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Wednesday, 10 May 2023

A Instrutiva Obscuridade das Escrituras

Quando as pessoas descobrem que eu já fui um seminarista calvinista, a reacção típica é perguntar-me porque é que decidi tornar-me católico. A razão inclui referências a uma doutrina de que a maioria dos católicos – e mesmos os protestantes – nunca ouviu falar: perspicuidade, também conhecida como claridade.

A perspicuidade não é uma das cinco “solas” que compõem as doutrinas centrais da Reforma Protestante: sola scriptura, sola fide, sola gratia, solus Christus, e soli deo gloria. Não obstante, ela foi afirmada por todos os principais pensadores da Reforma, Lutero, Calvino, Zwingli e Cranmer. E, ainda que não seja frequentemente pregada a partir dos púlpitos protestantes, ela é a doutrina que destranca todas as outras doutrinas protestantes, como defendo no meu novo livro “The Obscurity of Scripture”. Passo a explicar.

Pese embora não exista uma definição única sobre a qual todos os protestantes concordam, a perspicuidade significa, de forma geral, que a Bíblia é clara. Alguns defendem que a Bíblia é clara no que diz respeito às “verdades essenciais da fé cristã”, outros que é clara no que diz respeito ao Evangelho e outros ainda que é clara em todo o seu conteúdo.

Em todo o caso, a definição mais comum de perspicuidade é aquela que se lê na Confissão de Fé de Westminster, um documento dos presbiterianos ingleses, publicado em 1647, onde se lê:

Na Escritura não são todas as coisas igualmente claras em si, nem do mesmo modo evidentes a todos; contudo, as coisas que precisam ser obedecidas, cridas e observadas para a salvação, em um ou outro passo da Escritura são tão claramente expostas e explicadas, que não só os doutos, mas ainda os indoutos, no devido uso dos meios ordinários, podem alcançar uma suficiente compreensão delas.

Por outras palavras, a Bíblia é clara pelo menos no que diz respeito ao que é necessário para a salvação. A primeira vez que encontrei esta doutrina foi na universidade, quando estava a ler as obras do pensador reformado R.C. Sproul. A ideia fez imediatamente sentido para mim: se nós, protestantes, acreditamos que a Escritura é a única medida infalível da fé, então claro que deve haver algum princípio que o torna acessível ao cristão individual. De outra forma regressaríamos ao paradigma em que precisaríamos de recorrer a alguma autoridade externa. Mas não era precisamente isso que a primeira geração da reforma estava a repudiar na sua revolta contra Roma?

Mas havia um dilema: os protestantes discordam sobre quase tudo, incluindo aquilo que é necessário para a salvação. É verdade que isto pode parecer um problema fácil de resolver, mas algumas interpretações protestantes parecem contradizer não só o pensamento dos primeiros reformistas, como até mesmo o direito natural. O meu curso sobre as Epístolas de São Paulo, por exemplo, incluía um livro com interpretações pró-LGBTQ, o que me pareceu altamente improvável.

Mas outros debates entre protestantes eram um pouco mais complicados. Nos meus estudos religiosos na Universidade de Virgínia, e depois no seminário calvinista, aprendi sobre algo chamado “Nova Perspectiva sobre Paulo” (NPP), cujos defensores questionavam (se é que não atacavam abertamente) a doutrina de sola fide como não sendo bíblica. Enquanto defensor da sola fide, eu não gostava da NPP, mas este não era um qualquer movimento académico politizado que pudesse ser facilmente descartado. Mesmo o bispo N.T. Wright, um bispo anglicano e bastião da ortodoxia em assuntos como a veracidade da ressurreição, estava no campo da NPP.

Tentei chegar ao fundo da questão sobre a NPP, li livros a favor e contra, tentei aprender grego bíblico para poder interpretar sozinho as cartas de Paulo, e passei literalmente anos a tentar adquirir a certeza completa de que os defensores da NPP estão errados.

Mas quando cheguei ao verão de 2010 estava num impasse. Não estava mais próximo de determinar se os académicos da NPP estavam certos ou errados sobre São Paulo (e por extensão sobre a sola fide e todo o projecto da Reforma Protestante). Os académicos de ambos os lados eram mais instruídos do que eu, mais inteligentes do que eu e tinham pensado muito mais a fundo sobre São Paulo do que eu alguma vez poderia.

Foi então que me ocorreu. O ponto do protestantismo não era de que as verdades bíblicas essenciais, aquelas que dizem respeito à salvação, são claras, até para os cristãos menos instruídos, desde que as abordem como humildade e procurem a ajuda do Espírito Santo? Mas aqui estava eu, imerso num debate cultural, histórico e arqueológico sofisticado, para não falar da tentativa de compreender o vernáculo para compreender uma Bíblia supostamente “clara”.

E isto era só a ponta do icebergue. Os calvinistas discordam sobre se os bebés devem ser baptizados (os presbiterianos dizem que sim, os baptistas reformados que não). Lutero e Zwingli tiveram uma discussão muito pública (e muito feia) sobre o significado da Eucaristia no Colóquio de Marburgo. O baptismo e a Eucaristia não são também doutrinas essenciais? Segundo algumas tradições cristãs são essenciais para a salvação.

Foi então que, para mim, o protestantismo colapsou enquanto sistema coerente e intelectualmente defensável. Claramente a Bíblia não é clara sobre aquilo que é necessário para a salvação. Os protestantes não estão apenas em desacordo com os católicos sobre estas coisas, estão em desacordo uns com os outros.

Mas sem a perspicuidade, a doutrina que permite ao cristão individual fazer sentido da Bíblia, esse mesmo cristão precisaria de recorrer a alguma autoridade interpretativa. Compreendi então que no seu cerne, o protestantismo é individualista. Estava por minha conta na compreensão do Cristianismo, livre para decidir o que significa e o que constitui o Cristianismo autêntico, mas já não sentia confiança para o fazer. Que mandato é que Cristo me tinha dado a mim, Casey Chalk, de Virginia, para exercer autoridade infalível sobre a interpretação da Bíblia?

Mas sabia que havia uma instituição que reivindicava, de forma pelo menos plausível, essa autoridade. Tratava-se da instituição religiosa em que eu tinha sido formado. Essa instituição, a Igreja Católica, afirmava ter uma autoridade interpretativa extra-bíblica, uma que eu poderia avaliar sem afirmar ser o juiz final do significado da Bíblia.

Nesse mesmo ano estudei essa posição. Em Setembro de 2020 tinha-me decidido a regressar à Igreja da minha infância. A claridade, compreendi eu, não era clara. Mas a Igreja Católica, possuindo aprovação divina – algo em que podemos confiar através daquilo que o Catecismo apelida de “motivos de credibilidade” – podia dizer-me o que a Bíblia significa verdadeiramente. Confiando nos seus motivos de credibilidade, nunca mais olhei para trás.


Casey Chalk escreve para a Crisis MagazineThe American Conservative e a New Oxford ReviewÉ licenciado em história e ensino pela Universidade de Virgínia em tem um mestrado em Teologia da Cristendom College.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 7 de Maio de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 6 January 2021

Catolicismo e a Plenitude da Verdade

Casey Chalk
“Se tivermos de escolher entre abdicar da religião ou da educação”, afirmou o fundamentalista cristão e populista William Jennings Bryan, “então abdicaremos da educação”. É fácil rirmo-nos hoje de tamanho absurdo, embora Bryan, por mais falhas que tivesse, estivesse a defender o Cristianismo daquilo que considerava serem ataques modernistas e antirreligiosos da escola pública americana. Embora muitos protestantes tenham vergonha, hoje, do anti-intelectualismo de Bryan eu, como católico convertido do protestantismo, detecto uma perspectiva muito problemática na sua visão absolutista que contrapõe a fé á razão.

O teólogo italiano Mauro Gagliardi argumenta no seu livro “A Verdade é Sintética: Teologia Dogmática Católica”, que o Protestantismo opera segundo um modelo de “ou-ou” que vê a verdade como um conjunto de binários simplistas. Já a teologia católica emprega um princípio de “não só, mas também” que sintetiza diferentes realidades.

Gagliardi identifica dois princípios fundacionais do Protestantismo. O primeiro é biblicismo, a crença de que a Bíblia é auto-interpretativa. Mas “quando Lutero diz que a Bíblia se interpreta a si mesma ele quer dizer, de facto, que é o leitor individual que o interpreta. O leitor das Escrituras não precisa… da Tradição, do Magistério, dos Padres nem dos Doutores da Igreja”.

Os protestantes costumam responder que isso confunde a noção de “sola scriptura” de alguns evangélicos com a noção de “sola scriptura” do Protestantismo histórico. Esta última, afirmam, aprecia a necessidade de se interpretar a Bíblia à luz da tradição eclesial.

É verdade que alguns protestantes falam favoravelmente da tradição. Porém, como os filósofos católicos Bryan Cross e Neal Judisch argumentam, acaba sempre por ser o protestante como indivíduo quem decide quais são as tradições que devem ser normativas. Os protestantes adoram citar Santo Agostinho sobre a soteriologia, por exemplo, já não tanto sobre a eclesiologia ou a mariologia. Sem outro princípio unificador para além da Bíblia, o Protestantismo é inerentemente instável e frágil. “É por isso que, desde o início, o Protestantismo se dividiu em centenas de diferentes denominações, todas obviamente convencidas de que são os intérpretes corretos da palavra de Deus”, refere Gagliardi.

O segundo princípio fundamental do Protestantismo é a justificação, nomeadamente a crença de que o cristão se salva unicamente pela Graça de Deus, através da fé – daí os credos reformados da “sola gratia” e da “sola fide”. Gagliardi refere-se a isto como uma conceção de soteriologia totalmente passiva: “mesmo em relação à fé, a pessoa não é um agente positivo; é Deus quem dá o dom e também é Ele quem está activo no dom”.

Isto é ainda mais evidente na famosa doutrina teológica luterana de “simul justus et peccator” (simultaneamente justo e pecador), que ensina que mesmo depois do momento salvífico o cristão retém quer o pecado original quer todos os seus pecados pessoais.

Gagliardi argumenta que a doutrina protestante da justificação reflete a manifestação do princípio “ou-ou” na forma como opõe a humanidade e Deus. A salvação é ou uma obra humana ou divina, e por isso “é preciso escolher”. Uma vez que no homem não existe nada de bom, o agente inteiro e exclusivo na salvação é Deus. Vemos algo de semelhante nos ensinamentos luterano e calvinista sobre a predestinação: uma vez que o homem é impotente em relação ao seu destino eterno, é só Deus quem escolhe. De facto, Calvino popularizou a noção da “dupla predestinação”: em toda a eternidade é Deus quem determina quem será salvo e quem será condenado, independentemente da escolha.

Esta dinâmica é visível também na cristologia protestante, especificamente no que diz respeito à humanidade de Cristo. Gagliardi escreve: “se Cristo é o Salvador, e se nele falamos de mérito, então é devido ao facto de que a divindade do Logos habita na sua humanidade. Pode-se dizer que mesmo para Jesus é verdade que é Deus quem faz tudo, que o ser humano não faz nada”.

Segundo este sistema, a humanidade de Cristo não é um instrumento junto com a sua divindade que colabora verdadeiramente na redenção do homem, mas um tipo de recipiente em que Deus se revela. Isto conduz a uma antropologia muito diferente daquela que encontramos no Catolicismo.


Consideremos, por exemplo, a própria ideia de um santo. Ou, em alternativa, pensemos na diferença entre uma soteriologia protestante em que a fúria divina cai sobre um Cristo que se “faz pecado” por nós e uma soteriologia católica em que o Deus-homem se oferece a si mesmo como sacrifício perfeito de expiação.

O paradigma do “ou-ou” vê-se também na doutrina protestante de “soli deo gloria”. Uma vez que só Deus é digno de glória, não só se proíbe a veneração de santos, mas também a devoção mariana. A veneração de humanos, dizem os protestantes, detrai necessariamente da adoração devida a Deus. Os iconoclastas da Reforma acreditavam que as imagens, ícones e relíquias eram blasfemos e que deviam ser destruídos para bem da pureza litúrgica e eclesial. Os huguenotes franceses, por exemplo, destruíram as relíquias de Santo Ireneu de Lyon, um dos maiores padres da Igreja.

Tendo em conta estes exemplos (e outros), Gagliardi descreve o princípio “ou-ou” como “a assunção fundamental do Protestantismo” e explica:

A Palavra de Deus ou se encontra na Escritura ou na Tradição; logo, devemos escolher, e Lutero escolhe a Escritura, apagando a Tradição. A justificação acontece ou pela fé ou pelas obras humanas, por isso só a fé salva. A salvação é fruto ou da graça divina ou do mérito humano, por isso só a graça salva. Só se deve honrar a Cristo ou a Maria e aos santos, por isso, obviamente, escolhe-se Cristo. Por fim, a glória é devida a Deus ou a um ser humano.

O resultado desta oposição dialética é uma visão profundamente pessimista do homem, bem como a priorização do subjectivo sobre o objectivo.

Os católicos têm sido tentados frequentemente pelo mesmo pensamento dualista, quer isso se manifeste na importação de pensamento protestante, na nossa teologia ou na apresentação do pensamento e da prática católica como sendo uma coisa e não outra, ainda que não exista nenhum pronunciamento do magistério sobre o assunto. Porém, como argumenta Gagliardi, o Catolicismo é inerentemente sintético: a revelação é não só Escritura, mas também Tradição; a salvação requer não só acção divina, mas também humana; Deus é digno de adoração, mas os santos são dignos de veneração.  

O princípio de “não só, mas também” é o que mantém o Catolicismo católico, isto é, fiel à plenitude da Verdade.


Casey Chalk escreve para a Crisis MagazineThe AmericanConservative e a New Oxford Review. É licenciado em história e ensino pela Univesidade de Virgínia em tem um mestrado em Teologia da Cristendom College.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 5 de janeiro, de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 6 December 2017

Confissões de um Convertido

Casey Chalk
Este ano teceram-se várias considerações sobre os 500 anos da Reforma. Para mim, 2017 foi também um ano de comemoração pessoal: faz sete anos desde que regressei ao Catolicismo. Uma noite de conversa com um padre dominicano transformou-se numa vontade impulsiva para me confessar (não o fazia desde os sete anos). Mas se a recordação da Reforma tem sido razão tanto para introspecção e luto, o aniversário do meu regresso a Roma também. “Perda e Ganhos”, o título de um romance filosófico do Cardeal John Henry Newman, sobre a conversão de um aluno em Oxford ao Catolicismo, descreve bem aquilo que senti.

A vasta maioria dos testemunhos de conversão ao Catolicismo focam tudo o que se ganha ao entrar na Igreja fundada por Jesus. Isso é bom, a Igreja não é apenas algo que Ele estabeleceu há milénios, é onde Ele continua a residir. Mais, sendo verdadeiramente universal, engloba tudo o que é bom, verdadeiro e belo. Em todo o caso pode ser útil para potenciais convertidos, bem como para aqueles que os irão encontrar, descrever também aquilo que se perde.

Comunidade: Eu fazia parte de uma pequena e conservadora comunidade cristã alinhada com a Igreja Presbiteriana na América (PCA). A minha congregação da PCA contava com uns 150 fiéis ao domingo. Eu conhecia praticamente todas as famílias e elas conheciam-me. Conversávamos depois do serviço, às vezes durante horas. Tinha visitado as casas de muitos deles. Quando uma família tinha um bebé era anunciado na igreja e os diáconos asseguravam que não lhes faltava nada, incluindo refeições enquanto se adaptavam. Havia dois serviços compridos ao domingo, estudos bíblicos e vários eventos durante a semana ou fim-de-semana… A nossa vida rodava intimamente à volta de um pequeno grupo de pessoas. Era uma verdadeira bênção, envolvendo abertura aos outros, sacrifício e amor profundo. É difícil esconder as nossas falhas e falhanços numa comunidade destas; quando somos amados apesar de os nossos pecados serem conhecidos, o Evangelho ganha vida.

Em contraste, na minha primeira missa depois de regressar à Igreja não houve qualquer convite para eventos depois da celebração. Nada sobre grupos de jovens ou estudos bíblicos. Ninguém na paróquia sabia que era a minha primeira vez lá. Era anónimo. Aos poucos acabei por descobrir vários grupos sociais católicos, mas a missa de domingo continuou a resumir-se a uma hora por semana sentado sozinho, sem que ninguém me abordasse. A paróquia católica que frequentei durante os primeiros anos após a minha conversão ficava a algumas centenas de metros do quartel dos bombeiros onde a minha congregação presbiteriana se reunia para os serviços. Isolado na minha nova paróquia, senti-me muitas vezes tentado a descer a rua e voltar para lá.

Uma cultura partilhada: Enquanto cristão reformado fazia parte de um mundo pequeno e paroquial. A denominação tinha apenas cerca de 330.000 membros em todos os Estados Unidos, e talvez uns poucos milhões de pessoas no resto do país que se identificariam como “reformados” ou “calvinistas”. Paradoxalmente, isto teve o efeito de aprofundar os nossos laços neste pequeno “gueto” calvinista. Líamos os mesmos livros, cantávamos os mesmos cânticos e falávamos a mesma linguagem. Também partilhávamos uma herança comum com os nossos “santos”, homens em grande medida desconhecidos fora do nosso pequeno mundo, como J. Gresham Machen, Charles Hodge, B.B. Warfield, Robert Lewis Dabney. Orgulhavamo-nos muito desta cultura reformada. Na verdade tínhamos de o fazer. Uma comunidade cristã assim tão pequena precisa de uma grande fonte de riqueza cultural partilhada para conseguir sobreviver.  

Quando deixei o presbiterianismo deixei para trás quase tudo isso. As paróquias católicas não cantavam os cânticos que eu conhecia, não liam os livros que me tinham formado e não estavam interessadas no que o meu pequeno mundo de cristianismo tinha para oferecer. Sejamos claros, eu sabia que a maior parte da minha formação cristã era imprecisa ou incompleta, e que os “santos” reformados eram pouco em comparação com a santidade ou o brilhantismo de um São Tomás de Aquino, São Francisco de Sales ou Santa Teresa de Lisieux.  

Em muitos aspectos tive de recomeçar tudo do início, aprendendo a cantar a Salve Rainha em latim, desenvolvendo um conhecimento e apreciação das diferentes correntes culturais, litúrgicas e teológicas que existiam na Igreja e encontrando algo no Catolicismo a que poderia chamar meu. Sete anos mais tarde tenho sem dúvida mais orgulho e lealdade para com a Igreja Católica e a maravilhosa diversidade das suas manifestações culturais do que alguma vez tive para com o calvinismo. Mas tive de passar por isso sozinho.

Pessoas: Deixei para trás algumas centenas de presbiterianos com quem já tinha desenvolvido uma relação espiritual profunda. Meses depois da minha conversão uma rapariga calvinista com quem tinha tido um namoro sério – e com quem tinha querido casar – disse-me que se eu regressasse ela concordava em casar comigo. Isso é que é guerra espiritual! Disse que não (depois de algumas noites em branco!). Muitas das minhas outras relações não românticas com ex-correligionários persistem, graças a Deus. Mas tristemente essas relações estão agora incompletas, estamos agora separados pelo facto de não podermos comungar dos elementos mais universais do Cristianismo Católico: A Eucaristia e a união com o episcopado apostólico.

Estas feridas são verdadeiras e são a razão pela qual escrevo estas linhas. Em breve estaremos a celebrar o Natal e já sei o que está no topo da minha lista: a unidade de todos os cristãos, sobretudo estes meus irmãos calvinistas. Quando entrei na Igreja Católica ganhei Cristo e tudo o que Ele tão generosamente ofereceu ao seu corpo místico. Mas perdi a comunhão de alguns dos meus melhores amigos, aqueles por quem rezo, para que um dia se juntem a mim em Roma.

A sua separação (e a de todos os protestantes) é uma verdadeira perda e deve encorajar-nos a todos a ajudá-los a descobrir não só a verdadeira herança apostólica, mas também a fonte e o cume de tudo o que anseiam: comunhão com Cristo na Eucaristia. É aí que encontraremos aquilo pelo qual Ele rezou com tanto fervor em João 17: que sejamos um – uma boa coisa pela qual rezar nesta época de Advento.


Casey Chalk é um autor que vive na Tailândia, onde edita um site ecuménico chamado Called to Communion. Estuda teologia em Christendom College, na Universidade de Notre Dame. Já escreveu sobre a comunidade de requerentes de asilo paquistaneses em Banguecoque para outras publicações, como a New Oxford Review e a Ethika Politika.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 2 de Dezembro de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 19 July 2017

Parentalidade Católica e a Reforma Protestante

Casey Chalk
Em época de celebração dos 500 anos da Reforma Protestante gosto de pensar na corrente de evangélicos que está a desaguar no Tibre, abençoando não só a Igreja mas todo o diálogo ecuménico – tanto para católicos como para protestantes – sobre a natureza da Tradição, o papel de Maria e a necessidade de uma autoridade objectiva e apostólica.

A isto devemos somar a parentalidade. Quando me converti do calvinismo ao catolicismo discerni uma assinalável mudança na catequese que dava aos meus filhos, uma distinção tão importante que pode fazer toda a diferença entre ter pequenos Cristos ou pagãozinhos à solta lá em casa.

Começa com o baptismo. Muitos evangélicos ainda praticam o baptismo na infância, graças a Deus. Embora a maioria não acredite na regeneração baptismal, não deixam de baptizar validamente com água e em nome do “Pai, Filho e Espírito Santo”. Quer compreendam ou não, os seus filhos recebem assim o Espírito Santo e herdam os dons teológicos da fé, esperança e amor, sendo incorporados em Cristo.

Infelizmente muitos outros protestantes adiam o baptismo até que as crianças alcancem a “idade da razão” e decidam por eles se querem receber o sacramento. Por isso muitas crianças de famílias protestantes nunca o fazem. Para as famílias que assim negligenciaram este rito mandatado por Cristo, os seus filhos permanecem, para todos os efeitos, pagãos.

Mas esse é apenas o primeiro erro em muitos lares protestantes. A maioria dos evangélicos, e certamente os da minha anterior tradição calvinista, rejeitam imagens, ícones e instrumentos catequéticos que historicamente têm sido usados por famílias cristãs para ensinar os caminhos de Deus. Quem estuda a história sabe que a Reforma despiu os altares, derrubou estátuas de santos e removeu Cristo da Cruz. Os terços foram destruídos, relíquias postas de lado e as peregrinações abandonadas.

Na ânsia de purificar a fé e a prática cristã, os reformados parecem ter negligenciado uma questão essencial: Como é que se comunicam os fundamentos da fé cristã a uma criança de dois ou três anos?

Para os evangélicos que se mantêm em contacto de alguma forma ou feitio com a tradição reformada anticatólica, o que permanece é apenas uma casca, uma pobreza prática de catequese. Ainda se pode rezar com uma criança pequena, ler livros religiosos ou cantar músicas sobre Deus. Estas são todas práticas boas e belas, que na minha família também usamos. Mas são todas de natureza cerebral.

E qualquer pai sabe que o cerebral não é o melhor caminho para crianças pequenas. A este respeito podemos dizer que o Cristianismo reformado revela um certo gnosticismo, enfatizando um conhecimento escondido e abstracto à custa de um dos aspectos mais belos e essenciais da nossa fé: a Encarnação.

Estas tendências protestantes revelam uma compreensão incompleta daquilo que o Evangelista São João queria dizer quando se referia a Cristo da seguinte forma: “O Verbo encarnou e habitou entre nós” (João 1,14) ou, noutra passagem, “o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida” (1 João 1,1).

Já o Catolicismo, em contraste, é profundamente sensorial: crucifixos, água benta, sinais da cruz, pagelas, imagens, terços e – por fim – a Eucaristia. Jesus habitou um corpo e os seus milagres aconteceram não só através das suas palavras, mas pelas acções, saliva e lama, peças de roupa.

As devoções que reconhecem isto permitem que até as crianças mais novas entrem na fé cristã. Talvez tenha sido isso mesmo que Jesus estava a pensar quando exortou os apóstolos: “Deixai vir a mim as criancinhas, não as impeçais, pois delas é o Reino de Deus”.

Não estava certamente a pensar em fazer-lhes um sermão sobre um texto bíblico. Na verdade, Jesus impôs-lhes as mãos! (Mt. 19,14-15). Pensem só, ser uma criança cujo corpo foi tocado por Nosso Senhor!

Catolicismo: Um banquete sensorial
Quando a minha família convida amigos evangélicos para jantar e chegam antes de a nossa filha mais velha se ter ido deitar é sempre giro ver o que se passa. Como qualquer menina de quatro anos, adora visitas e partilha tudo sobre a sua vida: os maillots de bailarina, brinquedos e a rotina nocturna de ir para a cama.

Em nossa casa essa rotina envolve arrumar o quarto, vestir o pijama e lavar os dentes. Mas envolve ainda várias práticas explicitamente católicas: ajoelhar e rezar diante de um crucifixo, cantar músicas católicas de um cancioneiro já gasto e ler um livro que frequentemente, e por escolha da minha filha, é profundamente católico.

Ainda não perguntei aos meus amigos o que lhes passa pela cabeça quando vêem a minha filha a falar com Jesus crucificado como se estivesse vivo, ou a pedir uma “Música de Maria” do cancioneiro, ou a aparecer com um livro sobre “santos para raparigas” da sua estante.

Mas sei que a sua devoção é vibrante e verdadeira. Anda constantemente com pagelas, benze-se com água benta na igreja – não uma vez, nem duas, mas dezenas de vezes – e coloca copos de água com flores no nosso altar caseiro, como presente especial para Jesus.

Recorda-me a jovem Cordelia no livro “Reviver o Passado em Brideshead” de Evelyn Waugh, que na sua inocência e zelo doava dinheiro para ajudar os missionários que ensinavam crianças em África, regozijando de cada vez que uma delas era baptizada com o seu nome.

Caros leitores evangélicos, compreendam por favor que não estamos perante tralha sentimental católica, sinos e incensos sem qualquer substância teológica. Eu vivo na Tailândia e temos uma empregada filipina pentecostal que fala sem rodeios sobre a sua fé. E ela já nos confessou várias vezes o seu espanto pelo facto de a nossa filha mais velha saber tanto sobre Jesus e sobre a Bíblia.

Sabe mais, diz-nos ela, do que as crianças na sua própria igreja. Só posso concluir que isso se deve ao facto de toda esta parte sensorial do Catolicismo fazer com que as histórias das Escrituras – que habitualmente lhe lemos – ganhem vida na sua mente em desenvolvimento.

Se eu tivesse continuado a ser calvinista teria tentado introduzir os meus filhos à fé e à prática cristã o mais cedo possível. Os meus muitos amigos evangélicos fazem precisamente isso, com efeitos obviamente positivos.

Mas numa família típica de evangélicos ou calvinistas os pais trabalham sempre com uma mão atada atrás das costas – deixando os seus filhos sem meios para contemplar uma religião que deveria ocupar não só as suas mentes mas os seus corpos e todo o seu ser.


Casey Chalk é um autor que vive na Tailândia, onde edita um site ecuménico chamado Called to Communion. Estuda teologia em Christendom College, na Universidade de Notre Dame. Já escreveu sobre a comunidade de requerentes de asilo paquistaneses em Banguecoque para outras publicações, como a New Oxford Review e a Ethika Politika.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 1 de Julho de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 26 December 2012

O que nos trouxe o Protestantismo?






Nota prévia: Tenho o privilégio de contar entre os meus leitores muitas pessoas de tradição protestante. Publico este artigo de Howard Kainz certo de que compreendam que o faço no espírito do conhecimento e troca de ideias e não como qualquer ataque mesquinho às suas crenças religiosas. Se vos servir de consolo, traduzi-o ao som de "Amamos Duvall", que Tiago Guillul simpaticamente me ofereceu antes do Natal.
Filipe d'Avillez


Duas publicações recentes partilham um tema que podíamos resumir como “O que nos trouxe o Protestantismo?”. Em “The Unintended Reformation”, o professor Brad Gregory, da Universidade de Notre Dame, enumera os desenvolvimentos históricos através dos quais o Protestantismo, cujo objectivo inicial era a reforma da Igreja, resultou em milhares de “denominações” com mensagens contraditórias, isoladas umas das outras por mecanismos secularistas de tolerância e relativismo. Em “If Protestantism is True”, Devin Rose dá conta das suas investigações teológicas pessoais que o conduziram, inesperadamente, para o seio da Igreja Católica.

Face à aparente corrupção e má gestão das autoridades eclesiais e do papado, a ideia aparentemente inspirada dos primeiros “reformadores” protestantes, era simplesmente de regressar às Escrituras para encontrar orientação. No Verão de 1519 Martinho Lutero, por exemplo, tinha chegado à conclusão que só nas escrituras é que se podia encontrar a única verdadeira e inquestionável fundação da fé e vivência cristãs. Sola scriptura.

Mas quais escrituras? Devin Rose começou a sua busca com a pressuposição de que a única autoridade infalível é a Bíblia protestante, composta de sessenta e seis livros. Mas poderia ter a certeza de que os restantes sete livros – Tobit, Judite, Sabedoria, Ben Sirá, Baruc, 1 e 2 Macabeus – da Bíblia católica não são fiáveis? Fossem quais fossem as escrituras aceites, nenhuma afirma que deve ser recebida como autoridade final. Na verdade os sessenta e seis livros incluídos na Bíblia Protestante foram inicialmente considerados “canónicos” com base na autoridade da Igreja Católica – uma fonte suspeita, aos olhos dos reformadores.

Mas mesmo partindo do princípio de que a Bíblia protestante é definitiva, qual dos reformadores devemos seguir? Tal como Devin Rose, Brad Gregory deparou-se com inúmeras discussões entre os principais reformadores, precisamente na altura em que procuravam lançar as fundações da restauração do Cristianismo:

Lutero e Melanchthon discordaram de Zwingli e dos seus aliados sobre a natureza da presença de Cristo na Ceia do Senhor... Perante o testemunho de Zwingli: “Tenho por certo que Deus me ensina, porque o experimentei”, Lutero contrapõe: “Tenham atenção a Zwingly e evitem os seus livros como se fossem o veneno infernal de Satanás...”. Muitos cristãos anti-romanos discordaram suficientemente de Lutero, Zwingly, Bucer, João Calvino e todos os outros líderes luteranos ou da reforma protestante sobre verdade de Deus ao ponto de se recusarem a prestar culto ou estar em comunhão com eles.

Mas é preciso interpretar correctamente a Bíblia. Gregory demonstra como os princípios tradicionais de interpretação foram descartados à medida que os vários reformadores, certos da sua inspiração, deixaram de se considerar obrigados a respeitar a tradição:

Os reformadores rejeitaram as interpretações e afirmações patrísticas sobre a Escritura, tal como rejeitaram a exegese medieval, os decretos papais, o direito canónico, os decretos conciliares e as práticas eclesiais em tudo quanto contradizia as suas próprias interpretações da Bíblia... Discordaram sobre o significado e a prioridade dos textos bíblicos e da relação entre esses textos e as doutrinas sobre os sacramentos, culto, graça, Igreja e por aí fora. Discordaram sobre os princípios interpretativas que deviam orientar a compreensão das Escrituras, como por exemplo a relação entre o Antigo e o Novo Testamento, ou a permissibilidade de práticas religiosas que não tinham sido explicitamente proibidas ou sancionadas na Bíblia.

Sem surpresas, a disseminação de diferentes interpretações por denominações protestantes ao longo dos séculos tem perturbado muitos dos nossos contemporâneos que procuram a mais plena expressão da verdade cristã. Devin Rose comenta:

O espectro protestante cobre agora uma grande variedade de crenças contraditórias: baptismo infantil contra baptismo de crentes, a presença, de alguma forma ou apenas simbólica, de Cristo na Eucaristia, a indissolubilidade do casamento ou a aceitação do divórcio, a condenação do aborto enquanto homicídio ou a permissibilidade do aborto, a ordenação de mulheres ou só de homens, a trindade enquanto Deus em três Pessoas ou enquanto um Deus com três propósitos. Há diferenças sobre a predestinação e o livre arbítrio, sobre se é possível perder-se a salvação, sobre a validade do “casamento” homossexual, e por aí fora... O casamento já foi, em tempos, considerado uma união indissolúvel por todos os cristãos mas, tal como a contracepção, a esterilização e o aborto, a maioria das comunidades protestantes já inverteu os seus ensinamentos sobre a impossibilidade do divórcio e recasamento, permitindo agora aos seus membros que se casem, desde que tenham obtido primeiro do seu anterior esposo um divórcio civil.

Os pais do Protestantismo
Perante uma disparidade tal de interpretações vem-nos à mente 1 Coríntios 14,8: “E, se a trombeta só emitir sons confusos, quem é que se prepara para a guerra?” A World Christian Encyclopedia afirma que existem mais de 33 mil denominações cristãs. A escolha difícil, enfrentada muitas vezes por protestantes sérios, é entre a Igreja e “igrejas”.

De acordo com Devin Rose, a consequência última e inevitável de se basear a religião num livro, mesmo um livro sagrado e inspirado como a Bíblia, foi uma variedade de interpretações contraditórias, sem que exista qualquer critério fiável de escolha para o crente. Rose foi coerente com a sua própria proposição, “se o Protestantismo é verdade”, e encontrou... a Igreja.

Brad Gregory vai ainda mais longe, traçando a origem da hegemonia actual do secularismo às discórdias incessantes e intratáveis entre protestantes e entre católicos e protestantes. Sem outra solução para harmonizar a dissensão, a Holanda foi pioneira na condução do mundo Ocidental à “liberdade de religião”. Os juízes holandeses:

Romperam com mais de um milénio de Cristianismo... ao transformar a fé “numa questão privada de preferência individual”. A liberdade de  religião protegeu a sociedade da religião e, por isso, secularizou a sociedade e a religião...

No meio desta secularização, “os cristãos americanos estão divididos em relação a todas as questões polémicas políticas e morais, do divórcio ao aborto, ao sistema de saúde e à ecologia.”

Como lidamos, então,com as “Questões de Vida” tão prementes? Gregory explica que nos voltámos para as ciências empíricas e o cientismo materialista como fonte de verdade por defeito. Depositamos a nossa confiança em ciências como a física que, depois de oitenta anos, ainda não faz a menor ideia como conciliar a teoria quântica com a teoria da relatividade; ou ciências como a psicologia evolucionária, que nos apresenta uma longa lista de comportamentos contraditórios que alegadamente têm a sua origem na evolução biológica: o Ser Humano enquanto ferozmente competitivo ou naturalmente cooperativo; essencialmente monogâmico ou polígamo; genocida ou pacífico; que cuida dos pobres ou os ignora.

Não obstante aderimos, religiosamente, à ciência como juiz supremo. Deus nos valha.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination(2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em www.thecatholicthing.com no Domingo, 23 de Dezembro de 2012)

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