Showing posts with label Caridade. Show all posts
Showing posts with label Caridade. Show all posts

Wednesday, 14 September 2022

Banquetes e Famílias

Michael Pakaluk

Não sei de qualquer outro mandamento de Cristo que seja tão universalmente desobedecido que aquele que ouvimos recentemente no Evangelho de Domingo: “Quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos” (Lc. 14,13).

“Ah, mas a minha paróquia organiza um jantar para os sem-abrigo por altura do Natal, e nós contribuímos com bens enlatados…” Lamento, mas não é isso que diz o Grego na Bíblia. Uma tradução mais literal seria “Sempre que deres um banquete”. Jesus está a estabelecer uma regra geral, não uma coisa que se possa satisfazer apenas de vez em quando. Em todas as ocasiões em que se der um banquete, diz Ele, é isto que deve fazer.

E mais, Ele afirma que só devem ser convidados aqueles que não tenham meios para retribuir (Lc. 14,14). Convidar um ou dois pobres, simbolicamente, não cumpre com a intenção do mandamento.

Eu já participei em milhares de “banquetes” (a palavra “dochē” que Lucas usa abrange todo o tipo de recepções ou mostras de hospitalidade, como encontros informais, cocktails, copos de água, evidentemente, eventos de angariação de fundos, para não falar de encontros de família e jantares festivos). De todas as vezes que os anfitriões eram cristãos, esta regra de Nosso Senhor nunca foi seguida. Um mandamento que devia ser seguido sempre, não é seguido nunca.

Então o que é que se passa aqui? Estas palavras não são para seguir? A passagem é de tal forma hiperbólica que é essencialmente impraticável.

Curiosamente, o próprio ensinamento tornou-se mais claro para mim quando li a “Riqueza das Nações” de Adam Smith. A certa altura ele pergunta “O que é feito dos banquetes? (III. iv). Nos relatos históricos antigos e medievais podemos ler, diz ele, que os homens ricos faziam banquetes quase diariamente. Esta era uma prática comum entre chefes dos Highlands escoceses, diz o autor, mesmo no início do Século XVIII.

Recordo-me de Sir Walter Scott iniciar o “Waverley” precisamente com uma descrição de um banquete desses. “Em Quo Vadis” os banquetes da corte de César são uma grande tentação e, claro, sabemos que João Baptista foi executado por um Herodes em estado de sedução. Mas nas sociedades modernas a prática tinha caído em desuso. Adam Smith explica.

“Num país que não tem comércio exterior nem manufaturas mais aperfeiçoados”, explica Smith, “um grande proprietário de terras, por não ter nada pelo que possa trocar a maior parte da produção de sua terra que vá além do necessário para a manutenção dos agricultores, consome tudo com seus hóspedes na casa senhorial. Se essa produção excedente for suficiente para sustentar 100 ou 1 000 pessoas, só pode utilizá-la para isso e apenas para isso.”

Daí que homens ricos, “desde o soberano até ao mais pequeno barão” sempre tiveram os seus séquitos de apoiantes leais, a quem banqueteavam constantemente. Qualquer excesso para além deste era usado para criar maior dependência entre os agricultores arrendatários. Era assim que os ricos mantinham o seu poder, diz Smith, criando dependência, principalmente através de banquetes.

Aqui Smith está a desenvolver o argumento feito por David Hume de que, curiosamente, o aumento da manufactura e do comércio externo levou à dissolução do poder baronial, uma vez que os ricos podiam agora gastar o seu dinheiro acumulando artefactos luxuosos. É verdade que ao fazê-lo, estavam ainda a “suportar” uma rede de artesãos e de comerciantes que forneciam estes luxos, mas não detinham qualquer poder sobre esta rede, quer por causa da sua dispersão, quer porque o seu próprio contributo para a manutenção desta era relativamente pequeno. Desta forma, a emergência de uma sociedade comercial sustentava a emergência de uma sociedade livre.

Banquete diário de uma família numerosa
Não me preocupa agora avaliar este argumento fascinante. É evidente que aquilo que Smith considera uma liberdade, ou seja, a autonomia dos consumidores e dos produtores, tem aspectos negativos que nos preocupam cada vez mais. Também é verdade que sistemas análogos ao do senhor medieval e o seu séquito de dependentes continuam bem vivos na nossa cultura política actual.

Antes, o que quero realçar é que nas sociedades tradicionais o “banquete” representa o destino dado à riqueza excedentária. Nosso Senhor está a usar a técnica retórica de tomar a parte pelo todo. Descreve um uso de riqueza excedentária, o único que existia na altura, para se referir de forma vívida a qualquer uso de riqueza excedentária.

Assim, o mandamento sobre banquetes é de facto um mandamento sobre a importância de destinar a riqueza excedentária à esmola. E essa, claro, mantém toda a sua validade nas sociedades comerciais.

Cristãos há, porém, que têm conseguido cumprir o mandamento de uma forma próxima do seu significado original. Ocorrem-me Santa Isabel da Hungria e Santa Margarida da Escócia. Estas mulheres trocaram as comitivas das suas cortes pelos mais pobres dos pobres. Em vez de banquetear diariamente centenas de nobres, estas santas tornaram-se conhecidas por montar hospitais junto aos seus palácios e cuidar dos aleijados, dos coxos e dos cegos, antes de qualquer outro.

Mas há outros cristãos que também o fazem, são os pais, especificamente os de famílias numerosas. Refiro-me a famílias numerosas porque é nesses casos que se torna mais evidente o total compromisso de riqueza excedentária e as suas mesas de jantar são o mais próximo, visualmente, de uma corte medieval.

Os seus filhos são como os cegos, isto é, sem educação; certamente que são pobres, uma vez que nem sequer podem possuir bens; aleijados – alguns nem andar sabem – e coxos, isto é, imaturos. Não podem retribuir agora nem, se a sua educação for bem dada, alguma vez o farão, uma vez que a melhor forma que têm de mostrar gratidão é fazer o mesmo, tendo os seus próprios filhos mais tarde.

Devemos rejeitar o falso argumento de que os pais que acolhem filhos apenas o fazem por razões egoístas, para sua própria realização, ou que não fazem mais do que a sua obrigação, uma vez que os geraram, e por isso não têm qualquer mérito. Certamente que estes pais servem o bem comum tendo tantos filhos durante um catastrófico inverno demográfico.

Sim, os pais de famílias numerosas cumprem fielmente, e de forma muito evidente, este mandamento de Nosso Senhor.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 14 de Setembro de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



Wednesday, 17 July 2019

Em Busca do Bom Samaritano

O amor ao próximo é algo que é pedido a todos nós. A parábola do Bom Samaritano, que escutámos no passado domingo, fornece um bom guião. Temos a responsabilidade de reconhecer a necessidade e a miséria humanas, e de lhes responder tanto com atenção pessoal como com generosidade material.

Numa sociedade rica, com mudanças demográficas velozes, contudo, isto requer alguma análise. Poucos são os que, hoje em dia, vivem a familiaridade cara-a-cara das pequenas comunidades. A maioria vive em subúrbios e vai de carro para o trabalho, passando ao largo dos bairros mais pobres.

Claro que os media apresentam-nos muitas imagens de pessoas necessitadas, mas poucos de nós encontramos essas pessoas no nosso dia-a-dia. Existem, contudo, verdadeiras bolsas de miséria humana até no nosso mundo desenvolvido, desde o interior das cidades até às paisagens mais rurais.

Nas nossas ruas existem pessoas com necessidades crónicas. Vemo-las nas esquinas das ruas e nos degraus das igrejas. Algumas estão perturbadas emocionalmente, outras sofrem de stress pós-traumático, outros ainda estão simplesmente a atravessar um mau momento e há os que estão a aproveitar-se do sistema. Mas a desolação emocional e espiritual pode ser ainda mais devastadora.

Os padres que acompanham as Missionárias da Caridade apercebem-se que as irmãs os dissuadem de dar dinheiro diretamente aos necessitados. Lançar-lhes algumas moedas é muito mais fácil do que dar-lhes aquilo de que precisam verdadeiramente: cuidado pessoal moroso. As pessoas que vivem vidas isoladas e pobres precisam – segundo nos dizem aqueles que verdadeiramente cuidam delas – de interacção humana, muito mais do que de dinheiro. Frequentemente o que lhes conduziu àquela situação foi precisamente a falta de ligações pessoais.

Portanto nos nossos tempos não é fácil ser um Bom Samaritano. O Bom Samaritano cuidou das necessidades físicas da vítima do assalto e deixou-lhe dinheiro para uma espécie de cuidado institucionalizado: “E no dia seguinte retirou dois denários e deu-os ao estalajadeiro, dizendo, ‘Cuida dele, e tudo o que gastares a mais, pagar-te-ei quando regressar’” (Lc. 10,35).

Muitas vezes, dar dinheiro às pessoas na rua apenas os leva a adiar a procura de emprego ou de ajuda. Se souber que se vai cruzar com pobres ao longo do seu dia, um Bom Samaritano moderno poderá ter o cuidado de levar consigo uma sanduiche a mais, ou uma bebida, ou então comprometer-se com algo ainda mais substancial em termos de tempo e de trabalho, oferecendo-se para trabalhar numa sopa dos pobres ou uma iniciativa do género.

As paróquias suburbanas recolhem valores consideráveis das caixas de esmolas. Os párocos, em conjunto com os concelhos financeiros das paróquias, geralmente fazem chegar esses fundos a organizações que servem os necessitados. Ocasionalmente um paroquiano poderá também precisar de ajuda, por causa de uma crise. É bom que as paróquias encontrem formas de permitir que os paroquianos os possam abordar com esses problemas sem sentirem demasiada vergonha.

E, já agora, os párocos nunca devem aceitar agradecimentos pessoais por distribuírem dinheiro da caixa de esmolas. São chamados a ser bons gestores dos recursos paroquiais, como é evidente, mas a verdadeira generosidade é dos paroquianos que fazem os donativos.

De igual modo uma sociedade recta – o que normalmente significa as comunidades locais (por uma questão de subsidiariedade) – devem fornecer os cuidados mais básicos de quem está a passar um mau bocado. Mas deve ser claro – e hoje em dia não costuma ser – que cobrar impostos para ajudar os pobres não corresponde ao conceito de “caridade” que encontramos na Bíblia.

Essas cobranças são, na realidade, uma forma de justiça retributiva (e a virtude da solidariedade) mediada através do processo político. Ao longo dos tempos aprendemos que nem todos esses programas funcionam, e que chegam mesmo a prejudicar as pessoas que pretendem ajudar. Mas uma assistência social bem monitorizada e dirigida às pessoas certas, também tem o seu lugar.

Algumas organizações podem ser classificadas como Instituições Particulares de Solidariedade Social de acordo com as leis do Estado, ao mesmo tempo que contrariam as leis de Deus. A Planned Parenthood, por exemplo, recebe 500 milhões de dólares por ano de dinheiro público, bem como donativos privados, dedutíveis em IRS, para financiar 330 mil abortos por ano (e para colher e vender órgãos fetais à socapa). Esta suposta caridade não passa, na verdade, de uma monstruosa máquina de matança.

Algumas organizações têm mais jeito para angariar dinheiro do que para usá-lo em obras verdadeiramente caritativas. O Bom Samaritano de hoje que queira doar dinheiro a organizações de caridade deve dar ouvidos ao aviso de Eric Hoffer de que “todas as grandes causas começam por ser movimentos, depois transformam-se em negócios e eventualmente degeneram em fraudes”.

Parte do trabalho do Bom Samaritano moderno passa por exercer vigilância adequada, sem a qual as caridades podem encher-se de funcionários e tornar-se um buraco financeiro dependente de constantes peditórios, cada vez mais agressivos.

Por outro lado, como qualquer IPSS sabe, também existem pessoas que pensam que o trabalho caritativo deve operar praticamente sem custos administrativos, o que não é realístico. Até as Missionárias da Caridade recebem – merecidamente – comida e estadia em troca do exercício do seu santo apostolado.

Quando fazemos um donativo devemos examinar as nossas consciências. Foi-nos dito pela mais alta autoridade que o bom impulso de caridade pode ser estragado pelo desejo de admiração. “Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita; Para que a tua esmola seja dada em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, ele mesmo te recompensará publicamente.”

No fim de contas temos de reconhecer que todos os programas governamentais do mundo, bem como todas as IPSS, são incapazes de aliviar o sofrimento humano em grande escala. Uma das consequências do pecado original é que os pobres, seja no sentido material ou espiritual, sempre os teremos connosco. Os leigos devem trabalhar para criar sistemas socioeconómicos justos e eficientes. Mas a assistência aos pobres, num generoso espírito cristão, é a levedura necessária para complementar e ultrapassar os mecanismos das ordens meramente económicas.


O padre Jerry J. Pokorsky é sacerdote na diocese de Arlington e pároco da Igreja de Saint Michael the Archangel em Annandale, Virgínia.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 17 de Julho de 2019 em The Catholic Thing)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Monday, 1 July 2019

Os novos negreiros e os bloquistas de direita

Lembram-se da polémica por causa da Isabel Jonet? A mulher que, sozinha, já deve ter feito mais para aliviar a fome e a pobreza neste país do que todos os ministros dos últimos Governos, foi arrasada há uns anos depois de ter criticado algumas atitudes esbanjadoras dos portugueses.

Nessa altura a esquerda ao estilo “bloquista” deixou cair a máscara e trucidou-a. É que para eles a Isabel Jonet e todas as “isabéis jonets” deste país, fazem apenas “caridadezinha”. Ao alimentar os pobres não estão a fazer mais do que aplicar um adesivo a uma hemorragia causada pelo sistema capitalista, esse sim o verdadeiro culpado dos males sociais. Pior, ao disfarçar esses males, perpetuam o problema.

Pois agora temos uma nova versão da mesma estratégia, mas em vez da Isabel Jonet o problema é o Miguel Duarte e todos os que, como ele, ajudam a resgatar sírios, afegãos, e africanos de diferentes nacionalidades, de botes à deriva no Mediterrâneo.

E agora é malta de direita – de uma certa direita – que aponta o dedo. Não é que o Miguel Duarte e seus colegas são, aos olhos destas pessoas “negreiros”? Sim, leram bem. Para muitos críticos um homem que deixa o conforto da sua casa e do seu trabalho e vai viver para alto mar durante semanas a fio, retirando da água pessoas que talvez não, mas muito possivelmente sim, iriam morrer, entregando-os depois num porto seguro é equiparado a traficante de escravos.

Dizem os críticos que o Miguel Duarte e companhia são parte do problema, que não são a solução para a crise dos migrantes. Duvido que alguém tenha dúvidas disso. Duvido que o Miguel pense que ao tirar homens, mulheres e crianças do Mediterrâneo está a contribuir para melhorar o regime da Eritreia ou pôr fim à guerra na Síria. Mas há ali homens, mulheres e crianças a ser salvas e o seu afogamento também não trava guerras nem depõe ditadores.

Apliquemos, então, a lógicas dos “negreiros” a outras áreas. Afinal de contas, os amigos da Sea-Watch não são os únicos a fazer “a caridadezinha”.

Já ouviram falar daquelas freiras que saem de noite para ajudar prostitutas? Convidam-nas a entrar numa carrinha para beber um chá quente, comer uma bucha. Dão-lhes um cartão e convidam-nas a pensar em mudar de vida. Conhecem? Pois bem. Segundo esta lógica são chulas. Com aqueles gestos de amizade, a melhorar um bocado a vida daquelas mulheres, que mais estão a fazer se não a perpetuar a exploração sexual? Anátema!

As várias instituições que existem por todo o país, fundadas por ativistas pró-vida depois do primeiro referendo ao aborto em 1998? Que ideia é aquela de dar roupa, estadia e comida quente a miúdas que engravidam aos 16 anos? Assim não estão a resolver o problema da gravidez adolescente! Estão, pelo contrário a incentivar a sexualidade desregrada… Assim reza a lógica dos “bloquistas de direita”.

A Comunidade Vida e Paz? Alimenta redes de pobreza e de exclusão. Madre Teresa de Calcutá? Ui! O Christopher Hitchens é que tinha razão

Mas sobre estes, curiosamente, os bloquistas de direita não falam. Se calhar, afinal, o problema está em quem está a ser alvo da caridadezinha, e não de quem a pratica. O problema com os “novos negreiros”, aparentemente, não está nos “eiros”.

Deixem-me dizê-lo claramente, agora sem ironias. Nojo. Não há outras palavras para isto. É um nojo e deviam ter vergonha.

Wednesday, 17 January 2018

Modéstia e Caridade

Anthony Esolen
Há alguns anos, a editora do jornal da escola católica de Saint Eustaby escreveu que devia poder “descer a rua sem mais do que um par de chanatas e um sorriso” sem ter de se preocupar em ser assediada.

E tinha razão, de um ponto de vista óbvio e trivial. Assediar pessoas é contra a lei. Se um miúdo bêbado fosse a correr para a apalpar, alguém devia impedi-lo. Se esse alguém fosse um polícia, devia levá-lo directamente para a esquadra. Claro que ela também deveria ser detida por atentado ao pudor.

Mas o que me põe a pensar é a atitude por detrás da posição daquela rapariga. Faz-me lembrar um incidente que se passou comigo num verão em que estava a trabalhar como voluntário numa casa para operários católicos, em Washington. Estava a pintar um dos corredores quando tocaram à campainha. Como em qualquer outro verão naquele antro de calor, nevoeiro e corrupção, estava um autêntico forno, e por isso eu estava em tronco nu quando fui abrir a porta.

Era uma senhora hispânica, com cerca de 50 anos, que tinha umas perguntas a fazer, por isso fui buscar o meu chefe, John. Ele veio à porta e eles ficaram a conversar enquanto eu observava. Ela queria apenas umas informações, não era nada de privado.

Às tantas interrompeu uma frase e disse “com licença”, enquanto olhava na minha direcção. Eu pedi desculpa e voltei à pintura. Mais tarde o John explicou-me: “Ela é uma senhora tradicional, e tu estavas sem camisa”. Eu compreendi. Não pensei que ela fosse mal-educada nem puritana.

Não duvido que se estivéssemos todos no campo a cavar batatas ela não teria pensado duas vezes sobre o facto de haver homens em tronco nu. Também não teria esperado que eu usasse uma camisa na praia. O contexto é muito importante.

Ela não pensava mal do facto de eu estar a pintar o corredor em tronco nu. Também não a incomodava o facto de eu ter ficado a ver enquanto ela conversava com o meu patrão, para o caso de poder fazer alguma sugestão. O que lhe parecia mal era que eu não tivesse posto a camisa novamente enquanto não estava a pintar.

Tinha razão, e eu nunca mais me esqueci da lição. Somos seres sociais, e a forma como nos vestimos ajuda a comunicar-nos aos outros, ou a mentir, gritar ou frustrar os outros, evitando que se comuniquem a nós.

Em parte a linguagem do amor é convencional, como todas as linguagens, e em parte não é convencional, mas baseada na natureza do corpo e nas condições materiais do mundo que nos rodeia. Se eu estiver em Paris e proferir aquela lendária frase dos manuais de introdução ao francês, “La plume de ma tante est sur la table”, alguém responderá, “Mai bien sur” e o dia continuará em paz e solarengo. Mas essa mesma alocução não significa absolutamente nada em Peoria.

Mas se eu estiver em Paris e passar por uma criança a brincar no passeio, e se olhar para ele e sorrir na sua direcção e na da sua mãe, então estou a comunicar a mesma alegria e aprovação do que se estivesse em Peoria, ou Poona ou Papeete. É um gesto universal.

"Um par de chanatas e um sorriso"
Aquilo que consideramos roupa imodesta varia de acordo com os povos e dependerá do clima ou da actividade, mas todas as sociedades traçam limites nalgum ponto. Mas uma vez que nos nossos dias não se pode falar de modéstia sexual sem que os puritanos do vício desmaiem, temendo que os “teocratas” os levem para algum castelo longínquo, para os aterrorizar com presentes de poesia e cortesia, mudemos de arena moral.

Pensemos antes em gritar ou lutar. Estes são actos de agressão não apenas contra os oponentes, mas contra quem estiver por perto. Novamente estão em causa contextos e convenções sociais, mas não só. Normalmente, gritar num jogo de futebol não tem problema, excepção feita para palavrões ou ameaças contra outro jogador, treinador ou árbitro.

Mas gritar num jogo de ténis, antes do serviço, não está bem e levará à sua expulsão. Gritar numa grande festa ao ar livre é aceitável, mas gritar dentro de portas? Agressivo, mal-educado, pouco caridoso.

Rapazes podem lutar no recreio da escola, desde que respeitem as regras. Mas lutar dentro de portas não é aceitável. Os rapazes devem controlar a sua agressividade, mesmo a sua agressividade boa, na companhia de raparigas. Isso inclui linguagem ordinária. Não o fazer equivale a dizer, “aqui quem manda sou eu, fazes o que eu quero, e que te lixes”.

Acontece o mesmo com a roupa imodesta. Uma mulher que se veste para revelar as suas curvas de forma provocatória, ou está a dizer “não quero que olhes para a minha cara, mas para coisas mais importantes, mais abaixo”, ou então “vai-te lixar”.

Deixem-me ser claro. Se eu vir uma mulher cujo vestido parece um embrulho de plástico, para ser usado uma vez e descartado, surgem-me logo pensamentos sexuais, que é precisamente o que ela quer, a não ser que seja uma tola. Então eu controlo-me e desvio os olhos, porque não quero ter esses pensamentos.

E não basta dizer para não pensar dessa forma. Todas as forças humanas contêm também uma fraqueza. A sensibilidade das mulheres para com os sentimentos – sem a qual a raça humana não teria sobrevivido – revela-se também na tentação de escolher a palavra certa para magoar ao máximo os sentimentos. A inclinação de um homem para com a agressividade – sem a qual a raça humana jamais teria sobrevivido – revela-se também na tentação para a violência.

Temos de viver uns com os outros como somos. A caridade, a paciência, um reconhecimento honesto da nossa susceptibilidade para o pecado e compreensão pela susceptibilidade de outros – em particular os membros do sexo oposto, cujas emoções são frequentemente diferentes das nossas – deve orientar sempre as nossas escolhas no que diz respeito ao vestuário, à linguagem e ao comportamento físico.

Não coloquemos obstáculos no caminho do nosso próximo.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child. 

(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 15 de Janeiro de 2018 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Sunday, 22 December 2013

A Alegria do Evangelho - Para Mim

Por fim, nesta série de textos, abordo as passagens que me tocaram mais directa e profundamente, por diversas razões.

Quando se procura ouvir o Senhor, é normal ter tentações. (#155)
A Igreja não fala o suficiente disto e penso que faz mal.

Uma das grandes surpresas deste pontificado tem sido a insistência de Francisco em falar de Satanás. Pois se ele existe, não pára quieto e as pessoas que mais gosta de desviar são aquelas que estão a voltar a face para Deus, a iniciar uma caminhada de regresso a casa. Imagino apenas as vezes que ele deve ter sussurrado ao ouvido do filho pródigo que o exercício de regressar à casa do pai era em vão! Os obstáculos que não deve ter lançado no caminho!

Os cristãos têm o direito de saber que é precisamente quando começam a tentar melhorar a sua vida, a viver mais próximos de Deus, que o demónio ataca com mais força, que o caminho de repente parece mais íngreme, que as tentações sobejam e tudo parece mais difícil.

Se assim fossem avisados e se percebessem que diante dessas tentações não devem desesperar mas antes gloriarem-se de serem merecedores de tal atenção do inimigo de Deus, então talvez encontrassem forças para combater com mais ferocidade. Talvez percebessem que quando sucumbem a algumas dessas tentações – e sem dúvida a algumas irão sucumbir – não devem desesperar, mas sim levantar-se e combater de novo.

Triste a vida do homem que não é tentado. É sinal que nem o demónio se digna a lutar pela sua miserável alma.

Ninguém deveria dizer que se mantém longe dos pobres, porque as suas opções de vida implicam prestar mais atenção a outras incumbências. Esta é uma desculpa frequente nos ambientes académicos, empresariais ou profissionais, e até mesmo eclesiais. (#201)
De toda a exortação apostólica, esta foi a passagem que mais me custou a ler. E ainda custa. Porque nela me revejo inteiramente e sinto vergonha e sinto que tenho de fazer algo para mudar. Obrigado Francisco.

Às vezes sentimos a tentação de ser cristãos, mantendo uma prudente distância das chagas do Senhor. Mas Jesus quer que toquemos a miséria humana, que toquemos a carne sofredora dos outros. Espera que renunciemos a procurar aqueles abrigos pessoais ou comunitários que permitem manter-nos à distância do nó do drama humano, a fim de aceitarmos verdadeiramente entrar em contacto com a vida concreta dos outros e conhecermos a força da ternura. Quando o fazemos, a vida complica-se sempre maravilhosamente e vivemos a intensa experiência de ser povo, a experiência de pertencer a um povo. (#270)
Não sei se é da tradução, mas eu adoro a palavra “maravilhosamente” aqui. “Complica-se maravilhosamente”, não há melhor expressão para a experiência cristã.

Estávamos nós tão bem nas nossas vidinhas quando veio este tal Jesus Cristo e olhou-nos, e tocou-nos, e falou-nos... e as nossas vidas nunca mais foram as mesmas. Complicaram-se. Sim. Mas complicaram-se maravilhosamente!

Nunca nos podemos esquecer que o nosso Deus é um Deus flagelado, que gritou e sangrou e caiu e enlameou-se e foi furado com uma lança. O nosso é um Deus que não se coibiu de sofrer a maior das indignidades. Quem somos nós para virar as costas ou ter nojo das chagas dos nossos irmãos? Quem somos nós para tapar o nariz quando o sem-abrigo entra na nossa carruagem do metro? Quem somos nós, que nos alegramos por termos sido salvos por um homem que tentaram apedrejar, para atirar pedras aos incompreendidos ou aos verdadeiramente maus dos nossos dias?

Não podemos. Não podemos, graças a Deus. É verdade que ter de olhar nos olhos ao mendigo, mesmo que seja para lhe dizer que hoje não há nada para dar, pode ser complicado. Mas é uma maravilhosa complicação. Graças a Deus.

Friday, 1 February 2013

O meu jihad é mostrar Jose Gomez ao mundo! E o teu?

Jose Gomez mostra como se lida com o flagelo dos abusos

Temos muitas notícias importantes hoje, para meditarem ao longo do fim-de-semana.

Começamos pelo Papa, que hoje publicou o seu texto para a Quaresma. Bento XVI fala sobre a relação entre caridade e fé, com implicações no terreno para organizações que trabalham no campo da solidariedade social. Escrevi um texto para ajudar a compreender isto que, para mim, será uma das grandes discussões na Igreja nos próximos anos.


Duas notícias importantes dos Estados Unidos, de âmbitos muito diferentes. Obama voltou a ceder na questão dos contraceptivos e das instituições católicas, ao abrigo do ObamaCare. Resta ver se os bispos vão aceitar a nova proposta. Contexto aqui e aqui.

De Los Angeles, uma notícia que é uma autêntica bomba. O arcebispo Jose Gomez, que ocupa o cargo desde 2011, suspendeu o seu antecessor, o Cardeal Mahony, de quaisquer deveres públicos e administrativos. Tem tudo a ver com o escândalo dos abusos…

Mudando de ares. Uma interessante campanha muçulmana nos EUA quer mudar a conotação negativa da palavra Jihad. No Paquistão preferem a conotação mais violenta e ontem atacaram uma mesquita xiita.

O Cónego João Seabra esteve em estúdio na Quarta-feira à noite para dizer que a defesa da família não é uma causa confessional, mas de defesa da civilização.

Vera Charitate*


Hoje o Papa publicou a sua mensagem de Quaresma para 2013. Nela ele fala da problemática da caridade e da fidelidade à missão da Igreja, ou seja a evangelização.

Não é a primeira vez que Bento XVI fala deste assunto. Em Dezembro publicou um “motu proprio” em que se exigia às organizações sociais católicas uma maior adesão à doutrina da Igreja.

Este é um problema grave e que, no meu entender, será uma das grandes questões que a Igreja terá de enfrentar nos próximos anos.

Pode parecer que estou a exagerar, mas é um problema que se põe recorrentemente. Por um lado a Igreja é chamada a ajudar os mais pobres, os mais fracos, os famintos, os sem-abrigo etc. Mas o Papa lembra que essa ajuda, do ponto de vista católico, deve-se distinguir por ser também um trabalho evangélico. Ou seja, é importante dar de beber a quem tem sede, mas mais importante é dar a conhecer a existência daquela água viva que mata a sede de eternidade.

Frequentemente, porém, assistimos a um divórcio entre os dois aspectos. Vemos pessoas a fazer um trabalho meritório na área social, mas que se envolvem de tal forma no aspecto social das questões que perdem o norte no que diz respeito à fé. Escrevi sobre isto o ano passado quando escrevi sobreas freiras e assistentes sociais que ajudam prostitutas na zona do Intendente.

O problema também se pode pôr ao contrário e não é raro ver pessoas a criticar o trabalho de outras, escudando-se numa fidelidade absoluta ao magistério, mas que não traduzem essa fé toda em caridade de qualquer género. O Papa chama a isso uma “árvore sem frutos”.

Para colocar a questão em perspectiva, e para ter noção do dilema que apresenta, vejamos o seguinte caso prático.

Imaginemos um país onde a adopção por “casais” homossexuais é legal e onde é proibido discriminar com base na orientação sexual. O que faz uma agência de adopção católica se o Estado a quer obrigar a contemplar os ditos casais para colocação de crianças? Vejamos que o Estado tem aqui poder de influência precisamente porque estas instituições funcionam sempre com algum financiamento público.

Deve fechar portas em vez de comprometer a sua identidade católica, ou deve continuar a trabalhar, com base na ideia de que o serviço que presta a todas as outras crianças pesa mais que o mal que deriva de ter de colocar algumas com homossexuais?

O mesmo se pode aplicar a hospitais e a escolas, então, que dizer? Uma escola católica deve ensinar aos seus alunos que o “casamento” entre homossexuais é legítimo, só porque recebe financiamento do Estado?

As indicações que têm vindo do Vaticano nos últimos tempos são muito claras. As instituições jamais devem sacrificar a sua identidade. O argumento é bastante simples, Jesus não disse “Ide por toda a Terra e abri escolas e orfanatos”, mas sim “Ide por toda a Terra e fazei discípulos entre todas as nações”. As escolas e os orfanatos são importantes, mas é preciso que esse trabalho caritativo decorra do sentido de missão, e não seja falsamente separado dela, sob pena de se tornar mero “activismo moralista”.

Já agora, e para terminar, o exemplo dos orfanatos não é rebuscado. No Reino Unido já não existe um único orfanato católico, por exactamente essa razão. Não se pense que o problema não chegará a Portugal nos próximos tempos.

Filipe d’Avillez


*Verdadeira Caridade. É o que dá trabalhar na área de religião durante alguns anos, ficamos com estes tiques e começamos a dar títulos em latim aos nossos textos…

Partilhar