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Thursday, 1 February 2024

A Consagração da Mentira

Uma das características da mentalidade que começa a ser dominante no nosso tempo é a sua difícil relação com a verdade. Não falo aqui da divulgação de notícias falsas, pois isso, infelizmente, não é um exclusivo de nenhum grupo social, e não há falta de casos de “fake news” em meios católicos. Falo, sim, da dificuldade em aceitar que existem factos cuja realidade não depende dos nossos sentimentos ou estado de espírito, que há verdades que estão acima da “minha verdade”. Neste contexto, qualquer sugestão de que existem verdades imutáveis torna-se uma fonte insuportável de opressão, que deve ser silenciada.

Decorre actualmente na Bélgica um delicado processo jurídico que pode vir a ter repercussões para toda a Igreja Católica na União Europeia. Tornou-se moda, ao longo dos últimos anos, a ideia de pedir para ser “desbaptizado”. Isto é, pessoas que mais tarde abandonam a fé ficam de tal forma ofendidas pelo facto de terem sido baptizadas no passado, que pedem que os seus nomes sejam retirados dos assentos de baptismo das paróquias.

A Igreja, obviamente, tem recusado fazê-lo. Nalguns casos, como na Bélgica, perante estes pedidos a Igreja insere uma nota, na margem do livro de registos, manifestando que a pessoa expressou essa vontade, mas o próprio registo não é apagado.

Contudo, pelo menos uma pessoa considerou que isso não é suficiente e queixou-se à Autoridade de Protecção de Dados, que mandou a Igreja apagar o registo. A Igreja recorreu e o caso está agora em tribunal. Uma vez que outros tribunais nacionais emitiram sentenças a favor da Igreja nestes casos, se o tribunal belga se puser do lado da Autoridade de Protecção de Dados o caso pode ter de ser resolvido ao nível do Tribunal Europeu e, nesse caso, terá repercussões para toda a União Europeia.

O problema aqui não está no facto de haver uma pessoa que se quer desvincular totalmente da Igreja, e que naturalmente se está a marimbar para a doutrina cristã de que o baptismo deixa uma marca indelével na alma, pelo que o “desbaptismo” não é possível. O problema está, antes, no facto de a pessoa pensar que a sua vontade e o seu estado de espírito actual podem fazer desaparecer um facto histórico. E o facto histórico é que aquela pessoa foi baptizada na Igreja X, pelo ministro Y, no dia Z de um determinado ano. Pensar que a Igreja deve ser obrigada a apagar esse momento da história, ou que pode sequer fazê-lo, com um golpe de caneta correctora, é viver no reino do pensamento mágico.

É o mesmo paradigma que leva pessoas a imaginar não só que é possível “mudar de sexo”, como se a biologia fosse um factor irrelevante na nossa composição física, mas que toda a sociedade deve ser obrigada a alinhar nessa fantasia, sob pena de perseguição jurídica.

Aliás, esta é uma realidade que já existe na legislação portuguesa, segundo a qual uma pessoa que fez uma “mudança de sexo” pode exigir que a sua certidão de nascimento seja alterada para o sexo da sua preferência. Também aqui há a consagração de uma mentira. A certidão de nascimento não existe para consolo emocional de ninguém, mas sim como prova de um facto histórico. Naquele dia, o médico José das Couves assinou um documento em como fez o parto a um nado vivo do sexo masculino. Estar a alterar os termos 20 anos mais tarde, com base numa intervenção cirúrgica, faz do José das Couves um mentiroso e transforma um registo histórico numa arma de afirmação de uma vontade pessoal, desligada dos factos.

Uma questão de liberdade religiosa?

Para além deste atentado claro à verdade e aos factos, que por si já é preocupante, levanta-se aqui um problema de liberdade religiosa, tanto no caso dos assentos de baptismo, como no caso da mudança das certidões de nascimento.

Por um lado, a Igreja Católica não aceita o “rebaptismo”, por acreditar precisamente que um baptismo não pode ser “desfeito”. Caso a Igreja seja obrigada a extirpar dos seus registos o baptismo de um fiel, pode acontecer essa pessoa mais tarde pedir para ser baptizada de novo, sem explicar o seu passado, e a Igreja não ter forma de saber que o baptismo já aconteceu. Dir-me-ão que não é a coisa mais grave do mundo, e que até há casos de pessoas que são baptizadas à condição, por não se saber se já foram baptizadas em criança mas não houve registo, ou o registo se perdeu, ou foram baptizados de uma forma que poderá não ter sido válida. Mas o ponto não é esse, o ponto é que os registos de baptismo são propriedade da Igreja, usados para questões de organização e disciplina interna, e como tal não vejo como pode ser o Estado a obrigar à sua alteração.

Mas o caso apresenta-se como mais grave na questão da mudança da certidão de nascimento. Caso uma mulher, que foi sujeita a operação de “mudança de sexo” e agora apresenta-se como homem, se aproxima da Igreja e pede para ser baptizada, mesmo que existam dúvidas sobre a sua verdadeira identidade, não há documento que a Igreja possa pedir para a comprovar. E se, mais grave, essa mulher mais tarde pedir para ser admitida ao seminário e eventualmente ordenada, e caso ninguém desconfie, pode dar-se o caso de a Igreja “ordenar” uma mulher, em clara contradição com a sua doutrina, sem ter forma de saber a verdade. Claro que muitos acham isto irrelevante, por acharem absurdo e antiquado a proibição de ordenação de mulheres, mas é precisamente porque há gente que assim pensa que a Igreja tem de estar protegida pela liberdade religiosa, para não ser obrigada a agir contra as suas convicções.

E isto para não falar em eventuais problemas de saúde. Há doenças que são mais preponderantes entre mulheres do que entre homens. Se uma pessoa que nasceu mulher, mas agora se apresenta como homem e tem documentos que indicam ser homem e ter nascido homem, aparece no hospital com uma série de sintomas, os médicos poderão descartar certos cenários por pensar estarem dianto de um homem, e assim falhar o diagnóstico. Isto não é apenas um problema individual, é um problema de saúde pública, ou pode sê-lo. É por isso que quando o Sistema Nacional de Saúde pede às pessoas para preencher o seu sexo, não está interessado em saber o que se passa nas suas cabeças, nem as suas deambulações mentais sobre a construção social dos géneros. É uma questão de cromossomas, e de bom-senso.

Viver na verdade

O Cristianismo professa a verdade. É certo que para os cristãos a verdade vai para além de uma questão factual, pois a verdade para os cristãos não é um acontecimento histórico, ou uma conclusão lógica, mas uma pessoa. Mas também é verdade que o por Cristo se identificar como o Caminho, a Verdade e a Vida, e por ter dito que a Verdade nos libertará, o Cristianismo defende o valor e a importância de se professar a verdade, mesmo quando essa verdade é desconfortável (e quantas verdades desconfortáveis temos tido de enfrentar nas últimas décadas!).

E é por isso, por acreditar que não se deve compactuar com a mentira, e que a verdade é em si um valor, que o Cristianismo rejeita este novo-pensamento, e é também por isso que o pensamento moderno rejeita o Cristianismo e defende, apesar de todos os apelos à tolerância por todos os outros tipos de pensamento e ideias, a sua eliminação e subjugação.

Contudo, a verdade é um bicho teimoso. Recusa-se a simplesmente desaparecer, e mais cedo ou mais tarde ressuscita e manifesta-se mais forte que nunca. Às vezes demora anos. Às vezes demora três dias.  

Wednesday, 31 August 2022

Rejeitar uma Cultura de Mentiras

Randall Smith

Foi um momento muito revelador. Estava com um amigo, a passear por uma universidade importante. Ele trabalhava no gabinete responsável por gerir os recursos dos diferentes departamentos da instituição. Então eu comentei: “Sabes, tenho estado a pensar. Sei que existem questões morais complexas, como por exemplo o que fazer se temos cinco pessoas, mas o bote salva-vidas só tem lugar para quatro. Mas começo a suspeitar de que a maioria das questões morais do nosso dia-a-dia resolviam-se com a simples aplicação dos dez mandamentos, e que só parecem complicadas porque nos convencemos que nesta ocasião, em particular, seria melhor roubar, ou mentir, ou o que for”.

“Mentir!”, exclamou o meu amigo. “Se ao menos pudéssemos fazer com que as pessoas parassem de mentir. No meu departamento nem conseguimos perceber que recursos temos, porque toda a gente está sempre a mentir, e por isso não podemos tomar decisões fiáveis sobre aquilo de que precisamos”.

Explicou que, por exemplo, uma vez que sabiam que todos os outros departamentos exageravam os seus orçamentos em 20%, ele começou a aplicar cortes em todos os orçamentos nessa mesma medida, presumindo que estavam a mentir. Alguns departamentos começaram a perceber isso, e então passaram a exagerar os seus orçamentos em 25%. O resultado é que agora o departamento dele cortava todos os orçamentos em 25%.

Chega-se a um ponto em que este jogo do gato e do rato se torna tão complexo que já ninguém sabe muito bem a que alvo deve estar a apontar, nem se ainda tem setas na aljava.

Todos nós vivemos situações em que não temos acesso a todos os dados necessários para tomar as decisões que precisam de ser tomadas. Por isso temos de poder confiar na veracidade da informação que nos é dada por outros. Uma atitude seria a clássica de Pôncio Pilatos: “O que é a verdade?”. Existe a tua verdade e a minha verdade. Ou, como dizem alguns pragmáticos, a verdade é algo que serve um fim pragmático.

Mas será que a experiência recente não revela os perigos de permitir que a “verdade” seja subserviente aos fins pragmáticos de alguém?

Mark Twain escreveu que “existem três tipos de mentira. Mentiras, Malditas Mentiras, e Estatísticas”. No nosso tempo sabemos que existem Mentiras, Malditas Mentiras, e Notícias. Veja-se o exemplo recente de Elaine Riddick, uma activista negra pró-vida que foi violada aos 13 anos. Depois do parto foi esterilizada pelo seu médico, contra a sua vontade. Desde então tem lutado pelos direitos das mulheres e dos nascituros. 

Porém, quando o Washington Post escreveu sobre ela, o título que escolheu para o artigo foi: “Sobreviveu a uma Esterilização Forçada. Teme que mais possam ocorrer pós-Roe”. Dito assim, dava a entender que ela era contra a decisão de Dobbs, que reverteu o Roe v. Wade. Mas isso não podia estar mais longe da verdade.

Noutro artigo, no The Pillar, ela afirma: “O Washington Post retratou-me falsamente como sendo pró-escolha, apesar de saber claramente, e de eu ter dito na entrevista, que sou contra o aborto, e pró-vida.” No artigo do Post foi citada a dizer “acredito que uma mulher deve ter controlo sobre o seu corpo”. Mas, de facto, nessa passagem Riddick estava a falar de esterilização forçada, e não de aborto. Que mais podemos chamar a este tipo de “notícia” do que uma mentira total, clara e intencional?

O que é a verdade?
Os grandes órgãos de comunicação têm tratado a verdade com tamanha fluidez, durante tanto tempo, que agora enfrentamos duas situações terríveis.

A primeira é que as pessoas só acreditam nas notícias que se adequam aos seus próprios preconceitos ou narrativas preconcebidas.

A segunda é que algumas pessoas não acreditam nas notícias de todo, mesmo quando elas são verdadeiras.

Porque é que algumas pessoas acreditaram no site InfoWars de Alex Jones, quando este afirmou que o assassinato de vinte crianças e seis adultos na Escola Primária de Sandy Hook era uma farsa, ao ponto de começarem a assediar os pais das crianças assassinadas?

Porque é que algumas pessoas acreditam ainda que o Holocausto não aconteceu? Porque as pessoas acreditam no que querem acreditar, e rejeitam até as provas esmagadoras em contrário. Duzentos livros de história dizem uma coisa? Temos de esperar para ver. Um artigo na internet diz o contrário? Aha! Provas!

A obsessão dos media com a reafirmação das suas próprias narrativas, liberais ou conservadoras, seja de esquerda ou de direita, torna-se um obstáculo à obtenção da informação de que precisam mesmo para tomar decisões prudentes. Grandes empresas de comunicação, sites e pivots de talk-shows estão a ganhar milhares de milhões, aproveitando-se do medo e da revolta.

Como católicos, somos chamados a mais do que isto.

Mas não aceitem apenas a minha palavra. O que acham que Deus nos está a pedir quando diz: “O paciente dá prova de bom senso; quem se arrebata rapidamente manifesta sua loucura” (Pv 14,29) e “Portanto, como eleitos de Deus, santos e queridos, revesti-vos de entranhada misericórdia, de bondade, humildade, doçura, paciência”? (Col 3,12).

Mas devemos ser pacientes com o mal em nosso redor? Bom, Deus diz o seguinte: “Em silêncio, abandona-te ao Senhor, põe tua esperança nele. Não invejes o que prospera em suas empresas, e leva a bom termo seus maus desígnios” (Salmo 37,7). E, por fim, há isto: “Por isso, renunciai à mentira. Fale cada um a seu próximo a verdade, pois somos membros uns dos outros” (Ef 4,25).

Não vejo que possamos levar tudo isto a sério e continuarmos a deixar-nos consumir pelas obsessões dos média, redes sociais e as hordas do Twitter. Mais da mesma informação, das mesmas fontes tendenciosas, não nos vai dar aquilo de que precisamos. Aquilo de que precisamos é de mentes calmas à procura de toda a verdade, e não de buscas revoltadas por justificações para a nossa própria revolta moralista.

Estaríamos mais bem servidos se vivêssemos vidas que proclamam, não que “a verdade é o que a minha fonte de notícias diz que é”, mas sim “a verdade é a submissão humilde e paciente da mente à realidade”.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 24 de Agosto de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 21 September 2016

Ideologia: O Coração da Matéria

Anthony Esolen
Tenho estado a pensar ultimamente que se a Democracia é a melhor forma de Governo alguma vez inventado, então porque é que na sua forma actual consegue fazer sobressair o pior que há em nós? Em teoria não devia ser assim. Teoricamente, nesta época eleitoral, devíamos estar envolvidos num debate nacional sobre as dificuldades que enfrentamos. O casamento está em crise e cada vez mais crianças crescem sem uma figura paternal. Que fizemos nós, não obstante as melhores intenções, para infligir sobre os mais vulneráveis tamanho sofrimento?

Como podemos arrepiar caminho? Os salários dos homens da classe operária mantêm-se estagnados há quarenta anos. O que fizemos nós, não obstante as melhores intenções, para os colocar sob tanta pressão? Porque seria errado encolher os ombros e dizer que a sua forma de vida é uma coisa do passado?

Porque é que formamos todos os anos milhões de miúdos no ensino secundário que não sabem nada sobre a herança literária, filosófica e religiosa e artística do ocidente? Como é que acabamos com a nossa dependência de petróleo estrangeiro, mantendo o nosso compromisso de limpar a água e o ar?

Um profissional da Irlanda, casado, pode esperar dez anos por autorização para imigrar para os Estados Unidos, até desistir – como aconteceu com o irmão do meu consultor financeiro. Mas milhões de pessoas estão cá ilegalmente. O que podemos fazer nestes casos que seja de acordo com a lei, com a equidade e a prudência mas também a misericórdia?

O Médio Oriente está a fritar no seu próprio petróleo e na sua encruzilhada de alianças, traições e ódios, enquanto o ressentimento islâmico para com os bem-sucedidos israelitas e o domínio cultural do Ocidente infecta os corações de jovens sedentos de guerra. O que é que devemos, ou podemos, fazer?

Recusamo-nos a ter estas discussões. A televisão tem alguma culpa, mas não é a única. Creio que o vazio que se encontra no local onde devia estar o coração do assunto tem um nome: ideologia.

A ideologia é um sucedâneo da religião. Quando deixamos de estar abertos ao divino é ela que corre a preencher o vazio. Um dos mitos do Iluminismo é de que a “religião” é tão violenta que deve ser mantida bem longe da política. Esse mito penetrou o cérebro de americanos inteligentes, como se constituísse prova contra uma das coisas mais evidentes da história, que nos mostra que, com a excepção notável do Islão, quase todas as guerras que os homens travaram não tiveram nada a ver com religião: Os homens lutam por terra, por glória, riqueza, medo, ambição, vingança, aventura e sede de sangue.

O perigo actual não é de que a religião informe a nossa política – é precisamente isso que a religião devia fazer, porque as nossas intuições sobre o divino devem dirigir o nosso tratamento do humano. Estou a falar aqui em traços gerais. O perigo agora é de que a religião seja obrigada a procurar refúgio nas catacumbas, enquanto a política, com os seus credos ideológicos, assume as prerrogativas da religião. É isso, e não a religião, que tem tornado os últimos dois séculos tão sangrentos.

"Mártir nas catacumbas"
A doença é fácil de diagnosticar e, salvo algum milagre, poderá ser impossível de tratar. Os sinais são estes: Os critérios de evidência são esquecidos – o ideólogo “sabe” aquilo que é impossível saber, como o estado da mente do Presidente Bush quando concluiu que o Iraque possuía armas perigosas ou os elementos necessários para as fazer. O ideólogo atribui aos actos dos seus opositores as piores motivações possíveis, dizendo por exemplo que o Presidente Obama propôs o seu sistema de saúde sabendo perfeitamente que ia falhar.

O ideólogo diz que os acidentes são na verdade devidos a astúcia maquiavélica e que os erros de juízo se devem à estupidez completa, sem perceber que os dois atributos se anulam mutuamente. O ideólogo não é aquele que acredita que tem razão, é sim o homem que já não consegue imaginar que as outras pessoas podem não pensar como ele sem estarem embrenhados em maldade. Não pára para pensar que ele próprio já pensou como eles.

O ideólogo é o preconceituoso perfeito, que não consegue compreender, imaginar ou apreciar o universo moral do seu opositor, mas cujo próprio universo é unidimensional, como uma caricatura.

O ideólogo está isento de pecado. Na medida em que possui as opiniões “certas”, tem rédea livre para fazer as coisas mais vergonhosas aos outros. É um difamador, um cobarde, um bully. Sente-se justo enquanto faz tudo para que o seu opositor seja despedido. Não perdoa, porque não sente que precisa de ser perdoado. Para ele, o cumprimento de todos os ditames ideológicos corresponde à graça salvífica de Deus.

Até aqui tenho-me estado a referir-me ao ideólogo como masculino, mas o feminismo também tornou as mulheres particularmente vulneráveis a um mal que historicamente afligia muito mais os homens. Por mais difícil que seja para um homem conversar com outro homem com o qual está em desacordo, como uma mulher é impossível porque o feminismo embrenha-se de tal forma no seu sentido de auto-estima, que em todo o caso nunca é muito elevado para quem não coloca Deus e família no centro da sua existência, por mais que se apresente altivamente ao mundo.

A grande maioria dos esforços de limitar a liberdade de expressão e de associação nas nossas universidades vem de ideólogas femininas, que de tão sôfregas não param para pensar que aquilo que estão a demonstrar verdadeiramente é que não deviam estar nas universidades.

A ideologia é impaciente, maldosa, invejosa, vaidosa; arrogante, egoísta, irascível; acredita no pior, regozija na iniquidade; espuma contra a verdade, não tolera nada; impaciente, não tem fé nem esperança verdadeira em Deus.

Quando o ideólogo era criança, acolhia o mundo com o deslumbramento de uma criança. Mas agora que envelheceu na ideologia, pôs de lado as coisas de criança. Então via a verdade de forma obscura, como que através de um vidro, mas agora vive na luz ofuscante e crua da ideologia, e nessa luz cada face, seja humana seja divina, é obliterada. Por isso para o ideólogo restam apenas estas três coisas: esperança no futuro, ambição desmedida e ódio. E a mais característica destas é o ódio.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. 

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 17 de Setembro de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 19 March 2014

Multiculturalismo

James V. Schall
A noção moderna de que todas as culturas e nações podem, e devem, viver juntas em harmonia requer uma destas duas proposições:
a) uma visão comum sobre as bases da virtude e da verdade ou,
b) a eliminação de qualquer diferença entre bem e mal, verdade e falsidade.

O “multiculturalismo”, em si uma construção mental, é o que acontece quando a alternativa b é aceite, não como “verdadeira”, mas como “prática”, com a qual se pode “trabalhar”.

As culturas, porém, não são filosófica e moralmente neutras. Dentro de cada uma podem-se encontrar certas configurações de hábitos, leis e costumes bons ou maus. Em épocas anteriores, apesar de ter havido migrações massivas, era difícil passar de um país para outro. Cada cultura determinava as normas segundo as quais tencionava viver.

Quando grandes números de pessoas podem emigrar, legal ou ilegalmente, para outros países, trazem consigo práticas culturais. As pessoas emigram para alcançar os seus “direitos”, aquilo que lhes é “devido”. Ao ir para outra cultura, uma vez que todas são iguais, ninguém pode ser obrigado a mudar os seus hábitos, língua, religião ou costumes. Toda a gente tem o “direito” a estabelecer no seu novo ambiente, o sistema que abandonou.

A visão contrária, assimilacionista, contudo, defende que quando alguém parte para outro país, deve tornar-se membro da nova sociedade, aprender a língua, as maneiras e os costumes. A razão pela qual o emigrante escolheu este novo país ou cultura é porque pensa que ela é melhor que a que abandonou. Esta visão parte do princípio que alguns regimes são melhores que outros. O propósito dos estados e das nações é de providenciar um lugar onde cada um pode viver a sua “verdade”, independentemente de como outros possam viver. Esta visão implica o poder de proteger a sua própria política.

Há quem defenda que todos os problemas do mundo são problemas locais. Se há um problema de tirania e de pobreza num país, ou numa área, então isso é da responsabilidade de todos. Todos os problemas são, desse ponto de vista, internacionais. Esta posição implica que de facto apenas existe um Estado mundial no qual todos os cidadãos têm “direitos” idênticos. Impostos, exércitos, polícias, leis e costumes devem adequar-se a uma ideia comum de cultura. Os verdadeiros inimigos são aqueles que defendem que a verdade, seja pela razão ou pela revelação, é possível. A paz apenas chegará ao mundo quando estas ideias forem eliminadas, a “verdade” oficial é que de que não existe verdade.

Daí que tanto os governos nacionais e mundiais devem garantir esses “direitos” estabelecidos. Basicamente, temos de nos livrar de todas as instituições e ideias que defendem que existe uma verdade transcendente. Temos de eliminar, sistematicamente, da ordem pública, e em nome dos “direitos”, todas as afirmações que radicam na ideia de uma “natureza” humana universal. Ideias como de que a família é uma instituição “natural”, composta por um homem, uma mulher e crianças; de que a distinção dos sexos significa algo, que o aborto está errado, e que não devemos reconfigurar o homem à nossa vontade devem ser declaradas “anti-humanas” e proscritas.
 
"Que é a verdade?"
 “O homem contemporâneo não pode ser definido pela ausência de referências morais”, escreve Chantal Delsol em “Icarus Fallen”:

“Mas pela rejeição do Mal e uma apologética do Bem que são consideradas evidentes e desligadas de qualquer ideia de uma verdade objectiva que as legitime. Não seria correcto, porém, ver nesta atitude uma incapacidade da mente descobrir as suas fundações. Pelo contrário, esta atitude significa uma recusa a procurar sequer estas fundações, por medo de as descobrir. O homem contemporâneo postula não um vazio de verdade, mas o perigo da verdade.”

E qual é o “perigo” da verdade? É de que a verdade existe e serve de medida para as nossas acções e pensamentos.

Neste sentido, todo o projecto multicultural de permitir tudo, com o Estado a servir de garante deste “direito” a tudo, atinge a incoerência. O único tipo de multiculturalismo que é possível é aquele que reconhece a ordem transcendente. Um multiculturalismo que a nega acaba por estabelecer e aplicar uma ordem mundial em que apenas aquilo que é objectivamente verdade é proibido. O “medo” é precisamente de que a verdade existe. A recusa em procurar esta verdade recorda-nos a cena em Górgias, de Platão, em que o político se recusa a ouvir um argumento, para não ser obrigado a admitir a sua lógica.

O “mal” que o multiculturalismo recusa é o “mal” que afirma a existência da verdade. A verdade não é “vazia”, a sua abundância é rejeitada. Existem maneiras de viver correctas, que se aplicam a todas as culturas. Esta afirmação não implica a existência de um só estado ou de uma só língua, pelo contrário. Mas implica, isso sim, uma distinção objectiva entre o bem e o mal, a verdade e a falsidade, em todas as culturas. Esta é a verdade que está na raiz do espírito transcendente que se encontrava inicialmente na filosofia grega, no direito romano e na revelação cristã.


James V. Schall, S.J., é professor na Universidade de Georgetown e um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seu mais recente livro chama-se The Mind That Is Catholic.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 18 de Março de 2014 em The Catholic Thing)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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