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Wednesday, 19 July 2023

Se Deus está Connosco

Stephen P. White
Cracóvia, Polónia – Escrevo estas linhas enquanto os participantes do Seminário Tertio Millennio sobre a Sociedade Livre acabam de assistir a uma palestra sobre bioética. Os alunos vêm de nove países diferentes, para estudar a doutrina social da Igreja durante três semanas, aqui na Polónia. Ainda hoje visitarão o lugar a que João Paulo II chamou “Gólgota do mundo moderno”.

Mais de um milhão de homens, mulheres e crianças, na sua maioria judeus, foram assassinados no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. Foi lá que São Maximiliano Kolbe se ofereceu para tomar o lugar de um homem condenado, dando a sua própria vida pela de um outro prisioneiro. Foi lá também que a filósofa e freira carmelita, Irmã Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein), foi gaseada e cremada em Agosto de 1942.

O inconcebível massacre de Auschwitz terminou finalmente quando o Exército Vermelho chegou, no início de 1945. A ideologia do terror Nazi foi vencida, só para ser substituída pela outra ideologia totalitária do Século XX.

Por aqui, a Segunda Guerra Mundial é recordada por vezes como a guerra que a Polónia perdeu duas vezes: primeiro em Setembro de 1939, quando o país foi invadido a partir do ocidente pelas forças do Terceiro Reich, e do oriente, pelo exército soviético; e depois da Guerra quando a Polónia, como grande parte da Europa central e de leste, foi abandonada pelos aliados ocidentais, para ficar debaixo do domínio comunista durante mais de quatro décadas.

Tem sido para mim um privilégio passar várias semanas a leccionar na Polónia todos os verões. Ao longo dos últimos 18 anos os alunos foram mudando, tal como mudaram as grandes preocupações e os assuntos mais urgentes da actualidade. Quando o seminário foi fundado, em 1992, (muito antes do meu tempo) o objectivo principal era formar os futuros líderes das “novas democracias” que estavam a emergir depois de meio século de domínio comunista, para que a doutrina social da Igreja e a sua visão e entendimento da pessoa humana, da solidariedade, subsidiariedade e bem comum pudessem contribuir para a construção do futuro pós-comunista.

A liberdade, quando desligada das verdades sobre o homem, torna-se invariavelmente autodestrutiva. Nem as mais elegantemente escritas constituições democráticas, nem a mais eficiente das economias produtivas pode alterar este facto humano.

Como disse João Paulo II em Centesimus annus: “Na sociedade onde a sua organização reduz arbitrariamente ou até suprime a esfera em que a liberdade legitimamente se exerce, o resultado é que a vida social progressivamente se desorganiza e definha.”

O Papa polaco ofereceu um aviso semelhante aos que viriam a ver na licença o remédio para a opressão comunista. “Uma liberdade que por si própria recusasse vincular-se à verdade, degeneraria em arbítrio e acabaria por submeter-se às paixões mais vis, e por se autodestruir.” Quando uma nação, seja por força ou por escolha, vive segundo a mentira por tempo suficiente, as consequências vão para além da doença económica e da disfunção política. Os hábitos mudam. As culturas também.

Edith Stein
Depois de quase meio século de comunismo, o tipo de hábitos – as virtudes – sobre as quais assentam o autogoverno tinham atrofiado. Os cidadãos precisaram de aprender (ou reaprender) aquilo que outrora tinham sido simples verdades: que a confiança e a verdade não são fragilidades políticas, mas virtudes sociais necessárias. Isto leva tempo. Pode levar gerações.

O mesmo se aplica ao Ocidente, onde os hábitos de licença e excesso se tornaram comuns, ou quase a norma. Consumismo, individualismo, relativismo: estes vícios dissolvem as estruturas da solidariedade que devem dotar a sociedade de vitalidade e força. O resultado vê-se nas formas de profunda alienação social, preocupantemente parecidas com a alienação produzida pelo comunismo. A nossa relativa riqueza e poder tecnológico só pioram as coisas, tornando-nos complacentes.

Grande parte do Ocidente está inoculada contra o Evangelho. É como se as nossas sociedades não fossem apenas indiferentes, mas imunes à Boa Nova. Os “anticorpos” culturais do Ocidente pós-cristão tornam a missão de evangelizar ainda mais difícil. Tudo isto levanta diversas questões: os nossos esforços para humanizar e construir uma sociedade mais justa podem superar a tendência da nossa política, economia e tecnologia para desumanizar e corromper? Podemos construir de dentro uma cultura saudável, mais rapidamente do que é erodida de fora?

Estas questões tornam-se ainda mais perturbadoras quando se considera que as instituições que sempre serviram de obstáculo às piores formas de corrupção cultural – a família e a Igreja – estão, em muitos lugares, em crise. Hoje enfrentamos estes desafios, por assim dizer, de mãos atadas atrás das costas. A esperança pode ser difícil de conseguir.

O meu colega George Weigel alertou para aquilo que apelida de “tirania do possível”, a ideia de que por piores que sejam os tempos em que nos encontramos, por mais escuro que o futuro possa parecer, as coisas não poderiam ser diferentes daquilo que são. A história da Polónia também tem umas lições para nos dar a este respeito.

Foi há apenas uma geração que a força sufocante e aparentemente inquebrável do comunismo nesta parte do mundo terminou de forma abrupta e inesperada, com os eventos de 1989 e depois. E hoje os mártires de Auschwitz são venerados como símbolos de esperança e bondade, mesmo no meio do mal mais inexplicável. A história deste lugar está cheia de recordações de que a salvação não está nas promessas vãs das ideologias, nem nos poderosos deste mundo, mas naquele que se sujeitou à morte e que chama cada um de nós para O seguir até ao Calvário.

Na próxima semana o grupo vai visitar um local muito diferente de Auschwitz: o Santuário da Divina Misericórdia, onde os restos mortais de Santa Faustina Kowalska descansam debaixo da imagem que emergiu da obscuridade para ser venerada por todo o mundo. A misericórdia de Deus limita o mal do mundo. A sua luz brilha na escuridão – uma luz que as trevas não compreendem. Ele conquistou até a morte.

Si deus nobiscum quis contranos?


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 13 de Julho de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Wednesday, 24 August 2022

Mártir "in Odium Fidei"

Elizabeth A. Mitchell

Agosto é um mês de mártires. São Lourenço, São Bartolomeu, São João Baptista, São Sisto II e companheiros, Santos Ponciano e Hipólito, São Maximiliano Kolbe, Santa Edith Stein. O poder do martírio é sublinhado no Catecismo da Igreja Católica: “O martírio é o supremo testemunho dado em favor da verdade da fé; designa um testemunho que vai até à morte.”

O padre Steven Payne, O.C.D., que é presidente do Instituto Carmelita da América do Norte, escreveu, referindo-se a Edith Stein, que o testemunho do mártire é “o último capítulo que deve ser vivido, escrito, falado com o seu sangue”.

A questão do martírio de Edith Stein pela Fé Católica é essencial para compreender o testemunho dos que foram mortos por regimes autoritários, a quem São João Paulo II chamou “os novos mártires”. Apesar de a Causa de Canonização de Edith Stein ter começado por se basear apenas nas suas virtudes heroicas de fé, esperança e caridade, surgiram depois outras provas, nas primeiras fases do processo, que comprovam que Stein foi morta in odium fidei, por ódio à fé. A sua causa foi então reaberta como uma Causa de Martírio.

Porque é que Stein merece reconhecimento especial por uma morte que sofreram tantos milhões de judeus? O que é que faz da sua morte uma causa de santidade, comprovada num processo canónico da Igreja Católica? A resposta está nos motivos que levaram ao martírio de Stein.

O Positio super martyrio et super virtutibus canonizationis servae Dei Teresiae Benedictae a Cruce, que documenta o martírio de Stein, revela que embora a causa “informal” do martírio de Stein se “apresente como a união fundamental do ódio dos nacional-socialistas contra o Catolicismo e o Judaísmo”, a “causa formal e imediata da deportação e consequente homicídio dos judeus católicos na Holanda foi a vontade de castigar a Igreja Católica pelo seu protesto, e por isso tratou-se de odium fidei e não de ódio racial”.

A distinção entre a causa formal e informal de morte de Edith Stein é fundamental. Ela morreu por ódio à fé, uma qualificação necessária para ser considerada mártire católica.

No domingo, 26 de julho de 1942, foi lida de todos os púlpitos de igrejas católicas na Holanda uma carta pastoral a condenar a deportação dos judeus, num acto coordenado de resistência da Igreja Católica da Holanda. A carta é um protesto claro e directo contra as medidas antissemíticas em vigor na altura.

As comunidades eclesiais da Holanda, abaixo assinadas, estão profundamente abaladas pelas medidas levadas a cabo contra os judeus na Holanda, que os excluíram da participação na vida normal da sociedade, e foi com horror que soubemos das mais recentes ordens segundo as quais homens, mulheres, crianças e famílias inteiras devem ser deportadas para o território do Reich Alemão.

A retaliação nazi contra este desafio da Igreja Católica da Holanda foi rápida e letal. No dia 2 de Agosto foi foram arrebanhados judeus, com destaque para os que se tinham convertido ao catolicismo. Entre os que foram detidos estavam Stein e a sua irmã Rosa.

Todos os membros não-arianos de todas as comunidades religiosas holandesas foram detidos e levados. Em Echt ninguém sabia o que estava prestes a acontecer. Às cinco da tarde as irmãs tinham-se reunido no coro para meditação. A irmã Benedita estava a ler o ponto para a meditação quando se ouviu tocar duas vezes à porta. Estavam dois oficiais a perguntar pela irmã Stein.

A disponibilidade de Stein para o martírio, e a sua união interna com Cristo ao dar a vida por Ele são mais elementos críticos para o reconhecimento de Stein como mártir da fé católica.

Em 1933 ela tinha escrito uma carta tocante a Sua Santidade o Papa Pio XI, avisando que o silêncio perante a perseguição dos judeus pelo Nacional Socialismo abriria caminho para futura perseguição da fé cristã.

Depois da Noite de Cristal de 1938 Stein foi transferida de Colónia, na Alemanha, para o Carmelo em Echt, na Holanda. Quando foi chamada à sede da Gestapo em Maastricht, para ser interrogada, entrou na esquadra e saudou os oficiais presentes com a corajosa proclamação: “Louvado seja Jesus Cristo”.

A biógrafa irmã Teresia Renata Posselt O.C.D. recorda: “Admirados com esta saudação os oficiais olharam para cima, mas não responderam. Mais tarde Stein explicou à reverenda madre que se tinha sentido impelida a agir daquele modo – sabendo perfeitamente que era uma imprudência, do ponto de vista humano – porque entendia claramente que esta não era uma mera questão política, mas parte do combate eterno entre Jesus e Lúcifer.”

Detida no dia 2 de Agosto, de 1942, durante a retaliação nazi contra os fiéis católicos na Holanda, Stein foi transportada para uma série de campos de detenção, até chegar a Auschwitz. Quando a carruagem em que ela viajava chegou à estação de Schifferstadt, Stein enviou uma mensagem da plataforma para as freiras do Convento Dominicano de Santa Madalena, ali perto, em Sprayer. A sua mensagem revelou-se profética: “Grüβe von Sr. Teresia Benedicta a Cruce.  Unterwegs ad orientem”. “Saudações da Irmã Teresa Benedita da Cruz. Rumamos para Oriente”.

Estas corajosas palavras, “Rumamos para Oriente”, poderiam ter sido proferidas por cada um dos augustos mártires. São João Baptista prepara o caminho para a Ressurreição e a Vida. São Maximiliano Kolbe dá a vida por outro, no lugar de Cristo. O Sangue dos mártires papais é a semente da Igreja.

Por entre a escuridão do mal aparentemente omnipresente e omnipotente, estes santo testemunhos proclamam a Verdade, cada um no seu tempo. Com eles, também nós podemos dar a cara por Cristo no nosso tempo, oferecendo as nossas vidas in testimonium fidei.


(Publicado pela primeira vez no Domingo, 14 de Agosto de 2022 em The Catholic Thing)

Elizabeth A. Mitchell, é doutorada em Comunicação Social Institucional pela Universidade Pontifícia da Santa Cruz, em Roma, Itália, onde trabalhou como tradutora para a Sala de Imprensa da Santa Sé e para o L’Osservatore Romano. É decana dos alunos na Trinity Academy, um colégio católico privado no Wisconson. A sua tese “Artist and Image: Artistic Creativity and Personal Formation in the Thought of Edith Stein,” trata o papel da beleza na evangelização pela perspetiva de santa Edith Stein. Mitchell faz ainda parte da direção do Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe em La Crosse, Wisconsin, e é conselheira do Centro Internacional St. Gianna e Pietro Molla para a Família e para a Vida.

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

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Wednesday, 6 November 2019

Amor de 12ª Hora

Elizabeth A. Mitchell
Entre as ruas movimentadas de Londres, num bocadinho de passeio no cruzamento das ruas de Edgeware e Bayswater, não muito longe da famosa Marble Arch, está um memorial que assinala o local da árvore de Tyburn.

Numa cela abandonada, no agora abandonado Bloco II da Prisão de Auschwitz, um recluso gravou à mão uma imagem do Sagrado Coração.

Há muito que nos deixaram aqueles que sofreram pelas suas convicções nestes lugares infames, incluindo os mártires de Tyburn e São Maximiliano Kolbe. Silenciados pelas suas crenças, por regimes muito mais fortes que as suas pobres capacidades de resistência, as suas vozes deviam ter-se extinguido para sempre. Estes pequenos marcos deviam ser o único resquício dos seus testemunhos derrotados e aparentemente fúteis. 

E, porém, são antes os regimes e os tiranos que ficaram pelo caminho, derrotados e sem poder. Os portões de Auschwitz-Birkenau estão hoje abertos, o campo deserto e vazio. O poder absoluto que comandava os postos de vigia e que supervisionava a chegada dos comboios há muito que passou. As portas de Hampton Court agora recebem visitas e o seu poderoso senhor, Henrique VIII, foi reduzido a uma lenda vazia.

Mas as portas do Convento de Tyburn acolhem alegremente as almas consagradas que se oferecem em oração pela mesma Fé e Verdade que nem todo o poder do Rei pôde conquistar.

A cripta do Convento de Tyburn inclui a Capela dos Mártires, com uma coleção deslumbrante de relíquias preciosas destes corajosos homens e mulheres – leigos, padres e religiosos que preservaram a fé em Inglaterra durante o Reino de Terror. Entre as citações inscritas na parede da cripta estão as palavras ditas pelo superior cartusiano John Houghton do cadafalso do monte de Tyburn, em Londres, a 4 de maio de 1535: “Estou obrigado pela minha consciência, pronto e disposto a sofrer todo o género de tortura antes de negar uma doutrina da Igreja”.

Da sua cela na Torre de Londres, onde aguardava o seu próprio martírio, São Tomás Moro observou a procissão destes cartusianos a caminho de Tyburn, escrevendo à sua filha Margaret: “estes bem-aventurados padres caminham agora alegremente para as suas mortes como noivos para o casamento”.

Uma das grandes tentações que sentimos quando arriscamos tudo pela verdade é de pensar que o nosso sacrifício será em vão. Daremos tudo, e não importará. O objetivo será perdido, o mundo esquecer-se-á e também nós seremos esquecidos. Mesmo Nosso Senhor, tememos, esquecerá o nosso acto de amor e generosidade. Será inútil e infrutífero. E por isso fraquejamos.

Mas Nosso Senhor jamais se esquecerá. A autoimolação gerará fruto; a oferta terá poder porque é absoluta. Só dando tudo, sem reservas, podemos esperar ganhar o que seja que valha a pena guardar. 

São Paulo, depois de suportar sofrimentos intensos e enfrentando o martírio, confiante no prémio da rectidão, declarou que apenas uma coisa importava: combater o bom combate, não se desviar da rota, manter a fé. (2 Timóteo 4, 7-8)

“Amar é dar tudo, incluindo nós mesmos”, garante-nos Santa Teresa de Lisieux.

Numa carta dirigida à Madre Prioresa no Domingo da Paixão, a 26 de Março de 1939, poucos anos antes de morrer em Auschwitz, santa Edith Stein pediu: “Peço a vossa reverência que me permita oferecer-me ao Coração de Jesus como sacrifício de propiciação pela verdadeira paz, para que a caia o domínio do Anticristo. Gostaria que este pedido fosse atendido ainda hoje, pois estamos na décima-segunda hora. Sei que nada sou, mas é Jesus que o pede e certamente Ele pedirá a muitos outros que façam o mesmo nestes dias”.

A décima-segunda hora. Falamos frequentemente da décima-primeira – aquele momento em que permanece uma centelha de esperança. Mas Cristo delicia-se com o amor da décima-segunda hora. Permite que vejamos morrer o sonho, perder a batalha, e depois age. Exige de nós esperança quando toda a esperança está perdida.

“Pela fé, Abraão, quando foi posto à prova, ofereceu Isaac (…) ele pensava que Deus tem até poder para ressuscitar os mortos; por isso, numa espécie de prefiguração, recuperou o seu filho.” (Hebreus, 11, 17-19)

Lázaro está já morto (João 11, 1-4); a filha de Jairo está morta (Marcos 5, 21-43, Mateus 9, 18-26 e Lucas 8, 40-56). Parece que Cristo chegou demasiado tarde. Podemos baixar os braços e declarar que tudo está perdido, ou podemos elevar as mãos e declarar, com fé, “Senhor, é Tua a Vitória”. A lâmpada do santuário do coração de Nossa Senhora brilha ardentemente, enquanto Ele jaz no seu sepulcro.

É preciso dar um passo de fé para nos juntarmos à Procissão Nupcial do Cordeiro. Avançar dessa forma no nosso mundo requer um amor heroico, um “amor perfeito” que “lança fora o temor” (1 João, 4,18). Como diz o narrador no último acto de “A Loja do Ourives”, de Karol Wojtyla, “O amor foi mais forte que o medo, e hoje foram em frente”.

Cristo e a Sua Igreja precisam hoje, agora, do nosso testemunho e do nosso amor corajoso. Oferecendo-lhe as nossas vidas, através de um amor que supera o medo e até a morte, Ele nos dará tudo o que não podemos guardar sem nos perdermos nele. Entreguemos-lhe o nosso amor de décima-segunda hora e vejamos o seu poder salvífico alcançar a vitória final.


(Publicado pela primeira vez no Sábado, 2 de Novembro de 2019 em The Catholic Thing)

Elizabeth A. Mitchell, é doutorada em Comunicação Social Institucional pela Universidade Pontifícia da Santa Cruz, em Roma, Itália, onde trabalhou como tradutora para a Sala de Imprensa da Santa Sé e para o L’Osservatore Romano. É decana dos alunos na Trinity Academy, um colégio católico privado no Wisconson. A sua tese “Artist and Image: Artistic Creativity and Personal Formation in the Thought of Edith Stein,” trata o papel da beleza na evangelização pela perspetiva de santa Edith Stein. Mitchell faz ainda parte da direção do Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe em La Crosse, Wisconsin, e é conselheira do Centro Internacional St. Gianna e Pietro Molla para a Família e para a Vida.

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 20 January 2016

Sobre a questão da conversão dos judeus

Edith Stein
No passado Domingo o Papa Francisco esteve na Sinagoga de Roma, onde discursou. A dada altura disse o seguinte: “Os cristãos, para se compreenderem a si mesmos, não podem deixar de referir as suas raízes judaicas, e a Igreja, apesar de professar a salvação através da fé em Cristo, reconhece a irrevogabilidade da Antiga Aliança e o amor constante e fiel de Deus por Israel”.

Esta foi sem dúvida a passagem mais importante do seu discurso e nela o Papa refere-se a uma discussão teológica interna ao Cristianismo que passa por saber se os cristãos deviam pregar o Evangelho aos judeus. A teoria que parece estar a ganhar terreno na Igreja Católica é que os cristãos não devem procurar evangelizar os judeus de forma especial, uma vez que a Antiga Aliança ainda é válida – uma vez que as promessas de Deus são irrevogáveis, segundo a carta de São Paulo aos Romanos.

O meu bom amigo Tiago Cavaco, pastor evangélico, leu o discurso e não gostou. Porque o Tiago é boa pessoa e intelectualmente honesto, o seu texto não é um ataque cerrado – que seria fácil mas pouco produtivo de fazer – mas antes uma série de interrogações que, a meu ver, se podem resumir numa só. “Se os judeus não precisam de Jesus, o que é que Jesus veio cá fazer?”

Este meu texto, agora, não é uma defesa da posição da Igreja Católica ou do Papa. Antes, tenciono aqui deixar algumas pistas para ajudar à discussão, porque me parece que esta é uma discussão que importa ter e que não está de forma alguma resolvida.

Sendo assim:

1. Isto não é (assim tão) novo
O discurso do Papa trouxe o assunto mais para a ordem do dia, mas a primeira vez que eu dei por isto foi há mais de uma década. Na altura foi num documento da conferência episcopal americana. Eu li e a dada altura levantei o assunto com um professor do meu mestrado, na altura padre e agora bispo, que disse que achava isso tudo muito estranho. Mostrei-lhe o documento. Ele leu e, basicamente, descartou, dizendo que podia ser um documento de reflexão teológica da Igreja americana, mas a posição da Igreja Universal não era essa.

Mais recentemente a comissão do Vaticano para o diálogo religioso com os judeus publicou um novo documento a dizer basicamente a mesma coisa. “Que os judeus são participantes da salvação de Deus é teologicamente inquestionável, mas como isso é possível sem confessar Cristo explicitamente, é e permanece um mistério divino insondável”.

Antes de mais, para muita gente isto pode não ser claro, sobretudo para protestantes que não têm obrigação nenhuma de saber como é que as coisas funcionam no Vaticano, mas nem um documento da comissão para o diálogo, nem um discurso do Papa numa sinagoga vinculam a Igreja Universal a uma posição. Não me parece correcto, simplesmente por uma questão de rigor, dizer que a posição da Igreja Católica agora é esta ou aquela. Penso, aliás, que isto é claramente um “work in progress”. Todavia, o facto de o Papa ter endossado a ideia num discurso público não é, obviamente, irrelevante. O que quero deixar claro é que dentro da Igreja a ideia não é de modo algum unânime.

Cardeal Lustiger
Contudo, esta também não foi, ao contrário do que eu pensava quando li o discurso, a primeira vez que um Papa subscreve publicamente esta ideia. Rapidamente no twitter recebi referências de outras instâncias. Nomeadamente no Evangelii Gaudium, nº 247: “Um olhar muito especial é dirigido ao povo judeu, cuja Aliança com Deus nunca foi revogada, porque ‘os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis’”.

Mas o EG é um texto do Papa Francisco, portanto quem acha, como o Tiago, que este é o pior Papa das últimas décadas (e não são só protestantes que o acham), dificilmente se deixará tocar por isto. Mas a maioria dos grandes críticos de Francisco nutrem, ao mesmo tempo, uma enorme admiração por Bento XVI. Sei que é o caso do Tiago e sei que todos concordarão que BXVI não é o tipo de teólogo de se deixar levar por sentimentalismos.

Vejamos então o que ele escreveu nos seus livros sobre Jesus de Nazaré:

“A este respeito, no horizonte de fundo, aparece sempre também a questão sobre a missão de Israel. (…) uma nova reflexão permite reconhecer que é possível, em todas as obscuridades, encontrar pontos de partida para uma justa compreensão.

Quero referir aqui o que, relativamente a este ponto, aconselhou Bernardo de Claraval ao seu discípulo, o Papa Eugénio III. Recorda ao Papa que não lhe foi confiado o cuidado apenas dos cristãos. “Tu tens um dever também para com os infiéis, os judeus, os gregos e os pagãos”. Mas corrige-se logo a seguir, especificando: “Admito, relativamente aos judeus, que tens a desculpa do tempo; para eles foi estabelecido um determinado momento, que não se pode antecipar. Primeiro devem entrar os pagãos na sua totalidade. (…)

Hildegard Brem comenta assim este trecho de Bernardo: “Na sequência de Romanos 11,25, a Igreja não se deve preocupar com a conversão dos judeus, porque é preciso esperar o momento estabelecido por Deus, ou seja, “até que a totalidade dos gentios tenha entrado”. Ao contrário, os próprios judeus constituem uma pregação vivente, para a qual deve apontar a Igreja, porque nos trazem à mente a paixão de Cristo”.
Jesus de Nazaré – Da entrada em Jerusalém até à Ressurreição - Capítulo II, ponto 2

Este artigo contém uma interessante análise e comentários a este ponto.

2. O “efeito holocausto”
Embora seja relativamente fácil dizer que estas teorias são apenas o resultado de um complexo de culpa que sentimos em relação ao holocausto, por este só ter sido possível graças ao facto de haver um terreno fértil para o anti-semitismo, para o qual contribuíram mais de mil anos de Cristianismo europeu – o que não é obviamente o mesmo que dizer que o Cristianismo foi responsável pelo holocausto, atenção – penso que não é assim tão simples. Poderá ser um factor, mas não explica tudo. O já citado São Bernardo de Claraval não sofria certamente de complexos do holocausto.

Mas penso que o holocausto pode ter despertado entre os teólogos uma dúvida. Como é que uma ideia aparentemente tão benévola, de querer levar aos judeus o conhecimento do Messias que tanto dizem esperar, pode ter tido consequências tão trágicas ao longo de tantos séculos? É que não foi uma vez nem duas, foram centenas. Só para dar um exemplo, já que este texto pretende ser um diálogo com um pastor que se identifica com a tradição luterana, vemos o que aconteceu quando Lutero viu frustradas as suas tentativas de converter os judeus. Em 1543 escreveu o panfleto “Sobre os judeus e as suas mentiras” em que recomenda a destruição de casas e sinagogas de judeus, a proibição dos seus livros sagrados e dos rabinos ensinarem, etc. etc. Tragicamente, existem demasiados exemplos no lado católico também.

Repito que este meu texto não tem por objectivo defender a teoria de que não precisamos de pregar aos judeus, apenas de levantar mais algumas questões e apontar para fontes que podem contribuir para o aprofundamento. E é nesse sentido que pergunto se não é natural que alguém pense que esta estratégia de tentar converter os judeus fez mais mal do que bem ao longo dos milénios e se isso não será sinal de que o caminho não é esse, sobretudo tendo em conta o suporte neo-testamentário já citado.

Pe. David Neuhaus
3. Vozes ausentes
No meio de tudo isto, confesso que há vozes que ainda não ouvi mas que penso que são fundamentais para este debate. Refiro-me a católicos que tenham nascido judeus. O Cardeal Lustiger, de Paris, que morreu em 2007, sempre se afirmou judeu e embora não tenha ideia de ele ter abordado esta questão especificamente, pelo que ele dizia, nomeadamente ao intitular-se um “fulfilled Jew” (falta-me agora um termo adequado em português), leva-me a crer que discordaria da ideia de não se pregar aos judeus, embora esteja apenas a especular.

O padre David Neuhaus, que é vigário-geral para os católicos de língua hebraica, na Terra Santa, seria uma voz a ouvir também, mas tanto quanto vejo na net, ainda não se pronunciou sobre isto em particular. Se alguém tiver dados em contrário, que me avise.

Também não conheço suficientemente a obra de Edith Stein sobre esta questão, mas imagino que possa ter algo a dizer.

Este é um assunto complexo e que merece certamente muita reflexão e debate. Penso que todos, cristãos católicos ou reformados, ou mesmo judeus, temos a ganhar em fazê-lo e agradeço por isso o texto do Tiago que me levou a escrever este. 

Tuesday, 11 October 2011

Quando Cristo aparece num centro comercial saudita...

A situação no Egipto agravou-se desde Domingo. A comunidade cristã copta acusa agora o Governo (junta militar) de cumplicidade no massacre de mais de 20 dos seus irmãos. Depois da queda de Mubarak a situação dos coptas parecia estar a melhorar, uma escalada da tensão entre religiões pode ter consequências desastrosas para toda a região.
Muitos dos cristãos coptas testemunham a sua fé ostentando tatuagens religiosas. Pela mesma razão um futebolista colombiano foi detido, na Arábia Saudita


Para quem tem filhos entre os 4 e os 10 anos, conheçam aqui um livro que os pode ajudar a rezar.

Começa na próxima segunda-feira um curso sobre Ciência e Fé, em Miraflores. Este é um assunto cada vez mais “na berra” e as sessões parecem ser muito interessantes. Saiba mais aqui.
Por fim, hoje recordamos Edith Stein, ponte viva entre o Judaísmo e o Cristianismo, que morreu em Auschwitz e foi elevada aos altares em 1998.
Para além de padroeira da Europa, Edith Stein é, naturalmente, padroeira desta organização interessante.

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