Wednesday, 31 July 2013

Buracos na Eslovénia e mitos em Moscovo

Santo Inácio

O Papa anunciou a mensagem para o próximo Dia Mundial da Paz. Porque hoje é dia de Santo Inácio, o Papa esteve com a comunidade jesuíta de Roma para celebrar.

Dois bispos na Eslovénia resignaram por causa de má gestão financeira. Só a diocese de Maribor tem uma dívida de 800 milhões de euros.

Esta quarta-feira é dia de um novo artigo do The Catholic Thing. Podem pensar que o Austin Ruse me paga uma comissão por cada artigo dele que eu publico, mas a sua “Carta de Moscovo” parece-me mesmo o mais interessante da semana. Ele questiona se Moscovo está mesmo em “guerra” com os homossexuais, como tanto se diz. As reflexões são interessantes.

Carta de Moscovo

Austin Ruse
Recentemente disse a uma senhora da Letónia que tinha estado em Moscovo e que me tinha reunido com o Governo para agradecer a sua posição firmemente pró-família nas Nações Unidas. Ela abanou um dedo ossudo na minha direcção e exclamou: “Não são de confiança. Se estão do seu lado, é por outras razões. São mentirosos!”

Depois de no ano passado ter participado numa conferência em Rodes, patrocinada por Moscovo, um amigo e colega cortou relações comigo durante vários meses, acreditando que eu me tinha associado a gangsters e oligarcas do KGB.

A desconfiança dá tanto para um lado como para o outro. Em Moscovo tanto membros do Governo como cidadãos normais me disseram que os Estados Unidos querem minar os valores e a moral do povo russo. Apontam para um discurso, que provavelmente nunca foi proferido, por Allen Dulles, director da CIA, que terá sugerido minar os valores russos e transformar as suas mulheres em prostitutas. O discurso é mencionado aqui, mas como uma história apócrifa.

Também citam uma coisa alegadamente dita por Zbigniew Brzezinski, que pensam, erradamente, ter feito parte da administração Reagan, no sentido de que a América deve tentar minar a única instituição que permanece na Rússia: a Igreja Ortodoxa.

Mas descontando estes erros, eles têm alguma razão. Afinal de contas a Rússia, como muito do resto do mundo, está recheada de porcaria feita nos Estados Unidos, sobretudo pornografia. Quando me encontro com diplomatas recém-chegados às Nações Unidas, esperam encontrar proxenetas, prostitutas e pornógrafos. Ficam chocados quando se dão de caras com pessoas que rezam.

A América lidera, actualmente, o esforço para espalhar a agenda homossexual a nível global. Nomeamos embaixadores homossexuais para países tradicionais. A República Dominicana está furiosa com esse facto. É uma prioridade da política externa americana avançar a causa homossexual sempre que possível. Organizamos festas gay em embaixadas, até em sítios, como o Paquistão, onde isso ofende.

Mas é a Rússia que se encontra sob o foco dos activistas homossexuais e dos direitos humanos por causa de leis recém-criadas para limitar os avanços homossexuais. O Parlamento russo passou uma lei, quase por unanimidade, que proíbe a propaganda homossexual dirigida a crianças em idade escolar e manifestações públicas de homossexualidade, como marchas.

O dramaturgo homossexual Harvey Fierstein ia tendo um ataque no New York Times esta semana. Ele faz várias afirmações falsas sobre a lei, tal como que os pais que falem sobre homossexuais de forma positiva podem ver os seus filhos removidos ou ser presos. Segundo ele, a nova lei permitiria às forças de segurança identificar e prender turistas suspeitos de serem homossexuais. Tudo isto é falso e o Times devia ter vergonha de o ter publicado.

Até conservadores estão a envolver-se. O site Daily Caller de Tucker Carlson, publicou uma coluna de opinião na semana passada, chamando os homossexuais a envolver-se com a questão na Rússia.

Eu estive na Rússia para agradecer a posição firme que a Rússia tem tido em relação a estes assuntos nas Nações Unidas e para dizer que os conservadores americanos são a favor da lei sobre a homossexualidade.

As afirmações de Fierstein e da imprensa homossexual de que existe uma “guerra aos homossexuais” deixaram-me curioso. Acabei por descobrir que a verdade é outra.

Estava no Hotel Metropol, um dos mais antigos e prestigiados de Moscovo. Segunda-feira de manhã, à porta do hotel, observei um homem transsexual, agora “mulher”, a passear pela rua com calças pretas e uma camisola apertada, com decote para mostrar os seus novos peitos.

Protesto gay na Rússia

Ninguém reparou sequer. E ele não parecia estar particularmente preocupado em ser visto e chateado, muito menos detido pelas forças de segurança.

Na próxima noite, passeava ao pé do Bolshoi quando reparei em três homens peludos, com vestidos. Mais uma vez, ninguém reparou nem os tentou prender.

Curioso, fui à internet e meti “Gay Moscow” no Google. Longe de se ter refugiado no armário, a cena gay de Moscovo está à vista e orgulhosa. Dezenas de sites anunciavam restaurantes e bares. Até existem saunas.

Ouvimos dizer muita coisa sobre a Rússia hoje em dia: Corrupção, autoritarismo, abusos. Tanto de organizações como a Human Rights Watch, a ACLU e a Amnistia Internacional como por parte de malta conservadora. Mas questiono-me se as coisas são tão claras como nos dão a entender.

A afirmação de que a Rússia está em guerra contra os homossexuais é falsa. Que mais será falso? O que sei é que a Rússia está a experimentar um despertar religioso, liderado pela Igreja Ortodoxa.

O czar dos comboios russos, Vladimir Yakunin, com quem me encontrei, organizou recentemente uma visita à Rússia da Verdadeira Cruz de Santo André. Havia filas de cinco horas, debaixo de chuva, para a visitar. Felizmente, Yakunin organizou as coisas para que eu pudesse saltar a fila.

Encontrei-me também com o jovem bilionário Konstantin Malofeev, cujo gabinete está recheado de ícones religiosos. Ele está a trabalhar no sentido de aproximar os ortodoxos russos e os cristãos americanos.

Malofeev e muitos outros russos vêem-se como uma nação cristã, enviada para ajudar outros cristãos pelo mundo. Para eles, pelo menos, essa é a razão pela qual apoiam o regime de Assad; ele é melhor para os cristãos ortodoxos na Síria.

Ele questiona-se sobre se será possível forjar uma grande aliança global entre os ortodoxos e os católicos, e que efeito é que isso terá na guerra cultural global que está a ser avançada pela esquerda sexual. Eu partilho a sua curiosidade.

A conversa global é religiosa. Os secularistas podem dominar o Ocidente, mas para lá dele nem estão em cena, excepto na medida em que conseguem impor a sua agenda através de instituições internacionais para o desenvolvimento.

As nossas vozes poderiam ser muito mais poderosas se nos unirmos àqueles que muitos parecem ter interesse em silenciar.

Podemos partir do exemplo do Papa Francisco. Nos primeiros dias do seu pontificado recebeu em audiência o Metropolita Hilarion, director das Relações Externas da Igreja Russa. Hilarion deu a Francisco um ícone famoso e poderoso, importante para os ortodoxos, mas para os russos em geral: Nossa Senhora de Kazan. Francisco deu-o a Bento XVI quando se encontraram pela primeira vez, depois da sua eleição.

A Rússia é criticada, e com razão, por muitos dos seus actos. Mas poderá também estar sob ataque por razões que não estão inteiramente à vista.


Austin Ruse é presidente do Catholic Family & Human Rights Institute (C-FAM), sedeado em Nova Iorque e em Washington D.C., uma instituição de pesquisa que se concentra unicamente nas políticas sociais internacionais. As opiniões aqui expressas são apenas as dele e não reflectem necessariamente as políticas ou as posições da C-FAM.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 26 de Julho 2013 em The Catholic Thing)

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Tuesday, 30 July 2013

Mais uma tragédia na Síria

Padre Paolo Dall'Oglio
Nos últimos anos entrevistei duas vezes o padre Paolo Dall’Oglio, um jesuíta italiano que viveu décadas na Síria. Ontem surgiu a notícia que o sacerdote foi raptado por rebeldes islamistas. Tinha voltado para a Síria para trabalhar com a população. Peço as vossas orações pelo padre Paolo. Aqui podem ler a transcrição completa da mais recente entrevista que lhe fiz, em que me revelou em primeira mão que acabava de ser expulso do país pelo regime.

Na Nigéria houve mais um atentado contra cristãos, no Norte do país, que fez 24 vítimas.

A mega-entrevista dada pelo Papa aos vaticanistas, na viagem de regresso do Brasil, deu pano para mangas. A questão da homossexualidade fez correr muita tinta, mas o que é que o Papa disse na realidade e será que há novidade nas suas palavras? A minha análise e reflexões.

Uma volta de 360º na questão da homossexualidade

Apesar de, na minha opinião, não ter sido o mais interessante, da entrevista que Francisco deu ontem no avião a esmagadora maioria concentrou-se no que o Papa disse sobre os homossexuais. Toda a gente citou a seguinte frase: “Se um homossexual está à procura de Deus, de forma bem-intencionada, quem sou eu para o julgar?”.

Será que isto representa uma alteração ao discurso da Igreja sobre a homossexualidade? De forma sintética… não. O que o Papa disse, basicamente, é o que a Igreja tem dito sobre os homossexuais ao longo das últimas décadas. Que o homossexual enquanto tal não deve ser perseguido, nem hostilizado, mas que as práticas homossexuais não são aceitáveis do ponto de vista moral.

Neste sentido o Papa não disse nada de novo. Contudo, penso que isto merece algumas reflexões:

1º O problema do costume da imprensa, sobretudo da imprensa secular e em larga medida ignorante acerca de temas religiosos. Vimos isso recentemente com a palhaçada das confissões via twitter. Agora é o Papa que revolucionou a posição da Igreja sobre a homossexualidade. É triste, mas não é nada de novo.

2º Se esta sempre foi a posição da Igreja, como definida no Catecismo, então porque é que toda a gente ficou tão surpreendida e, sobretudo, porque é que os que normalmente atiram pedras à Igreja ficaram tão contentes? Por um lado, porque muitos vão na conversa da imprensa e pensam que o Papa acabou de dizer que homossexualidade e heterossexualidade é tudo igual ao litro. Mas por outro lado porque ainda há muita gente que pensa que a atitude defendida pela Igreja para lidar com os homossexuais é a prisão, o insulto ou a câmara de gás. E isto é um problema. Persiste por manifesta falta de interesse da parte dos defensores da normalização da homossexualidade em aprofundar os seus conhecimentos, mas também porque muitos católicos continuam a falar de homossexuais e de homossexualidade como se fossem sinónimos e como se os homossexuais são todos iguais, pensam da mesma forma e agem da mesma forma, o que evidentemente não é verdade.

3º A reacção de muitos católicos agora tem sido de revolta com a imprensa por estar a destacar o que o Papa disse no avião, apesar de não constituir novidade. Mas vamos ter calma. Sei que estamos habituados a jogar à defesa, mas será assim tão mau que, talvez pela primeira vez, a verdadeira posição da Igreja esteja a ser apresentada pelos meios de comunicação social? Há algumas deturpações, sim, mas não duvido que muita gente esteja agora a pensar que, afinal, a Igreja não é a promotora de ódio contra os gays que sempre tinham pensado que era. Isso será mau? Queremos contradizê-lo? Claro que devemos continuar a apontar para o Catecismo e explicar que não há aqui qualquer novidade, mas de resto, deixemos que as pessoas se aproximem, apesar de tardiamente, da verdadeira posição da Igreja sobre este assunto.

Por fim, há de facto uma área em que as palavras do Papa podem representar uma alteração, mas tem passado ao lado da maioria dos comentadores e jornalistas. Ao que parece, a pergunta que foi feita ao Papa era sobre padres homossexuais. A questão está em saber se a resposta versava especificamente o caso dos sacerdotes, ou se estava a falar de homossexuais em geral.

Porquê? Porque há vários anos a Igreja proibiu, formalmente, a ordenação de homens com tendências homossexuais fortemente enraizadas. Isto quer dizer que, se um formador no seminário descobre que um candidato é homossexual, não o devia ordenar. Não implica que qualquer padre homossexual seja expulso do sacerdócio, só por sê-lo.

Estaria o Papa a insinuar que esta política deve ser alterada? A frase: “Se um homossexual está à procura de Deus, de forma bem-intencionada, quem sou eu para o julgar?”, pode, de facto ser lida assim. Mas este é um assunto que deve ser aprofundado e esclarecido, porque penso que a frase em si, mesmo no contexto, não chega para confirmar essa versão e, na verdade, duvido que assim seja.


Adenda: Publico aqui um excerto de uma entrevista ao vaticanista John Allen Jr. que explica muito bem o contexto dos comentários do Papa

Entrevistadora: What specifically was the question that Pope Francis was answering there?

Allen: In this particular case, one of our colleagues asked the pope a question about the so-called gay lobby in the Vatican. He was asked if he believes there is a gay lobby in the Vatican. His first response was to say he doesn't really believe there is, and if there is, he's never seen their ID card.

Entrevistadora: Making a bit of a joke.

Allen: But beyond that, he then engaged the substance of the question by saying if such a thing were to exist, his problem would be with the lobby. His problem would not be with the gay persons, and that lead him to the soundbite that you just quoted, that when he meets a gay person, his instinctive response is who am I to judge them.

Entrevistadora: And is the implication specifically here about gays in the priesthood then?

Allen: Well, the question had to do with the gay lobby in the Vatican, which would refer specifically to people who work in the Vatican, primarily priests. But the sense we had from the pope's response is that he was speaking more generally about his attitude towards gay persons, whether they're priests or ordinary laity.

Entrevistadora: When you heard those words coming from his lips, what was the reaction among the folks on that plane?

Allen: Well, at one level it is quite familiar. I mean the Catholic Church's official teaching on homosexuality says that homosexual persons are to be treated with what the catechism describes as respect, compassion and sensitivity. However, my suspicion is that most gays and lesbians around the world, when they hear the Catholic Church speak, they often probably do not hear that respect and sensitivity.

What they probably hear more often is what they perceive at least to be judgment. So to hear a pope saying I do not judge you is quite remarkable. But what we should say, that this was not a policy speech and the pope is not unveiling any new edict today. And this is characteristic of what Francis has done during the first four and a half months. At the level of substance - that is, concrete acts of governance - he hasn't done a great deal.


What he's been doing instead is at the level of style and tonality trying to induce people to take a new, more sympathetic look at the Catholic Church. And at level, certainly judging by the crowds and the popular reaction in Brazil during the week that Francis was on the ground, you would have to say that he's done relatively well.

Monday, 29 July 2013

Ninguém dorme no avião papal!

Aura Miguel no avião do Papa
Pensavam que com o fim da Jornada Mundial da Juventude, acabavam as notícias do Papa por uns dias? Enganaram-se! Francisco decidiu fazer uma sessão de perguntas e respostas de cerca de 80 minutos a bordo do avião.

Ficamos então a saber quê o Papa quer mais mulheres em posições de liderança na Igreja, mas diz que a posição da Igreja sobre o assunto é definitiva.

Francisco ainda não sabe o que vai fazer em relação ao Banco do Vaticano.


Por fim, o Papa também falou sobre a questão da segurança e deixou bem claro que não tem medo do que lhe possa acontecer.

Como imaginam, este é um momento único na carreira de um vaticanista. Aura Miguel conta aqui como tudo se passou.

Entretanto, sim, a Jornada Mundial da Juventude acabou ontem. Tem toda a informação no site da Renascença. A próxima jornada será em Cracóvia.

Dos seus discursos neste último fim-de-semana no Brasil destaco o convite aos jovens para acreditarem no casamento. Esta foi uma das passagens destacadas no meu último artigo de opinião sobre esta viagem, uma viagem que foi bem mais do que cachaça e feijão!

Friday, 26 July 2013

Papa, reclusos e avós

Filipe Teixeira, o português que almoçou com o Papa
Filipe Teixeira é um português de 29 anos que esta tarde esteve à mesa com o Papa para almoçar. Falou-se de muita coisa, incluindo de Portugal. Filipe Teixeira explica tudo aqui.


Ainda ontem o Papa esteve com os jovens em festa na Praia de Copacabana. Foi recebido em êxtase, beijou muitos bebés e até parou para beber “mate”, um chá típico da Argentina. A fé dos jovens, disse o Papa, foi mais forte que o mau tempo.



Dezenas de mortos no Paquistão, em mais um ataque aos xiitas.

E más notícias da Síria, foram detidos três suspeitos do rapto de dois bispos de Alepo. Dos bispos, não há notícia e aumentam as suspeitas de que terão sido assassinados.

Thursday, 25 July 2013

Papa aos "palavrões" na favela

"É só estender a mão para tocar no Papa
mas vou tirar uma fotografia"
Esta tarde Francisco visitou a Favela da Varginha, no Rio de Janeiro. A recepção foi fenomenal e entre café e “feijão com água”, só faltou cachaça porque o Papa não quis. Na notícia podem ver a reportagem em vídeo.

No seu discurso aos habitantes da favela o Papa sublinhou a importância da solidariedade. Uma palavra que, segundo Francisco, às vezes mais parece um palavrão.

Ao longo destes dias da visita do Papa ao Rio de Janeiro foi-me pedido para fazer alguns textos de opinião. A primeira, feita após a sua chegada, fala da curiosa expressão “o que vai ser de nós se não cuidarmos dos nossos olhos” e a segunda aborda a questão do Deus das surpresas, como Francisco o descreveu no Santuário de Aparecida.

Esta noite ainda há programa, com o Papa a participar numa festa com os jovens em Copacabana. O começo está marcado para as 22h e, já sabe, pode seguir as imagens em directo no site da Renascença, ou ouvir a transmissão na rádio.

Mas nem tudo são Jornadas. Por cá houve encontro da Pastoral da Liturgia e as conclusões são claras: Menos espectáculos na missa, se faz favor.

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