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| Anthony Esolen |
Há alguns anos, a editora do jornal da escola católica de
Saint Eustaby escreveu que devia poder “descer a rua sem mais do que um par de
chanatas e um sorriso” sem ter de se preocupar em ser assediada.
E tinha razão, de um ponto de vista óbvio e trivial.
Assediar pessoas é contra a lei. Se um miúdo bêbado fosse a correr para a
apalpar, alguém devia impedi-lo. Se esse alguém fosse um polícia, devia levá-lo
directamente para a esquadra. Claro que ela também deveria ser detida por
atentado ao pudor.
Mas o que me põe a pensar é a atitude por detrás da
posição daquela rapariga. Faz-me lembrar um incidente que se passou comigo num
verão em que estava a trabalhar como voluntário numa casa para operários
católicos, em Washington. Estava a pintar um dos corredores quando tocaram à
campainha. Como em qualquer outro verão naquele antro de calor, nevoeiro e
corrupção, estava um autêntico forno, e por isso eu estava em tronco nu quando
fui abrir a porta.
Era uma senhora hispânica, com cerca de 50 anos, que
tinha umas perguntas a fazer, por isso fui buscar o meu chefe, John. Ele veio à
porta e eles ficaram a conversar enquanto eu observava. Ela queria apenas umas
informações, não era nada de privado.
Às tantas interrompeu uma frase e disse “com licença”,
enquanto olhava na minha direcção. Eu pedi desculpa e voltei à pintura. Mais
tarde o John explicou-me: “Ela é uma senhora tradicional, e tu estavas sem
camisa”. Eu compreendi. Não pensei que ela fosse mal-educada nem puritana.
Não duvido que se estivéssemos todos no campo a cavar
batatas ela não teria pensado duas vezes sobre o facto de haver homens em
tronco nu. Também não teria esperado que eu usasse uma camisa na praia. O
contexto é muito importante.
Ela não pensava mal do facto de eu estar a pintar o
corredor em tronco nu. Também não a incomodava o facto de eu ter ficado a ver
enquanto ela conversava com o meu patrão, para o caso de poder fazer alguma
sugestão. O que lhe parecia mal era que eu não tivesse posto a camisa novamente
enquanto não estava a pintar.
Tinha razão, e eu nunca mais me esqueci da lição. Somos
seres sociais, e a forma como nos vestimos ajuda a comunicar-nos aos outros, ou
a mentir, gritar ou frustrar os outros, evitando que se comuniquem a nós.
Em parte a linguagem do amor é convencional, como todas
as linguagens, e em parte não é convencional, mas baseada na natureza do corpo
e nas condições materiais do mundo que nos rodeia. Se eu estiver em Paris e
proferir aquela lendária frase dos manuais de introdução ao francês, “La plume
de ma tante est sur la table”, alguém responderá, “Mai bien sur” e o dia
continuará em paz e solarengo. Mas essa mesma alocução não significa absolutamente
nada em Peoria.
Mas se eu estiver em Paris e passar por uma criança a
brincar no passeio, e se olhar para ele e sorrir na sua direcção e na da sua
mãe, então estou a comunicar a mesma alegria e aprovação do que se estivesse em
Peoria, ou Poona ou Papeete. É um gesto universal.
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| "Um par de chanatas e um sorriso" |
Aquilo que consideramos roupa imodesta varia de acordo
com os povos e dependerá do clima ou da actividade, mas todas as sociedades
traçam limites nalgum ponto. Mas uma vez que nos nossos dias não se pode falar
de modéstia sexual sem que os puritanos do vício desmaiem, temendo que os
“teocratas” os levem para algum castelo longínquo, para os aterrorizar com
presentes de poesia e cortesia, mudemos de arena moral.
Pensemos antes em gritar ou lutar. Estes são actos de
agressão não apenas contra os oponentes, mas contra quem estiver por perto.
Novamente estão em causa contextos e convenções sociais, mas não só.
Normalmente, gritar num jogo de futebol não tem problema, excepção feita para
palavrões ou ameaças contra outro jogador, treinador ou árbitro.
Mas gritar num jogo de ténis, antes do serviço, não está
bem e levará à sua expulsão. Gritar numa grande festa ao ar livre é aceitável,
mas gritar dentro de portas? Agressivo, mal-educado, pouco caridoso.
Rapazes podem lutar no recreio da escola, desde que
respeitem as regras. Mas lutar dentro de portas não é aceitável. Os rapazes
devem controlar a sua agressividade, mesmo a sua agressividade boa, na
companhia de raparigas. Isso inclui linguagem ordinária. Não o fazer equivale a
dizer, “aqui quem manda sou eu, fazes o que eu quero, e que te lixes”.
Acontece o mesmo com a roupa imodesta. Uma mulher que se
veste para revelar as suas curvas de forma provocatória, ou está a dizer “não
quero que olhes para a minha cara, mas para coisas mais importantes, mais
abaixo”, ou então “vai-te lixar”.
Deixem-me ser claro. Se eu vir uma mulher cujo vestido
parece um embrulho de plástico, para ser usado uma vez e descartado, surgem-me
logo pensamentos sexuais, que é precisamente o que ela quer, a não ser que seja
uma tola. Então eu controlo-me e desvio os olhos, porque não quero ter esses
pensamentos.
E não basta dizer para não pensar dessa forma. Todas as
forças humanas contêm também uma fraqueza. A sensibilidade das mulheres para
com os sentimentos – sem a qual a raça humana não teria sobrevivido – revela-se
também na tentação de escolher a palavra certa para magoar ao máximo os
sentimentos. A inclinação de um homem para com a agressividade – sem a qual a
raça humana jamais teria sobrevivido – revela-se também na tentação para a
violência.
Temos de viver uns com os outros como somos. A caridade,
a paciência, um reconhecimento honesto da nossa susceptibilidade para o pecado
e compreensão pela susceptibilidade de outros – em particular os membros do
sexo oposto, cujas emoções são frequentemente diferentes das nossas – deve
orientar sempre as nossas escolhas no que diz respeito ao vestuário, à
linguagem e ao comportamento físico.
Não coloquemos obstáculos no caminho do nosso próximo.
Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no
Providence College. Os
seus mais recentes livros são: Reflections on the Christian Life:
How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to
Destroy the Imagination of Your Child.
(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 15 de Janeiro
de 2018 em The Catholic Thing)
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