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Wednesday, 14 December 2016

Deus, a Lei Moral e Perder o Juízo

Francis J. Beckwith
Este ano lectivo estou integrado no corpo docente da Universidade de Colorado, em Boulder, como professor convidado para 2016-2017 na cadeira de Pensamento e Política Conservadora. Uma das aulas que lecciono, “Filosofia e Religião”, aborda uma série de questões sobre a avaliação filosófica da crença religiosa, que normalmente são alvo de debate, incluindo sobre se a moralidade requer um Deus.

A leitura obrigatória para esta secção do curso inclui não só um capítulo do manual, mas também dois ensaios, um de C.S. Lewis (um excerto de “Mero Cristianismo”) e outro do filósofo Michael Ruse e do biólogo E. O. Wilson. Chama-se “A Evolução da Ética” e é um ensaio já bastante conhecido e usado frequentemente, que apareceu pela primeira vez na revista New Scientist, em 1985.

Ruse e Wilson defendem que o nosso sentido de moralidade, ou aquilo a que Lewis chama “a lei da natureza humana” pode ser inteiramente justificado pela evolução biológica e, por isso, é desnecessário afirmar que este está enraizado em Deus. Eles argumentam que a natureza nos equipou de certas disposições (ou “regras epigenéticas”) que nos predispõem a favorecer algumas acções em relação a outras, para poderemos passar mais eficientemente os nossos genes.

Assim, por exemplo, estamos predispostos a temer leões, a não gostar de incesto e a sermos altruístas. Dito de outra forma, ser a refeição de um animal, contribuir para a limitação do património genético ou não ajudar aqueles que nos são mais próximos, diminui a utilidade da busca dos nossos genes pela vida eterna.

Para Ruse e Wilson existe uma espécie de paradoxo nesta realidade: Para que o nosso “gene egoísta” possa chegar onde quer chegar deve residir dentro de um organismo que tenha desenvolvido disposições que o inclinam no sentido de fazer certas coisas e de não fazer outras – como por exemplo agir de forma altruísta ou resistir ao encanto de um safari – que à primeira vista não parecem ter nada de egoístas. Isto é, as nossas normas sociais derivam de um sentido partilhado de moralidade, que é ágil na sua habilidade de traçar um rumo entre os interesses comunitários e individuais, que todavia tem na sua raiz mecanismos puramente materiais e biológicos, ferozmente eficientes, e que são essencialmente “egoístas”.

Mas então porque é que parece, como argumenta C.S. Lewis, que de facto existe uma lei moral a que temos a obrigação de obedecer e que não foi por nós inventada? E uma vez que a ideia de uma lei moral implica a noção de um legislador, não devemos concluir que mesmo que a versão evolutiva nos conte a história biológica completa, há coisas que ficam por explicar?

Edward Wilson
Afinal de contas, mesmo que seja possível fazer um relato completo do cérebro humano do ponto de vista da evolução, porque é que devemos concluir que esse relato pode explicar tudo aquilo que o intelecto pensa que sabe e que não se pode reduzir meramente a matéria em movimento? Como por exemplo que isto não é um cérebro, ou que a beleza, os objectos abstractos e uma primeira causa para toda a existência são coisas que de facto existem?

Acreditamos verdadeiramente que ao explicar a torradeira também explicámos as torradas? (Claro que algumas pessoas, tais como Wilson e Ruse, negam a existência de coisas imateriais. Mas o que estou a tentar dizer é que não há nada na teoria evolutiva, per se, que sustente essa negação).

Para Ruse e Wilson existe uma resposta: “A moralidade, ou mais rigorosamente, a nossa crença na moralidade, é meramente uma adaptação criada para facilitar os nossos fins reprodutivos. Logo, a base da ética não assenta na vontade de Deus… Num sentido importante, a ética como nós a compreendemos é uma ilusão que nos é imposta pelos nossos genes para nos levar a colaborar. Não está enraizada em nada exterior a nós. A ética é produzida pela evolução, mas não justificada por ela, porque, tal como a adaga de Macbeth, serve um propósito importante sem todavia existir em substância”.

Logo, para Ruse e Wilson, a crença comum de que existe uma lei moral é o resultado de uma partida que nos é pregada pelos nossos genes, pois o acreditar na existência de uma lei moral, mesmo que ela não exista de facto, contribui da melhor forma para o sucesso reprodutivo da raça humana. 

Que conclusões devemos tirar de tudo isto? Em primeiro lugar devemos elogiar Ruse e Wilson pela simplicidade e limpeza do seu argumento, que não está desprovido de elegância. Se partirmos, como eles fazem, da crença de que o materialismo filosófico é a visão correcta da realidade, então a sua posição tem muita força.

Mas isso também se aplica a outros projectos filosóficos que dependem daquilo a que chamamos “uma grande ideia”. Marx consegue explicar tudo através do prisma da luta de classes. Para Heraclitus não existem substâncias estáveis e para Parmenides nada muda. Nos nossos dias, certos movimentos sociais classificam tudo o que se distancia da sua mundovisão como ódio. Mas em todos estes casos, aquela grande ideia que explica tanta coisa, fá-lo à custa da desvalorização de tudo o que mina a sua plausibilidade.

Michael Ruse
Qual o preço da teoria de Ruse e Wilson? Devo confessar que não sou capaz de o pagar, pois implica desistir de tudo aquilo em que acreditamos. Pense nisto: Se a crença na lei moral pode ser atribuída inteiramente a um truque genético, porque não aplicar a mesma análise a todas as outras crenças que existem na nossa mente? Afinal de contas, a mesma mente que crê na lei moral mantém crenças sobre arte, literatura, ciência, filosofia, matemática e a existência dos outros.

Talvez estas crenças também não digam respeito a nada que seja real. Se “a ética como nós a compreendemos é uma ilusão que nos é imposta pelos nossos genes para nos levar a colaborar”, então talvez a arte, a literatura, a ciência, a filosofia, a matemática e a existência de outras pessoas, como as entendemos, sejam ilusões impostas pelos nossos genes com o mesmo objectivo.

Só posso falar por mim, mas abandonar a crença de que existe uma verdadeira lei moral não compensa o custo de perder o juízo.


(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2016 em The Catholic Thing)

Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É autor de Politics for Christians: Statecraft as Soulcraft, e (juntamente com Robert P. George e Susan McWilliams), A Second Look at First Things: A Case for Conservative Politics.

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 29 October 2014

A Evolução e a Fé são Irreconciliáveis?

Por David G. Bonagura Jr.
“A verdade não pode contradizer a verdade”. Assim ensinou o Papa Leão XIII e é por essa perspectiva que a Igreja Católica aborda a ciência e a revelação de Deus. Não existe uma única verdade científica que contradiga a palavra de Deus. Se as coisas do mundo natural foram criadas por um Deus omnipotente e reflectem a sua presença, então devem estar de acordo com aquilo que Deus revelou de si mesmo e do Universo, através da sagrada tradição e das sagradas Escrituras.

Às vezes as novas descobertas científicas parecem desafiar a nossa compreensão religiosa do mundo, como quando aprendemos que é o Sol e não a Terra que se encontra no centro do sistema solar. Mas este facto não só não afecta a centralidade do ser humano na criação de Deus (o dogma que supostamente era posto em causa na altura), como acrescenta uma nova perspectiva sobre outra verdade da revelação: que Cristo, representado na iconografia primitiva como o sol, é o verdadeiro centro e fonte de vida da criação e das nossas vidas.

Não há, por isso, qualquer razão para afirmar – como fez um biólogo recentemente no New York Times – que a ciência e a religião são irreconciliáveis. Nem nos devemos contentar em dizer que a ciência e a religião se resumem a “magistérios não coincidentes” que dizem respeito, respectivamente, a factos e a valores. Pelo contrário, os “factos” da ciência são a fundação racional sobre a qual assentam a revelação sobrenatural e os seus “valores”. Claro que a ciência e a fé têm objectos diferentes, que têm em consideração as suas diferenças inerentes mas, com o São João Paulo II, sabemos que não existe “razão para qualquer concorrência entre razão e fé: cada um contém o outro e cada um tem o seu campo de acção”.

Mais do que qualquer outra teoria científica contemporânea, a evolução constitui um feroz ataque à compreensão judaico-cristã da origem da humanidade. Desde os autocolantes nos carros que mostram um peixe, símbolo do Cristianismo, com pernas (às vezes com a legenda “Darwin”) ao recente artigo no Times que tenta explicar porque é que a fé e a teoria da evolução são incompatíveis, certo defensores da evolução têm afirmado publicamente que a sua versão da génese da humanidade é correcta e que o Genesis não passa de uma história parva.  

É fundamental para a Igreja enfrentar os desafios da teoria da evolução e das origens da humanidade, uma vez que ela ensina de forma infalível que os seres humanos são feitos à imagem e semelhança de Deus, que dotou cada um de uma alma imortal. (A Igreja nunca ensinou como é que isto se passou, uma vez que isso nunca nos foi revelado). Algumas teorias da evolução (existem muitas variações) contradizem esta verdade, afirmando que a existência da humanidade é um acidente material resultante de mutações genéticas e não de intervenção divina. Tais teorias devem ser consideradas incompletas, uma vez que excluem Deus do processo de criação.

Num famoso discurso, São João Paulo descreveu a teoria da evolução como “mais do que uma hipótese”, embora tenha usado o mesmo discurso para apontar os problemas com certas abordagens filosóficas da teoria. Mas deixemos de lado os méritos da teoria da evolução em si. O biólogo do Times dá aos seus leitores três razões pelas quais a teoria da evolução exige que se abandone a fé judaico-cristã na criação. Estas razões, que dizem mais respeito a conclusões humanas do que à ciência, podem ser desmontadas dentro do âmbito científico.

Pe. George Lemaitre, autor da
teoria do Big Bang
Em primeiro lugar, o autor argumenta que “um processo inteiramente natural e espontâneo, nomeadamente a variação aleatória e a selecção natural” explica a complexidade de organismos que aparentemente requerem um autor inteligente e sobrenatural. Mesmo que tomemos como boa essa afirmação, este “fenómeno inteiramente mecânico e estatisticamente poderoso”, apenas exclui a criação Deus ex machina defendida por certas leituras fundamentalistas e equivocadas da Bíblia. Este método não exclui a criação física por Deus através da causalidade secundária, o modus operandi normal de Deus no mundo. Quanto à suposta aleatoriedade, São João Paulo ensina-nos que aos olhos de Deus não há coincidências.

Em segundo lugar, o autor aponta para as ligações filogenéticas entre diferentes espécies. Mas este facto também não faz nada para excluir Deus do processo da criação. Na melhor das hipóteses a diferença extraordinária que existe entre os seres humanos e outros primatas com uma estrutura de ADN semelhante (alguma vez se viu um chimpanzé a debater as suas origens?) aponta para a existência de uma alma humana infundida nos humanos por Deus. Esta é a grande diferença entre homens e bestas. O autor tem razão num ponto, porém: “Nenhum traço literalmente sobrenatural foi alguma vez encontrado no Homo sapiens”. A biologia evolutiva, por si, não é capaz de medir a alma imaterial, que é produto de Deus e não da criação material.

Por fim, o problema do mal é colocado de uma perspectiva evolutiva: a predação, a doença e a morte mostram que os humanos “são produzidos por um processo natural e totalmente amoral, sem qualquer indicação da existência de um criador controlador e benevolente”. Mas o esforço levado a cabo pelos homens – em todos os tempos e em todas as culturas e religiões – para encontrar sentido no sofrimento e atribuir códigos morais à procriação, mostram que há muito a dizer sobre estes animais racionais do que meramente a sua natureza animal. Os biólogos têm tentado encontrar um “gene moral”, mas o sentido e a moralidade transcendem os limites daquilo que qualquer outro animal pode fazer. É estranho que uma espécie supostamente gerada pelo acaso, sem qualquer sentido, tenha esta vontade inata tão intensa de encontrar sentido em todas as coisas.

Pedimos desculpa ao nosso professor de biologia, mas os seus alunos e leitores não precisam de abandonar a sua fé judaico-cristã à luz da teoria da evolução. Pelo menos em termos das três críticas que ele propõe, não há nada na dimensão científica da evolução que exclua o papel de Deus na criação dos humanos e na infusão das suas almas. Pelo contrário, talvez o professor é que precisa de reavaliar a sua fé na evolução, interpretada a uma luz intencionalmente ateia. 


David G. Bonagura, Jr. é professor assistente de Teologia no Seminário da Imaculada Conceição, em Huntington, Nova Iorque.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 23 de Outubro de 2014 no The Catholic Thing)

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