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Wednesday, 6 January 2021

Catolicismo e a Plenitude da Verdade

Casey Chalk
“Se tivermos de escolher entre abdicar da religião ou da educação”, afirmou o fundamentalista cristão e populista William Jennings Bryan, “então abdicaremos da educação”. É fácil rirmo-nos hoje de tamanho absurdo, embora Bryan, por mais falhas que tivesse, estivesse a defender o Cristianismo daquilo que considerava serem ataques modernistas e antirreligiosos da escola pública americana. Embora muitos protestantes tenham vergonha, hoje, do anti-intelectualismo de Bryan eu, como católico convertido do protestantismo, detecto uma perspectiva muito problemática na sua visão absolutista que contrapõe a fé á razão.

O teólogo italiano Mauro Gagliardi argumenta no seu livro “A Verdade é Sintética: Teologia Dogmática Católica”, que o Protestantismo opera segundo um modelo de “ou-ou” que vê a verdade como um conjunto de binários simplistas. Já a teologia católica emprega um princípio de “não só, mas também” que sintetiza diferentes realidades.

Gagliardi identifica dois princípios fundacionais do Protestantismo. O primeiro é biblicismo, a crença de que a Bíblia é auto-interpretativa. Mas “quando Lutero diz que a Bíblia se interpreta a si mesma ele quer dizer, de facto, que é o leitor individual que o interpreta. O leitor das Escrituras não precisa… da Tradição, do Magistério, dos Padres nem dos Doutores da Igreja”.

Os protestantes costumam responder que isso confunde a noção de “sola scriptura” de alguns evangélicos com a noção de “sola scriptura” do Protestantismo histórico. Esta última, afirmam, aprecia a necessidade de se interpretar a Bíblia à luz da tradição eclesial.

É verdade que alguns protestantes falam favoravelmente da tradição. Porém, como os filósofos católicos Bryan Cross e Neal Judisch argumentam, acaba sempre por ser o protestante como indivíduo quem decide quais são as tradições que devem ser normativas. Os protestantes adoram citar Santo Agostinho sobre a soteriologia, por exemplo, já não tanto sobre a eclesiologia ou a mariologia. Sem outro princípio unificador para além da Bíblia, o Protestantismo é inerentemente instável e frágil. “É por isso que, desde o início, o Protestantismo se dividiu em centenas de diferentes denominações, todas obviamente convencidas de que são os intérpretes corretos da palavra de Deus”, refere Gagliardi.

O segundo princípio fundamental do Protestantismo é a justificação, nomeadamente a crença de que o cristão se salva unicamente pela Graça de Deus, através da fé – daí os credos reformados da “sola gratia” e da “sola fide”. Gagliardi refere-se a isto como uma conceção de soteriologia totalmente passiva: “mesmo em relação à fé, a pessoa não é um agente positivo; é Deus quem dá o dom e também é Ele quem está activo no dom”.

Isto é ainda mais evidente na famosa doutrina teológica luterana de “simul justus et peccator” (simultaneamente justo e pecador), que ensina que mesmo depois do momento salvífico o cristão retém quer o pecado original quer todos os seus pecados pessoais.

Gagliardi argumenta que a doutrina protestante da justificação reflete a manifestação do princípio “ou-ou” na forma como opõe a humanidade e Deus. A salvação é ou uma obra humana ou divina, e por isso “é preciso escolher”. Uma vez que no homem não existe nada de bom, o agente inteiro e exclusivo na salvação é Deus. Vemos algo de semelhante nos ensinamentos luterano e calvinista sobre a predestinação: uma vez que o homem é impotente em relação ao seu destino eterno, é só Deus quem escolhe. De facto, Calvino popularizou a noção da “dupla predestinação”: em toda a eternidade é Deus quem determina quem será salvo e quem será condenado, independentemente da escolha.

Esta dinâmica é visível também na cristologia protestante, especificamente no que diz respeito à humanidade de Cristo. Gagliardi escreve: “se Cristo é o Salvador, e se nele falamos de mérito, então é devido ao facto de que a divindade do Logos habita na sua humanidade. Pode-se dizer que mesmo para Jesus é verdade que é Deus quem faz tudo, que o ser humano não faz nada”.

Segundo este sistema, a humanidade de Cristo não é um instrumento junto com a sua divindade que colabora verdadeiramente na redenção do homem, mas um tipo de recipiente em que Deus se revela. Isto conduz a uma antropologia muito diferente daquela que encontramos no Catolicismo.


Consideremos, por exemplo, a própria ideia de um santo. Ou, em alternativa, pensemos na diferença entre uma soteriologia protestante em que a fúria divina cai sobre um Cristo que se “faz pecado” por nós e uma soteriologia católica em que o Deus-homem se oferece a si mesmo como sacrifício perfeito de expiação.

O paradigma do “ou-ou” vê-se também na doutrina protestante de “soli deo gloria”. Uma vez que só Deus é digno de glória, não só se proíbe a veneração de santos, mas também a devoção mariana. A veneração de humanos, dizem os protestantes, detrai necessariamente da adoração devida a Deus. Os iconoclastas da Reforma acreditavam que as imagens, ícones e relíquias eram blasfemos e que deviam ser destruídos para bem da pureza litúrgica e eclesial. Os huguenotes franceses, por exemplo, destruíram as relíquias de Santo Ireneu de Lyon, um dos maiores padres da Igreja.

Tendo em conta estes exemplos (e outros), Gagliardi descreve o princípio “ou-ou” como “a assunção fundamental do Protestantismo” e explica:

A Palavra de Deus ou se encontra na Escritura ou na Tradição; logo, devemos escolher, e Lutero escolhe a Escritura, apagando a Tradição. A justificação acontece ou pela fé ou pelas obras humanas, por isso só a fé salva. A salvação é fruto ou da graça divina ou do mérito humano, por isso só a graça salva. Só se deve honrar a Cristo ou a Maria e aos santos, por isso, obviamente, escolhe-se Cristo. Por fim, a glória é devida a Deus ou a um ser humano.

O resultado desta oposição dialética é uma visão profundamente pessimista do homem, bem como a priorização do subjectivo sobre o objectivo.

Os católicos têm sido tentados frequentemente pelo mesmo pensamento dualista, quer isso se manifeste na importação de pensamento protestante, na nossa teologia ou na apresentação do pensamento e da prática católica como sendo uma coisa e não outra, ainda que não exista nenhum pronunciamento do magistério sobre o assunto. Porém, como argumenta Gagliardi, o Catolicismo é inerentemente sintético: a revelação é não só Escritura, mas também Tradição; a salvação requer não só acção divina, mas também humana; Deus é digno de adoração, mas os santos são dignos de veneração.  

O princípio de “não só, mas também” é o que mantém o Catolicismo católico, isto é, fiel à plenitude da Verdade.


Casey Chalk escreve para a Crisis MagazineThe AmericanConservative e a New Oxford Review. É licenciado em história e ensino pela Univesidade de Virgínia em tem um mestrado em Teologia da Cristendom College.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 5 de janeiro, de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Friday, 10 November 2017

Lutero, quero apresentar-te a caixa de Pandora

É só uma cena que escrevi... Não vai dar em nada... 
O Papa Francisco pediu hoje a abolição das armas nucleares. Foi durante uma conferência sobre o assunto, que se realizou na Santa Sé.

Decorre até amanhã uma enorme conferência em Lisboa sobre os 500 anos da Reforma. Hoje conversei com um dos oradores, o baptista Timóteo Cavaco, que diz que Lutero não teria ideia da dimensão daquilo que estava a iniciar, mas que a fracturação das igrejas protestantes era inevitável.

Os dehonianos associam-se este ano de forma especial ao dia mundial dos pobres, que foi instituído pelo Papa Francisco, e as dominicanas do Convento dos Cardaes convidam-nos novamente para irmos comprar os produtos feitos localmente, ou assistir a um concerto, para ajudar as raparigas com necessidades especiais que vivem naquele espaço.

Começa no domingo a Semana dos Seminários. Os bispos pedem aos católicos que valorizem as instituições onde se formam os padres.

Recordo que podem ler no blog a transcrição integral da entrevista que a minha colega Aura Miguel fez ao Cardeal Burke, há dias. E não deixem também de conhecer a história de Nabeel Qureshi, cujo pai, um oficial da armada paquistanesa, nunca mais andou altivo desde o dia em que soube que o filho se convertia ao Cristianismo

Tuesday, 31 October 2017

Lamentando a Reforma de Lutero

Charlotte Allen
Assinala-se hoje o 500.º aniversário do dia em que Martinho Lutero (alegadamente) pregou as suas 95 teses na porta do castelo de Witenberg, dando início à reforma. Em 1999 católicos e luteranos sentaram-se à mesa e chegaram ao consenso de que afinal os dois ramos do Cristianismo concordam precisamente sobre a questão que tinha levado Lutero a romper com a Igreja Católica: que a “justificação” – isto é, o perdão dos pecados dos homens através do poder salvífico de Cristo – se consegue apenas pela graça de Deus e não por méritos humanos, como alguns católicos tinham argumentado, ou pareciam ter argumentado. Depois, a 19 de Outubro deste ano, o bispo italiano Nunzio Galantino, secretário-geral da conferência episcopal italiana, foi mais longe e declarou que Lutero nem herege era e que a reforma tinha sido “obra do Espírito Santo”. Bom, eu não diria tanto, mas sinto uma espécie de obrigação ecuménica de dizer algo de simpático sobre Martinho Lutero.

Mas o problema é que não é fácil… Não é preciso ser freudiano para concluir que Lutero era um caso muito complicado. Era arrogante, egoísta, dramático e pensava que era o centro do mundo por ser mais esperto e espiritualmente superior a toda a gente.

Passou a juventude e hesitar sobre o que fazer com a vida (e a desperdiçar o dinheiro das propinas que o pai lhe dava) numa época – a alta Idade Média – em que um jovem adulto não se podia dar ao luxo de perder tempo, porque a maior parte deles não vivia para além dos 40. Depois, quando finalmente entrou para um mosteiro agostiniano (num gesto tipicamente melodramático, anunciando que jamais o iriam ver), lamentou-se durante uma década por não conseguir obter uma garantia de que a sua alma seria salva – pecando assim contra a virtude cristã da esperança.

Quando chegou a hora de “reformar” a Igreja, depois de 1517, o que interessava verdadeiramente a Lutero não era livrar-se das indulgências ou “jamais” ser visto. Lutero passou a ser visto em todo o lado, a conviver com poderosos príncipes alemães que tinham contas a ajustar com o Sacro Império Romano, ajudando-os a confiscar mosteiros a torto e a direito (será que não ficou com uma única memória boa dos agostinianos com quem tinha vivido tantos anos?), e perseguindo furiosamente os antepassados anabaptistas daquelas simpáticas senhoras amish que vendem legumes no mercado ao pé de minha casa.

Lutero pregava a sola scriptura, mas quando a Bíblia não se ajustava à sua teologia sentiu-se autorizado a mexer com ela. Inseriu o termo “somente” depois da palavra “fé” na sua tradução para alemão da Epístola de São Paulo aos Romanos e tentou relegar a Carta de Tiago para segundo plano porque mencionava as boas obras. Quando quis casar não podia contentar-se com uma simpática filha de um proprietário alemão, não, teve de casar com uma ex-freira, Katharina von Bura, que pessoalmente convenceu a sair do convento.

É possível ser mais ressabiado contra a Igreja Católica? Os dois mudaram-se para um mosteiro confiscado, que é como despejar o vizinho para poder ficar-lhe com a casa. Lutero foi pessoalmente responsável pela destruição maciça de arte medieval de valor incalculável, com incontáveis recém-luteranos a caiar alegremente os frescos das suas igrejas previamente católicas e a lançar para a fogueira as imagens de santos. Felizmente Lutero não era italiano, por isso ainda temos alguns Giottos.

Também tinha uma estranha fixação escatológica, e recorria facilmente à ordinarice para insultar os seus inimigos, o que fazia frequentemente, porque criava muitos. E para culminar, era ferozmente anti-judeu. É certo que os católicos medievais também não eram particularmente queridos na forma como tratavam os judeus, mas pelo menos nenhum deles escreveu um tratado chamado “Sobre os Judeus e as suas Mentiras”, que era um dos livros favoritos de Julius Streicher, um dos pais da propaganda nazi.

E não,

Martinho Lutero não inventou a árvore de Natal, nem escreveu o “Away in a Manger”. Mas conseguiu estragar o Halloween, rebaptizando-o “Dia da Reforma”. Que desmancha-prazeres! Não podia ter pregado as teses no dia 30 de Outubro?

Mas por uma questão de justiça, há algumas coisas boas a dizer sobre Martinho Lutero. Vou enumerá-las:

·         Vender indulgências foi mesmo má ideia. Se ao menos tivesse parado por aí.
·         Gostava muito dos seus filhos. Isso é bom.
·         Consta que Katharina von Bora fazia excelente cerveja – mas aposto que aprendeu isso no convento.
·         “Castelo Forte é Nosso Deus”, que foi de facto escrito por Lutero, é um cântico fantástico.
·         J.S. Bach foi o melhor compositor que alguma vez existiu. Søren Kierkegaard foi um dos melhores teólogos. Dietrich Bonhoeffer um dos mais nobres mártires cristãos.
·         Os actuais luteranos que fizeram do “Midwest” americano um bastião de conservadorismo social (e de excelentes escolas públicas) são o sal da terra – embora a sua gastronomia deixe algo a desejar.

Chegado a este ponto, o meu leitor protestante e evangélico deve estar a pensar que não passo de uma versão moderna do Padre Feeney, a insultar indiscriminadamente “os nossos irmãos separados”, como nós, católicos, lhes chamamos hoje em dia. Mas não é o caso. O meu marido é protestante! E tiro o chapéu aos irmãos Wesley, a William Wilberforce, a C.S. Lewis, Billy Graham, ao biblista anglicano N.T. Wright e a tantos outros que testemunharam de forma tão vibrante a fé cristã fora da Igreja Católica. Não concordo com a sua visão do que é, ou deve ser, a Igreja de Cristo, mas admiro profundamente a sua relação intensa com Jesus.

Só preferia que esta história toda não tivesse começado com… Martinho Lutero.


Charlotte Allen é doutorada em estudos medievais pela Catholic University of America e é autora de “The Human Christ: The Search for the Historical Jesus”. Escreve no First Things tem colunas regulares no Weekly Standard, Acculturated, e no Wall Street Journal.

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 31 de Outubro de 2017 em The Catholic Thing)

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Thursday, 19 February 2015

Barack o Teólogo e Lutero o Playmobil

A cristandade continua a tentar perceber como reagir ao terrível martírio dos 21 cristãos coptas às mãos do Estado Islâmico. Mas se a notícia nos chocou a todos, que dizer da aldeia egípcia de onde eram naturais 13 dos homens? Segundo o pároco, “houve gritos em todas as casas, em todas as ruas”.

Ontem Barack Obama falou do Estado Islâmico. Não contente com o facto de ser líder político e comandante supremo das Forças Armadas, Obama agora também é teólogo e decide o que é o verdadeiro Islão e o que são deturpações…

Já escrevi sobre este assunto antes, aqui, mas escusado será dizer que sou da opinião de que não cabe aos líderes políticos fazer este tipo de juízos. E não estou sozinho! Não deixem de ler este excelente e autoritário artigo que explica, bem explicado, o que é o Estado Islâmico e em que é que acreditam.

Mudando de tom, porque bem falta nos faz rir, os responsáveis da empresa alemã Playmobil estão estupefactos com o maior fenómeno de vendas de sempre daquele brinquedo… Nada mais nada menos que Martinho Lutero! Bom, neste caso um bocadinho menos, porque afinal de contas é só um boneco…

Wednesday, 27 November 2013

Corpus Christi e a Realidade

Depois de ter lido o meu artigo sobre Hegel, um amigo protestante, que recentemente se reformou de uma universidade no Leste dos Estados Unidos, disse que a minha curta referência a algo que o filósofo tinha dito sobre a Eucaristia e a Real Presença talvez precisasse de ser clarificada. Esta Solenidade de Cristo Rei, que foi instituída em 1925 em resposta ao crescente secularismo, parece-me um dia adequado para reflectir sobre este assunto.

A minha referência foi a uma palestra de Hegel sobre filosofia da religião, na qual criticou a doutrina católica da transubstanciação, levando um aluno católico a denunciá-lo às autoridades. Hegel tinha feito uma piada de mau gosto, perguntando se os católicos seriam obrigados a adorar um rato caso este consumisse uma hóstia consagrada.

Hegel respondeu às autoridades públicas que era um protestante a leccionar em Berlim protestante, lidando com uma religião que era inimiga do tratamento “científico”. Para além disso, tinha estado a falar apenas num sentido “indeterminado e hipotético” e não se devia esperar que apresentasse a doutrina católica de forma acrítica nas suas exposições filosóficas. (Não tenho conhecimento de qualquer outro incidente nos seus ensinamentos que tenha causado consternação aos católicos.)

O meu amigo comentou que eu tinha dado a impressão de que os luteranos não acreditam na Presença Real e recordou que Lutero tinha discordado fortemente de Zwingli, Calvino e outros reformadores, que interpretavam a Eucaristia como uma presença espiritual, ou um mero memorial – por outras palavras, Jesus não estava fisicamente presente.

É verdade. Lutero não concordava com a posição católica de que a Eucaristia deixava de ser pão e vinho, transformando-se no corpo e sangue de Cristo. Mas Lutero mantinha que Cristo estava substancialmente presente, juntamente com o pão e o vinho. Por vezes chamou-se a isto “consubstanciação”, por contraste à doutrina católica da “transubstanciação”.

Não sei dizer se a interpretação luterana implica a crença numa presença física, mas parece-me mais próximo da interpretação católica do que muitas interpretações protestantes. A Eucaristia, pelo menos entre as igrejas luteranas mais “altas”, não é apenas um encontro de “recordação da Ceia do Senhor”.

A sucessão apostólica é um factor aqui: Lutero, um padre católico validamente ordenado, poderá ter tido o poder de consagrar, desde que tivesse a intenção certa, apesar de não acreditar em alguns elementos da missa. Mas à medida que os seus seguidores e os outros reformadores aumentaram de número, produzindo diversas interpretações do sacerdócio e do episcopado (quando acreditavam sequer nestes conceitos), qualquer rasto de sucessão apostólica terá desaparecido – ao contrário das Igrejas Ortodoxas e possivelmente, por algum tempo, a confissão anglicana.

Cristo, sendo filho de Deus, não tem qualquer problema em estar verdadeira e substancialmente presente sob a aparência do pão e do vinho. Tal como a Sabedoria Divina, ele delicia-se “junto aos filhos dos homens” (Provérbios 8,31). Os seus anos passados na Galileia não foram suficientes; Ele quer, (qual extremo extrovertido) ter um encontro pessoal com cada pessoa. Se, como Lutero insistia, somos salvos unicamente pela fé, então a crença católica na Presença Real é talvez a mais alta expressão de fé.

No Evangelho de São João (6, 53-54), Jesus diz: “se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós (…) Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele.” Essa afirmação de uma necessidade (com as suas notas de canibalismo) levou muitos dos seus seguidores a abandoná-lo. Mas muitos outros permaneceram, possivelmente conscientes do privilégio de estarem vivos para ver um dos factores distintivos do Messias prometido. Em Mateus (13,16-17), Jesus realçou esse privilégio: “Muitos profetas e homens justos desejaram ver as coisas que vocês vêem, e não viram”.



E nós, que passados dois mil anos, não tivemos essa sorte? Poderemos dar por nós a pensar, em alguns momentos, “se ao menos tivesse tido essa oportunidade, e esse encontro pessoal, como a minha vida seria diferente”.

Mas estaríamos enganados. Na última ceia Ele colocou todos os seus futuros seguidores ao mesmo nível que os discípulos, dando-lhes a Eucaristia. Eles poderiam entrar na sua presença com a mesma facilidade da mulher que o abordou e tocou no seu manto (Mc. 5,28), ou do apóstolo João, que se reclinou sobre o seu peito (Jo. 13,25), ou Tomé, tocando-lhe as feridas com mãos trémulas depois da Ressurreição (Jo. 20,27).

Há santos que foram abençoados de forma especial quando recebiam a Comunhão, vendo ou ouvindo verdadeiramente o Senhor. (Os católicos, como outras pessoas, podem ter experiências religiosas). Mas a maioria de nós, a maior parte das vezes, não sente qualquer presença especial.

Mas acham que os seus apóstolos, durante a sua vida pública, sentiam alguma aura especial quando se aproximavam dele? Houve algumas excepções, em que permitiu que a sua divindade se manifestasse de forma sensível: aos presentes aquando do seu baptismo por João (Mt. 3,17); a Pedro, Tiago e João na Transfiguração (Mt. 17,5) e quando os seus captores foram atirados ao chão pelo poder da sua presença (Jo. 18,6).

Na maior parte das vezes, contudo, tal como nós, os seus contemporâneos não sentiram uma presença sobrenatural, embora as suas palavras e obras os tenham fascinado.

Independentemente de nós, passados dois mil anos, sentirmos de forma sobrenatural a presença do Senhor na Eucaristia, esta oferece-nos a mesma oportunidade que tinham os contemporâneos de Cristo: podermo-nos aproximar de Jesus, tornando-nos aptos a algumas das mudanças espirituais que o Filho de Deus pode operar secretamente nos mais profundos santuários das nossas almas.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination(2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no domingo, 24 de Novembro de 2013)

© 2013 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 26 December 2012

O que nos trouxe o Protestantismo?






Nota prévia: Tenho o privilégio de contar entre os meus leitores muitas pessoas de tradição protestante. Publico este artigo de Howard Kainz certo de que compreendam que o faço no espírito do conhecimento e troca de ideias e não como qualquer ataque mesquinho às suas crenças religiosas. Se vos servir de consolo, traduzi-o ao som de "Amamos Duvall", que Tiago Guillul simpaticamente me ofereceu antes do Natal.
Filipe d'Avillez


Duas publicações recentes partilham um tema que podíamos resumir como “O que nos trouxe o Protestantismo?”. Em “The Unintended Reformation”, o professor Brad Gregory, da Universidade de Notre Dame, enumera os desenvolvimentos históricos através dos quais o Protestantismo, cujo objectivo inicial era a reforma da Igreja, resultou em milhares de “denominações” com mensagens contraditórias, isoladas umas das outras por mecanismos secularistas de tolerância e relativismo. Em “If Protestantism is True”, Devin Rose dá conta das suas investigações teológicas pessoais que o conduziram, inesperadamente, para o seio da Igreja Católica.

Face à aparente corrupção e má gestão das autoridades eclesiais e do papado, a ideia aparentemente inspirada dos primeiros “reformadores” protestantes, era simplesmente de regressar às Escrituras para encontrar orientação. No Verão de 1519 Martinho Lutero, por exemplo, tinha chegado à conclusão que só nas escrituras é que se podia encontrar a única verdadeira e inquestionável fundação da fé e vivência cristãs. Sola scriptura.

Mas quais escrituras? Devin Rose começou a sua busca com a pressuposição de que a única autoridade infalível é a Bíblia protestante, composta de sessenta e seis livros. Mas poderia ter a certeza de que os restantes sete livros – Tobit, Judite, Sabedoria, Ben Sirá, Baruc, 1 e 2 Macabeus – da Bíblia católica não são fiáveis? Fossem quais fossem as escrituras aceites, nenhuma afirma que deve ser recebida como autoridade final. Na verdade os sessenta e seis livros incluídos na Bíblia Protestante foram inicialmente considerados “canónicos” com base na autoridade da Igreja Católica – uma fonte suspeita, aos olhos dos reformadores.

Mas mesmo partindo do princípio de que a Bíblia protestante é definitiva, qual dos reformadores devemos seguir? Tal como Devin Rose, Brad Gregory deparou-se com inúmeras discussões entre os principais reformadores, precisamente na altura em que procuravam lançar as fundações da restauração do Cristianismo:

Lutero e Melanchthon discordaram de Zwingli e dos seus aliados sobre a natureza da presença de Cristo na Ceia do Senhor... Perante o testemunho de Zwingli: “Tenho por certo que Deus me ensina, porque o experimentei”, Lutero contrapõe: “Tenham atenção a Zwingly e evitem os seus livros como se fossem o veneno infernal de Satanás...”. Muitos cristãos anti-romanos discordaram suficientemente de Lutero, Zwingly, Bucer, João Calvino e todos os outros líderes luteranos ou da reforma protestante sobre verdade de Deus ao ponto de se recusarem a prestar culto ou estar em comunhão com eles.

Mas é preciso interpretar correctamente a Bíblia. Gregory demonstra como os princípios tradicionais de interpretação foram descartados à medida que os vários reformadores, certos da sua inspiração, deixaram de se considerar obrigados a respeitar a tradição:

Os reformadores rejeitaram as interpretações e afirmações patrísticas sobre a Escritura, tal como rejeitaram a exegese medieval, os decretos papais, o direito canónico, os decretos conciliares e as práticas eclesiais em tudo quanto contradizia as suas próprias interpretações da Bíblia... Discordaram sobre o significado e a prioridade dos textos bíblicos e da relação entre esses textos e as doutrinas sobre os sacramentos, culto, graça, Igreja e por aí fora. Discordaram sobre os princípios interpretativas que deviam orientar a compreensão das Escrituras, como por exemplo a relação entre o Antigo e o Novo Testamento, ou a permissibilidade de práticas religiosas que não tinham sido explicitamente proibidas ou sancionadas na Bíblia.

Sem surpresas, a disseminação de diferentes interpretações por denominações protestantes ao longo dos séculos tem perturbado muitos dos nossos contemporâneos que procuram a mais plena expressão da verdade cristã. Devin Rose comenta:

O espectro protestante cobre agora uma grande variedade de crenças contraditórias: baptismo infantil contra baptismo de crentes, a presença, de alguma forma ou apenas simbólica, de Cristo na Eucaristia, a indissolubilidade do casamento ou a aceitação do divórcio, a condenação do aborto enquanto homicídio ou a permissibilidade do aborto, a ordenação de mulheres ou só de homens, a trindade enquanto Deus em três Pessoas ou enquanto um Deus com três propósitos. Há diferenças sobre a predestinação e o livre arbítrio, sobre se é possível perder-se a salvação, sobre a validade do “casamento” homossexual, e por aí fora... O casamento já foi, em tempos, considerado uma união indissolúvel por todos os cristãos mas, tal como a contracepção, a esterilização e o aborto, a maioria das comunidades protestantes já inverteu os seus ensinamentos sobre a impossibilidade do divórcio e recasamento, permitindo agora aos seus membros que se casem, desde que tenham obtido primeiro do seu anterior esposo um divórcio civil.

Os pais do Protestantismo
Perante uma disparidade tal de interpretações vem-nos à mente 1 Coríntios 14,8: “E, se a trombeta só emitir sons confusos, quem é que se prepara para a guerra?” A World Christian Encyclopedia afirma que existem mais de 33 mil denominações cristãs. A escolha difícil, enfrentada muitas vezes por protestantes sérios, é entre a Igreja e “igrejas”.

De acordo com Devin Rose, a consequência última e inevitável de se basear a religião num livro, mesmo um livro sagrado e inspirado como a Bíblia, foi uma variedade de interpretações contraditórias, sem que exista qualquer critério fiável de escolha para o crente. Rose foi coerente com a sua própria proposição, “se o Protestantismo é verdade”, e encontrou... a Igreja.

Brad Gregory vai ainda mais longe, traçando a origem da hegemonia actual do secularismo às discórdias incessantes e intratáveis entre protestantes e entre católicos e protestantes. Sem outra solução para harmonizar a dissensão, a Holanda foi pioneira na condução do mundo Ocidental à “liberdade de religião”. Os juízes holandeses:

Romperam com mais de um milénio de Cristianismo... ao transformar a fé “numa questão privada de preferência individual”. A liberdade de  religião protegeu a sociedade da religião e, por isso, secularizou a sociedade e a religião...

No meio desta secularização, “os cristãos americanos estão divididos em relação a todas as questões polémicas políticas e morais, do divórcio ao aborto, ao sistema de saúde e à ecologia.”

Como lidamos, então,com as “Questões de Vida” tão prementes? Gregory explica que nos voltámos para as ciências empíricas e o cientismo materialista como fonte de verdade por defeito. Depositamos a nossa confiança em ciências como a física que, depois de oitenta anos, ainda não faz a menor ideia como conciliar a teoria quântica com a teoria da relatividade; ou ciências como a psicologia evolucionária, que nos apresenta uma longa lista de comportamentos contraditórios que alegadamente têm a sua origem na evolução biológica: o Ser Humano enquanto ferozmente competitivo ou naturalmente cooperativo; essencialmente monogâmico ou polígamo; genocida ou pacífico; que cuida dos pobres ou os ignora.

Não obstante aderimos, religiosamente, à ciência como juiz supremo. Deus nos valha.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination(2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em www.thecatholicthing.com no Domingo, 23 de Dezembro de 2012)

© 2012 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 27 June 2012

Alguns São Mais “Outro” que Outros


Randall Smith
Recentemente em Inglaterra tive uma conversa com uma simpática senhora britânica que é anglicana, mas cujo marido é católico, e que tinha decidido não educar a filha na Igreja Católica porque, segundo ela: “Seria incapaz de educar a minha filha numa religião que proíbe a contracepção”.

Fez-me lembrar aquela cena de “O Sentido da Vida”, dos Monty Python, em que um marido protestante comenta para a sua mulher, enquanto vê as hordas de crianças católicas na casa do outro lado da rua:

“Olha-me só aqueles Católicos nojentos. A encher o mundo com pessoas que não têm dinheiro para alimentar.”

 “Nós somos o quê querido?”

“Protestantes, com muito orgulho.”

 “Porque é que eles têm tantos filhos?”

“Porque cada vez que têm relações sexuais, têm de ter um bebé.”

“Mas é o mesmo connosco, Harry.”

“O que é que queres dizer com isso?”

“Quero dizer, temos dois filhos e só tivemos relações sexuais duas vezes.”

“Essa não é a questão… Podemos ter relações sempre que quisermos.”

“A sério?”, pergunta a mulher, algo confusa.

 “Sim”, responde o marido, empertigado mas desafiador, enquanto continua a insistir com os benefícios da contracepção: “Ser protestante é isso mesmo. É por isso que é a Igreja certa para mim. É por isso que é a Igreja certa para todo aquele que respeita o indivíduo e a seu direito de escolher livremente por si. Quando Martinho Lutero pregou o seu protesto na porta da igreja em 1517, poderá não ter percebido a significância do que estava a fazer, mas passados quatrocentos anos, graças a ele querida, eu posso colocar o que bem entender no meu Zé Tomás.”

Passados 400 anos, às vezes parece que de facto é a isso que se resume o Protestantismo – aliás, o ser americano: Contracepção. Não sei se Lutero ficaria muito satisfeito.

Seja como for, não pude deixar de pensar que se tratava de um pensamento estranho para uma mãe. Enquanto contemplava a sua filhota, a brincar no berço, a olhar para ela com aqueles olhos grandes e redondos, a mãe disse para si mesma exactamente o quê?:

“Não posso educar esta criança como católica, porque quero garantir que possa ter relações sexuais com homens que não sentem qualquer compromisso duradouro com ela?”

“Quero que a minha filha cresça para ser um objecto de prazer sexual para homens sem ter de os maçar com preocupações sobre a sua fertilidade?”

“Não suporto a ideia de que sejam negadas à minha filha os prazeres da fornicação?”



Suponho que não foi nada disto, pelo menos não de forma explícita, embora esses sejam os objectivos que estava a desejar para a sua filha, independentemente das intenções.

Não, suponho que estava a pensar sobre “respeitar o indivíduo e o seu direito a escolher”. Mas quem é que escolhe de facto? A contracepção não é, tantas vezes, mais um argumento para levar as mulheres para a cama? Não é por isso que os maiores defensores da contracepção são homens entre os 14 e os 35?

Mas o que foi verdadeiramente interessante sobre esta inglesa foi a sua reacção quando se falou do Islão. “Não, o Islão é uma religião fantástica”, insistiu. “Tantas pessoas compreendem mal o Islão. Não me importava nada que a minha filha se tornasse muçulmana”.

A sério? Véus? Burqas? Noivas menores? Divórcio para os homens mas não para as mulheres? Não queria estragar as coisas, informando-a de que os muçulmanos também não têm uma grande opinião sobre a contracepção. Ou que os muçulmanos têm sido os principais aliados do Vaticano em tentar impedir as Nações Unidas de importar contraceptivos e serviços abortivos em massa para África.

Como esta simpática mãe inglesa, eu tenho um grande respeito pelo Islão. Mas a sua visão do Islão pareceu estranha vinda de alguém que não quer que a filha seja católica por causa da posição “restritiva” da Igreja no que diz respeito ao sexo.

George Orwell, em O Triunfo dos Porcos, inventou a expressão: “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros”. Na nossa era de respeito ostensivamente pluralista pelo “outro”, parece que alguns “outros” são mais “outro” que outros.

Quando um “outro” é suficientemente distante e diferente de nós que parece exótico e estranho – veja-se o exemplo do Islão, mas poderia ser o comunismo, o Hinduísmo ou o canibalismo – congratulamo-nos por termos a mente suficientemente aberta para o acolher.

O outro tipo de “outro”, porém, está demasiado próximo, é demasiado parecido connosco, para sentirmos a sua “alteridade”. É o mesmo tipo de miopia que nos leva a considerar “adoráveis” e “coloridas” as disfunções das famílias dos outros, enquanto os pequenos pecados das nossas parecem tão irritantes. A familiaridade leva ao desprezo.

Tinha sido bom se a actual adoração multicultural do “outro” tivesse entrado na moda uma geração mais cedo, quando os católicos estavam a ser perseguidos na Inglaterra e na Irlanda. Se o timing tivesse sido melhor, os Católicos dessa geração poderiam ter reclamado, orgulhosamente, o estatuto de “outro” vitimizado. Talvez o Catolicismo fosse considerado “fixe”, em vez de ser simplesmente discriminado.

Por outro lado, provavelmente não. O Catolicismo é difícil – traz exigências sérias – e isso nunca é popular. Ainda assim, talvez haja aqui uma abertura para a Igreja hoje. Em vez de tentar convencer toda a gente de que o Catolicismo não é de todo “estranho” ou “diferente” ou contracultura, talvez devêssemos caminhar na direcção contrária e tentar convencer toda a gente de que o Catolicismo é a coisa mais estranha, completamente “diferente” que existe – que é, na verdade, a única forma de ser verdadeiramente “contracultura”, verdadeiramente “outro” em relação ao que o mundo nos tenta obrigar a ser.

Esta abordagem não só teria melhor hipótese de sucesso que a abordagem de “não-se-preocupem-connosco-somos-iguais-a-toda-a-gente”, teria também, pelo menos, a virtude de ser honesta.


(Publicado pela primeira vez no Domingo, 24 de Junho 2012 em http://www.thecatholicthing.org)

Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

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