Thursday, 4 January 2018

Os tristes frutos da guerra

Frutos da guerra
Nos últimos dias têm circulado notícias sobre uma investigação da Polícia Judiciária relativa ao desaparecimento de arte sacra na Igreja de Santo Condestável, em Lisboa, sendo um anterior pároco o principal suspeito. O Patriarcado confirma a investigação e diz que “sem precipitar juízos que cabem aos tribunais, cumpra-se a lei e acompanhem-se as pessoas”. Parece ser um bom princípio.

O Papa Francisco e o Patriarca de Lisboa falaram ambos sobre o drama dos refugiados no dia de Ano Novo. Dias antes o Papa Francisco lembrou os verdadeiros frutos da guerra com uma foto histórica verdadeiramente impressionante.

O Santuário do Cristo Rei quer usar a arte para combater a ignorância religiosa.

Mais um atentado em Cabul, esta quinta-feira, reivindicado pelo Estado Islâmico.


Não foi de propósito, mas veio a calhar. Foi em dia de dérbi, quando os ânimos mais se exaltam, que publiquei o artigo do Catholic Thing que nos convida a uma reflexão sobre a ira e como ela se pode tornar um “falso deus”nas nossas vidas. Leiam e sigam os conselhos que vêm no fim. Para terem um ano melhor. 

Wednesday, 3 January 2018

Um Novo Começo para 2018

O ministério de João Baptista foi um apelo ao arrependimento, à renúncia ao pecado, como tinha sido profetizado por Isaías: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas” (Mt. 3,3). Os Dez Mandamentos fornecem uma base moral, com destaque para o primeiro: “Eu sou o Senhor teu Deus. Não terão falsos deuses diante de mim”.

Os falsos deuses assumem várias formas e feitios. À medida que a nossa cultura vai rejeitando a herança judaico-cristã, não podemos dar por adquirido que não regressaremos aos falsos ídolos de pedra. Mas um falso deus também pode ser uma obsessão tão intensa que nos impede de adorar devidamente o Deus único. Essas obsessões são legião, mas pode ser útil concentrarmo-nos apenas numa: a ira.

À medida que ficamos mais velhos acontece uma coisa curiosa. As nossas vidas parecem comprimir-se e começamos a perder a noção do tempo. Há coisas que parecem ter acontecido recentemente mas que na verdade se passaram há vários anos. Curiosamente até as memórias distantes – tanto boas como más – se tornam mais presentes. No aniversário do ataque a Pearl Harbour os jornais mostraram veteranos já na casa dos 90 anos, com as caras a expressar a dor da mágoa enquanto recordavam esse dia terrível em 1941.

Há uma piada velha sobre o Alzheimer irlandês: Esquecemos tudo menos os ressentimentos. Mas infelizmente isto não se limita aos irlandeses. A ira é fácil de compreender – a maioria de nós conhece-a muito bem. Até a vemos nos bebés. Tire um brinquedo a um bebé e ele faz birra. À medida que envelhecemos, tornamo-nos um pouco mais sofisticados na forma como exprimimos a nossa ira, quando são os outros a brincar connosco.

Se não tivermos cuidado é perfeitamente possível que até irritações miudinhas se transformem em ódios. Somos capazes de deixar um incómodo momentâneo transformar-se na razão por detrás de um ressentimento.

Isto não significa que tenhamos o dever de ignorar a revolta que costuma acompanhar a injustiça. Essa revolta tem o seu lugar. Por exemplo, a Igreja reconhece o papel do Estado na administração da pena de morte, precisamente para responder a esse desejo de justiça: “As penas capitais infligidas pela autoridade civil, que é a legítima vingadora do crime… concedem segurança à vida ao reprimir a revolta e a violência” (catecismo de Trento). Mas mesmo a revolta legítima que surge como resposta à injustiça deve ser controlada e devidamente ordenada.

Mais, não podemos contar que qualquer Governo seja perfeito no cumprimento de todas as leis justas. Para além de manter todos os potenciais criminosos em bicos de pés, com a ameaça do sistema judicial, não é razoável esperar que todos os malfeitores sejam conduzidos à justiça. Mas cultivar a ira enfurecida por causa de uma injustiça por resolver não dá resposta a estes factos da vida humana. Cultivar a ira não é apenas autodestrutivo; a obsessão torna-se um tipo de falso deus, o centro das nossas vidas.

Há anos um conhecido caçador de nazis observou que talvez a maior tragédia do Holocausto tenha sido que ele substituiu o Êxodo como centro da história judaica.

Como é que nós, pela graça de Deus, podemos remover o falso deus da ira nesta época em que acolhemos a vinda do Senhor e nos preparamos para começar um Novo Ano? Sabemos que não será fácil.

Eis umas sugestões bíblicas:

·         Reconhecer que a justa ira não é pecado. A ira impele-nos à acção, a equilibrar os pratos da balança da justiça. “Irai-vos e não pequeis” (Ef. 4,26).
·         A justa ira deve ser proporcional e sob controlo da razão: “Não se ponha o sol sobre a vossa ira” (Ef. 4,26)
·         Conte até dez depois de cada provocação: “Todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar” (Tg 1,19) (“Querida, porque é que não me respondes?”, “Estou a contar até dez querido!”)
·         Esteja preparado para perdoar, e perdoar novamente. “Então Pedro, aproximando-se dele, disse: Senhor, até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete? Jesus lhe disse: Não te digo que até sete; mas, até setenta vezes sete” (Mt. 18,21-22)
·         Suporte as falhas dos outros, recordando as suas próprias fraquezas. “Perdoai-nos os nossos pecados, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”.
·         Reconheça que as emoções fortes, como a ira, são voláteis e não podem ser controladas sem a graça de Deus. Por isso, não negligencie a oração, o sacramento da reconciliação e a recepção devota da Sagrada Comunhão. “Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem” (Mt. 5,44).
·         Não ignore o valor redentor do sofrimento injusto: “Regozijo-me agora no que padeço por vós, e na minha carne cumpro o resto das aflições de Cristo, pelo seu corpo, que é a Igreja” (Col. 1,24).
·         Experimente um pouco de bondade cristã à antiga; “Portanto, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas de fogo sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (Rom. 12,20-21).
·         Por fim, especialmente para casos de injustiças graves e crónicas, confie na justiça de Deus. Por mais que assim possa parecer, ninguém escapa impune: “A mim pertence a vingança e a retribuição. No devido tempo os pés deles escorregarão; o dia da sua desgraça está chegando e o seu próprio destino se apressa sobre eles” (Deuteronômio 32,35). Ninguém escapa ao trono de justiça de Deus, porque existe um céu e existe um inferno.

Podemos escolher entre ficar obcecados com injustiças e arriscar as nossas almas, ou antecipar a Cristo com uma fé firme. Por isso, tomemos a resolução firme de… parar. Parar de alimentar os nossos ressentimentos, grandes ou pequenos, e preparar o caminho para o Senhor neste Ano Novo – e todos os anos.


O padre Jerry J. Pokorsky é sacerdote na diocese de Arlington e pároco da Igreja de Saint Michael the Archangel em Annandale, Virgínia.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 31 de Dezembro de 2017 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Friday, 29 December 2017

Wednesday, 27 December 2017

Sem Jesus é outra coisa...

Antes de mais, espero que todos tenham tido um excelente e santo Natal e que os cristãos de entre os destinatários destas mensagens se tenham lembrado de que sem Jesus, não é Natal, é outra coisa, como disse hoje o Papa, depois de ontem ter recordado a ligação entre o Natal e o martírio.

D. Manuel Clemente celebrou missa no dia 25, insistindo na comunhão entre os cristãos e D. Jorge Ortiga alertou contra as “falsas esperanças alicerçadas na confiança em ídolos que nos querem vergar”. Antes, D. Manuel tinha alertado para o perigo da eutanásia, na sua tradicional mensagem de Natal, depois de ter recordado que esta prática é inconstitucional e que caso seja aprovada espera uma intervenção do Presidente. A propósito de eutanásia, saibam o que se passa na Bélgica, o país modelo cujo exemplo os defensores da “morte assistida” gostariam que seguíssemos.

O Papa aproveitou a mensagem de Natal para falar da importância de uma solução de dois estados na Terra Santa, com a partilha de Jerusalém e na missa do Galo falou do drama dos refugiados.

Quem teve um Natal mais difícil foi o cardeal Maradiaga, das Honduras, um dos conselheiros próximos de Francisco, que se vê agora envolvido numa polémica sobre dinheiro.

Hoje temos um artigo especial no The Catholic Thing em português. O texto publicado é um excerto de um ensaio do Papa Bento XVI, uma curiosa reflexão sobre o burro e a vaca no presépio. Convido-vos a ler!

A Vaca, o Burro e Nós

Bento XVI
Quem não compreende o mistério do Natal, não compreende o elemento decisivo do Cristianismo. Quem não aceitou isto não pode entrar no Reino do Céu – e foi isso que São Francisco de Assis quis recordar novamente aos cristãos do seu tempo, e das sucessivas gerações.

Francisco ordenou que a vaca e o burro deviam estar presentes no presépio na gruta de Greccio na noite de Natal. Disse ao nobre João: “Desejo em toda a realidade acordar a lembrança da criança tal como nasceu em Belém e todas as dificuldades que teve de suportar na sua infância. Desejo ver com os seus olhos corporais o que significou ter de repousar numa manjedoura e dormir na palha, entre uma vaca e um burro.”

A partir de então a vaca e o burro tiveram o seu lugar em todos os presépios – mas de onde vêm na realidade? É bem sabido que não são mencionados nas narrativas de Natal do Novo Testamento. Quando investigamos esta questão descobrimos um factor importante em todas as tradições associadas ao Natal e, na verdade, em toda a piedade do Natal e da Páscoa na Igreja, tanto na liturgia como nas devoções populares.

A vaca e o burro não são simplesmente produtos piedosos da imaginação: a fé da Igreja na unidade do Antigo e Novo Testamento deu-lhes um papel no acompanhamento do evento do Natal. Lemos em Isaías: “O boi conhece o seu possuidor, e o jumento a manjedoura do seu dono; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende” (1,3). Os padres da Igreja viram nestas palavras uma profecia que apontava para o novo povo de Deus, a Igreja composta tanto por judeus como por gentios.

Diante de Deus todos os homens, Judeus e Gentios, eram como a vaca e o burro, sem razão nem conhecimento. Mas a criança no presépio abriu-lhes os olhos e agora reconhecem a voz do seu Mestre, a voz do seu Senhor. É notável como nas imagens medievais da Natividade os artistas dão aos dois animais faces quase humanas e como eles se colocam diante do mistério da criança e baixam as cabeças em atenção e reverência.

Mas isto era, na verdade, uma questão de lógica uma vez que os dois animais eram considerados símbolos proféticos para o mistério da Igreja – o nosso próprio mistério, uma vez que não passamos de vacas e burros diante do Deus Eterno, vacas e burros cujos olhos se abrem na noite de Natal, para que possam reconhecer o seu Senhor no presépio. Quem o reconheceu e quem não o reconheceu? Mas será que o reconhecemos mesmo?

Quando colocamos uma vaca e um burro junto ao presépio devemos lembrar-nos da passagem inteira de Isaías, que é não apenas a boa nova – no sentido de uma promessa de um conhecimento futuro – mas também o juízo pronunciado sobre a cegueira contemporânea. A vaca e o burro têm conhecimento, “mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende”.

Quem são a vaca e o burro hoje, e quem são “o meu povo” que não compreende? Como podemos reconhecer a vaca e o burro? Como podemos reconhecer “o meu povo”? E porque é que o irracional reconhece, enquanto a razão é cega?

Para descobrirmos a resposta devemos regressar com os Padres da Igreja ao primeiro Natal. Quem o reconhece? E quem não o reconhece? E porquê?

Aquele que não o reconheceu foi Herodes, que nem compreendeu aquilo que lhe disseram sobre a criança: em vez disso o seu desejo de poder e a paranoia que o acompanhava cegaram-no ainda mais (Mt. 2,3). Aqueles que não o reconheceram eram “toda Jerusalém com ele” (ibid). Aqueles que não o reconheceram eram as pessoas “ricamente vestidas” – aquelas com posição social elevada (11,8). Aqueles que não o reconheceram eram os mestres do conhecimento que eram especialistas na Bíblia, os especialistas na interpretação bíblica que, admita-se, conheciam as passagens correctas nas escrituras, mas mesmo assim não compreendiam nada (Mt. 2,6).

Mas aqueles que o reconheceram foram “a vaca e o burro” (em comparação com os homens de prestígio): os pastores, os magos, Maria e José. Mas as coisas poderiam ter sido de outra forma? Aqueles de condição social elevada não estão no estábulo onde descansa o menino Jesus, mas é aí que vivem a vaca e o burro.

E nós? Estamos longe do estábulo porque as nossas roupas são demasiado ricas e somos demasiado inteligentes? Envolvemo-nos de tal forma na exegese sofisticada das Escrituras, nas demonstrações da inautenticidade ou da verdade histórica de passagens individuais, que nos tornamos cegos ao menino em si e não entendemos nada dele?

Estamos de tal forma “em Jerusalém”, no palácio, em casa em nós mesmos e na nossa arrogância e paranoia, que não conseguimos ouvir a voz dos anjos na noite para que partamos a adorar a criança?

Nesta noite, então, as caras da vaca e do burro olham para nós com uma interrogação: O meu povo não compreende, mas tu discernes a voz do teu Senhor? Quando colocamos as figuras familiares no presépio devemos pedir a Deus que nos dê corações simples que descubram o Senhor na Criança – tal como Francisco fez em Greccio. Porque aí talvez nós também possamos experimentar aquilo que Tomás de Celano relata sobre aqueles que participaram na missa do Galo em Greccio – com palavras que se assemelham às de São Lucas sobre os pastores na primeira noite de Natal – “voltaram todos para as suas casas cheios de alegria”.


Excerto do livro “A Bênção do Natal”, de Joseph Ratzinger

(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 25 de Dezembro de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 20 December 2017

Actualidade Religiosa: Cardeal Law, perseguição na Índia e focas chamadas Amália

Morreu o cardeal americano Bernard Law. O seu legado fica tristemente associado ao escândalo de abusos sexuais da diocese de Boston, mas como nos recorda o cardeal Sean O’Malley, ele era muito mais do que os seus pecados e as suas falhas que conduziram ao encobrimento de dezenas de casos de abusos.

Os cristãos na Índia temem um aumento de casos de perseguição, agora por altura do Natal, e apontam para uma situação recente que levou à detenção de um grupo de 32 seminaristas.

Conheça a foca chamada “Amália” que foi comprada pelas Irmãs Hospitaleiras para melhorar o bem-estar de pessoas com demência…

Convido-vos também a ver esta grande reportagem multimédia da Renascença sobre a vida dos refugiados sírios na Turquia. Não tem directamente a ver com religião, mas penso que não se vão arrepender de o ver e ler até ao fim.

Hoje temos novo artigo do The Catholic Thing. Num mundo que é cada vez mais dominado pelos sentimentos e as emoções do que pela razão, é urgente ler e compreender este artigo do padre James V. Schall, que fala dos riscos que esta tendência apresenta para a nossa civilização. 

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