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Wednesday, 3 February 2021

Quo Vadis? - Sempre uma boa pergunta

Michael Pakaluk
Por acaso peguei no romance “Quo Vadis” de Henryk Sienkewicz na semana passada quando procurava um livro para ler por divertimento (como estamos todos a precisar desse tipo de leitura por estes dias!)

Claro que não foi mesmo por acaso. Pedi inspiração ao meu anjo da guarda, como costumo fazer, e sabemos que nada acontece por acaso, tudo é guiado pela divina providência. Por isso pensei em escrever algo sobre este livro providencial.

Admito que o escolhi algo contrariado, por várias razões. Já vendeu dezenas de milhões de exemplares, inspirou filmes e os meus filhos tiveram de o ler para a escola. Alguns poderão pensar que estas são todas boas razões para o ler, mas pessoalmente tendo a andar em sentido contrário ao comum e óbvio. Talvez vocês também não se sintam especialmente atraídos a este livro por outras razões.

Mesmo depois de o escolher precisei de mais um bom par de razões para começar a ler. E encontrei-os: “Qualquer livro que não tenhas lido é igual a um livro acabado de publicar” (Samuel Johnson) e “enquanto neto de camponeses de uma aldeia nos arredores de Varsóvia, devias aproveitar todas as oportunidades para aprender mais sobre coisas polacas”.

Sienkewicz foi Nobel da Literatura e autor de uma grande trilogia de romances históricos polacos. Mas o “Quo Vadis”, como devem saber, é sobre Roma nos tempos de Nero. Conta a história da vasta e clandestina conversão ao Cristianismo, pela perspetiva dos pagãos poderosos e decadentes que dominavam a cidade.

Para escrever o livro o autor investigou a fundo a Roma antiga, até ao mais ínfimo detalhe da vida do dia-a-dia. Com um o olhar atento de um autor, conjuga todos estes detalhes na sua narrativa de forma a que ao mesmo tempo que conta uma boa história o livro também constitui uma boa lição histórica sobre Roma. É uma boa recomendação para quem esteja a planear uma peregrinação à cidade eterna, porque enche as ruínas de vida.

Acima de tudo, pode-se recomendar a cristãos no Ocidente que sentem que existe uma crescente força ideológica pós-cristã que ameaça oprimir-nos e perseguir-nos. Não é que o livro seja grande consolo nesse sentido. Sim, é verdade que Nero se vestiu de mulher para casar com um homem, Pitágoras, numa grande cerimónia pública (algo que Sienkewicz não deixa de referir). Mas por mais que sejam corruptos, os ideólogos da nossa própria Grande Babilónia não são Nero, ainda.

O que quero dizer é que o livro oferece uma imagem dos primeiros cristãos, que faríamos bem em tentar imitar. Permitam-me chamar-vos a atenção para três aspetos.

Em primeiro lugar temos a paixão dos primeiros cristãos. Tornar-se cristão na era de Nero era apaixonar-se completamente por Cristo ao ponto de se identificar com ele e preferir morrer “com ele” a viver fora dos seus mandamentos. Sienkewicz transmite esta paixão de forma criativa, fazendo do romance entre um patrício romano, Vinícius, e uma convertida ao Cristianismo, Lígia, a trama central do romance.

Como é que se transmite como era o amor destes primeiros cristãos por Cristo? Através da história de um homem que daria o mundo inteiro para conseguir uma mulher e tornar o amor desse homem por essa mulher e o seu amor por Cristo a mesma coisa. Precisamos de amar Cristo e uns aos outros, sobretudo os nossos esposos, da mesma forma.

Henryk Sienkewicz

Em segundo lugar está aquilo a que eu chamo a “autossuficiência” da irmandade e da vida cristã para esses primeiros convertidos. Para eles, como Vicinius diz ao seu mentor pagão Patrónio, é como se Roma e Nero nem existissem. Todo o seu pensamento está em Cristo, o seu único Senhor. Descobriram um caminho de vida em Cristo e vivem como Cristo ordena e isso dá-lhes alegria, e basta.

No nosso caso, hoje poderíamos dizer em teoria que “a Igreja é uma sociedade perfeita”, mas como nos queixamos! Falamos como se só pudéssemos ser felizes se os tempos fossem diferentes! Não transmitimos a alegria abundante e a perfeita satisfação de saber que o amor de Cristo já é nosso. (Sim, também devíamos querer melhorar este mundo, mas como forma de partilhar aquilo que já nos foi dado plenamente).

Em terceiro lugar temos a sensação de que a vida cristã implica sempre um reinício. Por isto quero dizer que talvez alguns pensem, de forma inconsciente, que as coisas tendem a piorar ao longo do tempo, porque pensamos em modo de uma transmissão física que vai perdendo aos poucos aspetos do original. Uma fotocópia de uma fotocópia de uma fotocópia, que acaba por perder quase toda a sua informação. Mas parte do milagre do baptismo e da Eucaristia é que a vida de Cristo é transmitida plenamente a cada convertido.

Em “Quo Vadis” vemos que os cristãos romanos têm precisamente a mesma devoção que os discípulos na Terra Santa, a 2.500 milhas de distância. Basta ver a vida de qualquer santo, como por exemplo a Angela Merici, cuja memória celebrámos recentemente – uma jovem humilde chamada a amar o Senhor no Século XV, quase que do nada, numa pequena vila nas margens do Lago Garda. Esta é a vida renovada de um alter Christus.

Lembremo-nos de como São João Paulo II insistia em transmitir à Igreja, na viragem do Milénio, a mensagem: Iesus Christus heri et hodie ipse et in saecula, “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e amanhã” (Heb. 13,8). Estas palavras mantêm-se, agora e para sempre.

“Quo vadis” costuma ser traduzido do Latim como “para onde vais?” Mas o verbo tem o sentido de “apressar”. E a frase enfatiza o destino, mais do que a moção. Estou agitado, distraído, a trabalhar de forma frenética ou a adiar o trabalho? Seja o que for que estou a fazer, qual é o objetivo final de toda a minha atividade? O romance sugere que se eu não estou a deixar tudo o resto de lado para me apressar em direção a Cristo, então estou a afastar-me dele.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 2 de Fevereiro de 2021)

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Wednesday, 12 August 2015

O Martírio, Ontem e Hoje

Randall Smith
“Se as autoridades estivessem à procura de cristãos para matar, haveria provas suficientes para te condenar?” Ou, posto de outra forma: “A tua fé cristã é do género que vale a pena perseguir?”

Às vezes ouvimos dizer que os “mártires cristãos” não eram executados por causa da sua fé, mas por outras razões, e surge então a questão de saber se devem ou não ser considerados mártires pela fé. Assim, e pegando num exemplo contemporâneo, se Edith Stein foi executada por ser judia, e não por ser cristã, devemos dizer que ela é uma mártir cristã? De igual modo, se os primeiros cristãos foram executados não por causa das suas convicções religiosas – sobre as quais, ouvimos frequentemente dizer, os romanos eram “indiferentes” –, mas por constituírem uma suposta ameaça ao Império Romano, então devemos dizer que são mártires cristãos, ou apenas descrevê-los como cidadãos romanos problemáticos?

É verdade que os romanos não estavam particularmente interessados em saber que deus, ou deuses, uma pessoa adorava, ao contrário do Império Helenista que os precederam. Um desses imperadores helenistas, Antíoco IV Epifânio, (c. 215 AC – 164 AC) tornou-se famoso, por exemplo, por obrigar os judeus na Judeia a comer carne de porco e a adorar uma estátua de Zeus que tinha mandado colocar no Templo de Jerusalém. O resultado foi uma revolta liderada por Judas Macabeu e os seus filhos – a Revolta dos Macabeus. Com os romanos, pelo contrário, podia-se fazer o que bem se entendesse no que diz respeito a crenças e adoração privadas.

Mas não é verdade que os romanos fossem completamente indiferentes às crenças religiosas. Por muitas razões, ligadas à expansão romana para o oriente e a centralização do poder romano num único imperador, a regra em muitas administrações romanas no final do segundo século era a “adoração do imperador”. E qualquer religião, tal como a dos judeus e dos cristãos, que não permitisse aos seus fiéis reconhecer o imperador como Deus e como máxima autoridade em todos os assuntos, era um problema, aos olhos de Roma.

Uma “fé” que permanecesse no interior da Igreja ou do templo e que não maçasse os líderes políticos de qualquer forma não era um problema. Mas se alguém tentasse ensinar verdades que incomodassem os planos dos governantes ou procurasse convencer as pessoas a recusar esses planos por objecção e consciência, essa pessoa dificilmente escaparia a perseguição por muito tempo. As Igrejas ou os templos que estavam envolvidos em “adoração” da mesma forma que os templos pagãos em Roma – isto é, que praticassem rituais e sacrifícios elaborados, mas não tivessem grandes ensinamentos em termos de doutrina ou moral – tinham muito pouco a temer das autoridades romanas.

Da mesma forma hoje, como tantas vezes foi o caso ao longo da história, desde que se procure apenas “liberdade de culto”, pouco há a temer da maioria dos governos. Podemo-nos envolver nos rituais que quisermos desde que no interior dos templos ou das igrejas. É quando essas crenças começam a chegar à praça pública, como uma fonte que jorra e transborda, que os chefões se começam a preocupar. Desde que a sua “religião” se preocupe apenas com o outro mundo, a maior parte das pessoas não quer saber se adora Zeus, Javé ou o deus dos peluches.

Os media actuais que criticam os ensinamentos morais da Igreja Católica e exortam o Governo a manter firme o “muro que separa a Igreja e o Estado” não têm qualquer problema em publicar horóscopos diários – apesar de a crença na astrologia ser claramente religiosa – simplesmente porque sabem aquilo que todos nós calculamos: Nomeadamente, que as pessoas que lêem horóscopos e mesmo as que os levam a sério, não representam qualquer ameaça para o governo. Os horóscopos não têm qualquer conteúdo moral e é por isso que não podem constituir qualquer ameaça para ninguém em posições de poder. É por isso que raramente vemos pessoas a serem perseguidas por se envolverem em astrologia. É considerado seguro, uma tolice inofensiva.

Martin Luther King - Perseguido pelas suas crenças?
Mas uma religião que diz que todas as leis e acções executivas do Governo devem ser julgadas segundo uma autoridade maior; que quaisquer leis que falhem este teste devem ser resistidas; e que a “boa cidadania” deve ser julgada precisamente pela resistência que se opõe ao governo neste sentido, essa sim é perigosa. Religiões destas raramente escapam à perseguição muito tempo.

Por isso, como se vê, os debates sobre o “martírio” na Igreja primitiva e sobre a “liberdade religiosa” nos nossos tempos, têm bastante em comum. Se por “mártir” falamos apenas de alguém executado por prestar culto de determinada forma, então muitos dos primeiros cristãos não eram mártires. Se, contudo, entendermos que o termo abrange as pessoas executadas por se recusarem a reconhecer nos governadores romanos, ou no imperador, a autoridade máxima sobre assuntos humanos, então houve muitos.

As autoridades do sul dos EUA não perseguiram Martin Luther King porque, por ser baptista, ele se recusava a baptizar crianças. No que diz respeito à prática religiosa, ele era livre de fazer o que entendesse. Puseram-no na prisão porque a sua mensagem de liberdade estava a chegar às ruas, na forma de protestos contra as leis racistas do Sul.

É curioso que nos nossos dias tantos daqueles que gostariam de se associar ao legado das lutas pelos direitos cívicos revelem vontade de fechar essa mesma porta entre a Igreja e a Praça Pública. Estas pessoas são como o pai de Santa Perpétua, que a aconselhou, enquanto aguardava ser executada, a rejeitar Cristo publicamente, apenas pelas palavras, e que ninguém queria saber o que ela fazia em privado. A cultura dela, como a nossa, conhecia apenas um tipo de tolerância. Mas o seu espírito era como o de Cristo, que conhecia uma liberdade mais verdadeira que aquela que pode ser dada ou retirada pelos chefes das nações.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 29 de Julho de 2015 em The Catholic Thing)

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