Showing posts with label Latim. Show all posts
Showing posts with label Latim. Show all posts

Wednesday, 30 January 2019

Uma Carta ao Povo: Resposta a David Warren

Daniel Gallagher
Nota: Num artigo recente do The Catholic Thing, o autor David Warren propôs a criação de um jornal inteiramente redigido em latim. Fê-lo na esperança que um jornal desses fosse lido apenas por uma elite esclarecida, podendo assim passar ao lado das polémicas e do politicamente correcto. No artigo de hoje, o latinista Daniel Gallagher responde com humor, mas também com dados muito interessantes, contrariando essa ideia de Warren.


Tendo redigido centenas de “cartas aos príncipes” no gabinete de tradução para latim do Vaticano, sinto-me na obrigação de responder à recente proposta de David Warren de se criar um jornal diário em latim. Se alguém estiver disposto a financiar o projeto, mando a primeira edição para a gráfica já amanhã.

Mas a minha motivação seria muito diferente da sua. Em vez de oferecer “uma pequena ilha elitista de sanidade e tranquilidade espiritual”, eu gostaria que o jornal gerasse as mais vivas discussões e debate, como sempre aconteceu, e sempre acontecerá, em torno e através do latim. Eu gostaria que o jornal fosse dirigido ao populus e não apenas aos príncipes.

Mas mesmo que eu partilhasse o desejo de Warren por um público limitado, ele engana-se se pensa que “um jornal em latim passaria por baixo do radar progressista”. Qualquer pessoa envolvida no mundo dos clássicos sabe até que ponto o progressismo penetrou este ramo.

Mary Beard, uma classicista brilhante de Cambridge, está constantemente a levantar a voz progressista em relação a assuntos que variam entre a imigração, o feminismo e o terrorismo. Donna Zuckerberg acaba de publicar um livro fascinante, chamado “Not All Dead White Men: Classics and Misogyny in the Digital Age”. São mulheres por quem tenho grande admiração, por mais que discorde fundamentalmente delas em várias frentes.

Seja como for, elas – e outras como elas – seriam capazes de devorar um jornal em latim mais rapidamente do que muitos conservadores.

Na verdade, a atitude de Warren em relação ao latim representa um dos fatores que contribuiu para a sua queda. A ideia de que é apenas para os inteligentes, os sofisticados, os esclarecidos. Que é algum tipo de código secreto que separa os certos dos errados.

Mas o latim nunca foi nada disso, nem deve ser. Eu já tive o prazer de ensinar latim a alunos de muitas escolas diferentes, e em várias universidades, públicas, privadas e algumas católicas.

Os que têm fundações sólidas em latim costumam vir de famílias muito secularizadas e progressistas. Claro que também há católicos, e estes costumam pertencer a dois grupos: os que adoram falar da importância do latim, mas mal conseguem localizar um sujeito, quanto mais um objecto, e os que têm grande fluência por terem aprendido bem em casa.

Infelizmente este grupo é significativamente mais pequeno que aquele. Foi depois de termos recebido uma quantidade imensa de cartas – em italiano, espanhol, inglês, francês, alemão e polaco – a perguntar “porque é que o Papa não faz tweets na língua oficial da Igreja”, que eu e os meus colegas do Gabinete de Latim do Vaticano, propusemos que o passasse a fazer. Os autores das cartas diziam que não o fazer era uma mostra de desprezo pela civilização ocidental – se me é permitido usar esse termo. E têm razão.

E então começámos a fazer tweets em latim, e rapidamente descobrimos que o latim era algo que – ao contrário das expectativas de Warren – podia ser lido por praticamente qualquer pessoa. É verdade que algumas das pessoas que seguem o Papa no Twitter o fazem apenas por ser uma coisa nova, mas a nossa pesquisa mostrou que pelo menos uma maioria conhecia algum latim.

Professor e três alunos
Talvez a melhor prova seja o facto de que os comentários e os retweets da conta em latim são muito mais civilizados, pensados e humanos do que os das contas em vernáculo. E talvez seja isso que representa um modelo alternativo à terrível polarização que existe em quase todo o resto das redes sociais.

No seu artigo, Warren cita o meu incomparável professor e antecessor no Gabinete de Latim, o padre Reginald Foster: “Se não sabes as horas, nem o teu nome, nem onde estás, não tentes aprender latim, porque ele borra-te na parede como se fosses uma mancha de óleo”.

Mas acontece que não há falta de pessoas que queiram ser borradas na parede. São pessoa que anseiam pela “ordem mental” e a “consistência intelectual” que Warren tão correctamente louva.

É verdade que o latim privilegia a razão e a consistência intelectual, e é por isso que se devem empreender todos os esforços não só para divulgar o conhecimento do latim, mas para que as pessoas sejam fluentes. Deve promover a discussão, e não abafar ou escondê-la. Pode e deve ser lida por quase toda a gente porque é uma forma civilizada e focada de abordar tópicos “perigosos”.

O padre Foster sempre insistiu que os seus cursos não são sobre religião, teologia, filosofia e muito menos sobre “teoria literária”. Mas qualquer pessoa que tenha frequentado os seus cursos terá sido obrigada a pensar e a aprender sobre estes tópicos e muitos outros. Sim, mesmo a teoria literária.

Pode-se fazer qualquer uma dessas coisas, insiste Foster, mas primeiro é preciso saber latim. O Instituto Paideia, edificado sob o legado do padre Foster, foi fundado “para fornecer oportunidades para o estudo rigoroso e intensivo do latim e do grego de todos os períodos históricos, para inspirar os estudantes a formar relações pessoais próximas com os clássicos através de experiências de aprendizagem extraordinárias e para aumentar o acesso a, e interacção com, as humanidades clássicas através de todos os sectores da sociedade.”

Os instrutores e os alunos são uma misturada de ateus seculares, agnósticos curiosos, católicos radicais e reaccionários e muita coisa pelo meio. As discussões nos eventos da Paideia, que frequentemente se fazem em latim, invariavelmente abordam as questões mais profundas da vida, mas fazem-no porque, em primeiro lugar, têm por objectivo o domínio do texto em latim.

Sim, é verdade. Precisamos de um jornal em latim porque, como Warren sugere, isso facilitaria “o diálogo entre pessoas de diversas tradições linguísticas” e restaurava o “verdadeiro cosmopolitismo”. Mas atenção: se quer juntar-se ao “latinosfério” encontrará tudo menos um grupo elitista de conservadores. Pelo contrário, encontrará todas as raças, classes sociais, orientações e opiniões que existem à face da terra.

A diferença é que estas pessoas estão dispostas a entrar num diálogo educado e humano, baseado no conhecimento histórico, prático e teórico que se alcança através da leitura de excelentes livros na sua língua original.

Assim, um jornal em latim seria um catalisador magnífico para essa sanidade, mas uma sanidade que acolhe a diversidade e adora uma boa discussão.


Daniel Gallagher é professor de latim na Universidade Cornell. Trabalhou durante dez anos na Secção de Latim do Secretariado do Estado do Vaticano.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no domingo, 27 de Janeiro de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Tuesday, 10 March 2015

Sacrifícios quaresmais islâmicos e latinices

Clicar para aumentar
O Conselho de Segurança das Nações Unidas vai discutir a perseguição aos cristãos no Médio Oriente. Vai ser no dia 27 e quem propõe é o Governo francês.

Este fim-de-semana cumpriram-se 50 anos desde que Paulo VI celebrou a primeira missa em italiano depois do Concílio Vaticano II e a efeméride foi assinalada pelo Papa Francisco.

Na sexta-feira divulguei uma entrevista sobre o assunto. Agora, como na altura prometi, um outro artigo com dois protagonistas, um sacerdote que defende a reforma, outro que valoriza a importância do latim na liturgia.

Para melhor poderem conhecer as suas posições, publiquei no blog as transcrições integrais de ambas as entrevistas. Aqui o padre Luís Manuel Pereira da Silva e aqui a do padre Manuel Vaz Patto.

Acredite ou não, há muçulmanos a fazer sacrifícios esta Quaresma, em solidariedade para com os cristãos. Falei com o fundador da campanha, saiba do que se trata este fenómeno! Aqui, mais uma vez, a transcrição completa da entrevista, no inglês original.

O presidente da Hungria esteve em Lisboa este fim-de-semana para homenagear o padre Kondor, que promoveu a causa da beatificação dos Pastorinhos.

A cerimónia decorreu em Fátima que, como sabemos, está no centro de várias teorias da conspiração, tema do mais recente artigo do The Catholic Thing em português.

Termino com duas notas. Em primeiro lugar o aviso para uma conferência sobre o Santo Sudário, na quarta-feira (ver imagem). O orador é o meu bom amigo João Paulo Sacadura, que é um apaixonado pelo tema e que vale bem a pena ver!

E por fim, depois de na semana passada ter incentivado a irem ver o musical Godspell, fui ao espectáculo na sexta-feira. Posso-vos dizer que gostei mesmo muito! Estava mal influenciado pela adaptação cinematográfica, que é terrível, mas esta versão está muito bem feita, inspiradora, extremamente bem encenada e com músicas bem adaptadas pelo sempre surpreendente Gimba. Não deixem de ir, se puderem.

Monday, 9 March 2015

“A liturgia é sagrada e o latim ajuda-nos a lembrar isso”

Paulo VI celebra a missa pré-conciliar
Transcrição integral da entrevista ao padre Manuel Nogueira Mouzinho Vaz Patto, sobre o valor do latim nas celebrações da Igreja. A reportagem está aqui. Ver também, sobre o mesmo assunto, a entrevista ao padre Luís Manuel Pereira da Silva.


O que significa o rezar e celebrar em Latim e não no vernáculo?
O Latim sempre teve lugar na Igreja, e continua a ter, sobretudo no Concílio Vaticano II, na Sacrosanctum Concilium é reforçado o valor do latim, como sendo o vulgar. Infelizmente deixou de ser o vulgar para ser inexistente na Igreja, por isso qualquer fiel comum não pode ter acesso ao latim na liturgia, o que não é previsto no concílio.

De facto o latim tem um valor muito importante, em primeiro lugar porque remete para a sacralidade, para que a liturgia seja uma coisa diferente das coisas comuns, como acção sagrada que é e pela presença de Deus. A liturgia é a acção de Deus, em primeiro lugar, que desce à Terra e, pela presença de Jesus, pode trazer-nos as graças de Deus e levar as nossas súplicas até Deus.

Por isso a liturgia é sagrada e o latim ajuda-nos a lembrar isso, que a liturgia não é uma coisa comum, habitual, como uma refeição ou um encontro nosso. O latim tem esse valor que o concílio Vaticano II lhe dá e que infelizmente se tem perdido e é bom, de facto, sermos fiéis ao concílio e como os últimos Papas, Francisco e Bento XVI nos têm alertado, é preciso cuidarmos muito da liturgia como acção sagrada, para que possa ser um espaço de encontro dos homens com Deus.

O latim pode ter e tem, em muitas pessoas, essa possibilidade de ajudar ao encontro com Deus.

Celebra a maioria das suas missas no vernáculo, certamente. Sente alguma diferença quando celebra em latim?
O vernáculo tem muito lugar na Igreja, é importante que as pessoas compreendam sobretudo a palavra de Deus, para que se possam alimentar dela, portanto o vernáculo tem no rito antigo, mas sobretudo no novo, um lugar muito importante. As pessoas devem tentar compreender e foi esse o esforço do concílio, para que as pessoas compreendessem, mas sem tirar o carácter essencial da liturgia. Portanto a liturgia no vernáculo faz sentido, mas deve ser mantido também o uso do latim.

No pontificado de Bento XVI falava-se na reforma da reforma. Imagina uma situação em que nas missas em todo o mundo algumas orações sejam feitas em latim, como sinal de unidade?
A respeito da reforma da reforma, isso pode acontecer, depende dos fiéis, basta que os fiéis queiram.

O essencial é celebrar a liturgia com o cuidado que merece como acção sagrada. Portanto em cada gesto, em cada palavra, que pode ser no vernáculo ou em latim, deve estar presente esse carácter sagrado, de acção de Deus. Por isso o vernáculo faz sentido mas também o latim, sobretudo nos cânticos, que é o mais fácil e o mais adequado, que nos ajuda a rezar a elevar-nos para Deus.

Deve ter lugar e os fiéis reconhecem que os ajuda na sua intimidade e relação com Deus.

"Rezar numa língua que não se entende pode-se transformar numa cacofonia"

Paulo VI a celebrar missa pós-conciliar
Transcrição integral da entrevista ao padre Luís Manuel Pereira da Silva, sobre a abertura da liturgia ao vernáculo. A reportagem está aqui. Ver também a entrevista, no sentido contrário, ao padre Manuel Vaz Patto.

Faz 50 anos que Paulo VI celebrou a primeira missa no vernáculo. Que diferença é que isto fez na vida dos católicos?
Foi uma das grandes realizações da reforma que o concílio promoveu, o acesso às línguas vernáculas. É certo que o concílio não acabou com a missa em latim, ela sempre foi possível, inclusive o missal de Paulo VI também está em latim, e sempre a Igreja teve a faculdade de celebrar o latim, se se justificar.

Todavia, o Papa Paulo VI celebrar pela primeira vez no vernáculo é uma forma de chancelar toda uma reforma litúrgica que estava a ser empreendida e que era um desejo de grandes sectores da Igreja.

Antes do concílio o Movimento Litúrgico, uma das ideias e sugestões que fazia à Santa Sé era para que a celebração fosse na língua que as pessoas percebessem.

Rezar numa língua que não se entende pode-se transformar numa cacofonia. A prova disso é que as pessoas, quando queriam rezar, rezavam na sua língua própria. Rezavam o terço, tinham orações nos missais em português, porque é a forma de expressão.

Aliás a Igreja reza, em cada sítio, conforme a língua que usa, tal como no tempo de Jesus e tal como na história da salvação. Quando o povo de Deus falava aramaico ou hebraico, rezava em hebraico e escreveu parte da Bíblia em hebraico.

No tempo de Jesus, a língua maioritária do Império Romano era o grego, tanto que a Igreja nascente celebrou em grego até ao Papa Dâmaso e o Papa Dâmaso morre no século IV. Por isso é que os Evangelhos, à excepção do Evangelho de São Mateus, estão escritos em grego.

Quando o latim começou a ser a língua maioritária a Igreja também começou a rezar em latim. O que se sucedeu é que a liturgia continua a ser celebrada em latim, uma língua que o povo cada vez mais não percebia, sobretudo a partir do século IX, quando começam a surgir as línguas nacionais. O que depois se sentiu, e cada vez mais se acentuou, foi um desfasamento entre a língua oficial da liturgia e a língua em que o povo reza, canta e louva o senhor.

Portanto, voltar à língua vernácula é voltar ao contexto natural, porque não há línguas sagradas. Nosso Senhor não falou latim. Não era a língua do seu tempo. Quando vemos algumas tendências para endeusar o latim… Hoje em dia quem é que entende o latim e se expressa em latim? Ninguém.

A oração é a oração do povo de Deus, unido à sua cabeça que é Cristo. E cada povo tem a sua língua, cada povo tem a sua forma de se expressar e a celebração em vernáculo é uma consequência natural de uma oração que se quer participada pela comunidade, conscientemente celebrada, conscientemente vivida e que se torna, como diz o Concilio, a glorificação de Deus e a santificação do homem.

Faria sentido haver algumas orações das missas em latim, como sinal de unidade a nível global?
É uma possibilidade e é uma prática já que existe.

Nas grandes celebrações internacionais o Ordo, o Kyrie, o Santo e o Agnus Dei muitas vezes são em latim. Às vezes o Pai Nosso, o Credo ou o Glória, mas o Credo e o Glória, como hino e como afirmação de fé, mesmo nas celebrações internacionais, se quisermos ser objectivos, em que estejam 100 mil pessoas, dessas quem é que entende o latim? É o querer manter uma coisa, a meu ver, que não faz contexto.

Aliás o motu próprio de Bento XVI diz isso com clareza, logo ao princípio. Quando a assembleia e o grupo celebrante percebe o latim, justifica-se. Quando isso não acontece, não há condições reunidas para se manter. Portanto eu, que até defendo essas grandes orações, acho que não é por isso que há mais unidade. A unidade faz-se à volta do mistério que celebramos. As outras formas são apenas formas de celebrar.

Quem vê as celebrações de Fátima vê que é muitas vezes assim. Na Santa Sé, chega-se a certos momentos e reza-se em latim, sem problema nenhum.

Os documentos do CVII promovem o vernáculo, mas de modo algum prescrevem o latim. Na prática viu-se o quase desaparecimento total do latim da vida diária dos fiéis. Foi-se longe de mais?
Não. Seguiu o curso natural das coisas. O contexto do Sacrosanctum Concilio é de 1963 e portanto na Igreja que ainda não tinha optado pelo vernáculo, não podia dizer outra coisa. A prática das comunidades cristãs, das conferências episcopais, da realidade da Igreja, é que ajudou a aclarar o que aconteceu. De facto, as pessoas optaram pela língua vernácula.

Veja, em Lisboa, houve missa em latim durante décadas depois do concílio, concretamente na Igreja de Santo António, e acabou porque não tinha povo. Manteve-se, porque era permitido, era normal e depois teve de acabar, porque não vinha ninguém.

Portanto não foi um abuso, nem um ir para lá do que diz o concílio. Foi um actualizar o que o concílio abre e responder às necessidades e à tendência que havia na Igreja.

Mas o latim continua a ser uma língua importante para a Igreja…
Claro que o latim continua a ser a língua oficial da Igreja, porque os documentos principais estão escritos em latim. Mas depois o que é que se tem de fazer? Traduzir tudo para as línguas vernáculas. Quem é que lê, hoje, uma encíclica do Papa em latim?

Um grupo que saiba latim e que reze em latim, tudo bem. De resto, pode-se tornar o pegar numa coisa para fazer dela um ex-libris, mas de quê?

Friday, 6 March 2015

Nimrud - Era uma vez um tesouro da humanidade

Nimroud, antes...
Não há dia em que o Estado Islâmico não nos dê notícias frescas. Hoje surgiu a informação da destruição da cidade de Nimrud, um tesouro arqueológico que data do século XIII antes de Cristo.

Desde os budas dinamitados no Afeganistão até este último incidente, são já vários os episódios de violência contra o património cultural do mundo. Porquê? É o que tento explicar aqui.

Amanhã faz 50 anos que o Papa Paulo VI celebrou a primeira missa em italiano, selando a reforma litúrgica que permitiu missas no vernáculo. Hoje temos o padre Vasco Pinto de Magalhães sobre o tema, a dizer que a missa em Latim deixava o povo de fora. Amanhã teremos mais uma reportagem sobre o assunto, com perspectivas diferentes.

Existe marketing religioso? Claro que sim, dizem os especialistas. E faz falta.

Wednesday, 20 August 2014

A “História da Igreja Católica” de Hitchcock

Acabei de ler a “História da Igreja Católica” de James Hitchcock, o que me levou a reflectir sobre alguns desenvolvimentos históricos que nos podem dar que pensar hoje em dia, sobretudo em três áreas específicas:

1. Desenvolvimentos Litúrgicos

No que diz respeito à Missa, o latim tornou-se a língua litúrgica em vez do grego no terceiro século, por ser o vernáculo. O “beijo da paz” era um costume pagão que foi gradualmente incorporado na liturgia. A comunhão na mão prevaleceu até ao século nono, altura em que se formulou a doutrina da presença real e a comunhão na boca tornou-se a respectiva afirmação doutrinal, (hereges como Ratramnus atacaram a ideia). Durante a Idade Média, sob influência do clero franco, as genuflexões, o sinal da cruz e outros gestos tornaram-se lugares-comuns litúrgicos. A comunhão era pouco frequente. O Concílio de Trento viria a encorajar a comunhão frequente, mas aquilo em que os padres conciliares estavam a pensar era comunhão semanal para seminaristas e comunhão mensal para freiras. Foi Pio X, no século XX, quem abriu a porta para aquilo que hoje compreendemos como “comunhão frequente”.

Enquanto académico de línguas clássicas, tendo estudado grego e latim no liceu e na universidade, tendo ensinado latim em África e na Califórnia e memorizado grande parte da missa em latim, fiquei de rastos quando se começou a celebrar o Novus Ordo em inglês. Graças às maravilhas da tecnologia Android, agora consigo ler partes do ofício divino em latim no meu Smartphone. Mas ainda não sei de cor o Glória nem o Credo em inglês. Seja como for, a missa não é sobre mim! Não se pode voltar atrás: a nossa é uma Igreja de muitos ritos – romano, bizantino, alexandrino, siríaco, arménio, maronita, caldeu… - com uma variedade de línguas – grego, sírio, árabe, russo, eslovaco, etc. A missa nos países de língua inglesa continuará a ser em inglês, com pequenos bolsos aqui e ali para quem ama a forma “extraordinária”. Ainda há padres fluentes em latim? Se não, será que têm tempo para aprender?

Mas a prática de celebrar a missa “versus populum”, de frente para a congregação, em vez de “ad orientem”, de frente para o altar, é um problema. Se há esperança para o diálogo ecuménico com os ortodoxos, esta prática, bem como a primazia do Papa, é um obstáculo gritante. A arquitectura das igrejas católicas de rito latino mudou significativamente desde o Vaticano II, com uma mesa próxima da congregação, ao estilo protestante, em vez de enfatizar o altar em frente, onde o padre continua a renovar o mistério do sacrifício de Cristo na Cruz.

Temos de perguntar: quais são as nossas prioridades ecuménicas? Queremos investir na união com os protestantes, que se sentem confortáveis numa igreja com uma mesa para a “Ceia do Senhor”? O senso comum deve levar-nos a dar prioridade aos ortodoxos, que são “igrejas irmãs” com sucessão apostólica válida e perpetuam de forma reverente o sacrifício da missa.

Entretanto, continuando a assistir a missas “Novus Ordo”, ficaria razoavelmente satisfeito se os padres apresentassem claramente a missa como um sacrifício em vez de uma refeição comunitária, deixassem de usar termos neutros para substituir os masculinos no Evangelho e no missal e deixassem de atravessar toda a Igreja para socializar na altura da comunhão.

2. Escândalos na Igreja
Jesus avisou os seus discípulos de antemão: “Ai do mundo, por causa dos escândalos; porque é mister que venham escândalos, mas ai daquele homem por quem o escândalo vem!” (Mt. 18,7). Os séculos IX e X foram o auge dos escândalos, tanto na Igreja como na política. Carlos Magno casou-se cinco vezes, teve seis concubinas e forçou as filhas a ter filhos fora do casamento, para evitar problemas com genros sedentes de poder. O Papa Estêvão VI exumou o cadáver do seu antecessor, o Papa Formoso, para o profanar publicamente por causa de desentendimentos sobre direito canónico, mas ele também acabou preso e estrangulado até à morte.

No século XI Bento IX tornou-se Papa através de subornos, mas acabou por resignar, na condição de ser reembolsado. No século XV o Papa Sexto mandou dois padres assassinar alguns Medicis que representavam obstáculos a alianças estratégicas que tinha em mente; e o Papa Alexandre VI, depois de uma feroz campanha para se tornar Papa, viria a ser um dos pontífices mais infames. Pio II, o único Papa a escrever uma autobiografia, também era conhecido por escrever obras pornográficas antes de ter conseguido alcançar o pontificado através de esquemas ambiciosos.

Contudo, as reformas proliferaram juntamente com os escândalos. No século XII, Pedro Abelardo, famoso pelos encontros com Heloísa, acabou por se tornar um director espiritual e um abade reformador, a tal ponto que os seus monges o tentaram envenenar, enquanto Heloísa se tornou abadessa de uma comunidade de freiras. No século XIV, Santa Catarina de Sena, que não deixava de melgar os papas desnorteados, dedicou o capítulo 124 dos seus famosos diálogos à necessidade de obliterar o escândalo dos padres sodomitas para se poder reformar a igreja. No século XVI o Papa Paulo III, cuja carreira foi auxiliada pelo facto de a sua irmã ter sido amante de Alexandre VI, deixou para trás uma vida de escândalos para se tornar um Papa reformista. E no século XVII a grande reforma trapista da ordem cisterciense foi conseguida por Armand-Jean de Rancé, depois da morte da sua amante.

No século XX, para além do escândalo de padres e freiras a abandonar os seus ministérios, o maior escândalo tem sido o dos abusos sexuais, incluindo pedofilia, por padres em boa conta, bem como o encobrimento e as “transferências”. Mas enquanto recuperávamos deste pesadelo tivemos dois grandes e santos papas, bem como uma reforma gradual e bem-sucedida numa área de disciplina interna da Igreja que costumava passar-se só atrás de portas fechadas, mas agora se tornou mais transparente.

E agora, perante desafios abertos à liberdade religiosa por parte dos governos, é possível que vejamos os bispos e outros líderes religiosos a chegarem-se à frente e a fechar serviços, como agências de adopção, em vez de ceder à pressão de servir “casais” homossexuais ou fechar hospitais em vez de sucumbir às exigências de financiar contraceptivos nos seguros. A “reforma”, nestes casos, poderá exigir atitudes verdadeiramente heroicas.

3. Concílios

Temos assistido a críticas incessantes ao Concílio Vaticano II por não ter clarificado nem fortalecido a posição da Igreja no mundo e de, pelo contrário, ter levado a uma fuga de fiéis. Mas como Hitchcock faz questão de sublinhar, historicamente os concílios nunca resolveram os problemas da época em que foram convocados. Pelo contrário, em muitos casos ajudaram a intensificá-los. O Concílio de Nicéia (325), que tinha como objectivo clarificar questões sobre a divindade de Cristo, acabou por gerar ambiguidades sobre a sua “consubstancialidade” com o Pai. O Concílio de Calcedónia (451) não resolveu o problema da relação de estatuto entre as sés de Roma e de Constantinopla. 

O Concílio de Trento (1545-63) foi recheado de divisões políticas. Boicotado pelos bispos franceses, teve a oposição de Paulo IV mas foi retomado por Pio IV, embora sujeito a relações tempestuosas entre facções nacionais e doutrinais. Os objectivos contra-reformistas de resolver as questões da justificação e da relação entre a graça e o livre arbítrio foram em larga medida falhados e a missa no vernáculo foi proibida, apesar de o latim ter alcançado a primazia precisamente por ser o vernáculo.

Igualmente, o Vaticano I (1869-70) enfrentou oposição episcopal considerável à declaração de infalibilidade papal. Um dos problemas era que, historicamente, dois papas tinham estado perto de heresias. Honório, no século VII aceitou o monoteletismo e o Papa João XXII, no século XIV defendeu, por um período, a doutrina de “alma adormecida” após a morte, antes do juízo final. Foi por isso que se incorporou a condição de se falar “ex cathedra” na declaração, para diminuir a probabilidade de pronunciamentos heterodoxos.

Por isso o Vaticano II, por mais falhas que tenha tido, não foi caso único. As divisões políticas eram imensas. Os principais agentes no Concílio foram principalmente teólogos, muitos dos quais do género “progressista”, e os bispos e os cardeais tendiam a dar lugar a esses “peritos”, como explica Hitchcock:

Juntamente com Schillebeeckx, Haering e, em menor escala, Rahner, o padre e teólogo germano-suíço Hans Küng tornou-se o mais apaixonado e audaz porta-voz do aggiornamento, exigindo que a Igreja se acomodasse a uma cultura em mudança, enquanto Lubac, Danielou, Maritain, Balthasar, Bouyer, Ratzinger e outros protestavam o que consideravam ser distorções do concílio.

Um dos principais pontos de viragem do Vaticano II teve lugar quando a Comissão Teológica, presidida pelo Cardeal Ottaviani, foi ultrapassada pela berma pelo recém-criado Secretariado para a Promoção da Unidade dos Cristãos, presidido pelo Cardeal Bea. Este secretariado era idealista em relação à possibilidade de se restaurar a unidade e pragmática quanto aos métodos, que incluíam gestos diplomáticos para com os soviéticos e os representantes ortodoxos que simpatizavam com os soviéticos.

Vários dos “schemata” foram submetidos a critérios ecuménicos. Assim, os progressistas conseguiram descarrilar os esforços para enfatizar a Virgem Maria como Mediadora de todas as Graças e co-redentora, uma vez que isso era visto como um obstáculo à unidade co os protestantes. Os braços do secretariado chegavam mesmo bem mais longe que o Cristianismo, em direcção ao Islão, visto como uma religião “abraâmica” que adorava “o Deus único e misericordioso”. (Tanto quanto sei nem um dos peritos que escreveu a Constituição Dogmática Lumen Gentium era um estudante sério da doutrina, prática e história do Islão.)

Apesar destes exageros e talvez algumas ambiguidades noutros documentos, (o concílio não emitiu leis ou declarações definitivas sobre questões de fé e de moral), o Vaticano II não produziu nada de claramente herético. Os progressistas avançaram com propostas que tresandavam a heresia, como o conciliarismo, modernismo, a primazia da colegialidade episcopal, compromissos com a liberdade religiosa, etc. Mas a organização tardia de “conservadores” como como os cardeais Ottaviani, Siri, Ruffini e o arcebispo Lefebvre, entre outros, bem como as suas intervenções nas conferências, ajudaram a modificar estas iniciativas e a colocar os debates novamente em linha com a tradição e os anteriores concílios.

Aqueles que apontam para o Vaticano II como o princípio de uma espiral de declínio para o Catolicismo não têm em conta que o Concílio teve lugar mesmo durante a revolução sexual dos anos 60. Enquanto o Concílio começava, em 1962, a pílula contraceptiva estava no mercado há dois anos e esperava-se que um dos resultados deste concílio “pastoral” fosse a aprovação de pelo menos esta forma de contracepção. Quando isto não aconteceu e quando a encíclica Humanae Vitae (1968), de Paulo VI, enfrentou a rejeição ou a indiferença esmagadora de muitos bispos e teólogos, isso conduziu a uma crise de autoridade, que se mantém. O feminismo militante e o ataque a todas as formas de “patriarquia” também foram um factor muito importante.

Será que o Vaticano II conseguiu “abrir as janelas para deixar entrar ar fresco”, como o Papa João XXIII esperava? De certa maneira, sim. No Vaticano I, por exemplo, não havia cardeais da Ásia nem de África. No Vaticano II, contudo, os cardeais africanos, asiáticos e da América Latina estavam bem representados. Foi sem dúvida mais “ecuménico” no sentido de abrir a Igreja ao mundo. Aliás, Hitchcock apresenta uma estatística interessante, que em 2010 a Igreja duplicou de tamanho em relação ao fim do Concílio Vaticano II.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination(2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em TheCatholic Thing no sábado, 16 de Agosto de 2014)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Tuesday, 27 March 2012

A Igreja tem de reconciliar-se com a sua própria cultura

Quem quer ter uma relação profunda com alguém deve primeiro estar em paz consigo mesmo. Por essa razão, diria que a coisa mais importante a fazer neste campo é a Igreja reconciliar-se com a sua própria cultura.

Não estamos a falar de uma instituição que nasceu ontem, ou há uma década. A Igreja tem dois mil anos de cultura, fora outros tantos milhares que herdou da civilização judaica no seio da qual nasceu. Durante centenas de anos esta Igreja não só interagiu com a cultura dominante como foi a sua principal impulsionadora e mecenas.

Este estado de coisas levou a uma certa reacção. O mundo da cultura revoltou-se contra a Igreja e toda a tradição cristã, ao ponto de ambos os universos terem ficado quase de costas voltadas. Mas a revolta não se deu só do lado da cultura, também a Igreja se revoltou, em larga medida, contra si mesma. Um mal definido “espírito” do Concílio Vaticano II foi interpretado por muitos como uma licença para ignorar dois milénios de cultura católica, na vã esperança de que diluindo essa identidade a instituição se tornasse mais apelativa a quem tinha criado anticorpos a tudo quanto era clerical.

Modernizou-se a liturgia, tudo bem. Mas era preciso criar um clima em que o mero interesse pela liturgia antiga fosse vista praticamente como crime? Quantas dioceses em Portugal aplicaram o Summorum Pontificum? Não é por falta de interessados.

Existem na Igreja Ocidental três dioceses que têm o privilégio de usar uma variante distinta do rito romano. Milão, Toledo e Braga. Os dois primeiros cultivam e protegem essa riqueza. Por cá, quantos dos leitores já assistiram a uma celebração do rito Bracarense?

Damos por nós, enquanto Igreja, a incentivar os cristãos orientais a redescobrirem as suas raízes e a manterem as suas tradições e culturas distintas (e que fontes de riqueza são!), ao mesmo tempo que fechamos os olhos a séculos de cultura litúrgica e espiritual ocidental. Sempre achei a pior forma de paternalismo lutar pela cultura alheia enquanto tudo se faz para suprimir a nossa, dando a ideia que somos muito modernos mas que os outro devem ser preservados, quais peças de museu, para podermos observar e admirar.

Mais grave, ao abandonar a nossa herança permitimos que estes domínios se tornem bandeira quase exclusiva de movimentos tradicionalistas, e por vezes cismáticos, de carácter frequentemente duvidoso.

Hoje em dia percebemos cada vez melhor que não podemos ir ao encontro de outros sem conhecer algo sobre eles. Vemos a um ritmo quase diário o custo da falta de preparação cultural de agentes ocidentais que actuam em regiões como o Médio Oriente ou, para citar um caso mais recente, no Afeganistão.

Não temos então a obrigação de nos reconciliarmos com a nossa própria cultura? Familiarizar-nos com ela, explorá-la, recuperar o que for para recuperar, antes de nos sentirmos capazes de olhar nos olhos os nossos interlocutores do mundo da cultura?

Penso que sim. Sei que há uma nova geração, quer de leigos quer de padres, menos próximos do Concílio e que rejeitam o ambiente de ruptura que dele surgiu em muitos lados. Caberá a estes cristãos pôr fim a uma guerra fratricida com o qual não nos identificamos e que apenas prejudica a Igreja. Acredito mesmo que é urgente fazê-lo, sob pena de o mundo cultural nos considerar insignificantes e não ver qualquer utilidade em dialogar connosco.

Filipe d’Avillez

Partilhar