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Wednesday, 22 March 2017

Que “multi”? Que “cultura”?

Anthony Esolen
É com orgulho que pertenço à instituição mais multicultural da história do mundo, de longe: Sou católico romano. E é com vergonha que pertenço a uma instituição que parece determinada a destruir aquilo que existe de verdadeiramente cultural na vida moderna: Sou professor universitário. A combinação dota-me de uma série infindável de perguntas que mais ninguém se preocupa em fazer.

Comecemos com o termo “multicultural”. A Igreja tem-no sido desde a sua criação. Lemos nos Actos dos Apóstolos que os seguidores de Jesus que vinham da diáspora judaica – os judeus helénicos, de língua grega – nem sempre eram bem acolhidos pelos que tinham vivido toda a vida na Palestina e que, presumivelmente, falavam aramaico. Foi preciso resolver esse conflito, mas reacendeu-se de forma ainda mais dramática quando São Paulo foi para Jerusalém para interceder não pelos judeus helénicos, mas pelos gregos helénicos, isto é gregos que tinham chegado a Cristo mas que nunca tinham sido judeus, e por isso não tinham seguido os preceitos litúrgicos e civis da Lei de Moisés.

A longa história da actividade missionária da Igreja seguiu o caminho aberto por São Paulo, que sabia que sem Cristo o homem estava perdido, mas também teve o cuidado de não transmitir a fé como se fosse uma série de hábitos culturais. A revelação de Deus, embora insuficiente para a salvação, é dada a todas as pessoas; por isso Paulo podia ser grego entre os gregos, tal como Matteo Ricci podia tornar-se mandarim para pregar aos mandarins na China.

Não pretendo com isto dizer que toda a gente devia ser multicultural. A principal mensagem cultural de Deus para os hebreus do Antigo Testamento é precisamente de que não devem ser como os seus vizinhos. Não deviam obrigar os seus filhos a passar pelo fogo de Moloch. Não deviam frequentar as bancas de Aserá nem participar na prostituição ritual com mulheres e rapazes. Não deviam chorar a morte anual do deus da fertilidade Tamuz.

Os judeus deviam ser judeus, e não pagãos que cantam um salmo de vez em quando. A festa das Luzes, o Hanucá, celebra a purificação e re-dedicação do Templo depois de os ocupadores gregos terem colocado uma estátua de Zeus – a abominação da desolação – no Santo dos Santos, e contra os colaboracionistas judaicos que encontravam formas de conviver com os esses cosmopolitas sofisticados.

Judas “o Martelo”, estava bem dentro da longa tradição de profetas intransigentes. Ele e Ezequiel haveriam de se ter entendido bem. Só na fidelidade a Deus é que os judeus, o povo escolhido, podiam cumprir o seu papel de levar a palavra de Deus às nações.

Uma pessoa sozinha pode ser multicultural, mas não é fácil e é menos comum hoje em dia do que era na Idade Média, quando um rapaz chamado Tomás, cuja língua mãe era italiano napolitano, podia viajar para Colónia para ter aulas de Latim com um mestre chamado Alberto, cuja língua mãe era alemão, e depois partir para Paris, para dar aulas numa cidade onde as pessoas falavam francês, convivendo com estudantes e mestres que vinham de toda a Europa, professando um Cristianismo carregado de aspectos de culturas locais, desde Trondheim a Messina.

Para se ser multicultural é preciso estar inteiramente à vontade com mais do que uma cultura e isso implica, normalmente, que é preciso falar fluentemente mais do que uma língua. Para além disso, deve-se possuir pelo menos duas arcas de tesouro de histórias e cantigas imemoriais; deve poder cantar sobre Davy Crocket e Simon Bolivar; terá entre os seus amigos os amantes de Manzoni e os Cavaleiros da Távola Redonda dos romances franceses; estará familiarizado com Bach e com as melodias tradicionais pentatónicas dos chineses. Não são coisas nas quais consegue meter um dedo, como um turista que se banha no Mediterrâneo. Serão a sua herança.

Posto nestes termos, poderá ver que nem um aluno em cem, talvez nem um em mil, pode dizer que possui sequer algumas das riquezas de mais do que uma cultura. Não é por qualquer falha pessoal. É porque a própria cultura, aquela coisa sobre a qual estamos supostamente a falar, está a desaparecer da face da terra e a ser substituída por uma coisa nova na história da humanidade, a que Gabriel Marcel chamou “Sociedade de Massas”, uma sociedade manufacturada pela educação massificada, inflamada pela política massificada e entretida pelo entretenimento em massa.

Por isso o estudante americano típico vem para a universidade e nem reconhece o nome de Alfred Tennyson (pense nisso um bocadinho); e o típico aluno hispano-americano vem para a universidade e não reconhece o nome de Tennyson nem de Lope de Veja. Não se pode ser multicultural quando não se pertence a cultura nenhuma.

Nesta fase, com os bárbaros de Wall Street, Hollywood, Washington e Bruxelas às portas de cada reduto de cultura local, linguística e nacional, o que é que a comunidade académica faz? Bem, faz aquilo que sempre fez, desde que me conheço: Rende-se.

Claro que reveste a sua traição com o vocabulário da respeitabilidade intelectual, mas quem não está interessado em Chretien de Troyes também não terá interesse na Senhora Murosaki. As pessoas que não ficam escandalizadas quando um anglófono com formação universitária não sabe nada sobre Milton – porque eles próprios, os professores, não sabem nada de Milton – não se vão escandalizar quando um francófono com formação universitária admite que não sabe nada de Racine.

A única instituição que ainda existe que pode defender a beleza e bondade da cultura é a Igreja. É nela que as culturas do mundo têm alguma hipótese de sobrevivência. Talvez isso explique porque é que a comunidade académica é tão hostil para com a Igreja. Os profissionais não gostam de ser ultrapassados pelo “amador”.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child. 

(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 16 de Março de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 19 March 2014

Pais, filhos e multiculturalismo

Pai e filho
Hoje é dia do Pai. Parabéns a todos os pais! Meus e do meu amigo Papa Francisco.

Precisamente hoje, e porque para os católicos o Papa é também uma figura paternal, foi lançado um livro para crianças sobre Francisco que vale a pena conhecer.

E como não há pais sem filhos, a Renascença publicou uma série de reportagens sobre a natalidade. Temos então uma entrevista com Maria do Rosário Carneiro, cuja transcrição integral pode ser lida aqui, e que nos dá um sentido da urgência da questão.

Temos também uma entrevista com o colunista João Miguel Tavares, pai de quatro filhos e autor de um livro recente sobre o tema.

Saibam, por fim, o que é que os partidos prometeram sobre este assunto (e não cumpriram) e o que diferentes figuras políticas, sociais e eclesiásticas disseram sobre este assunto da natalidade.

Hoje é dia de artigo do The Catholic Thing. O padre James V. Schall pergunta se é possível haver multiculturalismo sem uma noção comum de verdade. É um tema muito importante e bem analisado aqui por Schall.

Multiculturalismo

James V. Schall
A noção moderna de que todas as culturas e nações podem, e devem, viver juntas em harmonia requer uma destas duas proposições:
a) uma visão comum sobre as bases da virtude e da verdade ou,
b) a eliminação de qualquer diferença entre bem e mal, verdade e falsidade.

O “multiculturalismo”, em si uma construção mental, é o que acontece quando a alternativa b é aceite, não como “verdadeira”, mas como “prática”, com a qual se pode “trabalhar”.

As culturas, porém, não são filosófica e moralmente neutras. Dentro de cada uma podem-se encontrar certas configurações de hábitos, leis e costumes bons ou maus. Em épocas anteriores, apesar de ter havido migrações massivas, era difícil passar de um país para outro. Cada cultura determinava as normas segundo as quais tencionava viver.

Quando grandes números de pessoas podem emigrar, legal ou ilegalmente, para outros países, trazem consigo práticas culturais. As pessoas emigram para alcançar os seus “direitos”, aquilo que lhes é “devido”. Ao ir para outra cultura, uma vez que todas são iguais, ninguém pode ser obrigado a mudar os seus hábitos, língua, religião ou costumes. Toda a gente tem o “direito” a estabelecer no seu novo ambiente, o sistema que abandonou.

A visão contrária, assimilacionista, contudo, defende que quando alguém parte para outro país, deve tornar-se membro da nova sociedade, aprender a língua, as maneiras e os costumes. A razão pela qual o emigrante escolheu este novo país ou cultura é porque pensa que ela é melhor que a que abandonou. Esta visão parte do princípio que alguns regimes são melhores que outros. O propósito dos estados e das nações é de providenciar um lugar onde cada um pode viver a sua “verdade”, independentemente de como outros possam viver. Esta visão implica o poder de proteger a sua própria política.

Há quem defenda que todos os problemas do mundo são problemas locais. Se há um problema de tirania e de pobreza num país, ou numa área, então isso é da responsabilidade de todos. Todos os problemas são, desse ponto de vista, internacionais. Esta posição implica que de facto apenas existe um Estado mundial no qual todos os cidadãos têm “direitos” idênticos. Impostos, exércitos, polícias, leis e costumes devem adequar-se a uma ideia comum de cultura. Os verdadeiros inimigos são aqueles que defendem que a verdade, seja pela razão ou pela revelação, é possível. A paz apenas chegará ao mundo quando estas ideias forem eliminadas, a “verdade” oficial é que de que não existe verdade.

Daí que tanto os governos nacionais e mundiais devem garantir esses “direitos” estabelecidos. Basicamente, temos de nos livrar de todas as instituições e ideias que defendem que existe uma verdade transcendente. Temos de eliminar, sistematicamente, da ordem pública, e em nome dos “direitos”, todas as afirmações que radicam na ideia de uma “natureza” humana universal. Ideias como de que a família é uma instituição “natural”, composta por um homem, uma mulher e crianças; de que a distinção dos sexos significa algo, que o aborto está errado, e que não devemos reconfigurar o homem à nossa vontade devem ser declaradas “anti-humanas” e proscritas.
 
"Que é a verdade?"
 “O homem contemporâneo não pode ser definido pela ausência de referências morais”, escreve Chantal Delsol em “Icarus Fallen”:

“Mas pela rejeição do Mal e uma apologética do Bem que são consideradas evidentes e desligadas de qualquer ideia de uma verdade objectiva que as legitime. Não seria correcto, porém, ver nesta atitude uma incapacidade da mente descobrir as suas fundações. Pelo contrário, esta atitude significa uma recusa a procurar sequer estas fundações, por medo de as descobrir. O homem contemporâneo postula não um vazio de verdade, mas o perigo da verdade.”

E qual é o “perigo” da verdade? É de que a verdade existe e serve de medida para as nossas acções e pensamentos.

Neste sentido, todo o projecto multicultural de permitir tudo, com o Estado a servir de garante deste “direito” a tudo, atinge a incoerência. O único tipo de multiculturalismo que é possível é aquele que reconhece a ordem transcendente. Um multiculturalismo que a nega acaba por estabelecer e aplicar uma ordem mundial em que apenas aquilo que é objectivamente verdade é proibido. O “medo” é precisamente de que a verdade existe. A recusa em procurar esta verdade recorda-nos a cena em Górgias, de Platão, em que o político se recusa a ouvir um argumento, para não ser obrigado a admitir a sua lógica.

O “mal” que o multiculturalismo recusa é o “mal” que afirma a existência da verdade. A verdade não é “vazia”, a sua abundância é rejeitada. Existem maneiras de viver correctas, que se aplicam a todas as culturas. Esta afirmação não implica a existência de um só estado ou de uma só língua, pelo contrário. Mas implica, isso sim, uma distinção objectiva entre o bem e o mal, a verdade e a falsidade, em todas as culturas. Esta é a verdade que está na raiz do espírito transcendente que se encontrava inicialmente na filosofia grega, no direito romano e na revelação cristã.


James V. Schall, S.J., é professor na Universidade de Georgetown e um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seu mais recente livro chama-se The Mind That Is Catholic.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 18 de Março de 2014 em The Catholic Thing)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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