.

O tribunal do Vaticano condenou hoje a penas pesadas dois ex-dirigentes do Banco do Vaticano, um com 81 anos e outro com 97 e ainda confiscou dezenas de milhões de euros das suas contas!

Como sabem estive a coordenar a publicação no site da Renascença de uma série de Postais de Quarentena. Hoje publicámos o 100º, mas um dos mais recentes foi um postal da clausura, escrito pelas monjas de Campo Maior, que podem ler aqui.

Wednesday, 20 January 2021

Biden e os Bispos

Stephen P. White
Enquanto pai eu sou responsável pela formação moral de muitas pessoas pequenas, cada uma das quais com uma forte inclinação para a tirania ou, pelo menos, para a anarquia. O cumprimento destes deveres tem-me tornado, ao longo dos anos, mais cuidadoso no que diz respeito aos meus juízos sobre como os outros devem disciplinar as suas ninhadas.

Saber disciplinar uma criança de uma forma que não só preserva a paz no lar, mas também contribui para o crescimento e a maturidade da mesma não é fácil. Às vezes uma criança responde melhor à misericórdia e ao carinho; noutras é preciso uma mão mais firme. Depende das circunstâncias. Depende do filho. Navegar entre o legalismo e a laxidão requer prudência e bastante humildade.

Como em todas as coisas, o guia mais seguro é o amor.

Tudo isto serve de prelúdio à questão de se políticos pró-aborto como Joe Biden devem ou não ser admitidos à comunhão. Russell Shaw escreveu de forma interessante sobre o assunto recentemente, não pretendo duplicar o seu esforço, mas recomendo a leitura.

Desde então também o arcebispo Chaput tomou posição contra a comunhão para Biden. A Conferência Episcopal dos Estados Unidos já juntou uma comissão para considerar o assunto. O cardeal Gregory, na qualidade de arcebispo de Washington DC, já indicou que vai manter a prática pastoral que está em curso desde os tempos em que Biden era vice-Presidente, dizendo que não lhe será negada a comunhão.

O cardeal está no seu direito de tomar uma decisão pastoral nesse sentido. Devemos partir do pressuposto de que foi tomada tanto para o bem do fiel em questão como da igreja local, uma vez que a politização de discussões sobre a receção dos sacramentos é tudo menos favorável ao sentido de unidade e de cura necessários numa arquidiocese que ainda está a sofrer com o escândalo do cardeal McCarrick e a resignação do cardeal Wuerl.

E, claro, há muitos católicos – pelos quais os nossos bispos são também responsáveis – que consideram pura hipocrisia ver a hierarquia a julgar os políticos quando os próprios bispos se mostraram tão inefectivos a lidar com a crise dos abusos sexuais. A prudência exige que compreendamos que o exercício da autoridade legal está fortemente ligado à autoridade moral e aqueles a quem esta escasseia devem ter cautela em parecer ter demasiada vontade em exercer aquela.

Pondo de lado os detalhes particulares do caso de Biden, os pastores que agem com grande solicitude por causa de um só pecador podem às vezes não dar atenção suficiente aos que foram prejudicados por esse mesmo pecador, nem à comunidade eclesial como um todo. (Há aqui um paralelo com a forma como alguns bispos reagiram à situação de padres abusadores com grande solicitude para com o pecador mas sem preocupação suficiente para com quem sofreu diretamente com os seus crimes, ou pelo bem da comunidade no seu todo).

Em nenhum lado a tendência individualista do catolicismo americano se revela mais profundamente do que na crença de que a recepção da Santa Eucaristia é um assunto privado entre mim e Deus. A recepção da Comunhão é um assunto profundamente pessoal, mas é um acto fundamentalmente eclesial, e não privado. Este facto informa todos os debates correntes sobre políticos católicos e comunhão, e explica porque é que os argumentos antecedem longamente a eleição de Joe Biden e vão certamente continuar muito depois de ele ter abandonado o cargo.


Mais, não é difícil perceber porque é que tratar actos eclesiais pela lente dos actos privados tem implicações que vão muito além da disciplina dos sacramentos.

A Igreja fala frequentemente e consistentemente sobre a ideia de pecado social e estrutural. Como escrevi em 2020, “a noção de responsabilidade coletiva – de ‘pecado social’, para usar um termo muito criticado – não deve ser estranha a ninguém que esteja familiarizado com as escrituras. Deus julga-nos como indivíduos, sim, mas também como membros de povos, atribuindo culpa e julgando agravos tanto pessoal como corporativamente”.

Mas aqui nos Estados Unidos o ensinamento da Igreja sobre o “pecado social” costuma ser (erradamente) descartado como um esquema político de esquerda. Porquê? Uma das razões é porque, durante décadas, políticos católicos têm defendido e expandido o direito ao aborto, subsidiando-o tanto internamente como no estrangeiro, com quase total impunidade. Entretanto o leigo e a leiga comuns são chamados a sentirem-se pessoalmente responsáveis por todo um leque de assuntos estruturais – das mudanças climáticas ao racismo e o alojamento de refugiados – que estão muito para além do seu controlo direto.

Fica-se claramente com a impressão de que existe um padrão de expetativa e de comportamento para os católicos comuns e outro para católicos influentes e bem relacionados: que a nossa fé deve ter consequências para a nossa política, mas que a nossa política não tem qualquer influência na nossa fé. Se os bispos querem mesmo lidar com a questão do pecado social, então porque é que continuam a tolerar – sem quaisquer consequências eclesiais – o apoio direto e claro da expansão de uma injustiça sistémica (o aborto) que custa milhões de vidas?

Se os bispos não conseguem agir como se o apoio direto de alguém a um mal tão grave tivesse consequências eclesiais diretas, então porque é que alguém há de levar a sério a suposta urgência de assuntos sobre os quais os católicos individuais têm muito, muito menos influência? O desafio pastoral em causa vai muito para além da comunhão e do aborto. Estende-se à credibilidade do testemunho público da Igreja.

Já disse muitas vezes antes que nada é mais contrário a uma ética consistente da vida do que o apoio à erradicação em escala industrial de vidas inocentes através do aborto. É precisamente por isso que os bispos afirmaram que o aborto é a sua principal preocupação política. E é precisamente por isso que os bispos formaram uma comissão para coordenar a sua resposta aos desafios colocados por terem agora um Presidente católico pró-aborto.

A linha de acção que melhor serve o bem da Igreja e das almas é matéria sobre a qual bons homens podem discordar. Não invejo aos bispos essa tarefa. Rezemos pelos nossos bispos e pela Igreja. 


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2020)

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