Friday, 29 October 2021

Eutanásia 2.0 é pior que a versão original...

A Renascença divulgou esta sexta-feira a nova versão da lei da eutanásia que os deputados vão votar na próxima quinta-feira. Fizeram alterações para tentar ultrapassar o chumbo do Tribunal Constitucional. Será que vai funcionar? O constitucionalista Paulo Otero diz que é pior a emenda que o soneto…

Joe Biden foi hoje ao Vaticano. Deu ao Papa um presente com um significado muito pessoal e conversaram durante mais de uma hora. No final, aos jornalistas, disse que não falaram do aborto, mas que o Papa o tinha encorajado a continuar a comungar. A polémica já está instalada. Saiba porquê.

A Universidade Católica vai acolher um simpósio internacional para promover a ideia da “aprendizagem-serviço”. O Papa Francisco e António Guterres gostaram da ideia e mandaram mensagens de incentivo.

Já todos sabemos que Portugal vai estar debaixo de chuva intensa estes dias, mas se estiver pelos lados de Fátima e quiser ir a um concerto de Rock cristão italiano, ao menos é num auditório.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, sobre conhecimentoque cega, em vez de iluminar.

Wednesday, 27 October 2021

Papa no Canadá para acelerar reconciliação

O Papa vai ao Canadá para se encontrar com representantes das tribos que exigem um pedido de desculpas pelo envolvimento da Igreja Católica no sistema de colégios internos que existiam para impor a cultura ocidental às suas crianças, e onde se praticaram abusos e violência em larga escala.

Estamos na Semana dos Seminários. Dizem os responsáveis que os candidatos ao sacerdócio são menos que antigamente, sim, mas de novos meios sociais e culturais.

Começou o processo sinodal em Lisboa. D. Manuel Clemente quer que este e as JMJ avancem em conjunto, sendo que para as JMJ isso pode ser em passo de corrida.

Os bispos do Reino Unido manifestaram-se contra o projeto de legalização do suicídio assistido.

Vivemos num tempo em que acreditamos que o conhecimento é que nos ilumina. Mas haverá conhecimento que nos cega? O padre Paul Scalia acredita que sim e explica porquê neste artigo do The Catholic Thing em português, partindo do episódio do cego Bartimeu.

Conhecimento que Cega

Pe. Paul Scalia

O “Peitoral de São Patrício” contém uma oração curiosa a invocar o poder de Deus “contra todo o conhecimento que cega a alma do homem”. Às vezes é traduzido como o conhecimento que “corrompe”, que “agrilhoa” ou que “profana”. Seja qual for o termo, o ponto permanece e é contrário ao modo de pensamento da nossa cultura. Nós vivemos de acordo com a noção simplista de que “Conhecimento é poder”. Não conseguimos imaginar um conhecimento mau.

Mas São Patrício sabia melhor. Ele sabia que temos de ser defendidos contra aquele “conhecimento” que não só não nos ajuda, como ameaça. É um conhecimento que promete visão, mas resulta em cegueira.

Pelo menos o cego Bartimeu, cuja história ouvimos no Evangelho do passado domingo, sabia que era cego. Foi esse conhecimento que o levou a clamar: “Jesus, Filho de David, tem piedade de mim”. A cegueira dele era saudável, na medida em que o levou a procurar uma cura. Mas a cegueira causada pelo nosso próprio conhecimento é outra coisa. Cega enquanto afirma dar-nos visão e por isso deixa-nos cegos para a nossa cegueira.

Pensemos por exemplo na mentalidade contraceptiva. Com a aceitação generalizada do uso de contracepção pensávamos que tínhamos obtido um conhecimento e uma sabedoria melhores que as dos nossos antecessores. De facto, a mentalidade contraceptiva cegou-nos para aquilo que os nossos antepassados bem sabiam: as verdades sobre o homem, a mulher, a sexualidade e o casamento.

Se a procriação pode ser eliminada da relação sexual, porque é que esta deve ser reservada ao casamento? Para que é que precisamos do casamento? Aliás, por que razão deve este acto ser restringido a um homem e uma mulher? E uma vez que a contracepção rejeita aquilo que é distintivo do homem e da mulher (a sua capacidade para procriar), porque havemos de pensar que ser homem ou mulher significa algo, ou é sequer uma realidade? Assim vemos que nos tornámos cegos a verdades que outrora eram bem conhecidas.

A mentalidade contraceptiva está ligada a outro conhecimento que cega, a ideia moderna de que a liberdade significa a capacidade de fazer o que me apetece. Segundo esse entendimento, a liberdade requer a rejeição de todos os limites. Claro que quando removemos os limites às coisas elas perdem o sentido. As coisas apenas têm sentido na medida em que são limitadas. O ilimitado não é liberdade, e falta de sentido. Quando insistimos nesta liberdade cegamo-nos ao nosso próprio sentido e assim abrimos a porta à dissolução que agora vemos.

Depois temos o conhecimento cegante do “cientismo”. No seu devido lugar, a ciência é um instrumento útil. Mas o cientismo, por outro lado, é autoritário. O cartaz anuncia: “A Ciência é Real”. Mas o que isso significa na realidade é que mais nenhuma forma de conhecimento será aceite como real. É tanto uma afirmação como é uma ameaça. O cientismo fornece a narrativa de que o homem estava na escuridão e ignorância até que a revolução científica o salvou. Desde esse momento salvífico, somos todos mais sábios. Dominámos o mundo (não obstante as pandemias). Claro que tudo o que o cientismo faz é truncar o próprio conhecimento. Os nossos antepassados reflectiam sobre o físico e o espiritual, o temporal e o eterno. O cientismo confina-nos ao físico e temporal. O único verdadeiro conhecimento (A Ciência é real!) é aquilo que podemos medir e quantificar. Longe de iluminar, isso cegou-nos para todo um campo de visão. A narrativa dualista (velho mau/novo bom) criou um preconceito nas nossas mentes, tornando-nos hostis a qualquer conhecimento ou verdade que tenha havido antes.

O pior é que o “conhecimento” do cientismo nos cega quanto à verdade de nós mesmos. Enquanto corpos com alma somos mais do que o cientismo pode estudar. Ele reduz o nosso propósito e sentido apenas a este mundo. Tornamo-nos assim apenas mais um objecto físico a estudar, manipular e aperfeiçoar. Deixámos de conseguir compreender-nos a nós mesmos.


O cego Bartimeu mostra-nos como se pode sair da cegueira. Primeiro, e mais importante, ele mostra que a fé conduz à visão. “A tua fé te salvou”, diz-lhe o Senhor. A sua fé permite-lhe ver. Ao contrário do mito moderno, a fé permite-nos conhecer. Nas palavras de João Paulo II, “a fé purifica a razão e abre horizontes que, por si só, a razão nunca poderia considerar”.

Bartimeu mostra também que a visão requer uma certa pobreza. Quando ele ouviu que o Senhor o estava a chamar “largou a sua capa e, de um salto, pôs-se de pé e foi ter com Jesus”. A capa representava a totalidade das suas posses. Mantinha-o quente quando estava frio e talvez servisse de almofada quando se sentava para pedir. Mas a capa não era mais importante que a visão. Ele está disposto a largá-la para poder correr, livremente, em direção à cura.

A liberdade da cegueira requer pobreza, a disposição para perder a nossa riqueza e o suposto controlo. No Sul, no Século XIX, os benefícios financeiros da escravatura cegaram os homens para o grave mal dessa instituição. Da mesma forma nós temos criado vidas autónomas e confortáveis em torno do cientismo, uma noção falsa da liberdade e a mentalidade contraceptiva.

A capa que usamos é pesada, não é fácil descartarmo-nos dela. Mas só vamos conseguir recuperar a nossa visão quando estivermos dispostos a purgar-nos de tudo o que o nosso “conhecimento” nos deu. Resumindo, o nosso problema não está ao nível do intelecto, mas da vontade. Temos de estar dispostos a mudar radicalmente as nossas vidas para poder ver claramente.

Precisamos de ver. Precisamos de ser curados da nossa cegueira. Seguindo o exemplo Bartimeu, descartemo-nos da nossa falsa autonomia e riqueza, e corramos em direção ao Senhor, com aquela simples oração nos lábios, “Senhor, que eu veja.”


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero. É autor de That Nothing May Be Lost: Reflections on Catholic Doctrine and Devotion e coordenador de Sermons in Times of Crisis: Twelve Homilies to Stir Your Soul.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 24 de Outubro de 2021 em The Catholic Thing) 

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Monday, 25 October 2021

Políticos metidos no confessionário, povo pró-vida na rua

O segredo da Confissão está de novo sob ataque na Austrália, onde mais um estado legislou no sentido de obrigar os padres a revelar casos de abusos de que tenham conhecimento no confessionário. As críticas chegaram dos locais mais prováveis, mas também improváveis.

Claro que por detrás de tudo isto está o escândalo dos abusos. E para quem tem dúvidas sobre o que constitui um abuso, a diocese de Bragança tem uma ação de formação.

O Patriarca de Constantinopla foi hospitalizado nos Estados Unidos, onde tinha acabado de chegar de visita. Bartolomeu tem 81 anos.

A entrevista desta semana da Renascença e da Ecclesia é ao padre Pedro Fernandes, provincial dos Espiritanos, uma das maiores ordens missionárias do mundo.

Decorreu no passado sábado a Caminhada Pela Vida. Um grande sucesso, em ambiente de festa, como sempre. Parabéns aos organizadores e todos os que participaram!

Friday, 22 October 2021

A Caminhada Pela Vida é já no Sábado

Vem junta-te a nós...
É amanhã que se realiza a Caminhada Pela Vida. São dez cidades em simultâneo, sempre às 15h. Se acreditam na “dignidade e na beleza da vida”, ou se querem aproveitar para homenagear as vítimas da Covid, não deixem de aparecer!

Depois de uma primeira tentativa falhada, por causa da Covid, o Papa disse esta sexta-feira em entrevista que tenciona ir a Timor-Leste.

Recentemente falei do caso do padre que foi impedido de administrar os sacramentos ao deputado David Amess. Uma proposta no Parlamento britânico consagraria esse direito e ficaria associada sempre ao nome dele.

Bento XVI disse recentemente, numa carta, que espera juntar-se em breve a um amigo que morreu. Desejo de morrer? De todo, explica o arcebispo Ganswein, trata-se antes de uma antiga tradição cristã, a preparação para uma boa morte.

O líder do gangue que raptou 17 missionários no Haiti promete meter “uma bala na cabeça de cada um” caso não receba um resgate de 17 milhões de euros.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, sobre as possíveis consequências para o movimento pró-vida no caso de o Supremo Tribunal americano revogar o Roe v. Wade.

Wednesday, 20 October 2021

A Liberdade das Crianças e Transfusões Forçadas

O Papa Francisco foi surpreendido esta quarta-feira por uma criança que foi ter com ele durante a audiência geral semanal. Francisco aproveitou o momento para falar da importância daquela liberdade que é muito particular às crianças.

Temos estado a falar nas últimas semanas sobre a questão das transfusões de sangue e Testemunhas de Jeová. Ora, do Brasil chega um caso surpreendente de um tribunal que ordenou que uma mulher recebesse uma transfusão de sangue contra a sua vontade.

Do lado de cá do Atlântico a notícia triste e chocante, mas menos surpreendente, de como a polícia impediu um padre de administrar a unção dos doentes ao deputado David Amess, que foi assassinado na passada sexta-feira.

Vem aí mais uma Caminhada Pela Vida. Este ano a caminhada acontece em dez cidades ao mesmo tempo e conta com o apoio de D. Manuel Clemente e de D. Francisco Senra Coelho.

Nos Estados Unidos existe muita tensão atualmente em torno da lei do aborto, que poderá ser posta em causa num processo que vai ser analisado pelo Supremo Tribunal. O que é que isso significa para o movimento pró-vida? Randall Smith diz que a batalha está apenas a começar e que os ativistas pró-vida devem esperar muitas ameaças e muita hostilidade. Já começou.

As Ameaças aos Grupos Pró-vida

Randall Smith

A minha mulher e eu fomos convidados por uns amigos para o banquete do Texas Right to Life há poucas semanas. Para quem não sabe, a Texas Right to Life está entre as mais bem-sucedidas, se não é que é mesmo a mais bem-sucedida organização pró-vida nos Estados Unidos. Daí que tenhamos a Lei do Batimento Cardíaco no Texas, que obriga um médico abortista a verificar se existe um batimento cardíaco audível na criança por nascer, proibindo o aborto de qualquer criança em que isso se verifica.

O banquete deste ano foi parecido com o de anos anteriores, mas com uma grande diferença: a forte presença de seguranças. Em todo o lado havia agentes da polícia fardados e com coletes à prova de bala. Isto porque a Texas Right to Life é uma organização sob fogo cerrado, que sofre assédios e ameaças que, temo, apenas vão piorar nos próximos meses e anos.

A organização recebe mais de mil mensagens de voz de ódio todos os dias. E quando digo ódio, é mesmo ódio. Os organizadores reproduziram algumas durante o banquete, eliminando os palavrões frequentes durante as longas diatribes violentas. Recentemente tiveram de evacuar a sede por causa de uma ameaça credível de bomba e estão sob proteção policial 24 horas por dia. O site é atacado 750 mil vezes por dia, incluindo por grupos como o Anonymous. Quem diria que tanta gente reagiria com tanto ódio e repulsa à tentativa de preservar a vida de crianças inocentes?

Mas eu lembro-me de ver filmes das manifestações quando os primeiros alunos negros foram escoltados para a Universidade de Alabama, e de ver multidões de meninas brancas enfurecidas, com saias pelos joelhos, meias brancas e camisolinhas de lã a gritar – a gritar até que quase desmaiavam de fúria – só de pensar na possibilidade de permitir a entrada de um aluno negro na universidade. Lembro-me de pensar “ena, isto é mesmo muita revolta contra uma pessoa negra a entrar numa faculdade”. Mas lá estavam elas, num belo dia de verão, a vomitar ódio, transformando-se em modelos de vergonha para todo o país ver.

Sejamos honestos, portanto. Se o Supremo Tribunal cumprir o seu dever e revogar o Roe v. Wade – a decisão que legalizou o aborto em todo o país – o mais provável é que se desencadeie uma onda de violência que submergirá todo o país. É por isso que eu, pessoalmente, não tenho grandes esperanças de que o tribunal assim faça. Será visto como demasiado arriscado.

Todos sabemos quem promove a violência e quem não. É por isso que eu acredito que o tribunal vai encontrar uma forma de não revogar o Roe, isto é, pelas mesmas razões que muitas das cidades foram colocadas em alerta antes de se anunciarem os resultados das últimas eleições presidenciais. O medo era de que o país teria feito a escolha “errada” e que os progressistas se amotinariam nas ruas. Toda a gente sabe que se o Roe não for revogado os ativistas pró-vida ficarão desiludidos, mas não se tornarão violentos. Se uma decisão leva à violência e outra não, o que é que acham que o tribunal vai decidir?

Mas se o Supremo Tribunal revelar coragem em vez de cobardia, e Roe for revogado, é aí que começará verdadeiramente a batalha pró-vida. E não vai ser bonita. Esperem perseguição. Esperem intimidação. Esperem caos. Uma nação de tal forma comprometida com um mal fundamental simplesmente não estará disposta a abdicar dele de forma pacífica. Se acreditam que uma cultura que se dedicou durante tanto tempo ao “direito” de poder descartar bebés inconvenientes e deficientes agirá de forma diferente do que agiu quando estava a defender o seu “direito” a possuir escravos ou o “direito” à supremacia branca, então não aprendeu nada das lições da história.


As pessoas raramente abdicam do “direito” a dominar outras sem lutar com unhas e dentes. Quando aquilo que está em causa é admitir que toda a nossa visão do mundo é não só errada, mas baseada no apoio a uma instituição que é fundamentalmente injusta e que viola a dignidade humana, as pessoas não se rendem de forma tranquila.

Na década de 50 do Século XIX muita “gente civilizada” preferia não falar da escravatura em público. E assim hoje mesmo alguns padres e bispos católicos preferem não falar da nossa “peculiar instituição”: o aborto. Quero dizer, é tão desnecessariamente embaraçoso. Uma distração. Tão provável que provoque a fúria das elites sofisticadas. É melhor, por isso, evitar a situação e não olhar diretamente para o mal que são homens agrilhoados ou bebés em caixotes do lixo.

No seu excelente livro de memórias “The Shantung Compound”, baseado nas suas experiências num campo de concentração japonês durante a Segunda Guerra Mundial, Langdon Gilkey recorda que sempre que surgia uma questão moral no campo se repetia um padrão. Quanto mais educadas e respeitáveis as pessoas, mais elegantes e avançados eram os seus argumentos em defesa dos seus próprios interesses. Gilkey escreve que “as questões éticas da vida comunitária humana são, por isso, a expressão exterior em acção de questões mais internas, podemos até dizer religiosas. Porque a religião toca na mais profunda lealdade do homem – aquilo que lhe dá o seu sentido de vida e forma os padrões da sua vida… Quando a nossa principal preocupação se prende a um interesse parcial ou limitado, naturalmente não conseguimos evitar manifestações de desumanidade para com aqueles que estão fora desse interesse”.

À medida que avançamos cada vez mais na era pós-cristã e que as preocupações das pessoas já não se prendem com o seu Criador, nem são orientadas pela sua sabedoria e lei, podemos esperar mais manifestações de desumanidade entre os homens. Quando os homens se cansam da ordem divina e ligam idolatricamente a sua identidade a uma ideologia, não demora muito até que gritem “caos, e soltamos os cães da guerra”.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 18 de Outubro de 2021)

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