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Wednesday, 17 July 2019

Em Busca do Bom Samaritano

O amor ao próximo é algo que é pedido a todos nós. A parábola do Bom Samaritano, que escutámos no passado domingo, fornece um bom guião. Temos a responsabilidade de reconhecer a necessidade e a miséria humanas, e de lhes responder tanto com atenção pessoal como com generosidade material.

Numa sociedade rica, com mudanças demográficas velozes, contudo, isto requer alguma análise. Poucos são os que, hoje em dia, vivem a familiaridade cara-a-cara das pequenas comunidades. A maioria vive em subúrbios e vai de carro para o trabalho, passando ao largo dos bairros mais pobres.

Claro que os media apresentam-nos muitas imagens de pessoas necessitadas, mas poucos de nós encontramos essas pessoas no nosso dia-a-dia. Existem, contudo, verdadeiras bolsas de miséria humana até no nosso mundo desenvolvido, desde o interior das cidades até às paisagens mais rurais.

Nas nossas ruas existem pessoas com necessidades crónicas. Vemo-las nas esquinas das ruas e nos degraus das igrejas. Algumas estão perturbadas emocionalmente, outras sofrem de stress pós-traumático, outros ainda estão simplesmente a atravessar um mau momento e há os que estão a aproveitar-se do sistema. Mas a desolação emocional e espiritual pode ser ainda mais devastadora.

Os padres que acompanham as Missionárias da Caridade apercebem-se que as irmãs os dissuadem de dar dinheiro diretamente aos necessitados. Lançar-lhes algumas moedas é muito mais fácil do que dar-lhes aquilo de que precisam verdadeiramente: cuidado pessoal moroso. As pessoas que vivem vidas isoladas e pobres precisam – segundo nos dizem aqueles que verdadeiramente cuidam delas – de interacção humana, muito mais do que de dinheiro. Frequentemente o que lhes conduziu àquela situação foi precisamente a falta de ligações pessoais.

Portanto nos nossos tempos não é fácil ser um Bom Samaritano. O Bom Samaritano cuidou das necessidades físicas da vítima do assalto e deixou-lhe dinheiro para uma espécie de cuidado institucionalizado: “E no dia seguinte retirou dois denários e deu-os ao estalajadeiro, dizendo, ‘Cuida dele, e tudo o que gastares a mais, pagar-te-ei quando regressar’” (Lc. 10,35).

Muitas vezes, dar dinheiro às pessoas na rua apenas os leva a adiar a procura de emprego ou de ajuda. Se souber que se vai cruzar com pobres ao longo do seu dia, um Bom Samaritano moderno poderá ter o cuidado de levar consigo uma sanduiche a mais, ou uma bebida, ou então comprometer-se com algo ainda mais substancial em termos de tempo e de trabalho, oferecendo-se para trabalhar numa sopa dos pobres ou uma iniciativa do género.

As paróquias suburbanas recolhem valores consideráveis das caixas de esmolas. Os párocos, em conjunto com os concelhos financeiros das paróquias, geralmente fazem chegar esses fundos a organizações que servem os necessitados. Ocasionalmente um paroquiano poderá também precisar de ajuda, por causa de uma crise. É bom que as paróquias encontrem formas de permitir que os paroquianos os possam abordar com esses problemas sem sentirem demasiada vergonha.

E, já agora, os párocos nunca devem aceitar agradecimentos pessoais por distribuírem dinheiro da caixa de esmolas. São chamados a ser bons gestores dos recursos paroquiais, como é evidente, mas a verdadeira generosidade é dos paroquianos que fazem os donativos.

De igual modo uma sociedade recta – o que normalmente significa as comunidades locais (por uma questão de subsidiariedade) – devem fornecer os cuidados mais básicos de quem está a passar um mau bocado. Mas deve ser claro – e hoje em dia não costuma ser – que cobrar impostos para ajudar os pobres não corresponde ao conceito de “caridade” que encontramos na Bíblia.

Essas cobranças são, na realidade, uma forma de justiça retributiva (e a virtude da solidariedade) mediada através do processo político. Ao longo dos tempos aprendemos que nem todos esses programas funcionam, e que chegam mesmo a prejudicar as pessoas que pretendem ajudar. Mas uma assistência social bem monitorizada e dirigida às pessoas certas, também tem o seu lugar.

Algumas organizações podem ser classificadas como Instituições Particulares de Solidariedade Social de acordo com as leis do Estado, ao mesmo tempo que contrariam as leis de Deus. A Planned Parenthood, por exemplo, recebe 500 milhões de dólares por ano de dinheiro público, bem como donativos privados, dedutíveis em IRS, para financiar 330 mil abortos por ano (e para colher e vender órgãos fetais à socapa). Esta suposta caridade não passa, na verdade, de uma monstruosa máquina de matança.

Algumas organizações têm mais jeito para angariar dinheiro do que para usá-lo em obras verdadeiramente caritativas. O Bom Samaritano de hoje que queira doar dinheiro a organizações de caridade deve dar ouvidos ao aviso de Eric Hoffer de que “todas as grandes causas começam por ser movimentos, depois transformam-se em negócios e eventualmente degeneram em fraudes”.

Parte do trabalho do Bom Samaritano moderno passa por exercer vigilância adequada, sem a qual as caridades podem encher-se de funcionários e tornar-se um buraco financeiro dependente de constantes peditórios, cada vez mais agressivos.

Por outro lado, como qualquer IPSS sabe, também existem pessoas que pensam que o trabalho caritativo deve operar praticamente sem custos administrativos, o que não é realístico. Até as Missionárias da Caridade recebem – merecidamente – comida e estadia em troca do exercício do seu santo apostolado.

Quando fazemos um donativo devemos examinar as nossas consciências. Foi-nos dito pela mais alta autoridade que o bom impulso de caridade pode ser estragado pelo desejo de admiração. “Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita; Para que a tua esmola seja dada em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, ele mesmo te recompensará publicamente.”

No fim de contas temos de reconhecer que todos os programas governamentais do mundo, bem como todas as IPSS, são incapazes de aliviar o sofrimento humano em grande escala. Uma das consequências do pecado original é que os pobres, seja no sentido material ou espiritual, sempre os teremos connosco. Os leigos devem trabalhar para criar sistemas socioeconómicos justos e eficientes. Mas a assistência aos pobres, num generoso espírito cristão, é a levedura necessária para complementar e ultrapassar os mecanismos das ordens meramente económicas.


O padre Jerry J. Pokorsky é sacerdote na diocese de Arlington e pároco da Igreja de Saint Michael the Archangel em Annandale, Virgínia.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 17 de Julho de 2019 em The Catholic Thing)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 3 January 2018

Um Novo Começo para 2018

O ministério de João Baptista foi um apelo ao arrependimento, à renúncia ao pecado, como tinha sido profetizado por Isaías: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas” (Mt. 3,3). Os Dez Mandamentos fornecem uma base moral, com destaque para o primeiro: “Eu sou o Senhor teu Deus. Não terão falsos deuses diante de mim”.

Os falsos deuses assumem várias formas e feitios. À medida que a nossa cultura vai rejeitando a herança judaico-cristã, não podemos dar por adquirido que não regressaremos aos falsos ídolos de pedra. Mas um falso deus também pode ser uma obsessão tão intensa que nos impede de adorar devidamente o Deus único. Essas obsessões são legião, mas pode ser útil concentrarmo-nos apenas numa: a ira.

À medida que ficamos mais velhos acontece uma coisa curiosa. As nossas vidas parecem comprimir-se e começamos a perder a noção do tempo. Há coisas que parecem ter acontecido recentemente mas que na verdade se passaram há vários anos. Curiosamente até as memórias distantes – tanto boas como más – se tornam mais presentes. No aniversário do ataque a Pearl Harbour os jornais mostraram veteranos já na casa dos 90 anos, com as caras a expressar a dor da mágoa enquanto recordavam esse dia terrível em 1941.

Há uma piada velha sobre o Alzheimer irlandês: Esquecemos tudo menos os ressentimentos. Mas infelizmente isto não se limita aos irlandeses. A ira é fácil de compreender – a maioria de nós conhece-a muito bem. Até a vemos nos bebés. Tire um brinquedo a um bebé e ele faz birra. À medida que envelhecemos, tornamo-nos um pouco mais sofisticados na forma como exprimimos a nossa ira, quando são os outros a brincar connosco.

Se não tivermos cuidado é perfeitamente possível que até irritações miudinhas se transformem em ódios. Somos capazes de deixar um incómodo momentâneo transformar-se na razão por detrás de um ressentimento.

Isto não significa que tenhamos o dever de ignorar a revolta que costuma acompanhar a injustiça. Essa revolta tem o seu lugar. Por exemplo, a Igreja reconhece o papel do Estado na administração da pena de morte, precisamente para responder a esse desejo de justiça: “As penas capitais infligidas pela autoridade civil, que é a legítima vingadora do crime… concedem segurança à vida ao reprimir a revolta e a violência” (catecismo de Trento). Mas mesmo a revolta legítima que surge como resposta à injustiça deve ser controlada e devidamente ordenada.

Mais, não podemos contar que qualquer Governo seja perfeito no cumprimento de todas as leis justas. Para além de manter todos os potenciais criminosos em bicos de pés, com a ameaça do sistema judicial, não é razoável esperar que todos os malfeitores sejam conduzidos à justiça. Mas cultivar a ira enfurecida por causa de uma injustiça por resolver não dá resposta a estes factos da vida humana. Cultivar a ira não é apenas autodestrutivo; a obsessão torna-se um tipo de falso deus, o centro das nossas vidas.

Há anos um conhecido caçador de nazis observou que talvez a maior tragédia do Holocausto tenha sido que ele substituiu o Êxodo como centro da história judaica.

Como é que nós, pela graça de Deus, podemos remover o falso deus da ira nesta época em que acolhemos a vinda do Senhor e nos preparamos para começar um Novo Ano? Sabemos que não será fácil.

Eis umas sugestões bíblicas:

·         Reconhecer que a justa ira não é pecado. A ira impele-nos à acção, a equilibrar os pratos da balança da justiça. “Irai-vos e não pequeis” (Ef. 4,26).
·         A justa ira deve ser proporcional e sob controlo da razão: “Não se ponha o sol sobre a vossa ira” (Ef. 4,26)
·         Conte até dez depois de cada provocação: “Todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar” (Tg 1,19) (“Querida, porque é que não me respondes?”, “Estou a contar até dez querido!”)
·         Esteja preparado para perdoar, e perdoar novamente. “Então Pedro, aproximando-se dele, disse: Senhor, até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete? Jesus lhe disse: Não te digo que até sete; mas, até setenta vezes sete” (Mt. 18,21-22)
·         Suporte as falhas dos outros, recordando as suas próprias fraquezas. “Perdoai-nos os nossos pecados, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”.
·         Reconheça que as emoções fortes, como a ira, são voláteis e não podem ser controladas sem a graça de Deus. Por isso, não negligencie a oração, o sacramento da reconciliação e a recepção devota da Sagrada Comunhão. “Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem” (Mt. 5,44).
·         Não ignore o valor redentor do sofrimento injusto: “Regozijo-me agora no que padeço por vós, e na minha carne cumpro o resto das aflições de Cristo, pelo seu corpo, que é a Igreja” (Col. 1,24).
·         Experimente um pouco de bondade cristã à antiga; “Portanto, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas de fogo sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (Rom. 12,20-21).
·         Por fim, especialmente para casos de injustiças graves e crónicas, confie na justiça de Deus. Por mais que assim possa parecer, ninguém escapa impune: “A mim pertence a vingança e a retribuição. No devido tempo os pés deles escorregarão; o dia da sua desgraça está chegando e o seu próprio destino se apressa sobre eles” (Deuteronômio 32,35). Ninguém escapa ao trono de justiça de Deus, porque existe um céu e existe um inferno.

Podemos escolher entre ficar obcecados com injustiças e arriscar as nossas almas, ou antecipar a Cristo com uma fé firme. Por isso, tomemos a resolução firme de… parar. Parar de alimentar os nossos ressentimentos, grandes ou pequenos, e preparar o caminho para o Senhor neste Ano Novo – e todos os anos.


O padre Jerry J. Pokorsky é sacerdote na diocese de Arlington e pároco da Igreja de Saint Michael the Archangel em Annandale, Virgínia.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 31 de Dezembro de 2017 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 31 May 2017

Carnificina em Cabul e Apelos Yazidis

Nem portugueses nem brasileiros
costumam vê-lo assim.

Convido-vos a todos a ler o testemunho de um bispo copta que se dirigiu aos terroristas, na sequência dos últimos atentados. É surpreendente, mas o Cristianismo é mesmo assim!

O Papa Francisco infelizmente não vai poder ir ao Sudão do Sul, como tinha previsto, pelo menos não em 2017.

Realiza-se a partir de hoje um Lisboa um colóquio sobre Santo António, onde se poderá descobrir as diferenças entre as formas como brasileiros e portugueses olham para este santo.

Uma jovem da religião yazidi que foi abusada pelo Estado Islâmico diz que “está constantemente a regressar” a esse cativeiro e pede o reconhecimento do genocídio a que o seu povo tem sido sujeito.

E numa altura em que várias pessoas próximas de mim passam por difíceis situações de saúde, foi com particular agrado que traduzi e publiquei este artigo do The Catholic Thing sobre como, mesmo quando afligidos por angústia ou sofrimento, podemos entender a promessa de Cristo de que teremos vida, e vida em abundância!

Vida em Abundância

Pe. Jerry J. Pokorsky
No Evangelho Jesus promete: “Vim para que tenham vida e para que a tenham em abundância” (João: 10,10). Trata-se da garantia mais sublime e consoladora deste lado da eternidade.

Quando tudo corre bem e estamos a experimentar as bênçãos da felicidade e da boa sorte, aceitamos facilmente este ensinamento. Quando conjugada com a saúde e com uma família normal e feliz e uma situação profissional razoavelmente segura, a prática sincera da fé traz um sentido autêntico de gratidão que nos incentiva a maior devoção e generosidade.

Mas quando nos deparamos com dificuldades familiares ou maritais, insegurança laboral ou problemas de saúde crónicos, podemo-nos sentir tentados a duvidar desta promessa de Cristo. Como é que se pode viver uma vida de abundância em Cristo enquanto experimentamos grande tristeza ou privação? A maior parte de nós seria tentada a perder a fé e a pensar que a promessa de “vida em abundância” não passa de uma piada cruel. Precisamos de uma resposta inteligível.

Quando Saulo caiu por terra na estrada para Damasco, ouviu a voz de Jesus: “Saulo, Saulo, porque me persegues?” (Actos: 9,4). Jesus reina na glória celeste, porém esta narrativa revela claramente que o próprio Jesus sofre quando os cristãos são perseguidos. São Paulo desenvolverá este ensinamento, deixando claro que Jesus não é um senhorio ausente. “Porque todos quantos fostes baptizados em Cristo já vos revestistes de Cristo.” (Gal. 3,27). Cristo continua a viver entre nós na Sua Igreja. O Seu Corpo Místico.

São Pedro empurra-nos no sentido de reconciliar o sofrimento com uma vida abundante em Cristo. Em Cristo o sofrimento é elevado pela graça e ganha um novo sentido: “Se vocês suportam o sofrimento por terem feito o bem, isso é louvável diante de Deus. Para isso vocês foram chamados, pois também Cristo sofreu no vosso lugar de vocês, deixando-lhes exemplo, para que sigam os seus passos.” 1 Pedro 2: 20-21

Logo, o sofrimento dos membros do Corpo Místico de Cristo partilha do seu sofrimento redentor. Isto ajuda-nos a compreender a afirmação bastante surpreendente de São Paulo de que ele agora alegra-se nos seus sofrimentos: “Regozijo-me agora no que padeço por vós, e na minha carne cumpro o resto das aflições de Cristo, pelo seu corpo, que é a Igreja”. (Col. 1:24)

Quando sofremos, Cristo sofre connosco no seu Corpo Místico, e o nosso sofrimento participa no sentido que lhe foi dado por Cristo na Cruz. O nosso sofrimento em Cristo dá continuidade, de forma misteriosa, à obra da redenção.

O Pai não é um superintendente cruel. No livro da Sabedoria lemos: “Deus não é o autor da morte, a perdição dos vivos não lhe dá alegria alguma” (Sab. 1,13). Considerem a angústia de Abraão no Livro de Genesis quando leva o seu filho Isaac até à montanha para o sacrificar. Quando o anjo do Senhor segura a mão de Abraão, o Senhor revela que não se alegra a sua angústia, alegra-se com a sua obediência. Porém, a angústia de Abraão valida e magnifica a força da sua obediência na fé.

Isaac, como é evidente, representa a figura de Cristo o Filho e Abrãao é a figura do Pai. Por isso é razoável concluir que o Pai não se alegra no sofrimento redentor do seu Filho na Cruz, nem se alegra com o nosso sofrimento. O Pai “alegra-se” com a obediência do seu Filho, uma obediência que o sofrimento e a morte em nada diminuem. A coragem e o sofrimento de Cristo testemunham a suprema excelência da sua obediência ao Pai.

A excelência da sua obediência é aumentada pela sua liberdade. Durante a sua prova Ele diz a Pilates: “Acha que eu não posso pedir a meu Pai, e ele não colocaria imediatamente à minha disposição mais de doze legiões de anjos?” (Mt. 26,53). Jesus revela logo porque é que aceitou essa pena de morte: “Como, pois, se cumpririam as Escrituras, que dizem que assim convém que aconteça?” (Mt. 26,54). As escrituras cumprem-se quando Jesus aceita voluntariamente a sua morte em obediência pela nossa redenção e salvação.

Sofrimento pode ter sentido
Jesus convida-nos a entrar no mistério do amor sacrificial: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos” (João 15,13). Começamos a sentir a mistério da grandeza de tal amor nas nossas experiências de vida. Em circunstâncias extremas, os bons pais arriscam as suas vidas pelos seus filhos; e há incontáveis relatos de soldados, polícias e outros que arriscam as suas vidas não só pelos seus camaradas, mas por estranhos. Mesmo uma cultura híper-secularizada como a nossa celebra a dignidade de actos de amor altruísta.

Mas o amor de Cristo e a vida na sua graça podem perder-se, por isso Jesus ensina: “Se guardares os meus mandamentos permanecerão no meu amor, tal como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor” (Jo. 15,10). A obediência e o sofrimento que frequentemente os acompanham demonstram que a coragem, a convicção e uma consciência tranquila sustentam a alegria da vida com Cristo: “Digo-vos isto para que a minha alegria esteja em vós e que a vossa alegria seja completa” (Jo. 15,11).

O mandamento mais significativo de todos é dado na Última Ceia: “E, tomando o pão, e havendo dado graças, partiu-o, e deu-lho, dizendo: Isto é o meu corpo, que por vós é dado; fazei isto em memória de mim” (Lc. 22,19). A nossa obediência na Graça de Deus é premiada com o Verbo a fazer-se Carne novamente, na Eucaristia: A Santa Comunhão, a fonte e o ápice da vida cristã.

A “vida em abundância” do Senhor purifica e eleva todas as alegrias e as tristezas terrenas. É uma vida de coragem, de convicção, de consciência tranquila e de comunhão com Ele, com a nossa própria carne santificada pelo seu santíssimo Corpo e Sangue. Nunca é demasiado tarde para viver a sua Vida em abundância com esperança firme e verdadeira alegria.  


O padre Jerry J. Pokorsky é sacerdote na diocese de Arlington e pároco da Igreja de Saint Michael the Archangel em Annandale, Virgínia.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 28 de Maio de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 21 October 2015

Grandes Homens e Perdedores

Pe. Jerry J. Pokorsky
Quando pensamos nos grandes homens da história, quem é que nos vem à cabeça? E quais são os atributos dessa grandeza? Nos tempos de Cristo, os Césares eram grandes homens. Conquistaram muito território, que mantinham a grande custo. Para serem grandes homens gastaram muito dinheiro dos tributos pagos pelos seus súbditos e derramaram, em batalha, muito sangue de pessoas normais.

De igual modo, Herodes o Grande também foi considerado “grande” porque mandou construir um magnífico Templo para os Judeus e era implacável na defesa do seu poder. Na sua velhice assassinou os Santos Inocentes, comprovando novamente que a fasquia terrena de grandeza pode ser medida pela quantidade de dinheiro dos seus súbditos que um líder gasta e quanto do seu sangue derrama. 

Quando os Apóstolos discutiam entre eles quem era o maior, provavelmente não estavam a pensar em termos de gastar os rendimentos de outros ou de derramar muito sangue. Mas poderão ter estado a pensar nalgumas das regalias da grandeza. Afinal de contas, os grandes líderes, antes de pensarem em conseguir grandes feitos, precisam de pensar um pouco naquilo que vão obter, pessoalmente, com essa grandeza.

Cristo ouve a sua discussão e utiliza essa ocasião para lhes ensinar algo sobre a verdadeira grandeza: “Se alguém desejar ser o primeiro, será o último e o servo de todos”. E “quem receber uma criança como esta em meu nome, recebe-me a mim; e quem me recebe a mim, recebe-me não a mim mas ao que me enviou”.

Lendo sobre os grandes homens da história, não me parece que isto seja matéria de grandeza, pelo menos aos olhos do mundo.

Mas a grandeza cristã não pode ser medida em termos mundanos. O maior homem nascido de uma mulher (antes da inauguração do Reino), de acordo com Jesus, é João Baptista. Ele confrontou Herodes sobre a moralidade do seu casamento e em resultado disso foi decapitado. Em termos terrenos foi um perdedor.

São Tomás Moro limitou-se a manter silêncio quando enfrentado com o adultério de Henrique VIII, mas o seu silêncio era testemunho que chegue e por isso também ele perdeu a cabeça. Em termos terrenos, Tomás Moro era um perdedor.

São Isaac Jogues pregou Cristo aos indígenas dos Grandes Lagos, em Nova Iorque. Brutalmente torturado, fugiu apenas para pedir para ser enviado novamente para a América para pregar novamente. Foi trucidado. Tanto quanto consigo perceber da leitura da história, muito poucos índios Iroquois se converterem ao Catolicismo. Os peditórios continuam a render pouco dinheiro. Em termos terrenos – e mesmo, talvez, em termos puramente eclesiais – São Isaac Jogues era um perdedor.

Compreendo bem essa situação. Na minha primeira missão como padre houve uma altura em que me deliciava com as boas sensações que nos chegam da alegria dos fiéis quando um pároco novo, recém-ordenado, chega à paróquia. Por isso imaginarão como me perturbou o facto de encontrar resistência quando proclamei o Evangelho. Certa vez o Evangelho de domingo era o ensinamento de Jesus, “Mas eu vos digo, quem se divorciar da sua mulher e casa com outra comete adultério”. O ensinamento de Cristo é suficientemente claro, e por isso a minha homilia foi toda sobre a primeira leitura.

Verdadeira grandeza
Depois da missa fui confrontado por um paroquiano zangado. Quem era eu para dizer: “Aquele que se separa da sua mulher e casa com outra comete adultério”?! Defendi-me dizendo que me tinha limitado a ler o Evangelho. “Não me crucifique a mim! Crucifica Jesus!” (Ok, talvez não tenha dito exactamente isso.)

Essa foi das primeiras lições salvíficas que tive enquanto padre. Se verdadeiramente aspirava a ser grande, devia aspirar a pegar na minha cruz e sofrer com Cristo. “Em verdade vos digo, nenhum servo é maior que o seu mestre e nenhum mensageiro é maior que aquele que o enviou” (Jo. 13,16).

Suponho que a grandeza, como o mundo a compreende, sempre foi medida por popularidade e sondagens. Mas se um candidato político, hoje, baseasse o seu programa e campanha nos Dez Mandamentos e no Evangelho, quanto tempo levaria até que fosse cercado pelas multidões, gritando “Crucifica-o! Crucifica-o!”? Jesus avisa-nos – incluindo aqueles de entre nós que pregamos o Evangelho: “Ai de vós quando todos falarem bem de vós, pois foi assim que os seus antepassados trataram os falsos profetas”. (Lc 6,26)

Há razões pelas quais os maiores dos santos cristãos foram assassinados, tal como Cristo foi assassinado no Madeiro sagrado. Se eles tivessem escolhido a via da grandeza do mundo, talvez escapassem às masmorras, ao fogo e à espada. Mas a sua grandeza não era deste mundo. Eles escolheram a via estreita da Verdade e da Cruz, o único caminho seguro para a verdadeira grandeza da Ressurreição.


O padre Jerry J. Pokorsky é sacerdote na diocese de Arlington e pároco da Igreja de Saint Michael the Archangel em Annandale, Virgínia.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 9 de Outubro de 2015 em The Catholic Thing)

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