Thursday, 4 May 2023

Listas fechadas, números equivocados e transparência

Eu a tentar fazer sentido das listas
(mas sem fato e com menos cabelo)
A semana passada os membros da agora ex-Comissão Independente para o estudo dos abusos sexuais na Igreja Católica reuniram-se com representantes das ordens e institutos religiosos, a quem fizeram chegar também listas de nomes de alegados abusadores.

Apesar de ter sido muito menos mediático do que a entrega das listas aos bispos, este foi um momento importantíssimo, pois fecha, de certa forma, o capítulo da Comissão Independente em toda esta “novela” que, porém, continuará a ter mais episódios.

Talvez a maior surpresa tenha sido o facto de a lista entregue aos membros da Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal (CIRP) conter tão poucos nomes. Eu estava à espera que pudessem até ser mais do que os que foram entregues às dioceses, tendo em conta que muitas das ordens desempenham um papel importantíssimo na educação e, por outro lado, tendem a ser realidades mais opacas do que as dioceses. Contudo, foram apenas 17 os nomes, sendo que mais de metade são pessoas que já morreram.

Página 187 do relatório
Mas o caso torna-se mais estranho quando comparamos este número com os próprios dados apresentados pela Comissão Independente no seu relatório. Ora, juntando os dados para as ordens masculinas e femininas, temos um total de 69 casos, entre religiosos e leigos, sendo 59 das ordens masculinas e 10 das ordens femininas. Como é que estes 69 se transformam em 17? Nem se pode usar o argumento de terem excluído os mortos, porque já vimos que não o fizeram.

Nalguns casos a discrepância é gritante. Segundo o relatório, só nos salesianos houve 18 religiosos nomeados por testemunhas. Mas a lista que foi entregue aos salesianos continha apenas dois nomes, sendo que um já tinha morrido e o outro é desconhecido.

A meu ver, pode haver algumas explicações para isto. Uma é que a CI optou por considerar apenas os casos de alegados abusadores que estavam vivos ou cujas vítimas ainda possam estar vivas, mas quase todos os casos do relatório derivam de testemunhos validados pela própria comissão, pelo que isso não parece explicar a diferença.

Outra explicação é de que, tendo tido mais tempo, os membros da CI tenham tido também outras possibilidades de trabalhar a lista e excluir casos que levantassem mais dúvidas. A ser isto, confirma algo que eu tenho dito há muito: que todos teríamos ganho se a Comissão tivesse mais tempo para trabalhar, nomeadamente para tratar os dados de que dispunha com mais rigor, permitindo ainda à Comissão Histórica trabalhar de forma mais folgada.

Números finais

Com a entrega dos 17 nomes aos institutos, temos agora números finais em relação à famosa lista de abusadores “no activo” mas que afinal não estão todos no activo… Assim, as duas listas somadas dão um total de 114 nomes. Deveria dar 115, porque o total de nomes da lista das dioceses era 98, mas mais abaixo explico porque é que afinal são apenas 97.

Destes 114 nomes, 45 são pessoas que já morreram e 9 são desconhecidos. Isto corresponde a cerca de 47% do total.

Há ainda 16 padres/religiosos que estão indicados como estando sem nomeação, ou sem cargo e outros 14 que já tinham visto os seus processos – civis e/ou canónicos – concluídos quando a lista saiu, e que ou já tinham sofrido sanções ou tinham sido ilibados, ou visto os processos arquivados. Sobre este ponto é importante sublinhar que há alguma discrepância na forma como as dioceses comunicaram a informação. Sei de pelo menos um caso de um padre que foi indicado como estando sem nomeação, o que não deixa de ser verdade, mas está simplesmente à espera de ser nomeado novamente depois de ter visto o seu processo arquivado, uma vez que tanto Roma como o Ministério Público consideraram que não havia factos que constituíssem crime. Em bom rigor, embora não seja mentira que ele esteja sem nomeação, faria mais sentido, a meu ver, que ele estivesse na lista dos que já viram os seus processos concluídos. Contudo, segui a informação oficial da lista, até porque eu tive conhecimento dos outros detalhes por via não oficial.

Há ainda a reter a existência de quatro leigos vivos, uma vez que um quinto já terá morrido e está por isso contabilizado com os mortos.

Naturalmente, o dado mais importante é o número de padres/religiosos no activo que estavam nas listas, que no total pode chegar a 27. Estes incluem 15 que já sabemos que estão preventivamente afastados do ministério enquanto decorrem os seus processos. Na maioria foram afastados no seguimento de aparecerem os nomes nas listas, mas pelo menos um já estava afastado antes disso.

Depois, há 11 que estão no activo, sobre os quais foi pedida mais informação pelas dioceses ou ordens religiosas. Vale a pena escrutinar um pouco este número. Quatro desses 11 são do Porto e sabemos que o bispo encaminhou os seus processos para Roma, mas optou por não os afastar preventivamente, ao contrário do que tinha feito com outros três. Contudo, a informação de que disponho é de que não houve grande base para essa decisão, isto é, o facto de uns terem sido afastados e outros não, não traduz uma gravidade maior de uns casos em relação a outros, ou maior credibilidade de uns ou de outros.

Há ainda o estranho caso de Coimbra. A diocese recebeu o nome de um padre no activo mas, quando obteve mais informação da Comissão Independente verificou que afinal não se tratava de um caso de abusos. Pelo que percebi, foi aberto um processo preliminar na mesma, mas o mais natural é o caso vir a ser arquivado.

Depois temos dois padres de Setúbal, sobre os quais não temos mais informação até agora. Ainda hoje confirmei que a própria diocese ainda espera por mais informação da CI, que tarda em chegar, mas que sem essa informação, e por não ter nenhum dado em arquivo, manteve os padres em actividade.  

Há ainda uma religiosa das Reparadoras de Nossa Senhora de Fátima. Tentei obter mais informação sobre esse caso, mas não obtive qualquer resposta da ordem até agora.

Finalmente, temos os casos de Lamego. Esta diocese começou por comunicar que tinha dois nomes na lista, sobre os quais tinha sido pedida mais informação. Depois de várias tentativas de obter mais detalhes, ao longo da última semana, consegui saber que os processos desses padres foram encaminhados para Roma, mas ninguém me soube dizer se os sacerdotes estão preventivamente afastados do ministério, ou não. Contudo, entretanto, soube que um dos padres que tinha sido indicado na lista de Bragança, mas que a diocese comunicou ser de outra diocese, afinal era de Lamego. A minha fonte não me soube dizer mais detalhes sobre o padre, por isso não posso garantir que ele esteja no activo, mas havendo essa possibilidade ele será o 11º.

Onze mais 15 dá 26. Quem pode ser o outro? Se bem se recordam, nos comunicados das dioceses, depois de receberem as listas, vinha a indicação de mais dois padres que tinham ido parar à lista errada. Setúbal disse que tinha um padre na sua lista que estava sob outra jurisdição e Vila Real disse que tinha um padre que estando a trabalhar nessa diocese, era na verdade de outra, mas tinha sido preventivamente afastado do ministério em Vila Real enquanto a sua diocese de origem era informada. Ora, qual não foi a minha surpresa quando soube que afinal trata-se da mesma pessoa. Isto significa que esse nome está repetido na lista, e por isso o número das listas das dioceses é 97 e não 98, como previamente se pensava, logo o número das dioceses e das ordens religiosas, em conjunto, dá 114. Mas significa também que as duas dioceses claramente não se entendem sobre quem é de facto responsável pelo sacerdote. Isto terá naturalmente dimensões de direito canónico que me escapam, mas para uma questão de organização da minha informação, e uma vez que a pessoa em causa está fisicamente em Vila Real, estou a contá-la como sendo dessa diocese.

Transparência

Por fim, uma das coisas que tenho dito desde o início desta polémica é que a Igreja tem mesmo de apostar na transparência para melhorar a forma como lida com esta questão e iniciar um novo paradigma de boas práticas. Ora, basta ler o ponto acima para perceber que para muitas dioceses a transparência apenas existiu enquanto os olhos mediáticos estavam postos na questão dos abusos, nomeadamente por causa das listas. Depois disso, voltaram a não revelar qualquer informação, ou quando o fizeram foi de forma pouco clara. O mesmo aconteceu agora com algumas das ordens ou institutos religiosos, embora outros se tenham apressado a divulgar a informação de que dispunham.

É importante os responsáveis pelas dioceses e pelas ordens perceberem que embora possa custar, todos temos a ganhar com a maior transparência possível – dentro do bom-senso – nesta matéria.

Da minha parte continuarei a acompanhar estes casos na medida do possível, para vos trazer os dados mais completos e mais rigorosos, mesmo quando o resto da imprensa só quiser saber de Galambas e afins.

Recordo que podem ver aqui todos os detalhes sobre as listas que foram entregues à CEP e à CIRP, com uma análise mais estatística dos dados conhecidos e que aqui podem encontrar uma lista com todos os casos até agora conhecidos, pré e pós relatório, dividios por estatuto e por diocese ou ordem religiosa. Por fim, aqui têm a cronologia que mantenho sobre este assunto desde 2012. 

Wednesday, 3 May 2023

Conclusões do Relatório de Abusos em Maryland, EUA

Stephen P. White
Durante a Semana Santa a Procuradoria-Geral de Maryland, nos EUA, publicou um relatório de 456 páginas sobre a história de abuso sexual da Arquidiocese de Baltimore. O relatório inclui alegações contra cerca de 137 padres, cinco diáconos, quatro leigos e duas religiosas. Detalha abusos contra mais de 600 jovens.

O conteúdo do documento é simultaneamente horrível e vergonhosamente familiar para quem tem estado a seguir a crise de abusos na Igreja Católica. Não é só a questão dos abusos depravados, mas também as mentiras, a incapacidade de compreender a gravidade do mal, a deferência para com os abusadores, a indiferença para com as vítimas, as mudanças de paróquia de padres abusadores, o encobrimento.

Cada instância de abusos constitui um momento de grave trauma e dor na vida da vítima. Porém, por mais que nos esforcemos, ao ler um relatório destes os eventos terríveis começam a confundir-se. Se lermos um número suficiente deste tipo de documentos, começamos a ser imunes aos detalhes.

Mas há algumas coisas que ficam. Um dos detalhes mais preocupantes – se bem que menos gráficos – do relatório de Maryland é que 11 dos 137 padres nomeados no documento serviram na mesma paróquia entre 1964 e 2004. Contudo, a maioria das histórias, tanto de abuso como de falha no tratamento dos casos, são pateticamente previsíveis.

Mas ao ler este relatório houve outra coisa que sobressaiu. A Procuradoria-Geral de Maryland acaba de passar cinco anos a investigar a Arquidiocese de Baltimore, procurando qualquer prova de abuso sexual de crianças. Intimou centenas de milhares de páginas de documentação da Arquidiocese, conduziu centenas e centenas de entrevistas. E o que é que se conclui no final de tudo?

Resumindo, o relatório é confirmação independente de que a Igreja Católica, pelo menos na Arquidiocese de Baltimore, tem sido muito bem-sucedida em prevenir abusos, lidar com alegações quando estas surgem, e demonstrar transparência na condução desses casos. Levou demasiado tempo, e a um custo demasiado alto, especialmente para as vítimas, mas também para os fiéis – cuja confiança nos seus líderes sofreu uma erosão dramática.

Ainda assim, a tendência de melhoria é inconfundível. Como sabemos através de estudos nacionais, os incidentes de abuso sexual clerical na Igreja Católica neste país tiveram o seu ápice nos anos entre 1960 e 1980, depois caíram a pique.

Os casos sublinhados neste relatório revelam a mesma tendência. Têm sobretudo, mas não exclusivamente, mais de 25 anos – ou seja, antes da passagem do milénio. Em média, a data de ordenação dos padres nomeados neste relatório é 1960. Nenhum dos padres acusados foi ordenado depois de 1989. Dos abusadores nomeados, 103 já morreram. Dos 137 padres nomeados no relatório, 53 eram membros de ordens religiosas. (o relatório nomeia ainda cinco diáconos, quatro leigos e duas religiosas). Dos padres de Baltimore nomeados, apenas três nasceram em 1950 ou mais tarde, e todos esses já estavam referidos publicamente pela Arquidiocese como credivelmente acusados desde 2002.

Nos anos 90 a forma como se lidava com casos de abusos já tinha melhorado, mas faltava ainda a claridade e a firmeza de decisão que veio com a Carta de Dallas, em 2002. Sempre que são referidos no relatório, tanto o actual Arcebispo de Baltimore, o Arcebispo William Lori como o seu antecessor, Cardeal Edwin O’Brien, tomaram as medidas apropriadas para tratar das alegações. Por vezes até foram para além do expectável para garantir que os padres fossem afastados do ministério, ou que Roma tomasse as medidas necessárias.

A forma como a arquidiocese lidou com casos nos piores anos foi claramente inaceitável, ainda que fosse típico da época. E era bastante típico para a época. O relatório em si confirma-o quando elenca a história dos estatutos criminais relativos ao abuso sexual de menores por parte de Maryland.

Arcebispo William Lori, de Baltimore
“Foi só em 1963 que Maryland aprovou a primeira lei que criminaliza o abuso infantil”, diz o relatório. Só em 1974 é que o estatuto de abuso infantil de Maryland “deixou claro, finalmente, que incluía abusos sexuais”. As leis sobre abuso sexual de crianças e abuso físico só foram separados em 2003.

Claro que a medida para avaliar a forma como a Igreja lidou com casos de abusos não é o Estado, mas sim a lei da Igreja e, no final de contas, o Evangelho. Mas vale a pena sublinhar um ponto: não é apenas a Igreja Católica que tem evoluído e adaptado ao longo dos anos na compreensão do abuso sexual de crianças. 

Há duas semanas o governador de Maryland assinou uma lei a revogar permanentemente o prazo de prescrição para processos civis de abuso sexual infantil. Esta foi a principal recomendação, e o principal objectivo, do relatório da procuradoria. Esta mudança tem efeitos retroactivos. Para além disso, a nova lei coloca limites às indemnizações nestes casos, mas esses limites são quase o dobro para instituições privadas – como é o caso da Igreja – do que para as instituições públicas (como escolas).

Se a lei se mantiver – a sua constitucionalidade está a ser contestada – a Arquidiocese será sujeitada a uma torrente de processos. A Conferência Católica de Maryland opôs-se ao levantamento retroactivo dos prazos de prescrição, embora tanha defendido a sua eliminação daqui em diante.

Devia ser claro que a Igreja ainda tem muito que pagar pelos pecados e os crimes do passado. A vergonha e a verdade aqui é que o fardo desses pecados e crimes tem sido carregado pelos inocentes: as vítimas, em primeiro lugar, mas também de forma real, a totalidade dos fiéis.

Não há nada para celebrar no relatório de Maryland, o seu conteúdo é demasiado doloroso e vergonhoso para isso. Mas há décadas que a Igreja se tem esforçado para recuperar a confiança, insistindo que no meio da podridão já tem feito progressos assinaláveis, bem como reformas duradouras e eficientes a favor da transparência e da responsabilidade.

O procurador-geral de Maryland acaba de passar cinco anos a provar que, pelo menos na diocese mais antiga da nação, a Igreja Católica está a dizer a verdade.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 20 de Abril de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Tuesday, 2 May 2023

Intervenção no "Resposta Pronta" da Rádio Observador

Fui convidado a participar no programa "Resposta Pronta", da Rádio Observador, para falar sobre as mudanças no Direito Canónico sobre como lidar com casos de abusos sexuais. 

Ouçam aqui a intervenção completa. 



Friday, 28 April 2023

"Quer vivamos, quer morramos, somos do Senhor"

Foi ontem apresentado o Grupo Vita, que tem por objectivo trabalhar na prevenção de abusos na Igreja e no acompanhamento de vítimas e, caso solicitem, de abusadores ou pessoas acusadas de abuso. É uma iniciativa da Conferência Episcopal e pretende ser um projecto temporário que tem por missão essencialmente dotar as Comissões Diocesanas dos conhecimentos e capacidades técnicas para depois serem elas a continuar o trabalho. Eu estive na SIC Notícias para comentar a apresentação (quarta-feira, entre as 14h20 e as 15h10, mais coisa menos coisa, para quem tiver muita vontade de ir ver), mas encontram aqui a informação essencial sobre este novo órgão. Da minha parte renovo o meu apelo a todos os que tenham informação sobre abusos, ou que sejam elas mesmas vítimas: denunciem. É a melhor forma de ajudar a implementar a reforma que a Igreja pretende.

O Papa visita a Hungria a partir de amanhã. Vai ser uma visita interessante. A Hungri
a e o seu governo têm feito um trabalho notável em áreas como a promoção da natalidade e da família, bem como no respeito pela liberdade religiosa e apoio às minorias cristãs perseguidas no mundo, mas ao mesmo tempo defendem abertamente uma política em relação aos refugiados que choca com as minhas próprias posições e também com as do Papa Francisco. Aqui podem ler uma entrevista com o embaixador da Hungria em Portugal precisamente sobre este tema.

Todas as semanas tento ter pelo menos um texto próprio, de análise, para vos apresentar. Nos últimos meses tem sido quase sempre sobre os abusos, e tem havido muito para dizer, mas há alturas em que falha a inspiração. Felizmente, hoje tive uma ajuda do PAN, que ao contrário do que todos pensávamos, afinal até defende a extinção de algumas populações de animais, nomeadamente os seres humanos que têm a ousadia de ter mais do que três filhos e que pratiquem a monogamia. Fica aqui a minha resposta – e a da minha família – a esta posição do PAN.

E a propósito de famílias e monogamia, o artigo desta semana do The Catholic Thing é uma daquelas pérolas que gostaria muito de poder dizer que fui eu a escrever. Mas não fui. Peter Laffin conta-nos como se sentiu envolto por uma sensação de verdadeira liberdade no dia do seu casamento e reflecte, a partir daí, sobre como os cristãos e o mundo têm diferentes entendimentos daquilo que significa liberdade, entre outras coisas. Vale mesmo a pena ler e partilhar, sobretudo com jovens que estejam numa idade de tomar decisões que vão definir o seu futuro.

Morreu esta quinta-feira o Pe. João Aguiar. O Pe. João era presidente do Conselho de Gerência da Renascença quando eu fui para lá trabalhar e embora não nos tenhamos mantido em contacto desde que ele voltou para Terras do Bouro, de onde era natural, era um amigo por quem eu tinha muita estima. Deixa saudades entre todos os que o conheceram e esperemos que esteja a descansar agora nos braços de Deus.

Quando abri o obituário da Renascença fiquei surpreendido ao ver que tinham pedido a um jornalista novo para o escrever. Porquê, se ainda há lá tantos que o conheceram? Devia ter guardado a minha reacção para depois de ler este belo texto do Diogo Camilo. Logo eu, que sempre adorei escrever obituários, e escrevi tantos sobre pessoas de quem nada sabia antes de me ser lançado o desafio.

No campo das notícias internacionais, aconselho este testemunho de um padre do Burkina Faso, que explica como os católicos – acossados de todos os lados – usam as suas Kalashnikov para se defenderem (não é o que parece, obviamente). A simpática história da Irmã Selestina, que percorre centenas de quilómetros sozinha, de carro, para combater a solidão e o isolamento dos poucos católicos que vivem na Islândia, e ainda o testemunho dos dois sucessores de bispos ortodoxos que foram raptados há dez anos na Síria e de quem nada se sabe. Quer vivamos, quer morramos, somos do Senhor, dizem. E que bem dito!

Thursday, 27 April 2023

Afinal a única coisa natural que o PAN quer ver extinta somos nós


Ainda pensei tentar rebater alguns dos pontos neste vídeo, mas não vale a pena.

Começo por dizer que o recebi num grupo do WhatsApp, e não faço ideia se a tal proposta que está a ser discutida é boa ou não. Mas a razão pela qual não vale a pena rebater os argumentos expostos é porque o deputado municipal do PAN tem razão. 

Atenção, não é que eu concorde com ele! Mas ele tem razão porque está a operar dentro de um paradigma em que tudo o que diz faz todo o sentido. Logo tem razão, dentro da realidade que subscreve. O que não implica que tenha razão à luz da verdade, porque eu sou daqueles antiquados que para além de defender que a família "convencional" é uma coisa porreira que faz sentido preservar - tipo lince de Malcata, mas para melhor - acredita também que existe uma verdade, e não muitas, ao sabor das ideologias de cada um. 

Porque o problema aqui é ideológico mesmo, daí ter falado de paradigma. O problema não é a lógica que o deputado municipal usa, é a ideologia que está por detrás e essa, é bom que entendamos, é incompatível com a minha, e a de muitos. Não é apenas diferente, é incompatível.

Eu acredito num mundo em que o ser humano tem a responsabilidade de cuidar da criação. Toda. A sua e a do reino natural. Não o fazemos bem, e até eu falho muitas vezes nesse aspecto, mas temos essa responsabilidade. Ele acredita num mundo em que o humano está a mais. Muito a mais, pelos vistos. 

Eu compreendo que os animais, fazendo parte da criação infinitamente sábia e bela de Deus, estão num plano diferente da do ser humano, que é dotado de razão e, acima de tudo, de capacidade de se relacionar e de amar, não apenas para preservação da espécie, mas por total altruísmo. Ele acredita num mundo em que o animal e o homem estão exactamente ao mesmo nível, pese embora eu tenha muita dificuldade em acreditar que se os leões pudessem formar um partido as suas preocupações fossem as mesmas que as do PAN. 

Eu acho que os casais devem poder ter os filhos que desejam ter e que o Estado, que tem por função zelar pelo bem-estar e pelos interesses das pessoas, deve fazer o que estiver ao seu alcance para permitir que elas se concretizem dessa forma. Ele acha que a função do Estado é dar às pessoas os meios para não terem filhos, e que se ainda assim insistirem em os ter, então o problema é deles e não merecem qualquer ajuda ou apoio. 

Eu acho que uma família composta por um casal estável, mãe e pai, é o melhor ambiente para se criarem filhos saudáveis, realizados e equilibrados, o que por sua vez é um bem social. Ele nota com satisfação que as famílias "convencionais" já são minoria, estão em vias de extinção, e "assim esperemos que fiquem", que isto da monogamia é só para os pinguins, pelos vistos, e afinal há coisas naturais que o PAN até defende que se extingam. 

Eu acho que submeter os animais, quaisquer que sejam, a tratamentos hormonais é uma violência pouco saudável que desrespeita o equilibrio biológico. Ele concorda, desde que esses animais não sejam as nossas mulheres.

Eu acho que devemos evitar o uso do plástico a nível social, ele considera que todos os homens heterossexuais que tenham relações sexuais devem plastificar determinada parte do seu corpo, para evitar essa doença sexualmente transmissível que é a gravidez. 

Tenho, contudo, uma dúvida. Eu acho que este senhor tem direito a ter as suas opiniões anti-natalidade, anti-humanas e anti-família. Acho, porque considero que o direito à liberdade de consciência é uma coisa sagrada. Discordo, e espero que ele mude as suas opiniões nefastas, mas respeito a liberdade de as ter. Será que ele acha o mesmo em relação às minhas?

Quando o PAN apareceu notei com frustração que muitas pessoas iam votar no partido dos "animais" porque achavam giro e fofo que estivessem representados no Parlamento. Pois bem, é nisto que acreditam? É isto que defendem? Porque é isto que o PAN é. E não é coisa boa. Um partido que diz às famílias numerosas: "Demo-vos contracepção e aborto. Se ainda assim quiserem poluir a terra com a vossa prole, problema vosso", não é uma coisa boa. 

E para quem assim pensa nada tenho a argumentar. Só posso responder que temos visões diferentes do mundo e da realidade, e que eu e a minha casa escolhemos a vida, e escolhemos acreditar que a família - tenha ela o tamanho que tiver - é uma coisa boa. 

Por isso para vocês e para a vossa cultura da morte, não faço mais do que responder com uma fotografia da minha família orgulhosamente numerosa. 



Wednesday, 26 April 2023

Os Votos da Minha Liberdade

Peter Laffin

Cerca de uma hora antes do meu casamento aconteceu uma coisa impressionante. Um dos meus padrinhos levou-me a mim e a outro padrinho para uma sala vazia da casa onde nos estávamos a arranjar. Depois, estendeu as mãos, inclinou a cabeça e conduziu-nos em oração. Era, e é, um grande amigo, mas era a primeira vez que eu o via a rezar. A voz deste evangélico não praticante tremeu com doce incerteza enquanto invocou sobre nós a bênção de Deus. Foi um momento inesquecível.

Rezámos o Pai Nosso e fomos para o carro que nos levaria até à Igreja. Sentei-me no lugar do passageiro e observei as quintas e os campos a passar debaixo de um céu prateado. A enormidade dessa viagem – a última da minha vida de solteiro – incendiou as cores desta zona rural de Nova Inglaterra.

Ocorreu-me então que eu era total e completamente livre. Foi uma sensação peculiar e estranha, uma vez que se tratava do oposto daquilo que a cultura me tinha condicionado a esperar deste momento. Como noivo a caminho do altar, era suposto estar apreensivo com a perspectiva de perder a minha “liberdade”. Mas enquanto estava a ser conduzido rumo à ocasião do meu cativeiro matrimonial – no qual me seria colocada a “corda ao pescoço” – tudo o que sentia era a mais pura das libertações.

Tendo sido criado na América nos finais do século XX, tinha sido sobretudo influenciado pela interpretação secular-liberal da palavra “liberdade”, que mais do que ser diferente do entendimento católico, é mesmo antitético. Costumamos brincar, dizendo que os nossos irmãos seculares e liberais falam uma língua diferente da nossa. Mas olhando mais de perto, vemos que é mesmo isso que acontece, até quando usamos exactamente as mesmas palavras.

Há um exemplo famoso deste fenómeno perto do final do maior dos romances de Evelyn Waugh, Reviver o Passado em Brideshead. O narrador, um artista agnóstico chamado Charles Ryder, escarnece da ideia de se ter chamado um padre para visitar o Lord Marchmain, que está moribundo. “Não o podem sequer deixar morrer em paz?”. Julia, a filha de Marchmain, com quem Ryder tem estado a ter um caso adúltero, responde de forma triste: “Eles querem dizer algo tão diferente com a palavra paz”. A visão secular de “paz”, expressada por Ryder, significa pouco mais do que não ser maçado. Mas, para os católicos, “paz” é um estado objectivo, e não uma emoção fugaz.

Há muitos outros exemplos. Mas talvez a maior das divisões seja precisamente sobre o significado da palavra “liberdade”. De acordo com a interpretação secular-liberal, ser livre significa ter o máximo de opções e mínimo de responsabilidade pessoal. Assim, a liberdade conquista-se escapando dos confins da vida normal imposta pela necessidade de ganhar dinheiro para suportar uma família. Só aí é que se torna possível dedicar tempo e energia a objectivos ostensivamente mais satisfatórios.

Esta é a visão firmemente proposta pela comediante progressista Chelsea Handler num vídeo recentemente lançado e que se tornou viral nas redes sociais. O sketch de cerca de dois minutos detalha um dia na vida de uma mulher sem filhos cuja “liberdade” assenta em não ter miúdos para levar para a escola, ou para controlar no supermercado. Assim, a personagem de Handler é “livre” de dormir até ao meio-dia, drogar-se, ter sexo com estranhos e “meditar”.

Seria difícil, ou mesmo impossível, exprimir de forma mais concisa o contrário daquilo que é o entendimento católico de liberdade.

Isso é porque, ao contrário do que pensa a mente moderna, o conceito católico de liberdade consiste em assumir cada vez mais responsabilidade, e não em fugir dela. Na visão secular, a liberdade perfeita encontra-se algures numa ilha tropical remota onde pessoas “livres” bebem cocktails chiques até ao final dos tempos.

Em contraste, para os católicos, a verdadeira liberdade encontra-se nas ruas de Calcutá, onde Missionárias da Caridade dão-se inteira e livremente às almas mais pobres da terra. Escusado será dizer que a diferença é significativa.

Não é que haja qualquer problema em um católico apreciar cocktails numa ilha deserta, mas isso podem ser férias católicas, nunca uma vida católica. E não é porque os católicos são uns chatos, mas porque eles ficariam aborrecidos até à morte com esse tipo de vida. Onde não existe responsabilidade não existe liberdade para perseguir os aspectos mais significativos da vida.

A vida interior de um católico comprometido – um que se submeteu heroicamente à aventura da santificação – é uma montanha russa para a alma.

A vida hedonística, pelo contrário, em que não existe outro propósito para além da satisfação própria, parece-nos triste e vazia. Mais uma ilusão do que uma vida.

Em retrospectiva, a razão pela qual me senti tão livre a caminho do meu casamento é evidente: Ao escolher dar-me completamente (e de forma impensada), estava a experimentar as emoções próprias de uma grande aventura. A viagem seria desafiadora – o meu director espiritual, o padre Peter Mussett, de Boulder, Colorado, assegurou-me várias vezes de que o casamento exigiria tudo de mim.

Mas isso só tornou a perspectiva mais atraente. Eu queria dar tudo para algo maior do que eu, porque queria ser livre. Talvez o desejo mais natural do ser humano seja o de se doar totalmente em amor. Qualquer coisa menos que isso é uma frustração para a alma.

Eis a grande verdade da Cruz, que, em tempos modernos, se tornou um segredo tragicamente escondido: que a nossa liberdade está directamente relacionada com o quanto nos oferecemos.

A qualquer jovem que esteja em busca da verdadeira liberdade e que tenha ouvidos para ouvir, que os vossos anciãos católicos falem com uma só voz: Para ser livre, encontrem alguém a quem possam amar com todo o coração e que seja capaz de vos amar de volta. E quando o tiverem feito, esvaziem-se de forma impensada, dêem tudo o que tiverem pelo casamento e pela família, ou pela vocação, e verão que miraculosamente a vossa taça transbordará para sempre.

Não faz qualquer sentido, mas não é suposto. É só suposto ser verdade. E é. E libertar-vos-á.


Peter Laffin escreve de New England. O seu trabalho mais recente encontra-se no The Catholic Thing, The Washington Examiner, e The National Catholic Register.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 19 de Abril de 2023)

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Friday, 21 April 2023

A Igreja não pode voltar atrás neste caminho

Os bispos portugueses voltaram esta quinta-feira a pedir perdão pelos abusos na Igreja, com D. José Ornelas a dizer que “a nossa Igreja não pode voltar atrás neste caminho”.

Não voltar atrás significa contribuir activamente para construir um novo paradigma para lidar com estas questões, o que por sua vez implica haver sistemas transparentes em que todos podem confiar, nomeadamente as vítimas. Paradoxalmente, quem mais pode fazer nesse sentido agora são as próprias vítimas, dando os seus testemunhos para que as Comissões Diocesanas possam fazer o seu trabalho. Neste texto apelo a essas vítimas para fazer mais um sacrifício, para bem de toda a Igreja e sobretudo da prevenção. Mesmo que não seja vítima, leia e partilhe, nunca se sabe quem do seu círculo social precisa de ouvir esta mensagem.

Ainda no tópico dos abusos, a Opus Dei publicou um comunicado em que dá conta de cinco casos de abusos envolvendo de alguma forma a prelatura, apurados pela Comissão Independente. Já foram acrescentados, com os detalhes conhecidos, aqui.

Reunidos em Fátima para o plenário da Conferência Episcopal, os bispos portugueses reelegeram D. José Ornelas para presidente da organização, apostando assim na continuidade. O bispo de Leiria-Fátima terá muito trabalho pela frente, rezemos para que tudo lhe corra bem.

Num mundo onde existe tanta violência inter-religiosa, é sempre bom ouvir bons exemplos. Este chega-nos da República Centro-Africana. Outro exemplo bonito, mas de missão, vem do Brasil. Leiam a história deste missionário que mais do que uma vez ia perdendo a vida para tentar levar o Evangelho ao coração da Amazónia.

Faltam quase 100 dias para a Jornada Mundial da Juventude. Se ainda não se inscreveu como voluntário, mas gostava, saiba que abriram bolsas de 750 euros pagas pela Fundação Santander, destinadas a jovens a partir dos 18 anos.

Já poucos falam da Guerra na Ucrânia, mas é urgente não perder de vista a importância deste conflito a muitos níveis. Um desses níveis é a sobrevivência da Igreja Católica de rito bizantino na Europa de Leste. Leia o artigo desta semana do The Catholic Thing para perceber porquê.

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