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Wednesday, 12 August 2020

Aguardando o Relatório McCarrick

Stephen P. White
O Cardeal Dolan, de Nova Iorque, deu uma conferência online para o clero na terça-feira e disse que, segundo as suas fontes, o relatório McCarrick deverá sair ainda este mês. Disse ainda que não sabe o que o relatório contém. Esta última afirmação é credível, quanto à primeira, esperemos para ver.

Faz dois anos desde que o Vaticano anunciou que iria preparar um relatório sobre o caso de Theodore McCarrick. Sobre a divulgação do relatório, o cardeal Parolin disse que esta “depende do Papa. O trabalho que foi feito está feito, mas a palavra final cabe ao Papa… Acho que sairá em breve, mas não vos posso dizer precisamente quando”. Isto foi no início de Fevereiro.

Já passou o segundo aniversário da resignação de McCarrick do Colégio dos Cardeais. Desde então a Conferência Episcopal americana votou duas vezes contra a ideia de pedir publicamente ao Papa que publique o relatório completo de imediato.

Para quase todos – incluindo muitos bispos individuais, se não em conjunto – a publicação do relatório é um passo necessário e evidente para garantir a transparência. Idealmente essa transparência conduziria à responsabilização. Prestar contas aos fiéis pela confiança que lhes foi roubada deveria parecer uma mera questão de justiça.

Mais do que isso, a publicação do relatório McCarrick é um passo necessário rumo ao tipo de reconciliação de que a nossa Igreja, tão dividida e marcada, precisa tão urgentemente. Se os nossos pastores querem recuperar a confiança que foi desbaratada, então têm de estar dispostos a dizer quais as falhas que querem ver perdoadas. Os pedidos de perdão e reconciliação da hierarquia soam a falso enquanto esta continuar a esconder dos seus membros a verdadeira dimensão daquilo que os nossos líderes fizeram ou não fizeram.

Não é por acaso que os católicos são obrigados a confessar pecados graves em número e espécie antes de poderem receber a absolvição. E não que Deus seja forreta com o seu perdão, mas porque o penitente que não esteja disposto a revelar de forma sincera os seus pecados ao Senhor, um penitente que não esteja verdadeiramente contrito, não está pronto a ser perdoado.

Como é que prelados, sejam eles bispos, cardeais ou Papas, que não sejam capazes de revelar de forma sincera os males que foram cometidos – e o mal que foi feito aos fiéis – podem esperar perdão e reconciliação? Não é que os fiéis sejam forretas com a misericórdia, mas porque a recusa em ser honesto é um sinal claro de falta de contrição.

Até certo ponto é compreensível que Roma se preocupe que o relatório McCarrick seja tão disruptivo e prejudicial para a Igreja dos Estados Unidos que seja melhor esconder a verdade do mundo, ou pelo menos aguardar até que as consequências possam ser mais facilmente mitigadas. Nalguns casos de más notícias isto pode até ser sensato. Mas no caso McCarrick o silêncio da Igreja e a falta de transparência são preocupantemente semelhantes à cultura de encobrimento que nos trouxe até este ponto.

Quanto mais tempo se atrasar o relatório McCarrick, mais a ferida aberta entre o rebanho e os pastores irá deteriorar-se.

E acontece que esta desconfiança é prejudicial tanto para os fiéis como para a

Theodore McCarrick

 Igreja no seu todo. Prejudica também todos aqueles cujos nomes foram manchados pela proximidade a McCarrick – homens que, se estiverem inocentes de qualquer mal, merecem ser ilibados aos olhos do público.

Depois de o arcebispo Viganó ter publicado o seu “testemunho” bombástico há dois anos o cardeal DiNardo, então presidente da Conferência Episcopal, emitiu uma resposta 

ponderada e séria: “As questões levantadas merecem respostas conclusivas e baseadas nas provas. Sem essas respostas, homens inocentes podem ser manchados por falsas acusações e os culpados ficam livres para repetir os pecados do passado”.

A desconfiança e a divisão que se têm multiplicado na Igreja nos anos mais recentes (e claro que nem tudo tem a ver com McCarrick) pioraram nestes últimos tempos, sobretudo nos Estados Unidos. Penso que isto é claro para todos. A necessidade de reconciliação é urgente e evidente. A publicação do relatório McCarrick, só por si, não vai resolver as divisões da Igreja, mas o adiamento da sua divulgação é um obstáculo cada vez maior a essa cura.

Muitos católicos perguntam se o relatório, quando for finalmente publicado, será uma manobra de diversão ou um relato completo e honesto. A longa demora pode bem indicar que o relato vai ser honesto, mas o atraso é também um obstáculo à reconciliação porque nos recorda constantemente da cultura institucional de impunidade clerical que durante décadas marcou a forma como se lidou com os casos de abusos na Igreja.

Nem toda a transparência, honestidade e responsabilização do mundo podem sarar as feridas dentro da Igreja. O tipo de reconciliação de que a Igreja precisa requer o perdão daqueles que foram prejudicados. Para a maioria dos católicos, mesmo os que não são vítimas de abusos sexuais, esta é uma proposta exigente.

Estamos preparados para responder à honestidade – caso ela surja – com misericórdia? Estamos preparados para acolher as verdades duras com humildade em vez de espírito vingativo? Em vez de olhar para o outro lado ou desculpabilizar os pecados e os crimes?

Estamos preparados para acolher bem aquilo que tantos de nós exigimos há tanto tempo? Estamos preparados para a honestidade? Estamos preparados para confiar? Estamos preparados para perdoar? Estas são as questões que devemos estar a colocar-nos e cujas respostas devemos estar a preparar, enquanto esperamos.

 

Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 6 de Agosto de 2020)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Tuesday, 12 November 2013

Um ano de guerras sinodais

Aviso… Vai ser um ano disto! As diferentes facções da cúria romana e da Igreja a nível mundial, vão colocando as peças na mesa de jogo a tempo do sínodo para a Família em Outubro de 2014.

Hoje o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé censurou uma diocese alemã que, há um mês, tinha publicado um documento que permite que os casais divorciados e em segundas uniões acedam aos sacramentos.


Os bispos americanos têm um novo presidente. O Cardeal Dolan deixa assim essa sua função, que cumpriu de forma exemplar. Mas não o fez sem antes exercitar o seu característico sentido de humor…

Na Síria, ao que parece, o Exército Livre começou a lutar contra uma outra facção rebelde, de pendor islamita. Já não era sem tempo, dizem alguns cristãos da oposição…


Se bem se lembram, a semana passada publiquei uma reportagem sobre os 450 anos do Concílio de Trento. Hoje publico no blogue as transcrições integrais das entrevistas ao D. Nuno Brás e ao pastor baptista Tiago Cavaco.

Tuesday, 16 April 2013

Parabéns Bento XVI, obrigado políticos espanhóis!

Happy Birthday to you!
Os noticiários foram dominados pelo que se passou em Boston ontem à noite. O bispo local é, recorde-se, o Cardeal Seán O’Malley. O Cardeal, que se encontrava na Terra Santa, regressou imediatamente para os Estados Unidos e já manifestou a sua proximidade com as vítimas.

Mal começaram a circular as notícias começaram também as reacções. O Cardeal Dolan foi dos primeiros a falar.


Esta manhã, na missa que celebra em Santa Marta, o Papa criticou aqueles que querem regressar ao período pré-conciliar.

Essa missa foi celebrada por intenção de Bento XVI, que hoje faz 86 anos e festejou em Castel Gandolfo, na companhia do seu irmão.

Com tudo isto pode ter passado despercebido a muitos o facto de o Governo espanhol ter anunciado que quer mudar a lei do aborto, tornando-o muito mais restrito. Um elemento do PP espanhol diz que a lei “não vai agradar aos bispos”… permita-me discordar Sr. Alonso, acredito que vai agradar bastante mais que a actual!

Quem estiver pelo Porto, não deixem de participar na exposição itinerante “São Francisco de Assis – Património Vivo no Porto”. Quem não estiver, não deixem de ir visitar o novo site da iMissio com a qual tenho a honra de passar a colaborar.

Tuesday, 26 February 2013

Papa emérito, Patriarca à espera

Bento XVI diz adeus aos seus sapatos encarnados...
Aproxima-se o fim do pontificado de Bento XVI, estamos a cerca de 48 horas. Hoje ficámos a saber que depois das 20h de dia 28 ele passará a ser conhecido como Papa Emérito e deixará de usar os sapatos encarnados tão característicos…

Quanto ao Conclave, novidades, em princípio, só no dia 4 de Março. Os cardeais podem reunir logo a partir de Sexta mas, em princípio, só o farão na Segunda. Até lá, esperar.

Entre esses cardeais estará o Arcebispo de Nova Iorque, Timothy Dolan. É ele o Cardeal escolhido para analise mais cuidada no blogue, hoje. Dolan já partiu para Roma e deixou um pedido aos seus fiéis: “Se não voltar antes de Domingo de Ramos, mandem manteiga de amendoim, porque lá não há”. E agora fiquei com fome…

Caso não tenham reparado, hoje foi um dia muito importante para o episcopado português. D. José Policarpo e D. Januário Torgal Ferreira fazem anos, e são datas especiais! D. Januário, que foi ontem entrevistado na Renascença, faz 75 e acredita que o seu substituto só virá com a nomeação do novo Papa. Já o Patriarca chega hoje ao fim do prazo de dois anos de “extensão” que o Papa lhe concedeu para o seu episcopado e espera, a qualquer momento, a nomeação do seu sucessor. Não se preocupem que quando houver novidades serão dos primeiros a saber!

Monday, 25 February 2013

Timothy Dolan

Nascido: 6 de Fevereiro de 1950
Ordenado padre a 19 de Junho de 1976
e bispo a 15 de Agosto de 2001
O Arcebispo de Nova Iorque é uma das figuras mais carismáticas de todo o colégio cardinalício.

Num país a braços com um escândalo de abusos sexuais, Dolan tem a grande vantagem de não estar manchado por qualquer suspeita e de ter tido palavras e acções significativas no sentido de limpar a imagem da Igreja e de mudar práticas para melhor lidar com o assunto.

Contudo, no dia 21 de Fevereiro surgiu uma notícia na imprensa a dizer que o Cardeal tinha sido interrogado no dia 20 por advogados a propósito de suspeitas de abusos sexuais que se terão passado em Milwaukee na altura em que era bispo daquela diocese. Não existe, contudo, qualquer indício de responsabilidade ou de más práticas neste momento.

O Cardeal viveu algum tempo em Roma, como prefeito do Colégio Americano, e fala por isso italiano mas não com a fluência que muitos esperariam para um Papa. Tem, obviamente, a vantagem de dominar aquela que é actualmente a língua mais importante do mundo, mas o dia-a-dia do Vaticano ainda decorre muito em italiano e isso pode ser uma desvantagem.

Uma das maiores armas de Dolan é o seu sentido de humor. Tem um à vontade com a imprensa, por exemplo, que é ímpar entre os outros cardeais e consegue apresentar os ensinamentos católicos de uma forma simples, simpática e divertida, mas ao mesmo tempo firme, que desarma facilmente os seus críticos e adversários.

Apesar do seu sentido de humor e ár divertido, Dolan é também um líder formidável. Os seus pares americanos estão satisfeitíssimos com a sua liderança da conferência episcopal. Ao longo dos últimos anos conseguiu unir totalmente os bispos, sem excepção, num duro conflito com a administração de Barack Obama por causa da insistência deste em obrigar as empresas, incluindo as católicas, a fornecer contraceptivos aos seus funcionários através dos seguros de saúde, obrigatórios ao abrigo do novo sistema de saúde conhecido como Obama Care.

Apesar de essa batalha não estar ganha, Dolan tem-se tornado um herói para os católicos praticantes nos EUA pela forma como a tem travado. Contudo, para os restantes cardeais, isso pode também ser visto como uma razão para não o retirar dos Estados Unidos, numa altura em que faz lá falta e pode, enquanto arcebispo de Nova Iorque, tomar posições e fazer afirmações que enquanto Papa dificilmente poderia fazer.

Com apenas 63 anos, Dolan é ainda bastante novo, este vai ser o seu primeiro conclave, e por isso alguns cardeais que simpatizam com ele poderão também pensar que ainda é cedo para ele assumir uma responsabilidade tão grande. Outros há que simplesmente se sentem desconcertados com o seu estilo à vontade e que sentem que lhe falta a seriedade para assumir uma posição desta importância.

Questionado por um jornalista sobre se poderia votar nele próprio, o Cardeal respondeu calmamente que não, porque não deixam entrar malucos no Conclave.

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