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Wednesday, 10 January 2018

Empurrando problemas com a barriga...

Randall Smith
Há alguns anos surgiu um filme chamado “A Corrente do Bem” [Pay it Forward], cuja ideia principal era de que quando alguém nos faz bem, em vez de retribuir devia-se fazer bem a outra pessoa. A realidade costuma ser menos benigna. O que as pessoas costumam passar aos outros são os resultados de um trabalho mal feito, um problema por resolver, uma disfunção que vai passando de gabinete em gabinete até que cai no colo de alguém que não tem nem a autoridade para o poder passar a mais ninguém.

Digamos que um jovem padre, acabado de se formar em Direito Canónico, é colocado num tribunal diocesano, esperando idealisticamente poder aplicar o conhecimento e as práticas que aprendeu, com base na tradição da Igreja, aos desafios pastoralmente difíceis dos casos de nulidade. O que descobre, porém, é que há anos que o tribunal não segue essas práticas, adoptando uma atitude de despachar os processos, dos quais muito poucos são rejeitados.

Estes funcionários sabem, com base em décadas de experiência (uma vez que muitos estão no tribunal desde os anos 70) que se recusarem um processo, ou se recusarem a nulidade, as partes envolvidas tendem a abandonar a Igreja. Por isso, quando o nosso jovem padre chega, o tribunal encontra-se a decretar algumas centenas de nulidades por ano, tendo rejeitado apenas oito ou nove na última década.

O jovem padre idealista decide resistir a este laxismo burocrático. Assim ele é que passa a ser o problema. A burocracia diocesana gere as coisas de uma certa forma há anos; os padres que aconselham os casais estão habituados a dizer-lhes que não haverá qualquer problema uma vez ultrapassada a difícil fase do preenchimento dos papéis.

Ao resistir, o nosso jovem padre vai causar muito mal-estar. Pessoas zangadas por terem visto os seus processos negados irão abandonar a Igreja e os padres que os aconselharam ficarão furiosos. Se o conflito se tornar público os comentadores “liberais” escreverão artigos revoltados, lamentando a “falta de caridade e sensibilidade pastoral” do tribunal, enquanto os “conservadores” criticarão o tribunal por ser tão laxista, insistindo que a caridade maior é a aplicação rigorosa das leis da Igreja.

Eu, para dizer a verdade, não tenho nada a dizer sobre o assunto.

Em vez disso, pergunto se não fará sentido sugerir que “o problema” começou muito antes. Cada pedido de nulidade que chega ao tribunal deve ser considerado uma falha na preparação para o matrimónio. Se a Igreja pode legitimamente decretar a nulidade de tantos casamentos por ano, então tem de enfrentar a triste realidade de que todos os anos milhares de casais católicos não estão a ser bem preparados para o casamento. Tentar lidar com o problema na fase do processo de nulidade é como tapar uma ferida de bala com um penso. Não faz mais do que esconder o problema, em vez de lidar com a ferida profunda, que devia ter sido evitada. Um “hospital de campanha” responsável deveria perguntar porque é estão a aparecer tantas pessoas vítimas de balas, em vez de procurar pensos mais sofisticados.

O pessoal das urgências era capaz de ficar irritado se um médico se recusasse a fazer como todos os outros e simplesmente tapar a ferida com um penso. Parece cruel deixar a ferida aberta. Mas devemos continuar a tapar os problemas em vez de lidar com as suas causas? Os médicos das urgências que já fizeram as pazes com aquilo que se lhes pede há anos provavelmente dirão que não conseguem controlar o que se passa antes de os feridos darem entrada, e isso é verdade, eles não criaram o problema, simplesmente caiu-lhes no colo. E agora?

Hospital de Campanha na Áustria, Primeira Guerra Mundial
Podíamos fazer um comentário semelhante sobre as escolas católicas. As escolas não costumam estar na raiz dos problemas, mas são o local onde todos os problemas tóxicos, que grassam na nossa cultura, vão parar. Questões com drogas e álcool, pornografia e a adolescência híper-sexualizada; consumismo; as pressões de ser bem-sucedido numa economia tecnocrática e globalizada; e por detrás de todas estas, as dificuldades de lidar com as exigências cada vez mais insaciáveis de multidões de indivíduos autónomos alimentados pela ideologia do Estado liberal e que acreditam que têm o “direito” de fazer o que querem, com pouca ou nenhuma consideração pelos desejos dos outros e as obrigações para com a comunidade.

O resultado é que temos uma população, incluindo americanos, que sentem que têm o “direito” a casar e a casar nesta igreja; o “direito” a uma declaração de nulidade quando as coisas não correm bem; o “direito” a ter a escola católica que querem (o que pode significar aulas de educação sexual, ética ambiental ou missa em latim); e o “direito” de escolher a vida que querem, quer isso signifique o “direito” a um aborto, o “direito” a casas de banho transgénero ou o “direito” a acumular toda a riqueza possível para poder comprar os bens de consumo que querem.

Por isso, e quando os padres insistem perante as suas congregações que a principal virtude cristã é “ser simpático”, esses fiéis têm alguma dificuldade em compreender porque é que uma instituição católica lhes negaria o que consideram ser desejos legítimos, porque negar às pessoas aquilo que querem não é “simpático”. Quando se alimenta uma cultura de liberalismo autónomo e se prega o Evangelho de deísmo terapêutico moralista, está-se a dar força às raízes das ervas daninhas da nossa cultura, muitas das quais acabarão por crescer com força no jardim de alguém que não tem os recursos necessários para se livrar delas.

Por isso podemos continuar a discutir amargamente e sem fim sobre os tribunais e as escolas onde os problemas acabam por ir parar – embora nesse ponto as dificuldades são já tão grandes e os recursos tão escassos que teria sorte se até um penso lhe dessem. Ou então podemos levar a sério o que está a acontecer na nossa cultura e o que não se está a passar na nossa Igreja e começar a responsabilizar as pessoas envolvidas no sistema, a começar por nós, para não empurrem mais os problemas com a barriga.

Talvez devêssemos fazer disso a nossa resolução de Ano Novo.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 3 de Janeiro de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 7 October 2015

A Criança Invisível

Anthony Esolen
Ultimamente tenho pensado em casamentos e processos de nulidade e na instrução do Senhor de que devíamos sair em busca da ovelha perdida no deserto, longe das outras 99. Creio profundamente nessa instrução, porque essa ovelha era eu.

Mas o que acontece se for devido à nossa negligência e desobediência que a ovelha se perde? Será que o pastor vai em busca da ovelha perdida só porque isso é mais fácil do que cuidar do aprisco que deixou degradar-se? Vemo-lo a cantarolar pelo prado enquanto o lobo se aproxima? E quando regressa com a ovelha perdida dá-se ao trabalho de contar as que permanecem? Repara sequer no sangue e nas entranhas que mancham as paredes em ruínas?

Um rapaz tinha uma mãe e um pai. Eles tinham prometido amar-se um ao outro e serem fiéis até que a morte, e só a morte, os separasse. Não eram mentalmente débeis, sabiam o que significavam as palavras daquela promessa. E o rapaz era feliz.

Depois apareceu o Pai das Nuances, que sussurrou ao marido que as palavras são só palavras, não são coisas, e que as palavras estão sujeitas a interpretação, e que uma palavra proferida com total confiança num contexto poderia não ter o mesmo significado quando o contexto mudasse. E tinha mudado, porque a mulher era agora mais velha e os seus hábitos femininos que em tempos tinham fascinado o marido, agora não passavam de alfinetadas e beliscões. Por isso ele começou a deixar o seu olhar resvalar e o seu coração endureceu.

“Mulher”, disse, “vou levar a minha metade dos bens, que me pertence”. E ela não pôde fazer nada, por causa das leis do país onde viviam. Por isso ele vendeu a casa, a casa que o rapaz tanto amava, e levou metade dos bens e viajou para um país distante. Mas não foi sozinho. Levou outra mulher com ele.

E o rapaz amava o seu pai, porque era seu pai; e odiava-o, porque os tinha abandonado. E não havia quem o conseguisse consolar. Os seus professores chegaram ao ponto de lhe dizer que tinha sorte, porque agora tinha duas mães em vez de uma e duas casas também. Em breve teria também dois pais, porque a sua mãe desanimou.

Ela foi ter com um padre e disse: “Vê como o meu marido nos deixou a sangrar na berma da estrada”. Mas o padre não podia fazer nada por ela, incentivou-a a perdoar o marido e sugeriu que se juntasse a um grupo da paróquia para adultos solteiros. Foi ter com um escriba, perito na lei, e disse: “Vê como o meu marido quebrou os seus votos, agora estamos em sofrimento”, mas o escriba sorriu e disse que ela devia estar satisfeita com o que tinha recebido, que era bem generoso. 

E por isso desanimou. E um dia quando ela e o seu filho estavam no Templo, juntamente com outros, em oração, ouviu as palavras daquele que disse, “Então eles já não serão dois, mas uma só carne. E por isso não separe o homem o que Deus uniu”.

E então o padre disse que as palavras não passam de palavras, e que as palavras estão sujeitas a interpretação, e que uma palavra proferida num contexto não tem de significar o mesmo quando o contexto mudar. E tinha mudado, porque o padre incentivou os fiéis a abrirem as suas mentes e aceitar os fornicadores, os sodomitas e os adúlteros no meio deles. E o rapaz ouviu tudo, e passou a acreditar que tudo aquilo não passava de uma mentira.

Era suposto dizer que gostava de visitar o seu pai e a mulher que tinha ajudado a estragar a sua juventude, mas era mentira. Era suposto dizer que acreditava nas palavras de Jesus, mas pelos vistos ninguém acreditava nelas, em vez disso mentiam continuamente. A sua mãe passou a viver com outro homem, sem se dar ao trabalho de casar, porque ninguém acreditava que existia ligação entre o casamento e o acto conjugal, por isso deitavam-se no seu pecado como se nada fosse, continuamente. Era suposto ele amar aquele homem, e de certa forma amava, mas também era suposto fingir que tudo tinha acabado da melhor maneira, o que também era mentira.

"Por isso embriagou-se..."
Quando o seu corpo estava preparado para a fornicação, também ele estava. Tornou-se especialista no acto de dizer, com o seu corpo, “sou teu para sempre”, quando na verdade “para sempre” queria dizer apenas “até ficar farto de ti”, o que por vezes acontecia pouco tempo depois, outras vezes esgotava-se no próprio acto. Mas as raparigas mentiam também, por isso não devemos sentir muita pena por elas.

Então um dia o seu pai regressou com a madrasta e as pessoas foram instruídas a celebrar, porque ele tinha regressado. Não tinha regressado à sua mulher, e não procurou recompensar o seu filho pela sua tristeza, abandono e perda de fé. Não disse “trata-me como um dos teus empregados, porque pequei contra Deus e contra ti”, disse: “Vinde e festejai comigo, porque regressei!”

E o bispo gordo disse ao rapaz: “É bom que vás festejar com o teu pai, porque ele regressou”.

Por isso o rapaz foi para o banquete e embriagou-se. Afastou da memória as muitas vezes que tinha chorado de noite, porque o seu pai não estava lá. Afastou da memória aquele primeiro dia em que percebeu que ninguém dizia a verdade. Afastou da sua imaginação aquele Jesus que disse: “Deixai vir a mim as criancinhas”.

Pendurou uma mó à volta do seu coração. Não perdoou, porque toda a gente lhe dizia que não havia nada a perdoar. Por isso embriagou-se.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 30 de Setembro de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 23 September 2015

O Casamento num Mundo de Ilusões

David Warren
Nota prévia: Hesitei antes de publicar este artigo, por uma série de razões. Em primeiro lugar porque o David Warren tem um estilo de escrita bastante difícil, ainda para mais quando é traduzido. Os seus textos e os seus raciocínios não são os mais fáceis de acompanhar.

Em segundo lugar, porque não concordo inteiramente com ele neste artigo em particular. Nunca tive a pretensão de apenas publicar artigos do The Catholic Thing com os quais estou 100% de acordo. Às vezes escolho os textos porque dizem respeito a temas actuais e contribuem para um debate inteligente sobre os mesmos.

Ao contrário do que o David dá a entender, eu não acho que a agilização dos processos de nulidade seja um erro ou que seja tudo mau. Mas estou de acordo com o seu principal argumento neste artigo. Isto é, que o casamento é uma instituição natural, em todos os sentidos da palavra, e que por isso a compreensão das suas exigências e dos seus objectivos está ao alcance até dos mais simples. Não tenho dificuldade em aceitar que há muitos casamentos nulos, por diversas razões, mas tenho a maior dificuldade em aceitar que os casamentos nulos sejam uma enorme proporção, ou até maioritários, porque a nossa geração é incapaz de compreender algo que estava perfeitamente ao alcance dos nossos antepassados mais recônditos e o está ainda dos nossos irmãos actuais nos pontos mais distantes do planeta.

Dito isto, deixo-vos com o artigo de hoje do The Catholic Thing.

Filipe d'Avillez

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Talvez devêssemos distinguir entre as coisas que as pessoas não compreendem e as coisas que as pessoas não querem compreender.

Permitam-me desafiar a ideia actualmente generalizada de que a natureza do casamento, os ensinamentos de Cristo sobre o casamento e os requisitos da Igreja Católica a este respeito não estão para além da capacidade de compreensão de metade da população. Eu tenho menos confiança do que a maioria das pessoas na “inteligência média”, mas neste caso acho que consigo ver o fundo.

Vou tornar esta história mais pessoal, a meu próprio custo. O meu próprio casamento (e foi apenas um) desintegrou-se há muitos anos. Não seria justo da minha parte explicar porquê num fórum público, mas bastará dizer que seria preciso estar sob o efeito de alucinogénios para acreditar que a minha ex-mulher carrega com todas as culpas.

Duas vezes estive quase a pedir uma “anulação”. Ambas as vezes reconsiderei.

Essa união resultou no nascimento de dois belos rapazes, actualmente crescidos. O mais novo tem Trissomia XXI. O seu nascimento em si forneceu prova suficiente de que existia um casamento, mesmo que tenha sido realizado numa igreja anglicana. Ambos os seus pais estavam apostados, por uma questão de princípio, a ficar com ele, mesmo que que tivesse oito pernas e cinco olhos.

Que provas?

Em primeiro lugar revelou uma compreensão do casamento, mesmo sob stress. Não se abandonam os filhos – sendo que aqui o termo “abandono” é suficientemente alargado para incluir matá-los. A taxa de aborto pode continuar a ser alta, mas a proporção de pessoas que pensa que o aborto é uma coisa boa mantém-se baixa. Vemos manobras intelectuais para o tentar justificar e o horror da imprensa sensacionalista quando um bebé é encontrado abandonado. As pessoas olham para o seu bebé e sabem que não se deve matá-lo ou deitá-lo fora.

A própria ideia de órfãos enche-nos de compaixão, porque antes mesmo de nos termos “objectivado” já criámos empatia com a criança. Até compreendemos a forma obsessiva como o órfão já adulto procura a sua mãe ou o seu pai biológico. Sabemos que estão também à procura de eles mesmos.

Em segundo lugar esta criança, que não é propriamente o Einstein, tinha uma compreensão plena do que é o casamento antes de ter sete anos. Notava-se nas palavras enternecedoras “somos família”, ou no recreio para onde eu o levava e onde – para minha grande vergonha – ele ia ter com estranhos e, apontando para mim, declarava: “Aquele é o meu pai!”

E quando estava perto dos 12 anos e os seus pais estavam claramente em fase de separação – nos momentos antes de eu perder o meu lar – ele suplicava: “Mas pai, casou com a mãe”. Estas são palavras que levarei comigo para a sepultura. Porque ele compreendia perfeitamente o conceito.

Talvez a própria simplicidade do rapaz tenha contribuído para a sua claridade nesta matéria.

Tanto quanto podemos ver, os camponeses medievais não tinham qualquer problema em compreender o casamento. Os verdadeiros pobres de Ásia e de África compreendem, como eu próprio já testemunhei. É preciso uma boa dose de sofisticação intelectual pós-moderna para ser incapaz de compreender o que é uma família, enquanto instituição permanente e fértil, fundada sobre uma mulher e um homem.

Uma “instituição” diferente em género de uma companhia limitada e que antecede (cronológica e logicamente) qualquer lei de contratos. Antecede de tal forma que me parece ser autoevidente, autoexplicativa e compreensível desde Adão e Eva. Atravessa todas as culturas e até nos costumes primitivos da poligamia mantém os temas de procriação e herança.

Já antes escrevi que há dois tipos de sofismas – e há boas razões pelas quais o segundo tipo raramente é examinado. Fingimos saber o que não sabemos; mas tais pretensões são fáceis de expor e nós próprios sabemos que estamos a mentir ou que nos estamos a armar. Mais destrutivo é quando fingimos não saber aquilo que sabemos.

A maioria tenderá a concordar que vivemos numa “era de ansiedade” e a ansiedade é suficiente para querermos saber qual é a causa subjacente. Na minha opinião trata-se da recusa em reconhecer coisas relativamente evidentes. Estamos a tentar viver “como se” certas verdades não fossem verdade, mesmo como se certas palavras não significassem o que sempre significaram.

Será mesmo tão difícil de compreender?
Este tipo de negação requer muita energia. Cansa as pessoas muito mais do que estarem sentadas todo o dia num cubículo com um teclado e um ecrã. Chegam ao fim do dia não fisicamente cansadas, mas emocionalmente de rastos. São anos de trabalho para esquecer porquê.

A vida familiar é demasiado dura para nós, nas condições actuais. É demasiado real. Estramos rodeados de opções irreais, desde os romances de escritório aos jogos de computador e todas as outras formas de evasão. Tal como aqueles órfãos, mas ao contrário, fugimos de toda a gente na tentativa de fugir de nós mesmos. O encontro com a realidade é demasiado difícil.

Quando clérigos, bem-intencionados mas imprudentes, dizem que metade dos casamentos são inválidos – seja na diocese de Buenos Aires ou na minha de Toronto – eu sei o que querem dizer com isso. Mas se é metade, então é mais que metade e nesse caso mais vale abolir os casamentos todos e recusarmo-nos a começar de novo.

Porque não agilizar o processo ainda mais, com o envio em massa de Declarações de Nulidade para toda a gente no correio? Depois, se formos honestos, recusamo-nos a recasar quem quer que seja, pois estamos a lidar com uma raça tão perversa que afirma nem saber o que é o casamento.

Refiro-me, claro está, à humanidade, a “raça fantástica” como Jonathan Swift os apelidou. Ele não usava o termo no sentido moderno de “maravilhosa” ou “fora de série”, mas no sentido mais antigo de “louca”, completamente maluquinha.

À Igreja cabe a tarefa de resistir a estes fantasmas, estas “falsa consciência” de que os homens precisam de pouca desculpa para cair no “pecado” que guia as nossas acções quando descarrilamos. Cabe à Igreja não se acomodar às ilusões.


David Warren é o ex-director da revista Idler e é cronista no Ottowa Citizen. Tem uma larga experiência no próximo e extreme oriente. O seu blog pessoal chama-se Essays in Idelness.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 19 de Setembro de 2015 em The Catholic Thing)

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Tuesday, 8 September 2015

Nulidade agilizada e solidariedade com refugiados

Os processos de nulidade dos casamentos católicos vão ser mais rápidos e simples a partir de Dezembro. Com as reformas introduzidas pelo Papa há mais responsabilidade do bispo local o que deverá resultar em menos espera por parte de quem se encontra nestas situações complicadas.

Um especialista português fala mesmo num conceito de “via verde” da nulidade.

Numa altura em que se continua a falar muito da crise dos refugiados, um bispo húngaro criticou os pedidos do Papa para acolher quem pede ajuda. Mas a conferência episcopal da Hungria, numa prova de unidade com Francisco, publicou ontem uma carta em que se coloca ao dispor para acolher quem precisar.

Em relação ao tema dos refugiados, a sociedade civil continua a mexer-se e as igrejas vão fazendo a sua parte. De um amigo evangélico recebi a informação deste evento de 24 horas de oração pelos refugiados, para o qual todos, católicos, protestantes ou outros, se devem sentir convidados!

Ao longo destes dias era suposto ter-se realizado uma visita da imagem peregrina de Fátima a Damasco, mas tal não foi possível por razões de segurança. Mas a oração é sempre possível e por isso a fundação Ajuda à Igreja que Sofre pede que se intensifique a oração pela paz na Síria nestes dias.

Wednesday, 17 December 2014

O Grande Ausente do Sínodo: A Contracepção

Vários casais foram convidados para participar no recente Sínodo Extraordinário que decorreu no Vaticano em Outubro, como auditores, sem direito a voto, para partilhar as suas experiências no terreno com os padres sinodais.

Um casal brasileiro, Arturo e Hermelinda Zamperlini, mostraram de forma impressionante como a contracepção é o contexto segundo o qual os muitos problemas que dizem respeito ao casamento devem ser compreendidos. A sua experiência coincide certamente com os factos das famílias católica noutras partes do mundo.

Pelas suas palavras: “Devemos admitir sem medo que muitos casais católicos, mesmo os que procuram viver o seu casamento de forma séria, não se sentem na obrigação de usar os métodos naturais [de planeamento familiar]… A isto acresce que normalmente não são questionados sobre o assunto pelos seus confessores… Em geral não consideram que seja um problema moral”.

Os Zamperlini pediram ao Papa e ao Sínodo que clarificassem e propagassem os ensinamentos da encíclica de Papa Paulo VI, Humanae Vitae. Um dos padres sinodais, o Cardeal Andre Vingt-Trois de Paris, apoiou-os, indicando que existe um novo “paradigma” (uma nova “norma”?) para os casais católicos: “Tudo isto tem consequências para a prática sacramental dos casais que frequentemente não encaram o uso de métodos contraceptivos como um pecado e, por isso, tendem a não confessar o facto e recebem comunhão sem problemas”.

O relatório final do sínodo menciona brevemente a contracepção no parágrafo 58, recomendando os “métodos naturais de regulamento da natalidade”. Mas a frase final, traduzida para inglês, levou a algumas interpretações ambíguas. No italiano lê-se: “Va riscoperto il messaggio dell’Enciclica Humanae Vitae di Paolo VI, che sottolinea il bisogno di rispettare la dignità della persona nella valutazione morale dei metodi di regolazione della natalità”, e o inglês diz: “we should return to the message of the Encyclical Humanae Vitae of Blessed Pope Paul VI, which highlights the need to respect the dignity of the person in morally assessing methods in regulating births.” [devemos regressar à mensagem da encíclica Humanae Vitae, do beato Paulo VI, que sublinhou a necessidade de respeitar a dignidade da pessoa na avaliação dos métodos naturais de regulação dos nascimentos.]

Os padres sinodais referem-se, como é evidente, à insistência de Paulo VI no Humanae Vitae de que os métodos de regulação dos nascimentos deviam respeitar a dignidade pessoal. Por exemplo, o parágrafo 17, que diz: “É ainda de recear que o homem, habituando-se ao uso das práticas anticoncepcionais, acabe por perder o respeito pela mulher e, sem se preocupar mais com o equilíbrio físico e psicológico dela, chegue a considerá-la como simples instrumento de prazer egoísta e não mais como a sua companheira, respeitada e amada.”

No final do Sínodo Extraordinário, Nicole Winfield, uma jornalista da Associated Press, propôs uma interpretação diferente: “No documento sinodal final os bispos reafirmaram a doutrina, mas disseram ainda que a Igreja devia respeitar os casais na sua avaliação moral dos métodos contraceptivos” [ênfase acrescentada]. Por outras palavras, ela interpreta os bispos como dizendo que precisamos de respeitar a dignidade da pessoa no acto de avaliar que métodos usar para regular os nascimentos, que é tudo uma questão de consciência individual. Se uma pessoa e o seu confessor acharem que a pílula não tem problema, tudo bem, respeitamos essa decisão.

Esta interpretação errada pode bem coincidir com a opinião geral dos casais católicos (e dos seus confessores) e ser a razão pela qual a vasta maioria dos católicos não se opõe à contracepção. Se for o caso, muitos dos assuntos familiares/maritais discutidos no sínodo têm como “denominador comum” as práticas contraceptivas generalizadas. Isto devia ter um efeito sobre as deliberações do sínodo.

Arturo e Hermelinda Zamperlini

Alguns exemplos:

·         Se um casal divorciado nunca pretendeu estar aberto à procriação, o casamento é inválido aos olhos do Direito Canónico, pelo que uma declaração de nulidade poderá mesmo parecer desnecessária.

·         Se um cônjuge num casamento válido decidir usar contraceptivos para evitar ter filhos, e o esposo não consentir, isto deve ser razão suficiente para declarar a nulidade do casamento?

·         Se os casais estiverem a praticar sexo antiprocreativo, como é que podem julgar consistentemente os homossexuais que também o fazem? Ou proibi-los de casar?

·         Se um casal que coabita estiver a usar contracepção, deve isto ser um impedimento ao casamento sacramental?

·         Quando se fala em admitir uma pessoa em união irregular à comunhão, o factor contraceptivo deve ser tido em conta? Ou já não é relevante?

Na conclusão do Sínodo Extraordinário de Outubro o meu pároco mostrou-se surpreendido, na sua homilia dominical, pelo facto de o tema do acesso aos sacramentos por parte de pessoas em uniões irregulares ser sequer uma questão teológica, uma vez que ele e os seus colegas concedem frequentemente esse privilégio a muitos que o procuram, sem qualquer autorização superior.

Esta prática (chamada praxis in foro interno, i.e. que diz respeito ao “foro interno” da consciência) foi aprovada em 1973 pela Congregação para a Doutrina da Fé, mas restringido em 1981 pelo Papa João Paulo II na sua exortação apostólica Familiaris Consortio.

Numa exortação apostólica de 2007 o Papa Bento XVI (que em 1972, enquanto teólogo, tinha manifestado algum apoio à prática), afirmou que o Sínodo da Eucaristia de 2005 “confirmou a prática da Igreja, fundada na Sagrada Escritura (Mc 10, 2-12), de não admitir aos sacramentos os divorciados recasados, porque o seu estado e condição de vida contradizem objectivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja que é significada e realizada na Eucaristia”.

Mas pelos vistos o forum internum continua a ser utilizado frequentemente pelos confessores não só para permitir a comunhão a divorciados e recasados, mas também o uso de contraceptivos.

Vale a pena sublinhar que os padres sinodais que se mostraram favoráveis à admissão de católicos divorciados e recasados à comunhão não abordaram o tema da contracepção, que seria um impedimento adicional. Talvez estivessem a partir do princípio que a maioria dos divorciados e recasados, ao contrário de muitos dos outros católicos, evitariam a contracepção.

O Sínodo Ordinário da Família e Evangelização de 2015 terá uma nova oportunidade para abordar estas questões, que a Igreja, como os Zamperlinis disseram, e com razão, precisa de confrontar claramente e directamente.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination(2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 13 de Dezembro de 2014)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Tuesday, 7 October 2014

"Uma vez ou outra tive comunhões tão intensas como as espirituais"

Transcrição integral da entrevista com Joaquim Mexia Alves. Reportagem aqui.

Esteve na Guiné na Guerra, já era casado?
Não. Depois de vir da Guiné fui trabalhar para Angola, onde conheci a minha primeira mulher e onde me casei. Pouco antes da independência de Angola voltei para Portugal.

A sua mulher era portuguesa?
Sim, vivia em Angola mas era portuguesa.

Viemos para Portugal e passados dez anos separámo-nos, e cada um seguiu a sua vida. Eu fiquei por aqui, por Monte Real, ela foi para Lisboa. Temos dois filhos. Entretanto, passados cinco ou seis anos acabei por conhecer aquela que é agora a minha mulher. Depois de algum tempo, mercê desse conhecimento e de querer casar com ela, acabei por pedir à minha primeira mulher um divórcio civil.

Não tinha pedido ainda sequer um divórcio civil?
Não.

Acabei por pedir o divórcio, porque na altura nem sequer se me punha um casamento pela Igreja ou sem ser pela Igreja, porque verdadeiramente eu vivi a minha infância e a minha adolescência com uma educação religiosa, cristã. Fiz o crisma, andei em colégios católicos, mas à volta dos 19, 20 anos, afastei-me da Igreja, depois de Deus, depois da fé.

Teve a ver com a guerra?
Não. Foi antes. Uns anos antes já não me dizia nada.

Não é que tivesse deixado de acreditar em Deus como aquele que nos criou, mas não me dizia nada. Não interferia de modo nenhum na minha vida nem eu deixava que interferisse.

Isso arrastou-se até aos 40 e tal anos, já depois de conhecer a minha mulher é que, conversando com ela sobre a Igreja, Deus e variadíssimas coisas, começou a despertar em mim mais uma vez essa procura e portanto naquela altura não se me punha a questão do casamento católico ou não católico.

Em relação à sua primeira mulher ela não era católica?
Era uma católica como eu, baptizada...

Mas casaram pela Igreja?
Sim.

Porquê?
É preciso separar algumas coisas. As pessoas pensam que por se pedir a nulidade de um casamento católico isso significa que essa união não teve sentido. É lógico que teve sentido, acho que ninguém casa com uma mulher ou uma mulher com um homem, se não houver um sentido, se não se amam naquela altura pelo menos e se não querem partilhar uma vida. A diferença é esta, de saber se eles, casando pela Igreja, querem fazer aquilo que a Igreja diz.

Por isso, nem sempre as pessoas têm o conhecimento do que é verdadeiramente o sacramento do matrimónio, do que ele exige dos esposos.

Obviamente, sendo as famílias cristãs, católicas, há sempre uma tradição, um peso, e o casamento foi católico, como se diz, porque tinha de ser. Era assim. Então em famílias tradicionais como as nossas, era assim. Portanto quando conheci a minha mulher actual não se me punha esse problema porque não se me punha o problema da Igreja sequer.

Curiosamente, foi ao conhecê-la e ao desenvolver conversas com ela que começou a procura de Deus outra vez, até porque tinha vivido uma vida completamente desregrada desde o momento em que me separei, até conhecer a minha mulher, por isso mesmo esta procura de Deus que se dá depois de conhecer a minha segunda mulher tem também o sentido de perceber que alguma coisa estava mal na minha vida, que ia acabar mal de certeza.

Como é que conheceu a sua segunda mulher, foi nalgum contexto de movimento da Igreja?
Foi no contexto da minha vida de saídas à noite...

Mas ela tinha alguma relação com a Igreja?
Era baptizada, mas de maneira nenhuma praticante.

Vá-se lá saber porquê... Ainda hoje o Stephen Hawking diz que Deus não existe, tudo bem, isso é problema dele, mas a gente pergunta-se porque é que de repente se juntam estes dois seres que começam a falar dele e que acabam por O encontrar?

Resumindo, depois do divórcio civil acabámos por casar civilmente.

A sua primeira mulher não levantou qualquer obstáculo ao divórcio civil?
Não. Houve um bom entendimento, havia e graças a Deus, apesar de algumas vicissitudes, ainda há. Isso é que é importante.

Uns três anos depois de casar a nossa aproximação à Igreja é cada vez maior, passa a ser bastante intensa até, por força de ter conhecido o Padre José Lapa, que trouxe o renovamento carismático para Portugal, que eu conheci muito bem e com quem tive algumas conversas nesse período de procura e que me ajudou muitíssimo. E portanto houve um encontro muito mais intenso e começámos a praticar a religião verdadeiramente.

Íamos à missa mas obviamente, porque entendíamos na altura que não o devíamos fazer, não nos confessávamos nem comungávamos, porque tínhamos a noção que não estávamos numa situação regular.

Essa situação foi avançando, até que um dia alguém me põe a hipótese de pedir a nulidade do matrimónio. As razões não interessam, nem as vou esclarecer, mas havia razões para isso. E nessa altura, em ‘96 ou ‘97 metemos o processo para a declaração de nulidade.

O processo arrastou-se ao longo de quase nove anos, por várias razões, algumas estranhíssimas, por exemplo os documentos perderem-se entre o tribunal de Leiria e Lisboa, uma coisa fantástica... Há coisas que nos deixam espantados, parecem quase do demo... O processo arrasta-se muito. É doloroso, em certos aspectos, porque o processo no tribunal eclesiástico de nulidade, porque as partes, como eu, têm um encontro com a realidade, porque se não tiverem é escusado. Num processo civil as pessoas dizem o que querem, mas num processo como este, se as pessoas têm noção daquilo que vivemos, temos de ser verdadeiros, e a verdade às vezes magoa. Magoa-nos a nós quando nos recordamos e lembramos dela. Foi um processo doloroso, mas que culminou com a declaração de nulidade. A partir daí eu podia contrair matrimónio novamente.

A sua primeira mulher colaborou com o processo?
Não, não colaborou. Foi uma das razões porque se atrasou. Não quis colaborar. Eu respeito profundamente a decisão dela. Aliás, ela tinha razão para estar magoada, por isso compreendo perfeitamente que não o tenha feito.

Mas não colaborou porque não sentia que havia causa para nulidade?
Não sei... Julgo que uma das razões será que, não havendo aquele matrimónio não teria havido casamento mesmo e essa situação é sempre um bocado complicada, como dizia há bocado, há que separar as coisas. Um homem e uma mulher que se unem, unem-se. Se querem ou não fazer aquilo que a Igreja diz é uma coisa diferente, agora não significa que o casamento não tenha existido, que não tenha tido consentimento, que não tenha tido um objectivo, que até nem fosse naquela altura pensado para a vida toda.

As pessoas podem ter, e sobretudo quem não conhece verdadeiramente todos os meandros da doutrina da Igreja, pode de alguma maneira ter esta sensação, afinal não casei nada... Como se fosse um desprezo, que não é.

Mas é engraçado que isso parece ter afectado muito mais que o divórcio...
Sim, exactamente, porque, lá está, quer queiramos quer não, há uma tradição e um certo peso em cima de nós. Hoje em dia vemos isso, para o ano caso pelo civil, depois caso pela Igreja, quando tiver dinheiro para a festa. Parece que as pessoas não se sentirão casadas se não casarem pela Igreja. O problema é que casar pela Igreja tem condições e essas condições têm de ser observadas, porque se não forem o casamento não existe, o matrimónio não existe, o sacramento não existe. Tal como não existe confissão se eu me for confessara a um sacerdote e não confessar deliberadamente um pecado do qual tenho vergonha, o sacerdote não sabe, dá-me a absolvição, mas esta não tem qualquer valor sacramental. Portanto quando não se conhece tudo o que é a doutrina às vezes pode-se perceber isto, no fundo para ser casado tenho de casar pela Igreja. Não. Não há um timing, a não ser que acredite e seja uma pessoa de fé e queira praticar a religião.

A sua actual mulher não tinha sido casada antes?
Não. Era solteira.

Por isso, depois acabámos por casar em 2006, canonicamente.

Julgo que lhe interessa também saber mais sobre esse período de vida em que nos aproximámos da Igreja, vivemos na Igreja, vivemos com Deus, mas ainda não éramos casados canonicamente.

A partir de um certo momento sempre se me pôs, talvez por ter sido uma redescoberta de Deus e da fé, talvez por essa razão ela tenha sido mais intensa do que noutras pessoas que sempre a viveram. Por isso a vontade de fazer tudo como nós achamos que seria a vontade de Deus era fazer o que a Igreja nos diz. E portanto o não aproximar-nos da confissão e da comunhão era um problema que se nos colocava, que nos doía, mas que optámos por aceitar e viver dessa maneira, desde o início.

Até porque quando nos aproximámos da Igreja começámos logo a ter padres amigos, entre eles o padre Lapa, mas outros também, com quem nos abríamos e que nos orientavam espiritualmente, porque embora não haja confissão, pode-se ter uma direcção espiritual e podemos falar com sacerdotes e há sacerdotes completamente abertos a essa conversa. A gente também sabe que na Igreja também há aqueles que não estão abertos a isso e são radicais e às vezes até têm conversas cruéis e desumanas. Mas essa direcção espiritual e maneira de estar foi-se revelando e foi, no fundo, até uma fonte e um caminho de uma espiritualidade mais profunda, porquê? Porque a procura de uma comunhão espiritual cada vez mais perfeita, a procura de uma vivência da Eucaristia, porque a Eucaristia não é só a comunhão, é um todo, tem a consagração, tem a palavra de Deus, tem tudo e se não a vivermos inteiramente... Não vai ninguém à Igreja, ou pelo menos não devia ir, só para comungar. Se vai só para isso, está a fazer muito mal.

A falta da comunhão eucarística levou-nos a querer viver a Eucaristia de forma muito mais intensa e a viver essa comunhão espiritual ainda mais intensamente. Obviamente Deus responde sempre àqueles que o procuram com intensidade e Deus foi-nos dando as forças necessárias e suficientes para podermos viver essa maneira de estar, mas também nos foi dando as graças necessárias e os consolos para percebermos que a comunhão eucarística é importante mas não é o todo, que Deus não se confina à comunhão eucarística e vai muito além disso. Está connosco e comunga connosco e houve momentos muito importantes da nossa vida, momentos de comunhão extraordinária, às vezes sozinho, outras vezes com ela, mas momentos extraordinários de comunhão que nos davam a presença de Deus vivo e nos davam a certeza de estarmos a fazer o que era certo.

Às vezes inventava uma conversa com Jesus... Quando morresse e chegasse ao Céu e se tivesse, apesar de não ser casado pela Igreja, comungado sempre, porque a "minha consciência" me dizia que o devia fazer, ele me perguntava: "Então tu comungaste? Mas a Igreja não te dizia para não comungares?"

Eu respondia, "Mas eu cá tenho a minha consciência".

"Então achas que fizeste bem..."

Mas havia outra possível conversa:

"Então comungaste? Devias ter comungado, porque é que não comungaste?"

"Isso não sei. Foi a Igreja que me disse para não comungar, e eu obedeço à Igreja"

"Então está bem, porque obedeceste à Igreja, eu depois falo com a Igreja a seguir"...

Ao não comungar estou certamente a fazer aquilo que é certo, porque o ónus por eu não comungar cai sempre sobre a Igreja. Passo a batata quente.

Nessas conversas tiveram também padres que vos dissessem para comungarem à vontade?
Assim tão claramente não. Mas que me davam a entender que sim, porque não? A consciência... Sim senhor e tal. Muito poucos. Houve outros, pelo contrário, que foram de uma radicalidade e de uma crueldade ao dizerem coisas do tipo: "Não podes comungar, estás em pecado mortal, estás condenado, e outras coisas que tais que são terríveis e que são exactamente o oposto e os Papas há muito tempo dizem que isso é uma coisa incrível...

A verdade é que quando vivemos – esta é a minha opinião pessoal que vivi e tenho casais próximos que conheço e nos quais sinto a mesma coisa – quando nós queremos viver em obediência à Igreja, que é obediência a Deus, se nos lembrarmos de Jesus Cristo, há uma frase lindíssima que é: "Obedeceu até à morte, e morte de Cruz". Ele obedeceu. Pôs na obediência uma das maiores virtudes. Não precisava daquilo.

Não me estou a comparar com Jesus Cristo, obviamente. Mas a obediência é sempre uma fonte de graça. Se nós obedecermos e se estamos dispostos, as portas abrem-se, não só as portas do Céu, as portas de Deus, para nos acolher, mas abrem-se também as portas dos homens. Porque a própria Igreja, os sacerdotes, os bispos, os leigos, alguns deles às vezes mais renitentemente, mas depois vão começando a perceber, percebem que há uma disposição para estar e então acontece que a Igreja abre-se e começa a chamar mesmo as pessoas nessas situações para ajudarem também, para se sentirem mais em Igreja. Porque não é só a comunhão que nos faz sentir Igreja.

Eu vivia aqui em Monte Real e o prior perguntou-me se eu queria cantar no Coro e eu passei a cantar no coro. Não ia comungar, os outros iam, tudo bem. Talvez fosse mais um sacrifício, talvez mais um exercício de humildade para o meu orgulho. Depois um dia convidou-me para pertencer ao Conselho Pastoral e eu disse que não era casado pela Igreja e ele respondeu que eu ia como conselheiro pessoal e por isso não haveria qualquer problema.

A própria diocese me chamou e pediu para eu, em certas ocasiões, falar sobre o testemunho da minha vida e sobre as coisas que me tinham acontecido, porque estou disponível, porque me abro à própria Igreja e ela me recebe. Portanto eu não posso dizer de maneira nenhuma que alguma vez me senti excluído nem me senti colocado de lado. A verdade é que muitas vezes somos nós que nos excluímos e nos colocamos de lado.

É curioso que o outro dia, fruto de conhecer alguns casais já nessa situação, como nós e outros que vivem uma situação diferente – claro que é uma pequena amostragem, não é nenhuma estatística –, mas constato que os casais que vivem estas situações irregulares em comunhão com a Igreja em obediência à doutrina da Igreja, vivem normalmente uma espiritualidade bastante profunda, e percebemos isso pelas coisas que escrevem, vivem uma paz e uma harmonia entre o casal e na família que normalmente não vejo naqueles que ao viver esta situação irregular a querem viver ou contestando permanentemente, ou em desobediência à Igreja. Reparo nesses uma tensão latente, uma irritação latente, que pode advir da contestação, mas também de, no fundo, estarem divididos lá dentro, porque estão a fazer uma coisa que, embora digam que é a consciência que lhes dita, lá no fundo há algo que lhes diz que talvez não seja bem assim.

Porque esta história da consciência é muito interessante, fala-se muito no primado da consciência, a nossa consciência, para ser recta, sobretudo se estivermos a falar das coisas de Deus tem de ser uma consciência iluminada por Deus. Não pode ser uma daquelas de "Eu acho que".

Se eu não tiver acesso a documento nenhum, a nada que possa ler, então a minha consciência tem de ser aquela, e Deus olha para ela com certeza com toda a pureza, porque não tenho outro acesso. Agora, se tenho acesso à doutrina da Igreja, aos documentos da Igreja, ao que os outros dizem, eu tenho de criar a minha consciência de acordo com o que me é dado saber.

Há bocado dizia que havia alguns padres que diziam de forma cruel que estavam em pecado mortal. No seu caso havia um processo em curso e depois foi declarada a nulidade, mas há pessoas que não têm bases para nulidade e, de facto, o que a Igreja diz é que não podem comungar porque estão em pecado. Pelas suas próprias palavras isso é uma atitude que pode magoar. Como é que se navega este dilema?
Há muitas maneiras de dizer as coisas.

Eu, por exemplo, lembro-me que a minha mulher em Fátima, um dia, não sei porquê, decidiu que se queria confessar. Lembro-me de lhe ter dito: "Não faças isso. Temos os sacerdotes que nos conhecem, com quem conversamos, e sabes perfeitamente que não podemos fazer isso."

Mas ela insistiu, e foi, e teve uma péssima experiência. Porque encontrou um sacerdote do tipo que lhe disse que estava em pecado mortal e estava condenada, se não mudasse de vida e outras coisas que tais.

Primeiro, ele nem sequer a ouviu. Só quando percebeu aquilo descambou logo. Há muitas maneiras de se dizer as coisas, de se dizer a um casal ou a uma pessoa recasada, que não tem ou não pode ter um processo de nulidade, que está numa situação irregular, uma situação perante Deus e a doutrina da Igreja, que não é compatível com a confissão, mas pode acrescentar desde logo que pode ouvi-la, estar com ela, aconselhar, perceber quais são os incómodos e dar alguma direcção e algum conselho. É muito diferente uma coisa da outra.

Mas vocês, antes do resultado do processo, sentiam que estavam em pecado?
Lá está... Esse sentimento é sempre um bocado complicado. Se nós vivemos uma situação em Igreja, se sentimos que Deus está connosco apesar disso. Podemos ter essa sensação, de que é um pecado pela lei, mas sê-lo-á para a nossa consciência perante Deus? Uma coisa é a nossa consciência perante Deus, outra coisa é a nossa consciência perante nós próprios. Uma grande parte das pessoas que dizem: "Pela minha consciência", desculpem lá, mas é a sua consciência consigo próprios, não a sua consciência perante Deus, em oração.

Obviamente é pecado, segundo a doutrina da Igreja, mas é um pecado que pode não ter esse peso enorme se as pessoas vivem, ou procuram viver, essa vivência de fé inteiramente dedicada a Deus e à Igreja.

Claro que é sempre muito complicado. Também há situações daqueles que vivem "como irmãos" e que podem viver como irmãos, e aí vivem em comunhão com a Igreja. Mas essas são situações que, apesar de tudo, não são tão raras como isso tudo. Ultimamente tem havido muitos testemunhos que indicam que essas situações não são tão raras como isso tudo.

Mas isso é uma coisa que, sendo difícil, pode eventualmente pedir-se a um casal que esteja em sintonia na questão da fé. Mas no caso em que apenas uma das pessoas está próxima da Igreja é complicado...
Não! Nessa situação é muito complicado. Mas para um casal que segue o mesmo caminho isso é uma opção que se pode colocar. E acredito firmemente que Deus possa dar a graça a esse casal de viver assim.

Pode ser que eu esteja a dizer uma enormidade, mas o viver como irmãos é um compromisso que pode ser tomado entre eles e comunicado ao pároco. Como todos os compromissos e todas as fraquezas humanas, pode falhar uma vez ou outra, obviamente, e portanto desde que haja o compromisso sério e a consciência séria diante de Deus, pode acontecer uma falha, mas essa falha é confessada. Aí sim pode haver confissão. Não é dizer: "Eu ontem falhei e hoje também e amanhã tenciono falhar outra vez". Não é isso. Obviamente o compromisso pode ser falhado e pode ser confessado. Tal como qualquer solteiro também tem um compromisso de não ter relações sexuais e às vezes também pode acontecer e pode-se confessar e isso é perdoado.

O que é que lhe passava pela cabeça quando estava na missa e levantava-se tudo para ir comungar e você ficava sentado?
Ao princípio talvez seja a parte mais difícil. Sobretudo, quando se está por exemplo em situações como estive, de assembleias ou reuniões do Renovamento Carismático, em que as pessoas que lá estão estão por vontade própria, e por isso 99,9% vão comungar, é complicado. É complicado porque ficamos sós. Perguntava-me muitas vezes, a partir de certa altura: "Eu fico só e isso incomoda-me porque me sinto exposto, porque o meu orgulho fica ferido?" Mas ao longo do tempo Deus dá-nos a graça de podermos suportar e até ultrapassar essas situações.

Há igrejas no mundo em que as pessoas vão todas e aqueles que não podem comungar cruzam os braços e são abençoados pelo sacerdote. Mesmo que isso fosse prática em Portugal não sei se não faria exactamente como antes. No fundo o que acontecia era o seguinte... a partir de certa altura arranjamos maneira de nos defendermos de nós próprios e a certa altura o que fazia era que na altura da comunhão ajoelhava-me e enquanto durava a comunhão ficava ajoelhado em oração. Estava a fazer a minha comunhão espiritual. No fundo o que acontecia é que acabava por me sentir transportado pelos outros para a mesa da comunhão. Pelo que conversava com a minha mulher, com ela era a mesma coisa.

Portanto hoje em dia posso comungar eucaristicamente. Acho que uma vez ou outra tive comunhões tão intensas como as que tive espirituais. Mas tive comunhões espirituais fantásticas, espantosas, de uma presença de Deus ali fantásticas, que me transportavam. Precisamente porque há uma procura ainda maior, se é possível, claro que como humano que sou também sou fraco e às vezes também critico os outros e quer queiramos quer não, quando estamos nestas situações vemos os outros a ir comungar e dá vontade de perguntar o que é que vai fazer? Vemos pessoas que vão na fila da comunhão a conversar uns com os outros e depois vêm aos beijinhos, enfim...

O processo durou quase nove anos mas acabou por se comprovar a nulidade, como é que recebeu essa notícia?
O tribunal dá uma sentença e depois é confirmada por outro tribunal, ou não confirmada. De alguma maneira o Sim do tribunal de Leiria dava-nos a perspectiva de que o tribunal de Lisboa também daria. De qualquer das maneiras não foi... foi muito mais uma decisão recebida em paz, em sossego, do que em grande euforia. Não posso falar do que se passou como alegria. Foi uma paz, uma paz enorme, uma certeza de que Deus estava ali e tinha ajudado a cumprir aquele objectivo, aquele momento.

Já tinham filhos desse segundo casamento?
Já. Dois do primeiro e dois do segundo. O primeiro nasceu um ano depois de casarmos e o segundo quando já estava metido o processo.

Depois casaram pela Igreja?
Casámos logo a seguir, um mês ou qualquer coisa assim depois.

Como foi voltar a comungar depois de tanto tempo à espera?
Não foi nenhuma fúria, foi um confirmar de algo que nós vivíamos nas comunhões espirituais. É óbvio que foi muito bom, tanto que nós casámos numa sexta-feira e D. António Marto foi empossado como bispo de Leiria num domingo. E voltámos no domingo porque queríamos estar na missa. Logo naquela missa pudemos comungar. E na altura o padre Alcides, prior da Marinha Grande, na segunda-feira a seguir, eu estava a sair de casa para ir à missa das 19h, ele viu-me, deu-me um abraço, perguntou como tinha corrido e pediu-me para ajudar à missa, disse que queria que todas as pessoas soubessem que estava ao seu lado.

Achei fantástico, porque ele disse aquilo com uma vontade... de facto a paróquia da Marinha Grande é uma coisa extraordinária, porque fui sempre muito bem acolhido.

Num processo típico em que já existem filhos, e os filhos já estão na idade da razão, eles podem ser chamados a testemunhar e a fazer parte do processo?
Não. Que saiba não. A não ser que sejam dados como testemunhas por alguma das partes. Por regra não, são protegidos. É uma coisa que envolve o casal e os testemunhas que o casal queira arrolar.

Todos estes processos são obviamente difíceis. Se um divórcio já é difícil, traumatizante, sobretudo os que vão a tribunal, os processos de nulidade também são, porque é tudo escalpelizado, porque é preciso saber o porquê das coisas. Portanto é sempre bastante doloroso.

Existe algum cuidado por parte dos membros do tribunal, ou é um processo muito frio?
Conforme os intervenientes.

De uma maneira geral não me posso queixar. Não houve dureza, foi tudo visto, revisto e tornado a ver, mas com algum bom senso e discernimento e com dignidade. Mas ao que sei nem sempre as coisas funcionam assim. Quando estamos a falar da vida das pessoas é preciso ter algum cuidado, porque as pessoas vão recordar coisas dolorosas, difíceis. São colocadas perante os seus próprios erros. No meu caso a parte que tinha mais errado era eu, sem dúvida absolutamente nenhuma, portanto é doloroso, as pessoas têm de se enfrentar a si próprias. E sobretudo porque muitas vezes podem ter esta consciência de poderem estar a ferir, a magoar, com aquilo que estão a fazer.

Por causa do sínodo fala-se das mudanças que pode haver. Uma que parece reunir consenso é o agilizar dos processos de nulidade. Tendo passado por isso, o seu processo foi extraordinariamente longo, mas o que aconselharia?
Às vezes as pessoas são ouvidas variadíssimas vezes quando talvez fosse mais rápido determinar quais são os assuntos verdadeiramente importantes para aquele processo e ouvir especificamente sobre aqueles assuntos. Depois, não sei se já está mudado, penso que já está a mudar, é quando não se consegue encontrar a outra parte. Então as coisas arrastam-se, quase até à exaustão.

Depois quando a outra parte não quer ser ouvida. Insiste-se de tal maneira que por vezes a outra parte irrita-se mesmo. Se há uma declaração da outra parte a dizer que não quer, ninguém pode obrigar a nada. É preciso respeitar as pessoas.

Todo o processo de organização, que não sei em detalhe como é, por vezes torna-se moroso, às vezes também as dioceses têm falta de pessoas, os juízes são sacerdotes normalmente, que têm as suas paróquias. Muitas vezes dependem também de leigos, que muitas vezes se oferecem, incluindo juízes jubilados que tiram direito canónico e depois podem ajudar na formação do processo.

Há ainda certos itens da nulidade. Por exemplo, a falta de fé. A falta de fé é extremamente difícil de provar... é preciso encontrar balizas de algum tipo para conseguir com alguma agilidade e com algum bom senso, determinar se havia fé ou não.

Normalmente pensamos naqueles casos em que a pessoa mentiu, a pessoa já era casada, mas não pensamos na falta de fé. Se há coisa que é essencial para a validade de um sacramento é a fé. Hoje em dia assistimos a casamentos de certos jovens que percebemos não haver ali a mínima fé... Claro que a fé não se vê, mas percebe-se pela expressão, pelo modo de estar, pelas respostas, por tudo isso, que não há uma vivência da fé. Assim como para um adulto exige-se que faça uma catequese prolongada e que tenha consciência do que é Deus e o que é a Igreja, às vezes o matrimónio parece o sacramento mais tratado pela rama que os outros todos. Não exige, por exemplo, o estado de graça, a confissão. Verdadeiramente não exige. Os padrinhos de baptismo têm de ser baptizados e crismados etc. Para o crisma é preciso fazer uma catequese de adultos. Para o matrimónio há os CPM, mas o CPM, apesar de tudo, não é uma vivência... pode levar a isso, é bom que leve, mas pode não levar. Às vezes as pessoas estão a celebrar um sacramento, pela festa.

Acha que os padres deviam ter mais margem para recusar presidir a casamentos?
Eu acho. Vemos as estatísticas, a dizer que há cada vez menos casamentos católicos... será que isso é importante? O número? É como quando as pessoas me dizem que se a Igreja não mudar começa a ter menos pessoas. Mas a Igreja não é uma associação. Não tem sócios. Não pagam quotas. O desejo da Igreja é que todos se salvem, que todos estejam na Igreja, mas não pode mudar a doutrina só para angariar pessoas e apresentar números.

No sínodo tem-se falado sobre a admissão de pessoas em uniões irregulares aos sacramentos. Se lhe pedissem a si a sua opinião, o que diria?
Antes disso queria dizer o seguinte. Temos assistido e vamos assistindo a uma permanente discussão, mais teológicas, filosóficas, existenciais, sobre os o facto de os casados poderem ou deverem confessar-se e comungar. Isto debate-se até à exaustão. Mas eu não vejo debater o modo de como é que os recasados podem viver em Igreja efectivamente sem confessar e sem comungar. O que é que a Igreja diz de claro, e esses teólogos e filósofos que falam disso, o que dizem realmente para as pessoas viverem? É que ao pensar em mim próprio e naquilo que vivi e em tantos casais que já conheço que vivem o que eu vivi e que muitos ainda vivem e que, muitos deles ainda vivem essa situação e não podem deixar de o fazer, e no entanto são felizes, vivem em harmonia, vivem com Deus, eu pergunto onde é que estão os documentos, as reflexões e as meditações que levem essas pessoas a perceber a graça que será viver em obediência à Igreja.

Porque me parece que, de maneira geral, há uma certa atitude de contestação e as atitudes de contestação normalmente levam a tensões. Levam a que não haja paz e se a pessoa vive numa revolta permanente, em vez de tentar ajudar as pessoas a serem fiéis ao que a Igreja diz e a perceberem a graça que daí advém.

Quando leio coisas que escrevi quando vivia aquela situação, fico espantado a pensar como é que eu escrevi aquelas coisas? Como é que eu vivia aquilo? Ao ler coisas que alguns casais que agora vivem assim escrevem eu fico maravilhado e digo que é fantástico, como é que vivendo esta situação irregular há esta aproximação de Deus, este toque de Deus tão profundo no coração e na vida.

Curiosamente a senhora desse casal dizia, sabe que eu escrevo as coisas e depois leio-as e penso, como é que eu consegui escrever isto? Porque Deus nos concede aquela graça fantástica! Voltamos à mesma história! Deus obedeceu! Obedeceu até à morte, e morte de cruz! A obediência é uma coisa extremamente difícil, porque hoje em dia está conotada com fraqueza, quando obedecer não significa ser fraco e a obediência dá-nos sempre uma maneira de estar que nos ajuda a vencer muitas outras coisas. Ajuda-nos, sobretudo, a viver em paz. Quase poderia partir de uma posição comodistas... Em vez de estar sempre chateado e zangado com a Igreja e com Deus por não me deixarem comungar, assim é mais cómodo!

Se me perguntam se os recasados devem poder comungar? Acho que é uma porta que se abre que depois é muito difícil de controlar. Porque se acredito ou julgo que alguns recasados que vivem intensamente o poderiam fazer e penso que daí não veria mal ao mundo, como se costuma dizer, como é que isso se afere? E aqueles que se estão a borrifar mas aproximam-se da comunhão sem mais nem menos?

Hoje em dia há muitos que dizem que não se confessam, mesmo podendo, e depois pergunto o seguinte. Para a pessoa poder comungar tem de estar em estado de graça. Para estar em estado de graça tem de se confessar. Para se confessar tem de dizer que à luz da doutrina da Igreja está em adultério. Como é que se absolve uma pessoa que vive em adultério? Quando o Papa instituiu aquela comissão para analisar os processos de nulidade frisou lá bem: "Que não ponha em causa a indissolubilidade do matrimónio"

Se não se pode por em causa, a partir do momento em que vive fora desse matrimónio com outra, está em adultério objectivo! Penso eu, não sei, mas julgo que sim.

Agora, há uma coisa que posso dizer. O sínodo vem aí e o que a Igreja disser é o que aceito no meu coração. Não faço tenções de discutir sequer. Se a Igreja disser que a partir deste momento podem comungar, fico felicíssimo, contentíssimo. Se disser que não podem fico felicíssimo e contentíssimo na mesma. Agora espero é que, seja qual for a decisão, que não seja uma decisão tout court. Haja alguma cosa que informe tudo isso. Não podem mas a Igreja vai preparar documentos, vai preparar sacerdotes, vai dizer como é que as pessoas pode viver e paz dentro da Igreja.

Definir claramente. Não pode comungar mas podem fazer leituras, por exemplo, que as coisas estejam definidas. Já que há a lei, que se definam as coisas. Muitas vezes vemos na Igreja alguma dualidade de atitudes. Nesta paróquia podem isto, mas na outra não podem. Numa paróquia não aceitam o fulano X como padrinho, mas na paróquia do lado já aceitam. Ali não posso ler, mas na outra posso. As coisas não podem ser assim. Não devem ser assim.

Thursday, 2 May 2013

Sinais mistos do mundo islâmico

A partir desta tarde viverão dois papas no Vaticano. Bento XVI está de regresso.


A maioria dos muçulmanos quer que a lei islâmica impere nos seus países. Por outro lado, vêem com bons olhos a liberdade de culto para outras religiões.

Tribunais Problemáticos

Randall Smith
Entre os vários empregos que tive quando estava na universidade, inclui-se ter trabalhado para uma companhia aérea. Uma das coisas que descobri nesse emprego foi que há toda uma série de dificuldades que irritam os passageiros, mas há um problema que garantidamente os alienará para sempre.

Os passageiros não gostam de atrasos, não gostam de falta de espaço para as pernas, nem de funcionários mal-educados e insensíveis. Mas nenhuma destas coisas os impedirá de escolher a mesma companhia numa próxima ocasião. Contudo, se lhes perdermos as malas, acabou-se. Não voltarão nos próximos anos, talvez nunca. A questão é que é muito fácil estarmos tão preocupados em garantir que as pessoas entram e saem dos aviões, que nos esquecemos este tipo de detalhe, mas é algo que tem um enorme impacto na vida dos passageiros.

Tenho percebido que há um problema semelhante que afecta as dioceses católicas. A má qualidade das músicas, as homilias pobres, as igrejas feias, tudo isso irrita, mas continuarão a vir – pelo menos por algum tempo. Mas basta liderar mal um processo de nulidade e nunca mais os apanham. Assisti a isto vezes demais: Um católico fiel e dedicado aborda a Igreja procurando um juízo sincero sobre se um casamento foi ou não foi válido e é recebido com má educação, atrasos burocráticos, papelada perdida, maus conselhos, indicações erradas e, por vezes, mentiras.

Facilmente os responsáveis ficam tão embrenhados na gestão diária das paróquias que se esquecem dos pequenos assuntos que são muito importantes na vida das pessoas envolvidas. A dor e a amargura causada por se lidar mal com um processo de nulidade não vão desaparecer tão depressa.

Atenção, não estou a pedir processos de nulidade mais fáceis ou mais frequentes. Os critérios para uma declaração de nulidade estão fixas no direito canónico e nas Escrituras. O meu apelo tem antes a ver com a dimensão pastoral e burocrática da questão. Dossiers perdidos, maus conselhos, secretárias mal-educadas e falta de sensibilidade pastoral entre os funcionários dos tribunais eclesiásticos causam danos sérios.

Não tenho a menor dúvida de que praticamente todos os tribunais eclesiásticos deste país têm falta de pessoal. A maioria dos bispos estão, e bem, focados nos assuntos diários das paróquias. Contudo, não podem ignorar a competência dos seus tribunais diocesanos, da mesma maneira que as companhias aéreas não podem ignorar a questão da bagagem desviada. O resultado será católicos perdidos para a Igreja – às vezes para sempre.

E depois, claro, há os casos de benfeitores ricos que doam milhares à Igreja e vêem os seus processos de nulidade tratados em quatro semanas, enquanto os dossiers de todos os outros se perdem ou ficam meses em cima de uma secretária. As histórias destes pequenos favores quase sempre se tornam conhecidas, por mais que os bispos pensem que as podem manter escondidas.

Há ainda os padres insensatos que aconselham cinicamente os seus paroquianos (com um piscar de olho), que se mudarem os detalhes do seu testemunho, tudo será mais fácil. Este tipo de comportamento irresponsável apenas convence as pessoas envolvidas de que o processo não é uma procura séria pela verdade, mas apenas um jogo legal.



E tragicamente encontramos católicos a quem foram concedidos decretos de nulidade, com bases sólidas, mas que ainda têm dúvidas sobre a sentença porque o trabalho do tribunal foi tão mal feito, ou até porque houve casos de corrupção. Algumas destas pessoas passarão a vida a acreditar (e a dizer a toda a gente), que a nulidade é simplesmente um “divórcio católico”.

Os fiéis merecem melhor. Precisam que seja determinado, com seriedade, se estavam de facto casados ou não, com base num processo aberto e transparente com critérios e provas claramente definidos. Devem ter acesso a este juízo num prazo razoável e o processo deve ser explicado de forma clara antes e a cada passo do caminho. Os católicos têm direito a receber conselhos bem-informados e não a ouvir os esquemas cínicos de clérigos que pensam que sabem manipular o sistema. Precisam de ser atendidos por funcionários que não percam os seus formulários e que lhes falem de forma respeitosa, cientes de que a pessoa do outro lado está a atravessar um processo terrível e que provavelmente não está no seu melhor.

Acima de tudo, precisam que lhes digam repetidamente que estão a atravessar um processo que é legal e pastoral. É pastoral porque envolve uma séria e por vezes difícil auto-examinação que provavelmente será desconfortável mas que, se abordada de forma honesta, pode acarretar compreensão e sabedoria para um futuro melhor. Porém, embora pastoral, este é também um procedimento legal, com categorias e padrões.

No fim de contas, não é apenas uma questão de saber se os esposos sentiam que estavam casados, ou não. A questão está em saber se, com base nas leis de Deus e da Igreja, estavam ou não casados. Se sim, não há poder nenhum no mundo que possa dissolver essa ligação.

Católicos que procuram uma declaração de nulidade devem estar preparados para percorrer um caminho duro. Um processo de nulidade é difícil, porque toca a vida das pessoas envolvidas nos seus pontos mais íntimos e vulneráveis e porque requer algumas das maiores expressões de honestidade que um católico pode ser chamado a exercer. Não há como evitar estas dificuldades, e não vale a pena dourar a pílula.

Mas por amor de Deus, ao menos lidem com a papelada e cheguem a uma decisão dentro de um prazo razoável. Depois de dois ou três anos sem decisão, até o mais fiel dos católicos terá começado a namorar outra vez, o que poderá ter dolorosas consequências se a nulidade não for concedida. Percam-lhes os formulários pelo caminho e mesmo que tudo corra bem, o mais natural é que os tenham perdido para sempre do rebanho. Não os conseguiremos convencer de que esta é a Igreja dos pobres e dos sofredores se, quando vêm ter connosco no período mais difícil e triste das suas vidas, e não formos capazes sequer de tratar da papelada.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez no quinta-feira, 25 de Abril 2013 em The Catholic Thing)

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