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Wednesday, 10 May 2023

A Instrutiva Obscuridade das Escrituras

Quando as pessoas descobrem que eu já fui um seminarista calvinista, a reacção típica é perguntar-me porque é que decidi tornar-me católico. A razão inclui referências a uma doutrina de que a maioria dos católicos – e mesmos os protestantes – nunca ouviu falar: perspicuidade, também conhecida como claridade.

A perspicuidade não é uma das cinco “solas” que compõem as doutrinas centrais da Reforma Protestante: sola scriptura, sola fide, sola gratia, solus Christus, e soli deo gloria. Não obstante, ela foi afirmada por todos os principais pensadores da Reforma, Lutero, Calvino, Zwingli e Cranmer. E, ainda que não seja frequentemente pregada a partir dos púlpitos protestantes, ela é a doutrina que destranca todas as outras doutrinas protestantes, como defendo no meu novo livro “The Obscurity of Scripture”. Passo a explicar.

Pese embora não exista uma definição única sobre a qual todos os protestantes concordam, a perspicuidade significa, de forma geral, que a Bíblia é clara. Alguns defendem que a Bíblia é clara no que diz respeito às “verdades essenciais da fé cristã”, outros que é clara no que diz respeito ao Evangelho e outros ainda que é clara em todo o seu conteúdo.

Em todo o caso, a definição mais comum de perspicuidade é aquela que se lê na Confissão de Fé de Westminster, um documento dos presbiterianos ingleses, publicado em 1647, onde se lê:

Na Escritura não são todas as coisas igualmente claras em si, nem do mesmo modo evidentes a todos; contudo, as coisas que precisam ser obedecidas, cridas e observadas para a salvação, em um ou outro passo da Escritura são tão claramente expostas e explicadas, que não só os doutos, mas ainda os indoutos, no devido uso dos meios ordinários, podem alcançar uma suficiente compreensão delas.

Por outras palavras, a Bíblia é clara pelo menos no que diz respeito ao que é necessário para a salvação. A primeira vez que encontrei esta doutrina foi na universidade, quando estava a ler as obras do pensador reformado R.C. Sproul. A ideia fez imediatamente sentido para mim: se nós, protestantes, acreditamos que a Escritura é a única medida infalível da fé, então claro que deve haver algum princípio que o torna acessível ao cristão individual. De outra forma regressaríamos ao paradigma em que precisaríamos de recorrer a alguma autoridade externa. Mas não era precisamente isso que a primeira geração da reforma estava a repudiar na sua revolta contra Roma?

Mas havia um dilema: os protestantes discordam sobre quase tudo, incluindo aquilo que é necessário para a salvação. É verdade que isto pode parecer um problema fácil de resolver, mas algumas interpretações protestantes parecem contradizer não só o pensamento dos primeiros reformistas, como até mesmo o direito natural. O meu curso sobre as Epístolas de São Paulo, por exemplo, incluía um livro com interpretações pró-LGBTQ, o que me pareceu altamente improvável.

Mas outros debates entre protestantes eram um pouco mais complicados. Nos meus estudos religiosos na Universidade de Virgínia, e depois no seminário calvinista, aprendi sobre algo chamado “Nova Perspectiva sobre Paulo” (NPP), cujos defensores questionavam (se é que não atacavam abertamente) a doutrina de sola fide como não sendo bíblica. Enquanto defensor da sola fide, eu não gostava da NPP, mas este não era um qualquer movimento académico politizado que pudesse ser facilmente descartado. Mesmo o bispo N.T. Wright, um bispo anglicano e bastião da ortodoxia em assuntos como a veracidade da ressurreição, estava no campo da NPP.

Tentei chegar ao fundo da questão sobre a NPP, li livros a favor e contra, tentei aprender grego bíblico para poder interpretar sozinho as cartas de Paulo, e passei literalmente anos a tentar adquirir a certeza completa de que os defensores da NPP estão errados.

Mas quando cheguei ao verão de 2010 estava num impasse. Não estava mais próximo de determinar se os académicos da NPP estavam certos ou errados sobre São Paulo (e por extensão sobre a sola fide e todo o projecto da Reforma Protestante). Os académicos de ambos os lados eram mais instruídos do que eu, mais inteligentes do que eu e tinham pensado muito mais a fundo sobre São Paulo do que eu alguma vez poderia.

Foi então que me ocorreu. O ponto do protestantismo não era de que as verdades bíblicas essenciais, aquelas que dizem respeito à salvação, são claras, até para os cristãos menos instruídos, desde que as abordem como humildade e procurem a ajuda do Espírito Santo? Mas aqui estava eu, imerso num debate cultural, histórico e arqueológico sofisticado, para não falar da tentativa de compreender o vernáculo para compreender uma Bíblia supostamente “clara”.

E isto era só a ponta do icebergue. Os calvinistas discordam sobre se os bebés devem ser baptizados (os presbiterianos dizem que sim, os baptistas reformados que não). Lutero e Zwingli tiveram uma discussão muito pública (e muito feia) sobre o significado da Eucaristia no Colóquio de Marburgo. O baptismo e a Eucaristia não são também doutrinas essenciais? Segundo algumas tradições cristãs são essenciais para a salvação.

Foi então que, para mim, o protestantismo colapsou enquanto sistema coerente e intelectualmente defensável. Claramente a Bíblia não é clara sobre aquilo que é necessário para a salvação. Os protestantes não estão apenas em desacordo com os católicos sobre estas coisas, estão em desacordo uns com os outros.

Mas sem a perspicuidade, a doutrina que permite ao cristão individual fazer sentido da Bíblia, esse mesmo cristão precisaria de recorrer a alguma autoridade interpretativa. Compreendi então que no seu cerne, o protestantismo é individualista. Estava por minha conta na compreensão do Cristianismo, livre para decidir o que significa e o que constitui o Cristianismo autêntico, mas já não sentia confiança para o fazer. Que mandato é que Cristo me tinha dado a mim, Casey Chalk, de Virginia, para exercer autoridade infalível sobre a interpretação da Bíblia?

Mas sabia que havia uma instituição que reivindicava, de forma pelo menos plausível, essa autoridade. Tratava-se da instituição religiosa em que eu tinha sido formado. Essa instituição, a Igreja Católica, afirmava ter uma autoridade interpretativa extra-bíblica, uma que eu poderia avaliar sem afirmar ser o juiz final do significado da Bíblia.

Nesse mesmo ano estudei essa posição. Em Setembro de 2020 tinha-me decidido a regressar à Igreja da minha infância. A claridade, compreendi eu, não era clara. Mas a Igreja Católica, possuindo aprovação divina – algo em que podemos confiar através daquilo que o Catecismo apelida de “motivos de credibilidade” – podia dizer-me o que a Bíblia significa verdadeiramente. Confiando nos seus motivos de credibilidade, nunca mais olhei para trás.


Casey Chalk escreve para a Crisis MagazineThe American Conservative e a New Oxford ReviewÉ licenciado em história e ensino pela Universidade de Virgínia em tem um mestrado em Teologia da Cristendom College.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 7 de Maio de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 1 March 2023

Recomendações para a Quaresma

Stephen P. White

Estou cheio de vontade de viver esta Quaresma. Quando era miúdo costumava temer o início da Quaresma. O desconforto e a inconveniência de ter de aguentar o miserável sacrifício a que me propunha nesse ano – deixando de comer doces, de ver televisão, ou algo do género – eram uma seca. Quando fiz cinco ou seis anos a Quarta-feira de Cinzas calhou nos meus anos. Terrível.

À medida que me tornei mais velho fui percebendo como as disciplinas da Quaresma podem ser edificantes e construtivas. Como disse recentemente a um amigo, já cheguei ao ponto em que até anseio a chegada da Quaresma. Trata-se de uma oportunidade calendarizada para um reforço espiritual. Dá-nos aquela injecção extra de disciplina e de estrutura que só fazem bem ao corpo.

Os pequenos confortos podem tornar-se dependências. E a Igreja, na sua sabedoria, chama-nos a fazer penitência e jejum, não apenas como forma de fortalecer a nossa vontade interior, mas para nos ajudar a livrar-nos dessas dependências. O jejum, afinal de contas, não é simplesmente uma questão de “abdicar” ou mesmo de “redimir” os nossos pecados. Trata-se de nos libertar da dependência de amores concorrentes ou desordenados para podermos ser livres de amar como devemos. E essa liberdade transforma o nosso jejum e penitência de mera obrigação em oportunidade para partilhar do sofrimento de Cristo, que é a nossa esperança.

Desta perspectiva, o sofrimento não é apenas uma coisa a aguentar, mas está associado à esperança. O Papa Bento XVI escreveu sobre a ligação entre o sofrimento e a esperança na sua encíclica Spe Salvi, onde incluiu uma reflexão sobre a prática de “oferecer” pequenas dificuldades. Não estava a escrever especificamente sobre a Quaresma, mas aplica-se perfeitamente:

“Fazia parte de uma forma de devoção – talvez menos praticada hoje, mas não vai ainda há muito tempo que era bastante difundida – a ideia de poder ‘oferecer’ as pequenas canseiras da vida quotidiana, que nos ferem com frequência como alfinetadas mais ou menos incómodas, dando-lhes assim um sentido. (…) Deste modo, também as mesmas pequenas moléstias do dia-a-dia poderiam adquirir um sentido e contribuir para a economia do bem, do amor entre os homens. Deveríamos talvez interrogar-nos se verdadeiramente isto não poderia voltar a ser uma perspectiva sensata também para nós.”

A Quaresma é uma oportunidade – quer ansiemos por ela ou não – de reavivar esta prática para nós mesmos. Como é evidente, a penitência é apenas uma parte da nossa prática quaresmal. A esmola desapega-nos do dinheiro, que pode ser uma coisa particularmente pegajosa, no sentido espiritual, e abre-nos à caridade e ao cuidado pelos outros. A oração, tal como a esmola e a penitência, não é apenas uma prática para a Quaresma, mas encontrar tempo e formas adicionais para rezar durante a Quaresma ajuda a fortalecer a nossa devoção ao longo do resto do ano.

No que toca à oração, existem duas práticas quaresmais que tenho achado particularmente benéficas. Ambas têm a ver com a Escritura. E embora nem uma, nem outra, sejam particularmente novas, cada uma fornece formas de rezar e reflectir sobre a Palavra de Deus de formas que a nossa vida do dia-a-dia – pelo menos no meu caso – não permitem. Ambos nos obrigam a abrandar, o que na vida de passo acelerado que vivemos actualmente é só por si uma forma muito necessária de penitência.

A primeira das sugestões é mesmo muito simples: leiam os Evangelhos. Não estou a dizer para lerem uma passagem dos Evangelhos de tempos a tempos, ou sequer que reflictam sobre o Evangelho do dia (embora estas sejam coisas óptimas, como é evidente). A minha sugestão é que se sentem a ler cada um dos Evangelhos de fio a pavio. Se tiverem tempo para isso, tentem ler cada um dos Evangelhos de uma assentada. O Evangelho de Marcos é o mais curto, por isso talvez queiram começar por aí, mas também podem lê-los pela ordem, a começar por Mateus.

A maioria dos católicos confrontam-se com a Escritura na Missa. Mas raramente lemos o Evangelho como um todo. A leitura completa dos Evangelhos é uma forma maravilhosa de nos encontrarmos com elas de novo, e uma forma excelente de reparar em novos detalhes. Ajuda-nos a notar repetições subtis e alusões no texto. Permite-nos apreciar o contexto de várias passagens, o que ajuda a compreender o todo, e não apenas as partes.

Mãos à obra!
A relativa proximidade, no tempo e no espaço, de várias parábolas e eventos costuma perder-se numa leitura mais esporádica. E sentar-se durante uma ou duas horas com o Evangelho dá uma oportunidade para mergulhar na Palavra de Deus de uma forma que raramente nos permitimos. Para mim tem sido muitíssimo útil.

A segunda sugestão de prática quaresmal é esta: copiar as Escrituras. Estou a ser literal. Peguem num papel e numa caneta e copiem as palavras da Escritura à mão. Escrevam com boa caligrafia e com propósito. Usem uma caneta, e não papel, porque isso obriga-nos a ter mais cuidado e evitar erros indeléveis. Os salmos são um bom ponto de partida, na maior parte podem ser concluídos antes de ficar com cãibras na mão.

A prática de copiar as Escrituras à mão obriga-nos a concentrar-nos em cada uma das palavras. Obriga-nos a desacelerar, o que é especialmente importante em passagens familiares que podem facilmente passar despercebidas. Reparará que nalgumas partes as palavras não são exactamente como se lembrava, ou o que esperava. Reparará, ainda, em mudanças subtis de escolha de palavras, tom e sentido.

O melhor é que, como está a escrever as palavras e não apenas a lê-las em silêncio ou a ouvi-las a serem lidas alto, é mais fácil fixá-las. Não é por acaso que se costumava ensinar a memorização, em parte, pela escrita repetitiva. Escrever as palavras da Escritura é uma forma muito bonita de a aprender de maneira mais íntima.

Com o começo desta Quaresma, já tenho comigo a minha Bíblia e a minha caneta preferida, pronta a usar. Sei muito bem que o entusiasmo costuma ser forte ao início, mas que depois pode escassear. Ainda assim, estou determinado. Sim, estou com vontade de iniciar esta Quaresma. Tal como acontece todos os anos, é exactamente aquilo de que preciso.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2023)

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Wednesday, 20 July 2022

Ignorar as Escrituras é Ignorar a Cristo

Pe. Jay Scott Newman

Ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo. Este juízo severo é feito por São Jerónimo, num comentário a Isaías, quando fala da necessidade de cada cristão ter conhecimento direto e pessoal dos livros inspirados da Bíblia Sagrada. Nessa passagem, Jerónimo insiste que Isaías não é apenas um profeta da Antiga Aliança, mas também um evangelista e apóstolo da Nova Aliança, por causa do papel essencial que desempenha em nos ensinar sobre a missão do messias e a identidade do Verbo encarnado.

Na sua convicção da necessidade de se conhecerem as Escrituras, Jerónimo antecipou a visão de Santo Agostinho de que o Novo Testamento está escondido no Antigo, e que no Novo o Antigo é revelado. Lá se vai o marcionismo, com a sua vontade de descartar as Escrituras judaicas e negar que o Deus de Israel também é nosso Pai. E lá se vão os argumentos daqueles que argumentam que por causa da presença de Cristo nos sacramentos é possível ser um discípulo maturo do Senhor Jesus sem o contacto regular e íntimo com as Sagradas Escrituras, tanto do Antigo como do Novo Testamento.

Na tarde do Domingo de Páscoa o Senhor Jesus Ressuscitado juntou-se no caminho de Jerusalém para Emaús a dois discípulos macambúzios, “mas os olhos deles foram impedidos de o reconhecer” (Lc 24,16). Os dois homens falaram ao desconhecido da sua incompreensão face à morte de Jesus de Nazaré, que eles acreditavam ser “um profeta, poderoso em palavras e em obras diante de Deus e de todo o povo” (Lc 24,19).

Depois de os dois homens reconhecerem que algumas mulheres do seu grupo afirmavam ter visto anjos, nessa mesma manhã, a anunciar que Jesus estava vivo, o Senhor Ressuscitado declarou: “‘Ó gente sem inteligência! Como sois lentos de coração para crerdes em tudo o que anunciaram os profetas! Porventura não era necessário que Cristo sofresse essas coisas e assim entrasse na sua glória?’. E começando por Moisés, percorrendo todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava dito em todas as Escrituras” (Lc 24,25-27).

Por fim, depois de se ter juntado aos dois discípulos para comer, “tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e serviu-lhos. Então, se lhes abriram os olhos e o reconheceram, mas ele desapareceu. Diziam então um para o outro: ‘Não se nos abrasava o coração, quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?’” (Lc 24, 30-32).

Para poder reconhecer o Senhor Ressuscitado no seu incomparável dom da Santíssima Eucaristia, para o poder reconhecer no aflitivo disfarce de pobre e para o poder reconhecer na irmandade de outros cristãos, reunidos para louvar a Deus, primeiro é necessário reconhecê-lo na Página Sagrada, escutar e obedecer à Palavra de Deus na Bíblia, porque “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda a boa obra” (2 Tim 3, 16-17).

São Jerónimo, de Durer, MNAA
Simplesmente não existe qualquer substituto para o conhecimento pessoal e directo da Sagrada Escritura adquirido ao longo de muitos anos de estudo e de oração, e quanto mais profundamente se compreende a Bíblia, mais profundamente podemos conhecer e amar o Senhor Jesus Cristo.

Mas tal experiência da Sagrada Escritura não afecta apenas o discipulado do crente individual, também dá forma a tudo na vida da Igreja, incluindo os seus ensinamentos e o seu louvor. Na Constituição Dogmática sobre Revelação Divina, Dei Verbum, o Concílio Vaticano II ensinou que “a santa mãe Igreja, segundo a fé apostólica, considera como santos e canónicos os livros inteiros do Antigo e do Novo Testamento com todas as suas partes, porque, escritos por inspiração do Espírito Santo, têm Deus por autor, e como tais foram confiados à própria Igreja (#11).

Vemos assim que a Bíblia é recebida e reverenciada como sendo revelação divina, e o mesmo não se pode dizer de qualquer outro texto na Igreja, incluindo livros litúrgicos, orações devocionais e decretos conciliares, sendo por isso mesmo que o Concílio insiste que as Escrituras, juntamente com a Sagrada Tradição, são a “regra suprema da sua fé; elas, com efeito, inspiradas como são por Deus, e exaradas por escrito de uma vez para sempre, continuam a dar-nos imutavelmente a palavra do próprio Deus, e fazem ouvir a voz do Espírito Santo através das palavras dos profetas e dos Apóstolos (#21).

O Cristianismo ou é uma religião revelada, ou é uma religião falsa, e o dom sobrenatural da revelação divina é-nos entregue no Evangelho de Jesus Cristo, que é “uma força vinda de Deus para a salvação de todo o que crê” (Romanos 1,16).

Sim, a proclamação do Evangelho começou antes de os textos do Novo Testamento terem sido escritos, mas as Sagradas Escrituras são um singular e divino dom para a Igreja. “Porque a Palavra de Deus é viva, eficaz, mais penetrante do que uma espada de dois gumes e atinge até a divisão da alma e do corpo, das juntas e medulas, e discerne os pensamentos e intenções do coração” (Hebreus, 4, 12).

E é por isso que cristãos maduros devem conhecer a Bíblia através do estudo e da oração, porque ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo.


Jay Scott Newman, é padre da Diocese de Charleston e pároco da Igreja de Saint Mary’s em Greenville, Carolina do Sul.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Domingo, 17 de Julho de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 6 July 2022

“Nulla Scriptura”

Michael Pakaluk

Os católicos conhecem o argumento de que a “sagrada tradição” é necessária como regra de fé juntamente com a Sagrada Escritura. Não é verdade que é preciso a autoridade da Igreja para determinar o que constitui Escritura (o Cânone)? Aqueles que rejeitam a ideia da existência da autoridade da “sucessão apostólica”, que é explicada na tradição (Clemente de Roma, Inácio de Antioquia), afirmam precisamente que não está nas Escrituras.

Logicamente a Escritura não pode determinar o seu próprio Cânone. Mais, a doutrina protestante da “sola scriptura” (só Escritura) é contraditória, pois ela também não está nas Escrituras.

Mas o que podemos dizer da ideia mais provocatória de que a tradição não só é necessária, como devia até ser suficiente, e que a Escritura devia ser desnecessária? Chamemos-lhe “nulla Escritura” (“sem Escritura”).

Esta visão aparece de forma embrionária no tratado do dominicano Melchor Cano, Fontes Teológicas (De Locis Theologicis, Salamanca, 1562). Cano argumenta, e bem, que a Igreja é anterior à Escritura; que o Senhor não escreveu qualquer livro, nem mandou os Apóstolos escrever livros, mas antes que os mandou pregar, e que muitas questões em que os cristãos têm de crer, como a existência de três pessoas numa só natureza, não estão explícitas nas Escrituras.

Depois refere que Paulo e João, nas suas epístolas, referem os ensinamentos que transmitiram oralmente, mas que não foram escritos, acrescentando que São Pedro escreveu duas epístolas, mas sabemos que ele esteve sete anos em Antioquia e outros 25 em Roma:

Devemos então acreditar que ele não ensinou nada por palavras para além daquilo que deixou por escrito nestas duas epístolas? Como é que é possível? E não é verdade que André, Tomé, Bartolomeu e Filipe fundaram igrejas nos lugares para onde foram enviados, e onde permaneceram, na continuidade da nossa fé e da nossa religião, apenas com base nas palavras e sem quaisquer escritos? Reconheçamos então – nem se pode negar – que a doutrina da fé, na sua totalidade, não está resumida ao que está escrito, mas chegou-nos em parte nas palavras que radicam nos apóstolos.” [Ênfase minha]

A frase é mesmo essa, “sem quaisquer escritos”. Essa foi a condição da Igreja primitiva durante pelo menos trinta anos.

Entretanto encontrei esta mesma posição explanada em mais detalhe na maravilhosa série de 90 homilias sobre Mateus de São João Crisóstomo. Começa assim:

O ideal seria nem precisarmos da Palavra escrita, mas exibir uma vida tão pura que a graça do Espírito devia estar antes nas nossas almas do que nos livros, e que tal como estes estão inscritos com tinta, também os nossos corações deviam estar inscritos com o Espírito. Mas uma vez que afastámos de tal maneira de nós esta graça, pelo menos que nos valhamos da segunda hipótese.

O Santo mostra como Deus falou de modo familiar com Noé, Abraão, Job e Moisés, sem escritos. Mais, a Palavra Incarnada não deixou escritos aos Apóstolos, como poderia ter feito, mas antes lhes prometeu e concedeu o Espírito.

Mas então porque é que temos as Escrituras? Pela mesma razão, diz, que Moisés trouxe as tábuas da Lei, por causa da nossa maldade: “uma vez que, passados os anos, naufragámos, uns em relação à doutrina, outros em relação à vida e às maneiras, houve novamente a necessidade de que fossem recordados pela palavra escrita”.

Tudo isto apenas sublinha a importância actual, diz Crisóstomo, de estudar a Escritura: “Reflictam então sobre como é um grande mal para nós, que devemos viver de forma tão pura que nem precisamos de palavras escritas, entregando os nossos corações, como livros, ao Espírito; agora que perdemos essa honra, e temos necessidade delas, voltarmos a falhar em fazer bom proveito até deste segundo remédio”.

E acrescenta, para encorajar ainda mais o seu rebanho: “Se estamos em falha por precisar do auxílio de palavras escritas, e não termos feito descer sobre nós a graça do Espírito, então considerem quão grave será a acusação de optar por não lucrar até com este auxílio, mas antes tratar com desprezo aquilo que está escrito, como se fosse uma obra sem propósito, aleatória, invocando sobre nós um castigo ainda mais duro”.

Tudo isto faz sentido. O Espírito está connosco, tão certo como o Filho estava connosco na Fundação da Igreja. Mas porque é que a Sua presença, que em princípio nos devia bastar, não nos basta na prática?

Não podemos regressar às primeiras décadas da Igreja, mas podemos pensar na vida cristã como estando estratificada. Imaginem, primeiro, que tudo o que está escrito nos era retirado. Não só a Bíblia, mas todos os escritos dos Concílios, isto é, a tradição entretanto escrita. Continuamos com consideráveis riquezas. Tiramos delas o melhor proveito?

O que é que quero dizer com isto? Quero dizer que conhecemos o Credo, as orações mais básicas, o terço. Podemos ir ao sacrário e rezar diante do Senhor. Logo veremos que precisamos de rezar muito mais, para nos tornarmos mais familiares com Deus. E que devemos praticar a mortificação, para criar aberturas para o Espírito.

Temos os exemplos dos santos, cujas vidas conhecemos. Provavelmente temos conhecimento de milagres entre os nossos amigos. Mesmo a existência de bispos, seja qual for a sua santidade, testemunha a realidade da fundação da Igreja. Qualquer padre é um testemunho da instituição da Eucaristia.

E temos os sacramentos.

Tente viver assim no Espírito. Agora acrescente a Escritura e a tradição escrita. Claro que estes estratos não são temporais, nem isoláveis, mas cada um tem por objectivo complementar o outro.

Podemos até argumentar que o conceito de “sola scriptura” apenas poderia parecer uma regra necessária para os reformadores protestantes porque os católicos daquela altura claramente não estavam a viver de forma suficiente a fé “nulla scriptura”.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 6 de Julho de 2022)

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Wednesday, 24 April 2019

Em Sentido Figurativo

James Matthew Wilson
As grandes revoluções sobre o conhecimento religioso e teológico dos últimos dois séculos começaram com a questão de como ler as Escrituras. A nova ciência da geologia parecia pôr em causa uma leitura literal do Genesis, que indicava que a Terra tinha cerca de seis mil anos. Depois chegaram os esforços histórico-críticos da Alta Crítica Alemã e os livros da Bíblia foram feitos em pedaços – milhares de pedaços, fragmentos da autoria de várias mãos, juntados ao longo dos séculos, de forma a que a Sagrada Escritura parecia mais uma manta de retalhos e menos uma soma das suas partes.

Como é que se determina um significado quando cada livro é uma mescla de intenções prévias, frequentemente em conflito? Como é que se pode confiar naquilo que nos chegou, quando os dados históricos contidos nos livros não parecem ser fiáveis no que diz respeito à identificação de lugares e datas?

Para leitores dos séculos XVIII e XIX esta última pergunta era tudo menos tonta. Exames de teologia desse tempo – que eu já vi – incluem questões como “Em que data foi o dilúvio de Noé?”

Mas aqueles de entre nós que já leram o poema de T.S. Eliot “The Waste Land”, a questão parece estranha, no mínimo. O poema é composto por 432 linhas, das quais pelo menos 100 são citações parciais ou totais de uma variedade de fontes. Mas isso não nos impede de encontrar um significado coerente no poema. Pelo contrário, este ganha profundidade e significado por causa da inclusão deliberada de outras vozes. Se Eliot o fez, Deus também pode.

As interpretações judaicas e, mais tarde, cristãs, das escrituras têm sido tradicionalmente “figurativas” ou espirituais. O que isto quer dizer é que sim, cada obra tem um sentido literal, se não num evento histórico, pelo menos a intenção do autor. Mas cada obra tem também um significado espiritual, um significado figurativo que talvez nem fosse pensado pelo autor, mas que pode ser discernido nas suas palavras e que geralmente é muito mais importante.

Só assim é que a Escritura se torna profética e reveladora, ensinando-nos algo a que não teríamos conseguido chegar sozinhos, chamando-nos repentinamente à conversão. Só assim é que podemos ler o Antigo Testamento como apontando para Cristo como o seu próprio cumprimento. E, em sentido contrário, só assim é que podemos ver Cristo como a lente através da qual interpretar as palavras do Antigo Testamento e a obra da natureza.

Dificilmente podemos compreender qualquer um dos Testamentos sem o sentido espiritual, pois até uma leitura diagonal de qualquer passagem revela uma economia da linguagem que só é possível devido à densidade do significado: se não está disposto a desempacotar cada frase como se fosse uma mala de viagem, então não está pronto para ler.

Dois dos maiores teólogos do Século XX passaram as suas carreiras a tentar ajudar a Igreja a recuperar esta forma de ler as Escrituras – e, também, de ler o mundo. Os quatro volumes de Exegese Medieval, de Henri de Lubac, dedicam-se a descrever a interpretação figurativa como tem sido praticada ao longo da história. Pode parecer um bocado estranho ler aquilo a que se pode chamar uma defesa histórico-crítica da interpretação figurativa: O que de Lubac fez foi, na maior parte, elaborar uma teoria breve mas elegante e depois multiplicar citações dos Padres da Igreja até se tornar claro que na verdade a teoria era deles.

Hans Urs von Balthasar foi um bocado mais ambicioso que de Lubac. Também ele era capaz de multiplicar citações, mas também avançou sozinho e interpretou as Escrituras – e o resto da história – em termos espirituais. De Lubac queria restaurar a autoridade interpretativa dos Padres da Igreja; von Balthasar escrevia como se fosse um deles.

Mas isso não tem impedido a Igreja de se preocupar com o facto de muitos acreditarem que a única forma “científica” de ler as Escrituras é o método histórico-crítico e que, para o homem moderno, a interpretação figurativa parece arbitrária e pateta.

Eu passei grande parte das últimas duas décadas a ler e a escrever sobre exegese figurativa, e a praticá-la. Mas qualquer pensamento sobre teoria evapora-se quando penso em apenas dois momentos destes últimos anos.

Houve um verão em que decidi ler “A Cidade de Deus” de Santo Agostinho. Esta é frequentemente considerada a obra prima do Santo, e a julgar pela espessura do livro, certamente será. Mas para a maioria dos leitores o seu interesse é menor quando comparado com as “Confissões” que – para mim – é certamente o livro mais perfeito da nossa tradição fora das Escrituras.

Admiro muita coisa em “A Cidade de Deus” e muita coisa mudou-me, mas sobretudo num sentido académico. Impressiona-me a forma como Santo Agostinho desenvolveu ou refutou alguns aspetos do pensamento clássico, enquanto nos mostrava a verdade sobre as coisas.

Mas já numa parte adiantada do livro, durante uma passagem longa que levaria a maioria dos leitores a abandonar o barco, Agostinho descreve a Arca de Noé. Descreve, pacientemente, as dimensões da Arca e a posição da sua porta lateral. E depois mostra-nos como é proporcional, em grande escala, ao próprio Corpo de Cristo, de cujo lado jorraria água e sangue, da porta aberta pela lança.

Cristo é a nossa Arca, carregando-nos através de mares tempestuosos e de um mundo inundado de pecado. Ao ler isto senti não uma aprovação pensativa, mas alegria. Não foi motivo de reflexão, mas de conversão. “Sim”, pensei eu, “esse é o meu Senhor e o meu Cristo!”

Também há uns anos estava a ler uma Bíblia ilustrada aos meus filhos, uma adaptação maravilhosa. Chegámos à história de Abraão e de Isaac. Abraão recebe de Deus uma ordem para sacrificar o seu filho. É Isaac quem carrega monte acima a lenha que, sem o saber, servirá para a sua própria imolação. No final um anjo intervém para impedir Abraão de levar a cabo este grande teste da sua fidelidade, e o texto explica:

“Isaac a carregar a lenha monte acima é uma imagem de Jesus, que carregou a Sua cruz até ao topo do monte do Calvário, para se oferecer pelos pecados do mundo. Embora Deus tenha salvo o filho de Abraão, por amor a nós não salvou o seu próprio filho da morte”.

Sim, sim, sim! Isaac prefigura Cristo; o filho a carregar a lenha é uma profecia do Filho que carrega a Cruz. Senti-me atraído para mais próximo de Deus e a entrar no seu mistério ali mesmo, com os meus filhos sentados ao meu colo.

Uns meses mais tarde, estava a recomendar esse livro a outro homem com filhos pequenos e mencionei esta interpretação figurativa. A sua resposta foi imediata: “Como é que alguém pode duvidar que Jesus é o Senhor?”

E é assim que funciona a exegese figurativa; não nos transporta até um momento histórico particular. Permite a Deus chegar até nós e agarrar-nos pelas golas, e abanar-nos até à fé.


James Matthew Wilson, é autor de oito livros, incluindo, entre os mais recentes, “The Hanging God (Angelico) and The Vision of the Soul: Truth, Goodness, and Beauty in the Western Tradition” (CUA). É professor associado de religião e literatura no departamento de Humanidades e Tradições Agostinianas na Universidade de Villanova e já foi editor de poesia para a revista Modern Age, e de series para a Colosseum Books, da Steubenville Press, na Franciscan University. Veja aqui a sua página na Amazon.

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