Saturday, 31 December 2022

Morreu o Papa que surpreendeu o mundo

Este texto foi originalmente escrito como parte de um pacote a publicar na morte de Bento XVI, pela Renascença. De todos os que deixei, era o que sentia ser mais "meu". Poderá, ao longo dos próximos dias, ser publicado numa versão alterada. Publico-a aqui com autorização da Renascença, a quem agradeço.

Durante séculos os cristãos perseguiram e mataram judeus, culpando-os pela morte de Cristo. Uma frase em particular da Bíblia parecia justificar esta tese da culpa colectiva, o grito dos judeus quando Pôncio Pilates tenta livrar Jesus da crucificação: “Que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos”.

O Concílio Vaticano II foi enfático ao negar esta visão das coisas, mas a passagem bíblica permanece e continuava a ser usada por alguns para criar problemas e minar o diálogo entre católicos e o mundo hebraico.

Entra em cena Bento XVI, com esta passagem do II volume da sua trilogia sobre “Jesus de Nazaré”: “Mesmo que ‘todo o povo’, segundo Mateus, tivesse dito ‘que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos’, o cristão há de recordar que o sangue de Jesus fala uma linguagem diferente da do sangue de Abel: não pede vingança nem punição, mas é reconciliação.”

Bento XVI era, sobretudo, isto. Homem de uma inteligência brilhante e de grande perspicácia teológica, com uma fé apaixonada mas firmemente ancorada na razão. Os seus discursos e homilias tinham sempre uma grande carga de erudição mas conseguiam ainda assim manter uma simplicidade que os deixava abertos a todos, mesmo os que não se moviam com naturalidade nos meios da teologia e da filosofia.

Ao mesmo tempo, porem, o Papa alemão não era um homem mediático. Foi-se habituando, mas nunca se sentiu particularmente confortável com a atenção dos meios de comunicação social. O seu sorriso não era espontâneo, as suas intervenções não se prestavam facilmente à cultura do “soundbite” e a forma como defendia a cultura e civilização cristã, sempre com base na razão e na história e não em sentimentalismos ou saudosismos, valeram-lhe a inimizade dos media mais ideológicos.

Este último aspecto pode ser comprovado pela constante discrepância entre a cobertura mediática dos eventos do Papa e a realidade. Cada viagem de Bento XVI era precedida de augúrios de fracasso. A missa campal iria estar vazia, a população local sentia-se indiferente, os manifestantes seriam mais que os fiéis. Mas no fim, surpresa geral, dava-se o braço a torcer, porque o povo acorria a este Papa, enchia estádios e descampados e cantava o seu nome deixando-o com aquele sorriso envergonhado que o caracterizava. Mesmo os intelectuais, tanto em França como em Portugal, como os políticos, no Reino Unido e na Alemanha, aplaudiram-no longamente e com o respeito de quem reconhece que está diante de uma mente brilhante, de um professor.

“Este poder de ensinamento assusta muitos homens dentro e fora da Igreja. Perguntam-se se ela não ameaça a liberdade de consciência, se não é uma presunção oposta à liberdade de pensamento, mas não é assim. O poder conferido por Cristo a Pedro e aos seus sucessores é, em sentido absoluto, um mandato para servir. O poder de ensinar na Igreja implica um compromisso ao serviço da obediência à fé”, disse, no dia em que tomou posse da Basílica de São João de Latrão.

As viagens eram menos frequentes que as de João Paulo II, mas ainda assim significativas tendo em conta que Bento XVI tinha 78 quando foi eleito. Houve várias de grande importância, a primeira de todas enquanto Papa, à Jornada Mundial da Juventude em Colónia, em 2005; a viagem ao Reino Unido, primeira visita de Estado às ilhas britânicas de um Papa; a Jornada Mundial da Juventude em Madrid, onde debaixo de uma ferocíssima tempestade o Papa, tocado pela insistência de dois milhões de jovens que não o abandonavam, manteve-se firme dizendo aos presentes: “A vossa força é maior que a chuva”, enquanto os seus colaboradores o tentavam proteger com guarda-chuvas brancos; a ida a Cuba, uma das últimas, onde terá concluído que lhe começavam a faltar as forças para prosseguir com a missão que lhe tinha sido encarregada.

Mas a viagem a Portugal em 2010 distingue-se de todas por uma razão muito particular. O Papa chegou visivelmente cansado, alguns diriam até desanimado. Como sempre, previa-se o pior. Entre os católicos discutia-se a possibilidade de esperar o cortejo no caminho entre o aeroporto e Belém, muitos diziam que se devia abandonar a ideia porque a fraca participação popular ficaria mal na televisão. Mas em todo o percurso nunca faltou gente, bandeiras, estandartes de apoio para mostrar ao Papa que se devia sentir em casa entre os portugueses.

Depois de uma missa no Terreiro do Paço, perante centenas de milhares de pessoas, o Papa foi pernoitar à nunciatura. Os jovens, que tinham estado em grande destaque na missa campal, não o abandonaram e junto ao edifício cantaram e chamaram por ele até que veio à janela e, com um sorriso genuíno na cara, agradeceu a sua presença mas pediu que o deixassem dormir.

Foi em Portugal que Bento XVI beijou pela primeira vez um bebé em público e os vaticanistas que o acompanhavam por todo o mundo não hesitaram em dizer que depois de três dias cansativos viam partir um homem que parecia refrescado. Falar-se-ia então de um pontificado pré e pós visita a Portugal.

A injecção de energia que terá recebido era bem precisa. Na altura já havia rumores de que nem tudo ia bem no Vaticano, nomeadamente na cúria. Entre mal-estar e guerra civil, não faltavam adjectivos, mas poucos esperariam algo da dimensão do vatileaks, um escândalo que arrastou a reputação da Santa Sé pela lama e que abalou muito o Papa pelo envolvimento pessoal de um dos seus colaboradores mais próximos, o seu mordomo.

Se o vatileaks foi decisivo na sua decisão de resignar é especulação, mas contribuiu certamente para a perda da sua idoneidade física e espiritual, para usar os seus próprios termos.

Em retrospectiva, a escolha não deveria ter sido tão surpreendente assim. O Papa já tinha dito, no livro-entrevista conduzido por Peter Seewald, que aceitava a ideia de resignar se sentisse incapacidade de desempenhar a sua função. Foi recuperada também a fotografia que na altura tinha passado bastante despercebida, de Bento XVI a deixar o seu pálio, símbolo de autoridade, em cima do túmulo do Papa Celestino V, um dos poucos na história da Igreja a resignar por sentir que não era capaz.

Mas quando o Papa anunciou a sua decisão, num consistório quase insignificante e em latim, o mundo parou. Bento XVI era visto por muitos como o guardião inflexível da doutrina e da tradição e a tradição dizia que um Papa só abandona o seu posto quando é chamado pelo Criador. Afinal de contas, este era o mesmo homem que tinha dito: “O Papa não é um soberano absoluto cujo pensar e querer são leis. Pelo contrário: o ministério do Papa é a garantia da obediência a Cristo e à sua palavra. Ele não deve proclamar as próprias ideias, mas vincular-se constantemente a si e à Igreja à obediência da palavra de Deus perante todas as tentativas de adaptação, de adulteração e todo o tipo de oportunismo”.

Não deixa de ser paradoxal que um dos homens da Igreja mais inteligentes e brilhantes dos últimos séculos seja recordado para sempre por aquele que foi um dos seus últimos gestos, o de desprendimento do poder. É uma memória que não lhe faz justiça, mas talvez isso não desagradasse a Joseph Ratzinger, que nunca se mostrou muito confortável debaixo dos holofotes e que preferiria, certamente, deixar os seus livros e textos falar à história por ele.

Morreu o Papa Bento XVI

Morreu hoje o Papa Bento XVI. 

Neste espaço irei colocando links para os principais textos, reportagens e notícias que surgirem sobre ele. 

Que o Senhor lhe dê eterno descanso. Obrigado por tudo nosso querido Papa, que foste apresentado como um feroz Rottweiler, mas revelaste-te um afável Pastor Alemão.

O funeral de Bento XVI já está marcado para o dia 5 de Janeiro. O seu testamento espiritual foi divulgado pela Santa Sé e pode ser lido aqui na íntegra. 












Wednesday, 28 December 2022

Rezemos por Bento XVI

O Papa Francisco pede-nos que rezemos pelo Papa Bento XVI, que está gravemente doente. O que significa um pedido destes para um homem frágil, de 95 anos? Rezamos pela sua cura, porque nos faz impressão que morra, ou rezamos para que morra em paz? Rezemos para que se faça a vontade de Deus e não a nossa, neste caso e sempre. É um bom princípio.

Em todo o caso, este pedido pode ser lido como um simpático aviso por parte do Vaticano de que Bento XVI está muito próximo da morte. Já haverá certamente jornalistas a marcar viagens para Roma. Da minha parte, antecipo o envio deste mail por um dia, mas prometo que, se o Papa emérito de facto morrer nos próximos dias, estarei em cima do acontecimento para vos trazer as principais notícias e os melhores textos de obituário. Para já, fiquem com este texto que eu escrevi em Fevereiro de 2013, quando ele resignou.

Olhando para a realidade internacional, mais de uma centena de clérigos e freiras foram raptados, mortos ou detidos em contexto de perseguição ao longo de 2022. São números terríveis. Podem conhecê-los melhor aqui, num texto em inglês da minha autoria, ou numa versão portuguesa.

Estão abertas as inscrições para famílias que queiram acolher jovens nas JMJ. Toda a ajuda é pouca! Não fiquem de fora.

O artigo desta semana do The Catholic Thing fala dos dons do Espírito Santo e como se desenvolvem em nós de forma gradual, quase despercebida e discreta. Assim como um bebé divino que nasce no meio do mundo, para a sua salvação.

Se vos interessam questões de justiça económica e financeira, recomendo espreitarem este evento que se vai realizar em Janeiro. Uma abordagem diferente à noção de concertação social!

Actualizei também as mais recentes declarações dos líderes religiosos sobre a Ucrânia, com interessantes textos da Igreja Ortodoxa da Ucrânia, a que está, ou estava, ligada a Moscovo, a pedir liberdade religiosa e o fim do que dizem ser um clima de perseguição movida pelas autoridades. É um tema complexo, podem ler aqui a minha análise, e os textos completos aqui.

E para quem não leu, mas tem interesse, está aqui também a minha análise da polémica envolvendo o Pe Rupnik, que tem deixado muita gente perplexa e chocada.

Os Dons do Espírito Santo

A alegria do Natal brota da dádiva que Deus faz do seu Filho à humanidade. Mas o nascimento de Cristo é apenas a primeira fase de um acto de redenção que culmina na morte, ressurreição e ascensão de Cristo ao Céu, onde está à direita do Pai, e o envio do Espírito Santo, por quem “o amor de Deus é derramado nos nossos corações” (Romanos 5,5).

A palavra “graça” vem do latim “gratia”, que significa “presente”. O maior presente de Deus para nós é o Seu Filho, e esse é o presente que nunca se esgota. No Evangelho de João, depois de Jesus ter lavado os pés dos seus discípulos, diz-lhes que deve “partir”, mas que o faz “para seu bem”. Porque se não partir, “não virá o paráclito”. Mas se Ele for, diz-nos, “enviá-lo-ei a vós” (João 16,7). Já antes Jesus tinha identificado o Paráclito como “O Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome” (João 14,26).

Se Jesus não tivesse partido, continuaríamos a procurá-lo para fazer tudo por nós – “Jesus, cura estes doentes”, “Jesus, dá de comer a estes pobres”, “Jesus, cuida de nós” – quando na verdade devemos tornar-nos membros do Corpo de Cristo. Nós somos os olhos, os ouvidos e as mãos de Cristo agora. Nós curamos os doentes, alimentamos os pobres, espalhamos a boa nova do amor de Deus, tornamo-nos instrumentos da Graça de Deus.

Tornamo-nos alter Christus, “outros Cristos”, “filhos adoptivos” do Pai. “Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus” (Romanos 8,14) “E, porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho aos vossos corações” (Gálatas 4,6).

O Cristianismo entende que a vida moral é uma participação na vida trina de Deus – a comunhão eterna de amor que existe desde toda a eternidade. E no coração daquilo a que chamamos “graça” está o dom do Espírito de uma parte desse amor trino e eterno.

Temo, porém, que por vezes pensemos na “graça” como se fosse uma varinha mágica que nos transforma de um sapo num príncipe, ou como a aranha radioactiva que transformou o Peter Parker no Spiderman – como se quando a graça se infunde em nós passássemos a rebentar de sabedoria, os nossos olhos e ouvidos irradiassem luz e a impureza do pecado deixasse de nos tocar ou tentar.

Talvez seja assim para alguns, mas talvez não seja isso que devemos esperar. Há uma longa e sábia tradição na Igreja que diz que não devemos confundir a obra do Espírito Santo com certos sentimentos ou uma experiência em particular. A Graça de Deus trabalhar frequentemente de formas que não se vêem, nem se notem, tal como o dom que foi o Seu Filho passou em larga medida despercebido e longe da vista.

E se a obra da graça nas nossas vidas for tão despercebida e discreta como o aumento do amor nos nossos corações? Os casais crescem em amor. Mas se forem ver todos os dias provavelmente não notam uma diferença muito grande. Contudo, se simplesmente se dedicarem ao bem-estar e à felicidade um do outro, um dia acordarão e verificarão que o seu amor – o amor que os levou a dedicarem-se um ao outro – cresceu.

Às vezes os pais dizem que quando olham para os seus recém-nascidos apaixonam-se logo, e que isso muda as suas vidas. E porém, a mudança de vida que se segue – de autocentrado para altruísta e atento – costuma ocorrer ao longo de semanas e anos, e tende a envolver muito menos desse sentimento “fofinho” inicial. Mas o Espírito Santo está lá o tempo todo, mudando o coração, um bocadinho de cada vez, ao longo do tempo.

Outro erro comum é imaginarmos que a graça de Deus tem sempre resultados instantâneos, como um relâmpago de Zeus. Mas há uma boa razão para muitas das parábolas de Jesus sobre o Reino envolverem a plantação de sementes, e estações para crescimento.

Há vários anos uma das minha alunas perguntou ao filósofo Alisdair MacIntyre como poderia adquirir as virtudes, uma vez que não conhecia ninguém que as possuísse. MacIntyre sugeriu que ela devia alistar-se nos fuzileiros, ou então na frota pesqueira. A chave está em trabalhar com os outros numa situação em que a nossa segurança e bem-estar dependem de eles cumprirem bem com as suas funções, e em que a sua segurança e bem-estar dependem de nós cumprirmos bem as nossas funções. É uma resposta interessante, ainda que nem sempre praticável.

Na teologia crista, porém, para além das “virtudes adquiridas” temos a tradição das “virtudes infundidas”. Quando reconhecemos que não possuímos as virtudes, podemos rezar por elas. Eu posso não ter sido criado com coragem, sabedoria ou entendimento (e não fui), mas posso rezar por eles. Isso não significa que deva esperar acordar amanhã a rebentar de coragem, sabedoria e entendimento. Nem significa que já não precise de fazer a minha parte para crescer nas virtudes da coragem, sabedoria e entendimento.

A graça não viola a natureza, aperfeiçoa-a. Deus não opera esta mudança em nós sem a nossa colaboração. A graça não é magia; é o amor que ganha raízes e cresce ao longo do tempo, para transformar aqueles que, tal como a Virgem Maria, dizem “sim”.

Quando a graça opera em nós é possível que nem o sintamos ou reparemos. Pode parecer, à primeira vista, algo muito natural, como o parto de uma criança. Mas não será essa uma das lições do Natal? Que a graça pode entrar no mundo praticamente despercebida, em lugares e de formas que podemos não esperar e dar frutos de formas que excedem as nossas maiores esperanças?

Se decidirmos dedicar-nos ao bem-estar e à felicidade uns dos outros, a Graça de Deus já está a operar em nós. Se nos dedicarmos a isso, esse amor crescerá. Só precisamos de um pouco de fé.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 27 de Dezembro de 2022)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



Monday, 26 December 2022

O caso do Padre Rupnik e a purificação do templo

O mais recente escândalo que está a abalar o mundo católico é a da acusação de assédio sexual de religiosas por parte do famoso jesuíta e artista Marko Rupnik. Podem ler tudo o que se sabe sobre este caso aqui, mas leiam também a minha reflexão em que explico que embora haja semelhanças importantes entre o abuso de menores e as relações entre adultos, há também algumas diferenças fundamentais. Se isto justifica a forma como o Vaticano lidou com este caso? Não chego tão longe. A Igreja tem avançado muito na forma de lidar com situações de abuso de menores e talvez seja altura de aplicar algumas dessas lições a outras áreas, como esta. Leiam e comentem, ou no blog ou respondendo para mim, caso tenham alguma coisa a acrescentar. Todos somos poucos para contribuir para estas reflexões.

Várias instituições católicas escreveram ao presidente Marcelo Rebelo de Sousa a pedir que ele vete a lei da eutanásia.

O ex-reitor do Santuário de Fátima critica a actual gestão daquele espaço, pedindo uma “purificação do templo”.

Nos últimos dois dias foram raptados mais dois padres na Nigéria. Uma praga sem fim naquele país.

As discussões sobre masculinidade estão na moda. Por um lado, os que insistem que qualquer característica masculina é “tóxica” e do outro os que consideram que um verdadeiro homem deve ser musculado, usar barba, fumar cachimbo e tratar a mulher com condescendência. Onde está o bom-senso? Felizmente ainda existe e o artigo desta semana do The Catholic Thing em português é um bom exemplo disso, com Stephen White a argumentar que se queremos homens que vivem a sua masculinidade de forma saudável não temos de fazer mais do que educá-los para a virtude. Leiam que vale mesmo a pena, e partilhem, sobretudo com homens e jovens pais.

O Mundial acabou, com o troféu a ir para o país do Papa e do jogador com uma tatuagem gigante de Jesus no braço. Fui acompanhando e sublinhando as dimensões religiosas do torneio no Twitter, podem ver aqui, ou aqui, caso não tenham conta no Twitter.

Esta semana, por estarmos em vésperas do Natal, não há Hospital de Campanha, mas se ainda não o fizeram ouçam o mais recente episódio, sobre como amar os mais frágeis da nossa sociedade.

Thursday, 22 December 2022

Abusos de menores e de adultos: Diferenças e semelhanças

Um caso de abusos sexuais de mulheres adultas por parte de um sacerdote está a dar muito que falar no mundo católico. Em causa está o padre Marko Rupnik, um jesuíta esloveno. Rupnik é muito conhecido no mundo católico pela sua arte, tendo desenhado mosaicos e outras obras em algumas das mais importantes igrejas do mundo, incluindo a nova Basílica da Santíssima Trindade, em Fátima.

Há várias acusações graves contra Rupnik, nomeadamente de ter criado um ambiente de abuso de poder e manipulação numa ordem de freiras da qual era assistente religioso. Mais, a dada altura o padre jesuíta terá mantido uma relação sexual com uma das religiosas desse mosteiro, tendo posteriormente absolvido a mesma em confissão. Trata-se de um crime canónico de tal gravidade que o responsável incorre na pena de excomunhão, a qual só é levantada quando o culpado revela arrependimento, o que terá acontecido.

Mais do que uma simples coleção de falhas pessoais de um padre isolado, este caso tem levantado grandes críticas em relação à forma como foi tratado pelos jesuítas, em primeiro lugar, mas também pelo Vaticano. Apesar das várias acusações que foram feitas contra ele, e de estas serem do conhecimento dos seus superiores e do Dicastério para a Doutrina da Fé, Rupnik continuou a aparecer em público, a aceitar encomendas e a executar obras de arte sacra, a apresentar um vídeo semanal de análise das leituras de cada Domingo e até a pregar uma reflexão quaresmal para a Cúria romana.

Quando as alegações se começaram a tornar públicas, a informação foi sendo libertada a conta-gotas, tanto pelos jesuítas como pelo Vaticano, o que só levantava mais questões e criava maior confusão. Eventualmente a ordem religiosa do padre Rupnik acabou por admitir os factos todos – ou pelo menos assim parece – mas não sem antes sofrer grandes danos ao nível da sua própria credibilidade e transparência.

Numa altura em que tanto se exige transparência em relação à questão dos abusos de menores, logicamente muitos questionam porque é que o mesmo não se aplica a este caso, e porque é que a própria Santa Sé, que deve dar o exemplo e que tanto tem progredido nos últimos anos neste campo, não o fez.

A resposta mais evidente é de que não estamos perante um caso de abuso de menores, mas de relações entre adultos, ainda que, por ser assistente espiritual das religiosas, não se possa falar de uma relação desprovida de abuso de poder. É uma distinção importante? É, e já vamos ver porquê. Justifica a falta de transparência? A meu ver não, não justifica, e penso que com tudo o que já aprendemos sobre a crise de abusos é importante a Igreja, quer as locais, quer a Santa Sé, compreendam que muitas das lições que aprendemos com a crise dos abusos de menores podem e devem aplicar-se a outras áreas, incluindo esta.

Uma questão de corrupção

Vamos então tentar perceber quais são as grandes diferenças entre o abuso de menores e as relações consensuais, embora pecaminosas, entre adultos.

A primeira e mais evidente diferença é o mal causado às vítimas. Choca sempre mais, e bem, o abuso de uma criança, seja ele de natureza física, sexual ou psicológica. Os abusos abrem sempre feridas terríveis nas suas vítimas, feridas duradouras, mas o seu potencial destrutivo é ainda mais grave nas crianças. Isto não significa que não se deva ter também compaixão das vítimas adultas, e ajudá-las ao máximo, como é evidente.

Mas há outra grande diferença, que está na disposição e no estado de alma do próprio abusador. E penso que essa merece mais atenção do que costumamos dar.

Um dos temas a que o Papa Francisco volta sempre é à corrupção. Para os nossos ouvidos, quando se fala em corrupção pensamos em troca de favores por dinheiro, enriquecimento ilícito, cunhas e favorecimento. Mas não é nesse sentido que o Papa usa o termo. Ele explica que existem pecados, que todos cometemos, mas a corrupção é mais do que um pecado, é uma doença, uma doença da alma, no sentido em que contamina toda a forma como agimos e pensamos.

Para usar um exemplo prático. Um homem que está a passar na rua e repara que alguém deixou cair a carteira e aproveita para a roubar, está a cometer um pecado, claro, mas é um grau diferente daquele que acorda decidido a ir roubar; justifica a si mesmo que pode e deve roubar, porque a satisfação da sua necessidade ou do seu desejo é a prioridade máxima; que desenvolve planos e esquemas para poder roubar e depois as executa. Esse, ainda que não consiga obter o proveito de um roubo, já pecou no coração e tem a alma corrompida porque está já consumido da vontade de pecar.

A ler, sobre o conceito de
corrupção segundo o Papa
Aplicando isto à realidade dos abusos sexuais, podemos ver que há diferenças entre o abuso sexual de um menor, ou uma pessoa vulnerável, e uma relação com um adulto. No segundo caso, para já, existe a possibilidade do consentimento da outra parte. Tomemos o caso de um padre que se sente muito atraído por uma mulher a quem está a dar direcção espiritual. Se do outro lado também existe atracção torna-se muito mais provável que o pecado seja consumado. Isto até pode acontecer espontaneamente. O padre pode nem estar a pensar no assunto, mas a outra pessoa vem procurar o contacto e o padre, perante essa possibilidade, sucumbe à tentação; ou duas pessoas encontram-se numa situação em que de repente reparam que têm possibilidade de ter uma relação e ambas cedem. Enfim, não adianta explorar todas as possibilidades.

Mas também pode acontecer o contrário. Pode acontecer que o padre sente atracção por alguém e procura manipular as circunstâncias para poder estar sozinho com ela, procura seduzir e despertar na outra pessoa a mesma vontade, etc., para poder satisfazer o seu desejo. Esta segunda situação seria já um caso de corrupção da alma, porque o padre já cometeu esse pecado no seu coração e agora está a tentar a toda a força cometê-lo de facto. Isto é tanto mais grave se o padre se aproveita do seu ministério, como director espiritual, por exemplo, e de algum ascendente que tenha sobre a outra pessoa, para fazer valer a sua vontade, podendo até manipulá-la ao ponto de a tentar convencer que o mal que ele procura praticar é na verdade um bem, ou que constitui a vontade de Deus.

A diferença quando lidamos com o abuso de crianças é de que não existe a possibilidade do primeiro cenário. Não pode haver consentimento, nem verdadeira compreensão do que está em causa por parte da criança ou do menor. E, por conseguinte, a situação de abuso nunca é a mera queda numa tentação espontânea.

A lógica dita, e a prática mostra, que os abusadores de menores são pessoas especialmente manipuladoras. A relação com as vítimas é cultivada, o abusador procura ganhar a confiança da vítima, mas também da sua família. As condições para estarem a sós e para se praticar os abusos são pensadas e depois executadas. Há uma predisposição necessária que agrava tudo o que se passa de seguida, e contamina muito, se não tudo, do resto da sua acção pastoral. Por isso é que para estes pecados em particular existe tolerância zero. Nenhum homem será apenas o somatório das suas falhas, e isso aplica-se também aos abusadores, mas isso não implica que se possa continuar no ministério sacerdotal.

Tudo isto configura um caso particularmente grave de corrupção da alma, o que tem ramificações importantes quando se trata de um padre ou outro agente pastoral. Os católicos compreendem e aceitam que os seus padres sejam sujeitos a tentações, que por vezes até nelas caiam. Não aceitam, nem devem aceitar, é que os seus padres sejam pessoas corruptas que no seu coração já cederam ao pecado e procuram de todas as formas manipular quem está em seu redor para o levar a cabo. Isto aplica-se a qualquer tipo de pecado, a questão é que com o abuso de menores aplica-se sempre.

Voltando ao caso do Pe. Rupnik, uma leitura benevolente do seu caso será de que os seus superiores, e os responsáveis do Vaticano, entenderam que com ele estavam perante situações de quedas pontuais, das quais estava devidamente arrependido e recomposto, e não de corrupção da alma, e por isso, depois de o corrigirem e de o castigarem de forma discreta, não tiveram problemas em permitir que ele prosseguisse com outras actividades pastorais, como o tal vídeo semanal e as muitas obras de arte que foi fazendo.

Foi um erro? Provavelmente, sim. A decidir que os seus crimes não justificavam a expulsão do estado sacerdotal, teria pelo menos feito sentido mantê-lo em funções mais discretas até se ter a certeza de que estava recuperado, que estava verdadeiramente arrependido. E se já estavam reunidas essas condições, deviam comunicá-las devidamente, logo que começaram a surgir as notícias, para evitar dar a entender que estavam a encobrir.

Por não o terem feito, e por terem respondido às revelações que entretanto foram surgindo de forma confusa e atabalhoada, tanto a Santa Sé como os Jesuítas sofreram graves danos reputacionais. Esperemos que aprendam com este caso, para evitar males parecidos ou mais graves no futuro. E esperemos que compreendam que as lições que temos aprendido com a crise dos abusos podem e devem ser adaptados a outras realidades também. Todos ficamos a ganhar com isso.

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